Título: Dissertação - cap 1 - O fato: te amar
Autora: Umi no Kitsune ([email protected])
Disclaimer: YuYu Hakusho e suas personagens são propriedade de Yoshihiro Togashi.
Avisos: Yaoi. Se você gostou da fic e a quer em seu site, peça permissão.
Não havia mais volta. Não existiam
possibilidades. Decidira arriscar tudo, não podia dizer agora que nada havia
acontecido, porque há muito já havia acontecido! Estavam no seu quarto, ele
viera lhe dizer para que cuidasse de sua irmã, pois pretendia ficar no Makai,
de preferência, para sempre. Com uma declaração dessas, quem não se arriscaria?
Kurama deu a desculpa de que (por favor) ficasse, pois tinha um “problema” que
o afligia.
Hiei ficou, como amigo daquele único
que confiava. Mas já estava desconfiando. Kurama não parava de falar coisas sem
sentido, podia pensar que estava sendo enrolado com esse monte de besteiras,
mas o kitsune estava nervoso. Falava algumas vezes na palavra, desconhecida na
prática por ele, amor. Será que Kurama tinha se apaixonado por alguém? Ora, e
se tivesse? No que isso iria...incomodá-lo? Pensamento besta! Preste atenção no
que ele diz!
"...ficamos tão próximos. Acho
que tanto você quanto eu sabemos o significado de um simples olhar, gesto ou
palavra do outro.", Kurama estava de cabeça baixa, começava a se declarar,
"Não estou confuso, se é o que pensa. Mas...é só que...não estou completo.
Eu sozinho sou apenas metade de mim mesmo."
"Não...entendo o que quer
dizer.", Hiei estava observando-o sentado na cadeira no quarto de Kurama,
e não entendia nada mesmo.
"Você fala
complicado demais, como se quisesse que eu entendesse e ao mesmo tempo
não.", isso estava saindo do seu controle, "Me subestimou, raposa.
Entendi perfeitamente o que você disse.", Tenho que continuar firme. Por que estou com medo?
Tenho que ser frio, não dei a ele essa liberdade. "Sabe que essas bobagens não
me afetam. Eu não preciso disso... Não preciso de você."
Kurama se
contraiu, não pensava que fosse ter de enfrentar a frieza dele. Não existia
mais saída. Nem como youko suportaria...Youko! Existem...possibilidades?
"Não se
esqueça de que sou um youko, Hiei. Eu preciso ter pra mim...", Kurama se aproximou, como a raposa
que era, iria tentar pelo menos um beijo, um apenas. Aproximou-se de sua presa
com um brilho dourado disputando lugar com o verde profundo em seus olhos,
"...tê-lo meu."
Hiei não se mexia.
Nunca enfrentou uma situação como essa! Estava paralisado! Kurama nunca falou
com ele assim, desse jeito tão desconcertante. Achava que o kitsune o respeitava!
Iria sair dali...mas seu corpo não obedecia! Apenas o coração, pulsava cada vez
mais forte, dando a certeza de que ainda estava vivo. Era real! Sentia os dedos
de Kurama roçando sobre seu rosto, pescoço, passeando por suas costas. Hiei
tremeu. Estava com medo? Estava gostando. Um furacão de sentimentos e sensações
confusos varrendo todas as suas defesas quando sentiu a respiração quente de
Kurama em seus lábios. Chega!
"Não me
obrigue a matá-lo! Não me obrigue a fazer o que você quer!", Hiei o afastou
bruscamente, mas o que ele estava fazendo? Não podia ficar mais ali, estava
ficando perigoso, seu corpo... estava diferente.
"Hiei...não
vá!"
"Você ficou
louco? Tire suas mãos de mim, Kurama! O que pensa que fazia? Acha que vou
tolerar isso mais uma vez?", Ah, não me olhe assim! Não complique mais... "Não quero
ser o seu brinquedo! Você ultrapassou o limite comigo!", eu não sei como proceder, "Cuide de
minha irmã..."
"Espere!",
Hiei parou no parapeito da janela, "Quero que lembre...", mesmo que de
nada adiantasse queria terminar o que começou, "...que estarei sempre aqui."
Acabou. A amizade
que tanto prezava, que lhe era tão importante, acabada. Hiei foi embora pra
nunca mais voltar. Perdera seu mais sincero amigo, seu mais sincero amor. Por
que tinha que ser tão egoísta? Uma lágrima escapou de seus olhos molhando sua
mão. Sabia que iria chorar, mais cedo ou mais tarde. Ainda bem que não foi na
frente dele...
"Que semente
do Makai usou em mim?"
Não! Hiei ainda
estava aqui? Provavelmente viu que chorava... seu tom de voz era diferente, não
parecia estar mais bravo. Não queria parecer bravo. Não queria que chorasse.
Não chore mais..., "Não foi?
Uma semente? Ela está, não sei...mexendo comigo. O que fez comigo? Isso
dói..."
Hiei sumiu.
Deixando Kurama de boca aberta. Semente? Dor? Hiei estaria... Kurama secou uma
outra lágrima teimosa. Não podia ser. Toda essa emoção estava fazendo misturar
realidade com desejo, vontade. Queria que fosse verdade esse seu pensamento
tolo. Na verdade, não tinha certeza de mais nada! Não conseguia identificar
real de imaginação. Pela primeira vez, não tinha idéia do que ia acontecer. Só
esperava que não tivesse sido tudo em vão.
Mas... Hiei pediu
que cuidasse de sua irmã; ainda confiava nele.
Kurama sentiu um fio de esperança enlaçar seu coração.
Ainda estava muito
triste, não queria que terminasse assim. Hiei, apesar de não entender (ou não
admitir), também sentia alguma coisa. Um tímido sorriso crescendo em seus
lábios, uma alegria imensa querendo devorar todo seu interior...Sim! Estava
certo! Hiei não ignorara sua presença, seu amor. “Calma, Kurama, não se
precipite”. Não adianta...sua felicidade já estava atingindo níveis altíssimos!
Kurama se deixou cair na cama espalhando um manto vermelho ao redor do seu rosto,
que estampava um sorriso cada vez maior. Existem possibilidades!
***********
Céus! O que está acontecendo comigo?
Quando eu me tornei tão... tão humano? Aquela raposa! Culpa dela eu estar nesse
estado. Meu corpo, está tremendo. Meu coração, agitado. Minha respiração,
falha. Nem na minha pior batalha senti o que sinto agora. Ele não disse que me
ama, não precisou. Será que eu também... Saco! Não sei o que sinto. Não sei o
que me impede de descobrir o que sinto. Ele usou, eu sei que usou uma semente
em mim. Ele sozinho não me deixaria assim. Deixaria?
Hiei queria ficar
sozinho, queria voltar para Kurama, não queria vê-lo, não queria ficar
sozinho...balançou a cabeça como se pudesse assim por os pensamentos, as
vontades em ordem. Parou em cima de um galho. Tinha corrido tanto, tão rápido,
que nem se dera conta de onde estava. Seu corpo o traíra mais uma vez. Estava
no templo de Genkai, sim, tinha que admitir, precisava dela, sua irmã Yukina.
Como esse nome o acalmava...Hiei fechou os olhos e viu a imagem dela sorrindo.
Seus olhos cor rubi brilhando.
"Hiei?"
Ele abriu os
olhos. Ela estava parada embaixo da árvore, tinha uma expressão preocupada no
rosto. Tão linda a sua irmã. Não queria que ela se preocupasse com seus
problemas, mas a necessidade de falar com alguém era por demais grande e já
estava sufocando-o!
"Veio ver a
mestra Genkai?"
"Não."
"Algum
demônio está por perto?"
"Hn. Não. Eu
vim...vim para falar com você."
Yukina não se
esforçou nem um pouco para esconder seu sorriso. Hiei queria falar com ela! Seu
irmão decidiu-se, afinal! Esperou tanto tempo...Seus olhos ficaram mais úmidos,
mas ela segurou suas lágrimas. Não queria arriscar tudo agora. Ah, se pudesse
abraçá-lo, dizer-lhe quanto o ama e o quer muito. Yukina deu um passo para trás
para que Hiei chegasse ao chão. Ele é só um pouquinho mais alto que eu. Temos os mesmos
olhos... Será que ele também chora lágrimas de pérolas? Yukina nunca
tinha visto Hiei chorar. Também esperava que isso nunca acontecesse... O que?
Seu irmão...estava chorando? Sim, foi isso que percebeu! Uma jóia de lágrima,
negra e brilhante, cair no chão e rolar até seus pés. Yukina se agachou para
pegar a pérola, que tinha o mesmo tamanho das suas.
"Hiei... Hiei
o que..."
Quando levantou-se
ele não estava mais lá, já tinha sumido no meio das árvores. O que será que
aconteceu com seu irmão para que chorasse? Mas Yukina não era um demônio de
classe tão inferior que não pudesse sentir seu ki ainda próximo. Bem, seu irmão
estava passando por dificuldades, queria falar com ela, mas não sabia como.
Iria esperar o tempo que fosse, Hiei teria sua total compreensão.
"Tudo bem,
Hiei. Eu espero você se sentir mais seguro para falar comigo...", disse
baixinho, mas sabia que ele escutou.
Droga! Como isso foi acontecer? Hiei realmente
nunca tinha chorado, não só na frente de sua irmã, mas em sua vida toda. Não
imaginava que aquela quentura em seu rosto fosse uma lágrima. Só se deu conta
disso quando viu um brilho negro no chão. E já era tarde demais. Não agüentaria
ver o olhar de pena de sua irmã sobre si. Sentia que estava perdendo o respeito
que tinham por ele. Ela
me chamou de inseguro... E não estava? Tinha perdido todas as suas barreiras depois
que falou com Kurama... Seu coração ainda pulsava violentamente querendo
explodir, eram muitas sensações novas.
Sem pensar mais,
num pulo, alcançou sua irmã. Mantinha a cabeça baixa, não queria encará-la.
Yukina por sua vez continuou quieta, deu um passo hesitante. Viu que Hiei apertava
as mãos com muita força, querendo apartar uma dor. Quando fez menção de dar
outro passo, Hiei abraçou-a, escondendo o rosto em seu ombro e deixando escapar
um soluço. Yukina retribuiu o abraço, apertando-o mais contra si. Passando uma
mão pelo cabelo negro do irmão, num gesto calmo, mas que fez Hiei enterrar mais
o rosto em seu ombro.
"Yukina..."
"Shhhh...não
precisa falar. Não precisa explicar coisa alguma... meu irmão."
Hiei encarou-a surpreso,
mas ainda prendendo-a no abraço. Ela estava tão calma, serena. Se quisesse
podia ler sua alma através de seus grandes olhos. Ele levantou uma mão e
afastou uma mecha de cabelo da irmã. Não podiam ser gêmeos, ela era tão bonita,
tão querida, delicada.
"Como...me
desculpe."
"Não há nada
a ser desculpado: já desconfiava que era você desde o momento que te vi. Você é
que se afastava e não notava.", pegou a mão trêmula em sua franja e a
trouxe junto ao peito, "Estou feliz que tenha escolhido a mim para
desabafar.", Hiei corou levemente, "Sei que esse deve ser um momento
difícil pra você, mas não importa o que te aconteceu, nos aproximou, não
é?"
Ela estava certa.
Apesar de tudo, de toda essa agonia interior que travava, tinha uma parte de
seu consciente feliz: estava com sua irmã e podia tratá-la como tal. Que
absurdo privar-se desse conforto! E como foi egoísta, ela sabia de tudo! Teve
que se descontrolar desse jeito para falar com ela. E pensar que sua intenção
era de ficar no Makai para sempre, deixando que Kurama... Seus olhos perderam o
pouco brilho que a visão de sua irmã lhe dera.
"Venha,
Hiei.", disse Yukina ao observar a mestra passando despreocupadamente dentro do templo,
"Vamos procurar algum lugar mais calmo."
Puxando Hiei pela mão,
Yukina o conduziu para dentro da floresta. Foram calados, apenas de mãos dadas,
até alcançarem uma pequena clareira onde passava um riacho que abastecia o
templo. Yukina sentou-se na margem e Hiei ao lado dela. Cada um fixou seu olhar
num ponto da clareira e ficaram assim por muito tempo. Um pássaro veio ao
encontro de Yukina, posou em sua pequenina mão e começou a cantar. Ela passou
um dedo carinhosamente em suas penas e vendo a expressão curiosa de Hiei
aproximou o pássaro dele. Hiei não fez movimento algum, mas o bichinho voou
assustado antes mesmo de chegar perto dele.
"Não adianta
tentar mudar o destino. Eu sou uma criança maldita, ninguém quer chegar perto
de alguém assim."
"Não fale
bobagens! Eu adoro estar em sua companhia!"
"É natural.
Você é minha irmã. Mas não deve se sentir obrigada a isso.", Hiei fez que
ia levantar mas sentiu uma mão firme em seu joelho
"Hiei...pare
com isso. O que fizeram com você para que ficasse desse jeito? Se martirizasse
tanto? Sabe tanto quanto eu, que por trás dessa máscara de descaso, existe uma
pessoa maravilhosa que se preocupa com todos. E, a menos que não tenha
percebido, é sempre retribuído com a mesma intensidade."
"Estou
perdido.", ele abaixou a cabeça, "Não sei onde estou.", sentiu
os braços de sua irmã em suas costas, "Não sei o que estou sentindo. Ele
disse...eu não aceito! Meio coração não aceita. Meu coração é duro, é um
coração forte de assassino, que eu não entendo mais...Que não é mais meu, que o
roubaram de mim..."
"Hiei, você
está amando! Está amando!", Yukina sorriu levantando o rosto do irmão
vendo o esforço que ele fazia para conter o choro.
"Eu não sei o
que é isso! Não aprendi a amar!"
"Não aprendeu
a amar? Talvez, porque...já ama!", Hiei continuava descrente, "Por exemplo:
eu te amo mais do que tudo no mundo. Te amava antes mesmo de te conhecer, mas
não me pergunte como ou quando eu comecei a te amar, porque eu não sei!",
Yukina sorria adorando ver a concentração de seu irmão sobre si, "Só nos
damos conta disso, admitimos que amamos, quando já não tem mais volta. Quando o
ser amado já não sai de nossos pensamentos. Quando já estamos tão ligados a ele
que simplesmente não se é mais livre ao mesmo tempo que a liberdade nunca
esteve tão presente. O mundo lhe pertence, e a única coisa que faz é entregá-lo
aquele que ama."
"Você está
enganada. Se sentisse o que estou sentindo agora, estaria sofrendo com a dor.
Não pode ser amor. Que tipo de amor é esse que machuca, que faz sofrer?"
"É só o amor,
Hiei. Não se engane de novo, você vai se machucar ainda mais se não
admitir."
"Não pode ser
amor...Me diga, então: Amor é esse fogo que me arde e fere sem que eu veja
chama alguma, sem que eu veja sangue algum? Amor é essa dor repentina, que me
satisfaz, mas ao mesmo tempo por não senti-la, me faz querer mais? E...eu não
sei...não a quero mais do que a quero!"
Yukina apenas
respondia com um aceno positivo com a cabeça, falando em seguida:
"Sim! Sim!
Você não se contenta em estar contente. Você se preocupa em prender-se, em
perder-se nele por vontade. Mas ganha ao servi-lo, sendo leal, mesmo que isso o
mate."
"Isso é
completamente ilógico! O amor é tudo sendo nada?"
Desta vez yukina
apenas sorriu. Ele já sabia a resposta.
************
Kurama
espreguiçou-se gostoso na cama. Tinha sonhado com Hiei de novo. Mas dessa vez
foi um sonho diferente, onde Hiei não lhe dava as costas no final. O sol
amornava sua pele e ele sentiu uma sensação de prazer antiga. A janela estava
aberta, claro. Nunca a fecharia. Levantou-se e correu com os olhos pela velha
cerejeira. Nada. Mas não estava preocupado, era natural que ele ainda estivesse
confuso. Não iria apressar mais do que já tinha apressado.
Mirou o seu
jardim. Como estavam lindas as suas flores! Inclinou-se para tocar uma rosa que
também se esticava para alcançar seu dono. O caule cresceu, subiu até encontrar
seus dedos que a receberam com leves toques. Lá embaixo, uma roseira enorme
crescia junto com a vontade de seu “pai”. A rosa enroscou-se em seu braço,
passou por trás de seu pescoço fazendo carinho para depois aparecer do outro
lado meio que escondida entre seu cabelo prateado. Nunca se sentiu tão bem de
manhã como...Prateado?
Instintivamente,
Kurama levou a mão livre até o topo de sua cabeça. Sim...estavam lá. Peludas e
macias. Não precisou levar a mão para trás, pois uma brisa suave se formava lá.
Sua cauda abanava feliz com se tivesse vida própria. Por isso estava se
sentindo tão bem...
Deixou a janela e
foi no banheiro tomar banho. Parou no espelho estranhando a imagem refletida.
Era natural que sua forma de youko fosse sexy, com um olhar intimidador, seguro
de si, sempre com aquele sorriso cínico. A imagem que mirava não era nada
disso. Seus olhos brilhavam de uma alegria sincera, diferente daquela quando um
inimigo morria em suas mãos. Não estava sexy, apenas atraente ao seu gosto. O
youko sorriu diante da nova aparência e o sorriso lhe pareceu quase infantil.
Podia passar por
um youko qualquer se quisesse. Quer dizer, se não fosse por seu cabelo de prata
que emoldurava seu rosto e escondia a base de suas orelhas de raposa. Esse
cabelo que era só seu. Essa cor que era só sua. Não...o fato de estar assim
tinha uma razão. Uma razão de olhos vermelho-fogo, temperamento forte e
docemente inocente! Se o youko estava assim era culpa dele. Hiei. Esses olhos
são seus. Esse sorriso é seu. Esse cabelo cor de prata é seu.
"Você está me
estragando, nanico."
E rindo de si mesmo, o youko entrou no
chuveiro. E dessa vez não foi preciso água fria para a raposa dar lugar a um
Shuiichi igualmente feliz. Ele nem notou, mas pela primeira vez as garotas (e
alguns garotos) da faculdade tiveram o privilégio de ver um sorriso verdadeiro
seu.
Continua...