Título: Abolição – cap 2: presente

Autora: Umi no Kitsune ([email protected])

Claimer: Abolição e suas personagens são propriedade de Adriana Adurens / Umi no Kitsune.

Avisos: Se você gostou da fic e a quer em seu site, peça permissão.

 

 

 

 

 

Era seu aniversário. Aniversário de 16 anos, mas sem festa nenhuma. Há seis anos que ele não tem uma festa de aniversário. Há seis anos que nada é comemorado na família. Claro que ele continuou a ganhar presentes, em qualquer data tida como especial, seu aniversário e natal incluídos, seus parentes e amigos, mesmo os mais distantes, mandavam-lhe presentes. Mas, se quisesse uma festa, teria que pedir ao seu irmão, Luciano. E, claro, nunca atrapalharia seu irmão.

 

Depois da morte de seu pai e seu irmão Antoine, nada mais era comemorado. Sua mãe ficara louca, sempre "conversando" com seu pai e somente com ele, algumas vezes avisando a chegada de algum selvagem para depois sorrir e dizer, "Ah, muito bem, meu amor! Você acabou com ele..." para depois continuar a falar com seu falecido marido.

 

A esposa de Antoine, Larissa, desaparecera no dia do ataque. Seu corpo nunca fora encontrado, apenas o bebê, Lourenço, a quem a mãe de Andrea sempre chamava de Antoine quando o via e dizia feliz para o marido: "Veja, meu amor, veja como nosso filho está bonito! Nosso pequeno Antoine.". O filho de Larissa crescera, seus olhos perderam o azul em poucas semanas, tornando-se castanhos escuros. Ele sempre brincava no sol, o que lhe rendeu um cor morena, motivo das piadas de Andrea.

 

Mas era raro a criança e a velha louca se encontrarem. Ao perceber a confusão da mãe, Luciano dera ordens para que os dois se encontrassem o mínimo possível, deixando o pequeno Lourenço aos cuidados das escravas e de Andrea, que só dava atenção ao menino quando bem lhe entendesse.

 

Luciano desfez o noivado e tomara conta de todas as terras, administrando tudo com punho de ferro, tendo certeza de sempre dar o melhor para a mãe e Andrea, mesmo que ele nunca estivesse presente. Em seis anos, envelhecera mais de dez. Já estava com cabelos brancos e com o rosto marcado, sem o sorriso e a alegria de jovem nos olhos.

 

Enquanto isso, Andrea crescera. Tornou-se um adolescente anti-social, não conversava com ninguém que não fosse Luciano. Irritava-se com as manhas de Lourenço, chegando a bater várias vezes no menino, e gritava com a mãe, dando a impressão de serem dois loucos discutindo.

 

Sua aparência também mudara. Quem achava que ele seria um homem pequeno, surpreendeu-se ao ver o rapaz alto que se tornara. Ele deixou o cabelo loiro crescer, chegando até um pouco abaixo dos ombros, sempre preso com uma fita preta na base da nuca. Mas, apesar de ter crescido consideravelmente, não mudara muito o físico. Tinha músculos o bastante para não ser considerado doente e era tão pálido quanto antes.

 

Pois raramente saía de dentro da casa e, quando o fazia, usava somente roupas com mangas compridas, calças grossas e chapéu, tudo na cor preta. Isso somente para fazer vistoria na fazenda, de duas em duas semanas. Essa sua atitude, que irritou Luciano no começo, mas este acabou desistindo, fez nascer no meio dos negros o boato de que Andrea, na verdade, também tinha morrido no ataque. Pois o contraste das roupas escuras com sua pele pálida fazia-o parecer um fantasma, aumentando o medo que todos tinham dele. Se antes não olhavam nos olhos de Andrea, agora não queriam nem chegar perto dele, com medo de serem amaldiçoados.

 

Fora Luciano, que nunca deixou de amá-lo, Lourenço, que se tornara uma peste e não cansava em irritá-lo, e sua mãe, que não tinha medo porque era louca, a única pessoa que continuava ao seu lado era seu escravo.

 

Este também mudara, claro. Quando criança, se era uma cabeça mais alto que Andrea, agora era apenas alguns centímetros. Mesmo assim era maior. Tinha braços e pernas grossas, seus ombros tão largos que ele tinha que se virar para passar por uma porta comum. As cicatrizes também aumentaram, de número e de tamanho. Mas seu orgulho negro era o que mais se percebia. Era um dos poucos escravos que não desviavam o olhar quando chamados, sempre mantendo a cabeça ereta, sua negritude brilhando azulada, orgulhosa, mais que qualquer outro escravo.

 

De noite, enquanto Andrea dormia, ele pulava pela janela do quarto, indo se encontrar com os outros escravos, na frente da senzala. Nessas noites, ele cantava, dançava, lutava e amava. Eram as noites em que ele era livre, mesmo que por algumas horas, mesmo que no dia seguinte teria que agüentar as ordens de Andrea duplamente cansado. Nessas noites, ele soltava a voz que raramente era ouvida na Casa Grande. Uma voz forte, cheia de vida, que ressonava por cima de todas as outras vozes, todos os outros cantos. Nessas noites, ele sorria, seus volumosos lábios se estendendo no rosto marcado, mostrando os dentes brancos, primeira razão pela qual fora chamado para ser escravo do sinhozinho. Nessas noites, ele se apoiava somente nas mãos, dava cambalhotas e girava o corpo num pé só, gingando de um lado para o outro, no meio da roda, ao som do berimbau. Nessas noites, ele discutia, gritava, teimava e brindava, aproveitando tudo o que aprendia assistindo as aulas de Andrea e ficando dentro da Casa Grande, planejando esquemas de fuga, utilizando os conhecimentos que o branco ignorava.

 

Nessas noites, o escravo negro, principalmente, tinha um nome. Era chamado de Codio, filho de Akra e Yorka, da tribo Ndebele. Tinha o apreço da Ialorixá e era amigo dos wisiman, sendo ele mesmo um obiaman. [1]

 

Naquele dia, no aniversário de Andrea, ele não poderia sair. Luciano como sempre, chegaria mais cedo e ficaria ao lado do irmão. E seu escravo deveria estar com ele.

 

"Andrea!!", Luciano gritou ao chegar na varanda. Lourenço, um toquinho de gente com seis anos, veio correndo de dentro da casa.

 

"Tio! Tio!", ele se agarrou às pernas de Luciano, sorrindo.

 

"Boa tarde, Lourenço!", ele segurou o menino no colo, "Nossa... faz tanto tempo assim que eu não o vejo? Está maior e mais pesado a cada dia!", cansado, ele pôs o menino de volta no chão, "Onde está seu tio?"

 

"Aqui!", Lourenço apontou para Luciano, sendo empurrado por um pé descalço e branco logo depois.

 

"Cala a boca, mulato.", Andrea, ainda de pijamas, recebeu o chapéu do irmão, abraçando-o depois, "Como vai? Está muito cansado?"

 

Luciano o segurou no abraço quando Andrea quis se afastar, "Não. Fique assim mais um pouco.", depois, segurando o rosto no irmão nas mãos, disse, "Não estou cansado. Hoje é o seu dia. Vamos aproveitá-lo como merece."

 

Andrea sorriu. Lembrava muito bem da frieza com que as outras famílias se tratavam. Nenhum homem se abraçava e todo gesto de carinho era visto com maus olhos. Deveria agradecer à sua mãe, tão romântica e cheia de paixão em tudo o que fazia, não deixou que nenhum dos seus filhos virasse um bárbaro colono, que não aproveitasse as emoções da vida. E a seu pai também, brincalhão e com espírito de criança até o último de seus dias, ensinando os seus filhos a nadar no rio, a cavalgar, e nunca deixando de amar, a nenhum deles.

 

E ele precisava mais do que nunca do carinho do irmão.

 

"Tio!!!", o grito estridente de Lourenço quebrou o abraço dos dois, "Déa chamô eu mulato!", o menino estava vermelho de raiva, com os olhos esbugalhados, esperando resposta.

 

"Ora...", Andrea virou as costas para o menino, entrando na casa, "Mas você bem que parece um... quase tão marrom quanto esses misturados. Já me perguntei várias vezes se você seria mesmo nosso parente ou um simples engano."

 

Lourenço estufou o peito de raiva, fechando as pequenas mãos ao lado do corpo gorducho. Ele não tinha entendido direito o que Andrea dissera, mas, conhecendo o tom do tio, sabia que era algo muito ruim. Ele saiu correndo atrás do loiro, mas foi detido por duas fortes mãos que o seguraram. Luciano o suspendera e fazia uma expressão acusadora.

 

"Lourenço, não faça isso. É aniversário do seu tio Andrea hoje, deixe ele em paz.", ele disse, pondo o menino no chão e desarrumando o cabelo dele.

 

"Déa chamô eu engano!", o menino se queixou, com lágrimas nos olhos, "Déa mais engano que eu! Fantasma! Fantasma!", ele gritou na direção de Andrea e saiu correndo antes que alguém pudessem castigá-lo, pois sempre o faziam, sempre defendiam o loiro.

 

"Não dê atenção... é uma criança que não sabe nem o significado das palavras que diz."

 

Andrea permaneceu parado, de costas para Luciano, sem falar nada. Mas depois virou-se, com um sorriso no rosto, que estava levemente corado, "Não tem problema. Eu estou acostumado...", ele puxou o irmão, fazendo-o sentar-se no sofá, "Eu vou me arrumar e pedir para que um almoço decente seja feito."

 

Luciano franziu o cenho, "As escravas não têm cozinhado direito?"

 

"Sim, claro...", Andrea deu de ombros, "Foi jeito de falar. Eu já volto."

 

Andrea entrou no quarto, acompanhado de seu negro. Uma roupa limpa e passada já estava à sua espera, na cama. Enquanto o escravo abotoava-lhe a blusa, ele disse, pensativo, observando o negro, "Se eu pudesse, trocava você pelo meu irmão... assim, ele ficaria sempre do meu lado.", ele sentou-se na cadeira, estendendo os pés para que o escravo lhe calçasse as botas, "Me responda uma coisa.", o escravo ergueu a cabeça automaticamente, olhando nos olhos de Andrea, "Você me trocaria? Se houvesse outro senhor... Lourenço, por exemplo, se ele fosse mais velho... preferiria ele?", nos primeiros, e longos, segundos, não veio resposta, "Responda. Não importa o que diga."

 

O negro abaixou a cabeça novamente, mas não se mexeu. Respondeu com aquela mesma voz, orgulhosa e forte, "Ser escravo, de quem quer que seja, não é bom... mas, se fosse para trocar o sinhozinho, eu trocaria pela liberdade.", e retomou o trabalho de colocar as botas em Andrea.

 

Soltando uma risada baixa, o loiro disse, "Acho que isso é uma coisa boa, então.", e observou o negro, examinando-o, "Nunca pensei que soubesse falar tão bem.", o negro não respondeu, não tinha mais o direito, "Imaginava que soubesse menos do português do que o mulatinho do Lourenço, que não teve aula nenhuma ainda...", quando já estava vestido e bem arrumado, Andrea sorriu para o escravo, erguendo o nariz, com orgulho, "Realmente, eu devo ter o melhor escravo de toda a colônia."

 

 

 

 

"Andrea, meus presentes este ano serão diferentes.", Luciano disse, já de noite, na mesa do jantar. Lourenço rolou os olhos, impaciente e irritado com a atenção que o tio recebia, mas ficou quieto, "Espero que goste dos presentes. Realmente espero..."

 

O rapaz percebeu a insegurança do irmão e tratou de sorrir, "Não me importo com os presentes, você sabe disso. Mesmo que os seus sejam mais especiais que os outros, naturalmente. Mas, não se preocupe, eu irei gostar."

 

"Foi pensando no seu bem...", Luciano bebeu um pouco de vinho e limpou a boca com um guardanapo, "São dois presentes. Somente dois este ano, mas, como eu já expliquei, são diferentes..."

 

"Ora, fale logo!", Lourenço, fez um bico, querendo mais do que nunca que a noite acabasse.

 

"Quieto! Não interrompa seu tio!", Andrea o repreendeu, "Pode continuar, irmão."

 

Luciano sorriu sem graça e levantou-se, "Volto em um instante, com licença.", ele saiu e entrou em um dos quartos, voltando logo depois, com uma papelada nas mãos, depositando tudo na frente de Andrea, "Aqui está... o primeiro presente."

 

Num primeiro momento, Andrea olhou os papéis como se fossem algum tipo de comida estragada. Mas, sentindo os olhares de Luciano e Lourenço sobre si, ele arriscou tocar cuidadosamente, com um dedo apenas, o escudo pintado sobre um papel fino, macio e claro, de boa qualidade. Tomando mais coragem, ele engoliu em seco e abriu a pasta que estava sobre toda a papelada. Dentro, para uma certa decepção geral dele e de Lourenço, apenas mais papéis.

 

O que surpreendeu Andrea foi que, apesar de ser realmente um presente diferente, todo o conteúdo dos papéis estava escrito em francês. Apesar de sempre se queixar e nunca prestar muita atenção, Andrea continuou tendo aulas com o padre até hoje, descobrindo sua facilidade com línguas e extrema rapidez em aprender as regras básicas das gramáticas.

 

Depois de passar rapidamente os olhos pelos papéis, demorando-se mais apenas pelo prazer de ver Lourenço se retorcer de curiosidade na cadeira ao lado, Andrea ergueu os olhos, encontrando o rosto apreensivo do irmão que, diante do seu silêncio, começou a falar:

 

"Nosso avô e eu temos nos correspondido muito freqüentemente nesses últimos anos... Ele, de algum modo, se afeiçoou comigo quando eu estive na França, e, quando soube o que acontecera com mamãe ele... ele manda cartas quase todos os meses...", Luciano disse, ficando vermelho, "Foi ele quem sugeriu... eu comentei sobre... bem..."

 

"Vai me mandar para Paris?", Andrea mal conseguiu dizer, sua voz saindo num sussurro.

 

Tomando como um bom sinal, erroneamente, Luciano continuou a falar, mais calmo, "Sim! É o mesmo instituto em que eu fiquei, quando fui pra lá. Nossa avó já morreu, no ano passado, infelizmente. Mas nosso avô, seu nome é Olivier, ainda está muito bem de saúde. Ele disse que seria um prazer recebê-lo. E, Déa, garanto-lhe, Paris é uma cidade fantástica! Você vai adorar!", ele terminou, sorrindo.

 

Recuperando-se, pois percebera que seu irmão ficara muito contente em lhe dar esse presente, Andrea suspirou e ajeitou-se na cadeira, "Meu irmão... existe algum outro motivo, que não queira me contar...", ele não precisou terminar, ao ver a expressão de culpa no rosto do irmão, "Luciano, não precisa me esconder nada...", ele disse cautelosamente, depois, sorriu, "Nunca conseguiu me esconder nada."

 

"Bom... Na verdade...", Luciano desviou o olhar, examinando o crochê da toalha de mesa, "Eu já imaginava que você fosse desconfiar, mas, não pensei que tão rápido.", ele riu, sem graça, "Andrea... eu vou ser sincero.", ele levantou o rosto, olhando para o irmão, infelizmente, nunca para os seus olhos, "Estou ficando velho, mais depressa do que um homem normal. As fazendas me dão muito trabalho e eu quero descansar. Você já está com idade suficiente para me ajudar... mas nunca teve aulas de nada relacionado ao serviço das fazendas. Mesmo assim, eu sei que você é inteligente e aprende muito rápido.", ele apontou para a papelada, "Esse instituto prepara os jovens para várias carreiras, eu não quero escolher uma por você, mas quero que você escolha uma que me ajude.", e suspirou, "No que você me ajudar, eu serei grato, Andrea..."

 

Sem responder de imediato, Andrea remexeu mais uma vez na papelada à sua frente. Realmente, o instituto oferecia uma variedade razoável de cursos e alguns deles, somente pelo título, eram muito tentadores. Erguendo a cabeça para ver o irmão, ele permitiu-se examiná-lo lentamente. Era verdade que Luciano estava cansado e envelhecendo muito rápido. E Andrea mesmo sabia como ele não tinha tempo para a família ou descanso. Se, talvez, ele trabalhasse com o irmão, poderia ficar mais tempo com ele e também  daria mais tempo livre à ele.

 

De qualquer forma, tudo parecia estar pronto. Com certeza, as passagens já estavam pagas, assim como preparações para a sua chegada em Paris. Sabia que, apesar de tudo, seu irmão não dava ponto sem nó. Ele teria que aceitar ou fazer com que o dinheiro gasto por seu irmão fosse desperdiçado.

 

Deixando os papéis de lado, Andrea levantou-se e andou até o irmão, pegando na mão deste, "Obrigado. É um presente maravilhoso. E será muito bem utilizado, tenha certeza."

 

Luciano abriu um sorriso enorme e também levantou-se da cadeira, abraçando Andrea prontamente, "Que maravilha, que maravilha!", ele se afastou um pouco, "Bom, então... acho que está na hora do segundo presente, não?"

 

Arregalando os olhos de surpresa, Andrea acompanhou o irmão para fora da casa. Tinha se esquecido completamente do segundo presente e, não duvidando mais da palavra do irmão, sabia que seria algo tão diferente e inesperado quanto o outro.

 

"Aqui está!", Luciano desceu as escadas da Casa Grande, chegando ao pátio de entrada, onde, presa à um tronco, estava uma negra, "Ela parece ser louca, mas está apenas drogada.", segurando-a pelos cabelos, Luciano fez o rosto da negra levantar-se para Andrea, que pôde ver os olhos revirados e a baba escorrendo dos lábios da escrava, "Mas é bem feita, pelo menos!"

 

Sim, era bem feita. Os seios ainda estavam firmes e sem muitas marcas. As coxas grossas e quadril largo garantiam um formato de pilão, que muitas brancas tentavam à todo custo ganhar, mas ela tinha naturalmente. Ao se aproximar, Andrea viu que seu rosto era diferente do da maioria dos escravos da fazenda.

 

"É de uma tribo conhecida?", ele perguntou, segurando o queixo da negra firmemente, examinando seus dentes.

 

"Não. Estava sendo mantida para o casamento com o chefe de uma tribo inimiga, sendo oferecida como um pedido de paz. Mas alguns espanhóis chegaram, bem no meio da festa e resolveram mantê-la virgem para aumentar o preço da venda. Pelo menos é o que eles me garantiram quando eu a encontrei no leilão de Recife."

 

"Ela realmente carrega um estilo raro...", Andrea se afastou, olhando-a de cima a baixo, como se a dessecasse  com os olhos, "O nariz dela é mais fino... baixo... e a pele não é tão preta... não tem o lustre azulado.", ele disse, pensativo, "Não seria uma mistura?"

 

"Não creio. Ela não sabe falar nossa língua e, se fosse uma mistura, não seria a prometida para o chefe da tribo inimiga, não é?"

 

"Sim, sim...", Andrea se aproximou novamente da negra, andando devagar em volta dela. Quando estava dando uma segunda volta, ele reparou na expressão de seu escravo, tensa e sombria. Intrigado, ele deu mais uma volta, disfarçadamente, observando a atitude do negro, notando com surpresa os nervos saltando em volta do pescoço largo dele.

 

Sorrindo para si mesmo, ele ergueu uma mão, pousando-a no seio exposto de sua nova escrava, sentindo a maciez e calor na sua palma. Deslizando a mão para o ventre dela, escutou a escrava gemer baixinho, entorpecida. Retirou a mão, limpando-a displicentemente em um lenço que Luciano oferecera, satisfeito pela reação que seu escravo mostrara.

 

"Macia o bastante.", ele comentou para o irmão, "Realmente, quando você disse que os presentes eram diferentes, não estava mentindo."

 

"Ora, que importa se são diferentes? Se eles te satisfazem não há problema!", Luciano passou uma mão pelos ombros de Andrea, "Diga-me, então... gostou da negra?"

 

"Mas é claro.", ele sorriu para o irmão, "Vou mandar que a limpem, ela está fedendo como uma porca, e depois ela pode ir para o meu quarto."

 

"Muito bem! Muito bem!"

 

Andrea, parando de andar e sorrir de repente, olhou em volta, franzindo o cenho, "Onde está Lourenço?"

 

Luciano também parou e olhou em volta, "Não sei... não o vi depois que saímos da sala de jantar.", ele estava estufando o peito para gritar pelo sobrinho quando a mão de Andrea posou em seu braço.

 

"Esqueça ele. Já está grande o bastante para não se meter em encrencas.", ele voltou a andar, entrando na casa, "Além do mais, sendo mulato como é, a safadeza o livrará de qualquer perigo."

 

Balançando a cabeça e rindo, Luciano, sentou-se no sofá ao lado do irmão, "Isso foi algum elogio aos homens de cor?"

 

"Claro que não.", Andrea riu, satisfeito, "Desde quando safadeza é sinônimo de inteligência?"

 

De noite, depois de confirmar que todos estavam dormindo, principalmente Lourenço, que reapareceu já deitado na cama, e Luciano, que merecia mais conforto do que todos, Andrea entrou no quarto, fazendo uma careta de desgosto ao notar a nova escrava deitada em sua cama.

 

"Por Deus, tire ela da minha cama!", ele ordenou ao seu escravo, "Eu disse que a queria em meu quarto, mas não contaminando meus lençóis!"

 

O negro, hesitando um pouco, mas cumprindo a ordem rapidamente, pegou a escrava nos braços e deitou-a no chão, no lugar que seria seu, ao lado da cama de Andrea. E, sem esperar por nova ordem, retirou os lençóis da cama, trocando-os por novos. Enquanto isso, Andrea lavava o rosto, na bacia de cerâmica sobre uma das cômodas. Quando voltou-se, seu escravo já estava a postos atrás dele, ajudando-o a retirar a roupa e colocar o pijama.

 

O tempo todo, Andrea pôde perceber um certo nervosismo em seu escravo. Suas mãos estavam duras e seus movimentos pausados, como se hesitasse toda a vez que tivesse que mover um músculo. Quando, já deitado, percebeu que o negro se preparava para deitar do outro lado da cama, ele não conseguiu conter um suspiro exasperado:

 

"Mas que frescura é essa?", ele disse, sentando-se e encarando o negro, que o encarava de volta, como sempre, "Você sabe qual é o lado que deve dormir. Está querendo fazer do meu quarto uma senzala, por acaso? Não gosto de ficar rodeado por negros, vá deitar junto com a negra."

 

Por um momento, Andrea pensou que o escravo não o obedeceria, mas ele levantou-se e deu a volta na cama, ficando, porém, em pé, parado ao lado da negra.

 

Andrea rolou os olhos e olhou para o negro, curioso por saber os motivos de seu comportamento, mas, fazendo uma expressão de tédio, "O que há com você?", ele, como já esperava, não obteve resposta, "Se quiser ficar em pé a noite inteira, sinceramente, eu não me incomodo.", ele disse, voltando a deitar e virando de costas para os dois negros.

 

Mesmo contrariado por não conseguir entender o comportamento do seu escravo, Andrea deixou-se cair facilmente num estado de semi-sono, com a mente exausta por tantas novas coisas por pensar. Não entendia... quando seu irmão apresentou a escrava, pensara que, pela expressão do negro, ele não iria perder a chance de dormir com ela. Afinal, foi para isso que ela fora comprada. Mas, agora, parecia que ele queria é manter-se distante dela. Não entendia...

 

Um sussurro baixo, chamou Andrea para a consciência novamente. Prestando atenção, ele pôde perceber que era a voz da negra, sussurrando coisas em uma língua que ele nunca escutara antes. Era muito baixo e fraco, mas, mesmo assim, incomodava tremendamente. Então, uma outra voz, em um dialeto negro que Andrea já ouvira várias vezes dentro da fazenda, no timbre poderoso e sonoro de seu escravo, sussurrando também. Parecia que uma queria impor-se sobre a outra.

 

Sentando-se num átimo na cama, Andrea virou-se para o lado onde estavam os dois negros e quase gritou de espanto. A escrava sussurrava, em sua língua materna, e se retorcia sensualmente no chão, as mãos subindo e descendo pelo seu corpo, erguendo e desarrumando o pobre tecido que mal a cobria. Seus olhos estavam virados para trás e sua boca mexia-se por conta própria. Parecia uma serpente no chão, seus quadris subindo e descendo, acompanhando os movimentos do peito, ofegante.

 

O negro, seu escravo, estava ainda em pé, mas balançava o corpo para frente e para trás. Sua cabeça pendendo para frente, para a direita, para trás e para a esquerda, e repetindo o movimento circular. Seus olhos também estavam virados, mas agitavam-se, e seus braços moviam-se de forma incomum, parecendo que, se tivesse consciência do que estava fazendo, gritaria de dor pelos ângulos impróprios que o osso se colocava.

 

Os sussurros foram aumentando, aumentando até que preencheram todo o quarto. Andrea levantou da cama, seu coração pulsando como o trote de cavalos selvagens, e andou devagar, tentando se aproximar do negro. A voz dele, trovoando em seus ouvidos, sempre um tom mais alto do que a da escrava, fazendo-o ficar zonzo, como em transe.

 

Andrea espremeu as palmas das mãos contra seus ouvidos, mas as vozes continuavam a entrar e a invadir sua mente, como se nascessem de dentro dele e não da boca dos dois escravos.

 

"Pa-pare...", ele tentou dizer como uma ordem, mas saiu mais como um pedido fraco, "Parem com isso..."

 

Ele já estava bem próximo do negro, podia sentir os braços musculosos esbarrando no tecido do seu pijama, mas não conseguia se atrever a retirar as mãos das orelhas, temendo ouvir mais daquela magia negra. O quarto todo girava, Andrea sabia que seu corpo também balançava conforme as palavras estranhas, mas tentava parar, ficar firme. Na escuridão, ele viu, com o canto dos olhos, no meio do movimento circular das paredes de seu quarto, a negra se levantar.

 

As mãos dela estavam estendidas, como tentáculos, tentando agarrá-lo. Ele queria afastá-la, empurrá-la, mas seu corpo estava preso, preso no transe, nas palavras. Palavras que não eram mais sussurradas. A negra gritava, aproximando-se, nua e sedutora, como uma serpente rara.

 

De repente, seu negro, seu escravo, gritou mais alto, como um trovão. Andrea sentiu o chão sob seus pés tremer e seu próprio corpo vibrar com a intensidade daquela voz. Suas mãos caíram moles ao lado do corpo. Ele sentia que iria desmaiar, sua cabeça começando a pesar, pendendo para trás. A negra continuava de pé, com os tentáculos apontados para ele, mas gritava de agonia. Uma sombra negra cobriu o seu corpo, tirando-lhe a visão da serpente e caindo, pesada e quente, sobre ele.

 

Andrea abriu os olhos, piscando várias vezes, sentindo que estava saindo de um pesadelo. Seu corpo todo doía e sua pele estava toda arrepiada com a friagem da noite. Olhou para a janela e percebeu que estava amanhecendo, mas não entendia como, parecia que tinha acabado de ir deitar, quando o barulho infernal das vozes dos seus escravos o acordou...

 

Olhando para baixo, Andrea percebeu, com mais espanto do que repulsa, que seu escravo estava deitado sobre ele, dormindo profundamente. Os dois estavam no chão, ele deitado de costas e o negro sobre ele, pesando como um boi gordo. Mais à frente, sua escrava nova também estava deitada, esparramada no chão. Mas, ele engoliu em seco, de alguma forma sabia que ela não dormia. Estava morta.

 

Tomado de uma ânsia inesperada, Andrea tentou se mexer, mas estava preso sob o corpo do negro, então, apenas dobrou o corpo, chutando e empurrando o peso o máximo que pôde, para poder descarregar tudo o que estava no estômago no canto do quarto. Felizmente, isso fez com que seu escravo acordasse.

 

"Saia...", ele pediu, com a voz estranhamente rouca, sentindo que gritara a noite toda sem o saber, "Saia de cima de mim!"

 

Sempre obediente, o negro se ergueu, com muita desenvoltura e precisão de movimentos para alguém que parecia bêbado horas atrás. Ele estendeu uma mão para Andrea e o ajudou a se levantar.

 

Sentando-se na cama e recebendo um copo com água do negro, sem mesmo ter que pedir, Andrea fechou os olhos e suspirou, tentando por os pensamentos em ordem. Depois de alguns segundos, percebeu que tentar colocar qualquer coisa em ordem, diante do que acontecera, era impossível, e ele abriu os olhos, encarando o escravo.

 

"Explique.", ele disse, secamente, acrescentando depois, "Tem liberdade total para falar, desde que explique, com todos os detalhes, o que aconteceu."

 

Seu escravo acenou afirmativamente com a cabeça e sentou-se no chão, na frente dele, encarando Andrea nos olhos, orgulhoso, como sempre o fez.

 

"Aquela mulher... ela não era um pedido de paz para a tribo.", ele começou, sua voz calma e séria, "Sinhozinho não sabe porque não é negro.", nisso, Andrea rolou os olhos, soltando um "ora!", sarcástico, que o negro ignorou, "Aquela mulher é a mesma coisa que um veneno. Mas é um veneno diferente. Ele não se instala na pessoa, mas na tribo, através do chefe. Quando ela é aceita pelo chefe, ela domina a alma dele, destruindo a tribo, matando o chefe."

 

Andrea estaria pálido se já não o fosse, "Você quer dizer que ela iria me matar?", ele perguntou, incrédulo, "Mas eu não sou negro! Não sou chefe de nenhuma tribo! Porque ela iria querer me matar?"

 

"A questão não é querer, sinhozinho.", o negro respondeu, "Ela mesma já estava morta. Seu espírito só ficou no corpo para cumprir a última ordem: matar o chefe e eliminar a tribo."

 

"Mas que tribo? Que chefe?", Andrea insistiu.

 

"Teria que ser a tribo do chefe com o qual ela iria se casar... mas você tomou o lugar dele."

 

Andrea escorregou da cama e ajoelhou na frente do negro, não percebendo o ato, e o segurou pelos ombros, sacudindo-o, "Mas é este o problema! Eu não tenho tribo! Eu não sou chefe de nada!"

 

"Isso não importa para ela. E, você é chefe, sim, sinhozinho. E tem uma tribo, uma tribo grande. Isso aos olhos da mulher.", antes que Andrea pudesse protestar, ele continuou, "Sinhô Andrea é quem cuida dessa fazenda e da casa. Sinhô Luciano não tem tempo para isso, fica nas outras terras e não vem pra cá porque sabe que sinhozinho está aqui. Sua mãe não cuida mais da casa, é você quem dá ordens para as negras e decide o que se faz de almoço, o que se costura e o que se compra. E mesmo sinhozinho Lourenço, ele obedece quando sabe que é necessário. Sua tribo são seus escravos. Você é o nosso chefe... isso tudo já bastou para a mulher."

 

Entendendo por vez tudo o que acontecera, mesmo achando absurdo, Andrea suspirou, exasperado, não acreditando na sua sorte. Sorte que andava faltando.

 

"Mas... mas...", ele olhou desconfiado para o negro, "Se ela iria me matar... porque me salvou? Você conquistaria a liberdade... não seria legalmente livre, mas poderia fugir..."

 

"Sinhozinho esqueceu-se do que eu falei antes. Com a morte do chefe, a tribo é destruída. Se você morresse, todos dentro da fazenda também morreriam. Eu e os outros escravos incluídos.", depois, disse mais lentamente, "Não fiz isso pelo sinhozinho, mas pela minha gente."

 

Agora tudo se encaixava. Seu escravo estava tenso e hesitando não porque se afeiçoara da negra, mas porque a temia, sabia o que ela era. Sabia que ela iria trazer a morte para todos na fazenda se ele não fizesse alguma coisa.

 

Nisso, Andrea perguntou, curioso, "E o que você fez? O que eram todas aquelas palavras?"

 

O negro franziu o cenho, e pensou um pouco, "Encantamentos, eu acho... embora não sei se é a palavra certa."

 

"Você e ela... eu... nós gritamos de noite. A noite inteira, pelo estado da minha garganta...", ele levou uma mão ao pescoço, "Porque ninguém veio? Meu irmão viria correndo se me escutasse gritando daquele jeito."

 

"O que aconteceu, aconteceu somente entre você e ela.", ele explicou, "Eu sou a pessoa que interferiu entre o chefe da tribo e o veneno, já que o chefe não sabia como defender-se. Não podia fazer isso, mas...", ele deu de ombros, "... eu sou mais forte que a magia dela. E mais forte que você."

 

"Explique isso também.", o loiro disse, bravo, "Eu sei e admito que você é mais forte fisicamente do que eu... mas você é negro! Como pode insinuar que é mais forte mentalmente do que eu?"

 

Sem desviar o olhar, o negro respondeu simplesmente, "Eu sei a magia e sei como me defender. Você não sabe. Nisso, eu sou mais forte que você."

 

"Apenas nisso.", Andrea acrescentou, com uma sobrancelha erguida. Depois, suspirou, cansado, e recostou-se na lateral da cama, "Mas devo dizer que sou grato por conhecer essas coisas.", ele abaixou a cabeça, fechando os olhos, sentindo que iria voltar a dormir, "Você sabe fazer muitas coisas... muitas coisas de negro, acho. E isso já me salvou duas vezes.", ele ergueu levemente o rosto, "O que era aquilo que você fez... naquele dia do ataque?"

 

"Capoeira."

 

"Capoeira", Andrea repetiu, deixando as letras rolarem por sua língua, "Capoeira... nome bonito para uma coisa negra.", o escravo não fez comentário e Andrea jogou a cabeça para trás, na cama, fechando os olhos, "Não acredito que tem uma negra morta dentro do meu quarto... não quero nem olhar pra ela. Jogue ela fora, antes que comece a cheirar."

 

O negro não respondeu, nem se mexeu. Andrea abriu os olhos e o questionou com o olhar. O escravo apenas apontou para o espaço atrás do loiro, que virou a cabeça para ver. A negra não estava mais lá.

 

Sem se mexer, Andrea sussurrou, "Você, por acaso, me explicou tudo o que tinha que ser explicado?"

 

Ele ouviu a voz do negro, atrás de si, "Ela já estava morta."

 

"Ah...", ele voltou a sentar de frente para o negro, dizendo sarcasticamente, "Isso é um alívio... ", depois, sussurrou para si mesmo, "Realmente, um alívio."

 

 

 

 

Era noite. No dia seguinte, de manhã, logo na hora em que o sol se levantar, Andrea estará embarcando em um navio com destino à Europa. Mas, agora, de noite, no conforto conhecido de sua cama, ele não conseguia dormir. Iria para longe de tudo, de todos, do seu mundo. Paris, por mais tentadora que fosse, não era o mundo de Andrea. Seu mundo era pequeno, restrito, fechado.

 

E ele se sentia muito bem nele. Com sua mãe, seu irmão, seu sobrinho e seu escravo. Todos seus. No mundo de Andrea, ele conhecia tudo e dominava tudo. Não tinha receios, não tinha preocupações. Era fácil e simples viver nesse mundo. Em Paris, em outro mundo, não seria fácil, ele tinha certeza disso.

 

Paris, linda e maravilhosa, como seu irmão descrevera, não tinha nada que Andrea pudesse chamar de seu. Tinha outras coisas, como receios e preocupações, mas isso Andrea não queria. Aliás, queria distancia que, por ironia, ele mesmo iria percorrer para diminuir, quiçá zerar.

 

Não estava conseguindo dormir. Não iria conseguir dormir. Andrea virou-se na cama, preparado para acordar o escravo, quando se deparou com seu escravo, muito bem acordado, com um pé dentro do quarto e o outro fora, sentado no parapeito da janela.

 

"O que está fazendo?", Andrea sentou-se, agradecendo por estar plenamente acordado, mas irritado por não ter escutado seu escravo se mexendo.

 

O negro parou, surpreso, mas depois, recolocou a perna para dentro do quarto e ajoelhou-se no chão.

 

"O que ia fazer?", Andrea insistiu. Mas, como se fosse mágica, seus ouvidos escutaram um barulho, um ritmo. Ele se levantou e debruçou-se sobre a janela, "São tambores?", não apenas tambores, mas outros sons, vozes, palmas, iam crescendo e aparecendo aos poucos para os seus ouvidos, "Está havendo uma festa? Na minha fazenda?"

 

O escravo apenas assentiu, inclinando a cabeça. Minutos se passaram, o som ficando cada vez mais nítido na mente de Andrea, que examinava o negro com prazer, vendo-o conformar-se com um castigo que, com certeza, viria.

 

"Me leve até lá.", ele disse firmemente, erguendo o rosto alto. O negro o olhou, com o cenho franzido, desconfiado, mas sem dizer nada, "Me leve até lá. Quero ver."

 

Andrea nunca imaginou, nem sequer quando criança, que um dia ele iria ter que pular pela janela do quarto para, simplesmente, sair do quarto. Ele estava descalço, com uma roupa antiga e gasta, por recomendação de seu escravo, e não tinha nem um casaco por sobre os ombros para protegê-lo da friagem da madrugada.

 

Achou, por um momento, quando andavam sobre a terra úmida, que estava fazendo uma loucura. Iria para uma festa de negros, escravos! Poderiam fazer o que quisessem com ele se o pegassem... e ele estava indo por conta própria! Por Deus, tinha uma viagem a atender na manhã seguinte, não podia fazê-la morto.

 

"Espere aqui.", o negro interrompeu seus pensamentos, colocando uma mão pesada sobre seu ombro. Andrea iria protestar como um simples escravo poderia lhe dar ordens, mas o negro acrescentou, "Nessa noite, eu sou livre. Você não manda em mim. Nem eu em você, que não obriguei a vir. Então, eu e você, nessa noite, somos livres."

 

As palavras do negro ficaram ecoando na mente de Andrea enquanto ele se afastava, aproximando-se sorrateiramente da multidão dançante e sumindo no mar de corpos. Andrea estava escondido, no meio de grandes tecidos brancos, que reconheceu serem as toalhas e lençóis da Casa Grande. Era um grande varal, com os enormes e pesados tecidos pendurados, esticados sobre vários fios de barbante grosso, postos paralelos, como um labirinto branco.

 

Por entre as frestas de um lençol e uma toalha, ele viu a alegria. Homens, mulheres e crianças, alguns com correntes nos punhos e tornozelos, outros com deformações, feridas absurdamente enormes, todos dançando, cantando, celebrando. O ritmo era um só e ao mesmo tempo vários.

 

Sentiu-se entrando em um transe, mas muito mais diferente da experiência anterior, era agradável, era prazeroso. Sua mão corria pelos tecidos, para cima e para baixo, seus pés se movimentando por conta própria, indo e vindo, cruzando os tecidos, buscando novos ângulos para observar a festa. Seus olhos se perdendo na combinação... toalha, festa, toalha, festa, lençol, festa... branco, negro, branco, negro, branco, negro...

 

Andrea riu quando escutou risadas, girou quando a roda girava, se abaixou quando uma perna se erguia, na capoeira, na dança. Ele queria chegar mais perto, queria sentir de mais perto. Mas tinha medo. O branco dos tecidos era a sua proteção. Seus tecidos, suas toalhas e seus lençóis... eram seu escudo. Não poderia participar. Assim como eles não participariam de um jantar servido sobre essas toalhas, com ele.

 

Ele deixou que a música e a alegria entrassem mais um pouco dentro do corpo dele, balançando a cabeça para um lado e para o outro, seu cabelo solto esvoaçando com a brisa refrescante da madrugada. Essa mesma brisa, antes, seria gélida, inconveniente. Mas nessa noite, livre, Andrea sentia um calor diferente pulsando dentro dele. Ele que sempre sentiu frio, que sempre fora frio, estava queimando com uma chama estranha dentro das veias, fervendo seu sangue.

 

Podia sentir o suor descendo pelo seu rosto, como lágrimas, abundantes. Seria apenas o calor da alegria, da vida ou era a proximidade com a fogueira. Mas a fogueira estava rodeada pelos negros, que absorviam todo o seu calor, por isso eram tão quentes. Mesmo assim, sua camisa grudava no peito, sua boca se abria, ofegante.

 

E, Andrea sabia, não poderia ficar mais. Abrindo os olhos para a realidade, ele sentiu uma onda de frio correr-lhe pelo corpo e girou o corpo, virando as costas para a festa, andando em frente, para a Casa Grande, para o amanhecer, quando iria finalmente fugir do seu mundo.

 

"Vai fugir para poder fugir, homem branco?"

 

O choque não o surpreendeu tanto quanto a voz. Andrea ergueu o rosto, desafiador, olhando nos olhos negros e orgulhosos que nunca deixaram de temê-lo. Deu um passo para trás, conseguindo uma distância consideravelmente apropriada para os dois.

 

"Não tem o direito...", uma mão, negra azulada, com a palma amarelada pelo trabalho, o silenciou.

 

Mas não o fez ferindo. Ela apenas se ergueu, na sua frente, no seu rosto.

 

"O homem branco não tem mais direito nenhum sobre mim.", o negro disse calmo, mostrando um sorriso de dentes brancos ainda inteiros e perfeitos, "Falta pouco para que você saia completamente das nossas vidas, porque não aproveita e...", ele ergueu a outra mão, revelando um copo de metal, amassado e sujo, mas com um líquido, que Andrea não soube identificar, muito cheiroso e convidativo, 'Porque não aproveita... e descobre como é ser negro?"

 

Andrea recuou um passo, fazendo uma cortina de tecidos brancos se estender entre os dois, "Não preciso ser negro para saber como é...", ele disse, ainda arrogante, "Eu o conheço desde que me entendo por gente, escravo. Acha que eu não saberia tendo você do meu lado quase todos os dias da minha vida?"

 

"Não sou mais seu escravo. Agora sou livre.", ele estendeu o copo para o loiro, que o pegou, sentindo o líquido quente nas mãos, "E você pensa que sabe como é ser negro. Mas você não entende."

 

"Você acha mesmo?", Andrea sorriu, com pena do rapaz, "Quando você conseguir me mostrar ou, segundo você, me fazer entender como é ser negro, escravo, você será livre.", ele disse, tomando um gole da bebida forte, sentindo sua garganta queimar.

 

O negro se aproximou de Andrea, deixando poucos centímetros entre eles, ainda sorrindo, ainda encarando os olhos azuis, "Acho que, talvez, você tenha razão..."

 

O copo caiu das mãos de Andrea, mas ele nem reparou, sentindo-se muito tonto para sequer registrar o fato, "Claro que eu tenho...", ele disse, num sussurro, caindo para frente, nos braços do negro.

 

"Pois somente quando o homem branco reconhecer a dor do homem negro é que ele deixará o meu povo ser livre.", o negro também sussurrou, no ouvido de Andrea, que ergueu o rosto, abrindo os olhos lentamente, embaçados pela bebida.

 

"Enquanto isso...", ele disse, passando um braço pelo pescoço do negro, trazendo seu rosto para mais perto, suspirando nos lábios negros e volumosos, "... você é meu.", Andrea desmaiou no segundo seguinte.

 

 

 

 

Continua...

 

 

 

[1] Codio é o nome que as crianças que nascem na terça-feira recebem. Arka é o princípio da vida, Yorka é o princípio do espírito. O primeiro acaba quando a pessoa morre, o segundo continua mesmo após a morte. Ndebele é o nome de uma tribo original da África. Ialorixá é uma mãe-de-santo... acho... ^^" Wisiman são feiticeiros que praticam magia negra; obiaman são feiticeiros que praticam magia branca (fica esquisito denominar magia branca ou negra quando se está escrevendo uma fic sobre brancos e negros... parece que aumenta o preconceito... sei lá). Se você sabe mais do que eu e acha que isso tudo está errado... me desculpe, mas vai continuar errado. Eu procurei esses nomes em uma enciclopédia e fui colocando na medida que achava o nome interessante ou o significado do nome interessante. Não estou a fim de fazer pesquisa e muito menos tenho a pretensão de ensinar história. ^__^" Eu só queria achar nomes interessantes para a minha personagem. :P

 

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