Título: Abolição - cap 1: rebelião

Autora: Umi no Kitsune ([email protected])

Claimer: Abolição e suas personagens são propriedade de Adriana Adurens / Umi no Kitsune.

Avisos: Se você gostou da fic e a quer em seu site, peça permissão.

 

 

 

 

 

Era verão no Brasil. E, como em todos os verões, qualquer brisa era bem-vinda. Andrea estava sentado na rede, na varanda da Casa Grande, com um grande livro, grande demais para as mãos dele, de letras muito pequenas e rebuscadas e ilustrações de uma página inteira em preto e branco, deitado no colo. Ele lia atentamente, com o queixo apoiado nas mãos.

 

Suas bochechas estavam rosadas e o canto da testa já estava brilhante de suor. Suspirando, ele jogou o corpo para trás, fazendo a rede balançar levemente, "Isso é muito chato..."

 

O padre que estava sentado em uma confortável cadeira de balanço ao seu lado, olhou-o severamente, "Andrea, a palavra de Deus nunca é uma coisa chata. Há apenas aqueles ignorantes o bastante para não conseguirem compreendê-la.", ao ver que o menino iria protestar, o padre emendou, "Ou aqueles que simplesmente não tentam... por pura preguiça."

 

"Está muito quente para estudar!", Andrea se queixou, colocando uma fita vermelha para marcar a página e entregando a Bíblia fechada para o negro ao seu lado, que depositou o livro na mesa. O loiro se virou para o negro e ordenou, "Me balance. Mas não muito rápido.", e deitou-se na rede.

 

"Não deveria tratar seus estudos de maneira tão desleixada.", o padre o censurou, enquanto observava a rede balançar lentamente, "Você já tem dez anos, deveria ser mais responsável."

 

"Papai disse que se eu quiser não preciso estudar.", Andrea respondeu de olhos fechados, "Ele disse que Antoine e Luciano já concordaram em cuidar de mim e das minhas terras. Só tenho aulas porque minha mãe diz que é uma vergonha eu ter os mesmos conhecimentos de um negro."

 

"Isso o deixa envergonhado?"

 

"Claro que não. Todo mundo sabe que os brancos são mais inteligentes que os negros e os índios, naturalmente.", ele disse, "Eu não preciso estudar para ser mais inteligente que o mais inteligente dos negros.", esperou alguma resposta do padre, mas este apenas fez um "hummm" e continuou ouvindo, "Mas, padre... fica difícil descobrir no que exatamente os negros são inteligentes.", ele sentou-se na rede, seu rosto ainda rosado, "Eles não fazem as mesmas coisas que nós."

 

O padre perguntou, sorrindo, "Ah... não fazem?"

 

"Não, claro que não.", Andrea disse franzindo o cenho, pensativo, "Eles não precisam pensar, não precisam ler, escrever ou contar... eles apenas trabalham."

 

"Apenas trabalham?", o padre repetiu com ironia.

 

"Sim."

 

"Então eles não precisam pensar, ler, escrever e contar... muito parecido com o que você quer ser? Um escravo?", ele perguntou, inocentemente, como se ele fosse o aluno cheio de dúvidas.

 

"Padre!!!", Andrea sentou-se rígido na rede, as bochechas mais vermelhas, não apenas pelo calor, mas por raiva também, "Claro que não! Eu não sou como eles!", ele fez uma pequena careta de nojo, "Eu não preciso trabalhar! E sou branco. Se eu não souber ler, escrever ou contar, isso não importará muito, porque sou branco e sei pensar."

 

"Ah... claro."

 

Um trote de cavalos interrompeu a discussão dos dois. Andrea levantou-se da rede e desceu correndo as escadas até a entrada da Casa Grande. Ainda longe, vinham dois cavalos, mas o garoto reconheceu os cavaleiros rapidamente.

 

"Antoine! Antoine!", ele gritou feliz, correndo para abrir os portões, o negro ajudando-o, "Voltou! Você voltou, Antoine!"

 

O cavaleiro desceu do cavalo, para não machucar o menino que vinha correndo na sua direção e abraçou o irmão, levantando-o no ar, "Déa! Como cresceu!", ele girou com o irmão no ar, deixando-o no colo depois, "Continua branquinho como um anjo, olhe só!"

 

"Onde está Larissa?", Andrea perguntou ofegante, recebendo o chapéu do irmão na cabeça, "Por que veio sozinho?"

 

Antoine colocou o irmão no chão e tomou-lhe a mão, caminhando junto com ele para dentro da casa, "Larissa ficou, Déa. Tivemos um filho, um filho lindo!! Você agora é tio, meu irmão!"

 

"Tio?", os olhos do menino se arregalaram, mas depois brilharam de alegria, "Vamos ter uma festa, então? É isso?"

 

"Quando estivermos todos reunidos eu explico melhor."

 

Antoine era um homem grande, alto e de ombros largos. Tinha uma barba já grande para a idade e o peito e os braços eram cobertos de pêlo, assim como as canelas, bronzeadas e musculosas. Quando subiram as escadas, parecia que as botas de Antoine iriam rachar as pedras, de tão pesado que era. Luciano, seu irmão, que os esperavam na varanda, não era muito diferente apenas mais brincalhão, por ser mais novo.

 

Ele e o pai se cumprimentaram com alegria, saudando a felicidade do filho mais velho. Antoine veio para convidar seus parentes para uma festa em sua fazenda, no litoral, em comemoração ao nascimento do filho. Até o governador da província seria chamado, com outros grandes nomes da região.

 

Andrea estava mais excitado que todos. Nunca tinha visto o mar e nem a cidade, e só vira a esposa do irmão umas duas ou três vezes. Estava curioso e feliz, iria realizar três desejos de uma única vez. Quatro, se contasse que veria o sobrinho.

 

"Ah! Vou ver o mar, vou ver o mar!", ele exclamou feliz, jogando-se na cama, enquanto uma negra cuidava de suas roupas para a viagem. Então, virou-se para o seu escravo, que continuava tão calado quanto da primeira vez que se viram, "Diga-me uma coisa: você já viu o mar?"

 

O negro, que agora tinha algumas outras marcas no braço acompanhando a primeira, apenas balançou a cabeça negativamente.

 

Entusiasmado e sem ligar para quem conversava, Andrea continuou falando, "É feito de água, muita, muita água. Mais água que os três rios da fazenda juntos! E não é verde, nem marrom como os rios... é azul!", ele explicou, com os olhos brilhando e um sorriso enorme nos lábios, "Azul que varia do mais claro para o mais escuro. E é salgado! Cheio de sal! Não só na água como na terra embaixo da água, e na terra que sai da água... E é grande, grande... Muito grande!!!", ele abriu os braços para dar ênfase às palavras, "Imenso... azul... salgado...", então, ele suspirou, "Pelo menos, foi o que Antoine me disse..."

 

Um silêncio quebrado apenas pelos movimentos da escrava que arrumava o baú com as roupas de Andrea se instalou no quarto. Andrea ficava olhando para o negro e o negro para Andrea. Era estranho. Era perturbador. Era o único negro que olhava nos olhos de Andrea, sem desviar. E, ao contrário do que se poderia imaginar, o sinhozinho gostava disso e nunca o repreendeu. Afinal, com exceção de sua mãe, era a única pessoa que não tinha medo dele. Todos os outros, negros, mulatos, índios ou brancos, todos tinham medo de olhar nos olhos de Andrea, até mesmo seu pai e irmãos. Sua mãe e o negro dele eram os únicos que lhe davam esse prazer. Então, nunca o castigaria por isso.

 

Depois de alguns minutos, uma brisa refrescante entrou pelo janela do quarto e os cabelos finos de Andrea esvoaçaram levemente. Ele fechou os olhos, suspirando, aproveitando o sopro que aliviava seu calor. Quando abriu os olhos, o negro não olhava mais para ele, e Andrea franziu o cenho. Ao olhar na direção dos olhos do escravo, viu que ele admirava uma grande borboleta que entrara no quarto.

 

A borboleta tinha as asas pretas, com manchas azuis escuras, brilhantes. Era do tamanho da mão de Andrea e voava perdida, entre as quatro paredes brancas do quarto. Ela desceu, aproximou-se do negro e pousou em seu braço, sobre uma das inúmeras cicatrizes. Suas asas mexeram-se por alguns segundos até que ela parou completamente. Olhos azuis e pretos sobre ela.

 

Andrea se aproximou, lentamente, silenciosamente. Até mesmo a escrava parecia ter parado seu trabalho para admirar o inseto. Conseguindo chegar bem perto, Andrea examinou as cores da borboleta, com os braços para trás, com medo de tocar nela.

 

Mesmo sem receber ordem nenhuma, o negro levantou o braço, trazendo a borboleta para a altura dos olhos de Andrea, bem próximo de seus olhos azuis. O loirinho abriu a boca admirado e sussurrou, não querendo quebrar o momento, "Espero que o mar seja tão bonito quanto ela..."

 

Sem protestar, Andrea deixou que a mão livre do negro segurasse na sua e a guiasse até a borboleta. Sentiu que sua mão tremia, pequena, pálida e macia, contra a mão grossa, negra e cheia de calos, mas segura e forte o bastante para que não recuasse. As duas mãos, tão diferentes, se ergueram e cobriram o inseto maravilhoso. Com um movimento rápido, o negro retirou o braço e deixou a borboleta pousada nas mãos de Andrea, seguradas pelas suas.

 

Uma exclamação de horror quebrou o silêncio e tirou a atenção dos dois meninos. A escrava que cuidava das roupas correu até o escravo de Andrea e deu-lhe um tapa, gritando alguma coisa incompreensível. Nesse momento, a borboleta assustou-se e fugiu das mãos deles e, voando nervosa, saiu pela janela. A negra ainda puxou o negrinho pelo braço, separando as duas mãos, batendo-lhe mais na cabeça.

 

"Pare!", Andrea gritou, como se tivesse saído de um sonho onde apenas assistia a tudo, "Pare, sua negra burra!!!", ele empurrou a escrava, bravo, "Você a assustou! Olhe o que fez! Ela escapou!", Andrea saiu correndo do quarto, entrando na sala, vermelho de raiva, "Pai! Pai!", ele se postou na frente do pai e do irmão, que pararam de conversar, preocupados.

 

"O que foi, meu filho? Você se machucou?"

 

Andrea começou a ofegar, sabendo que isso causaria um efeito em seu pai e irmão, "Aquela negra... Aquela negra..."

 

Os olhos dos dois homens se estreitaram e Antoine levantou-se do sofá, "Pai, deixe que eu cuido disso.", e tomando a mão de Andrea, perguntou, calmo, "O que fizeram, meu irmão? Diga que eu mesmo irei açoitar a maldita."

 

Chegando ao quarto, a escrava estava parada, com o rosto abaixado e o escravo de Andrea estava no outro canto, observando quieto, com um pequeno fio de sangue saindo por entre os lábios volumosos, mas que ninguém prestara atenção. Afinal, como Andrea disse um dia, ele era tão negro que quase não dava pra ver o sangue. E como todos estavam mesmo é preocupados em castigar a escrava, ninguém percebeu se ele estava machucado ou não.

 

A negra saiu do quarto à base de socos e chutes de Antoine. Andrea nunca explicara direito a razão pela qual a escrava o deixara tão bravo, mas, realmente, isso não importava. Bastava apenas uma palavra dele para que seu pai ou seus irmãos batessem ou até matassem qualquer negro do qual não gostasse.

 

Andrea e seu escravo ficaram no quarto. Uma outra negra apareceu para continuar o serviço inacabado da outra e Andrea virou-se para ela e ordenou, "Me dê dois conjuntos velhos de brincar, de calçola e camiseta. Esses... esses que estão remendados vão servir. Não! Não precisa dobrar mais uma vez, me dê logo!", Andrea se virou para o negro, entregando-lhe as roupas, "Guarde bem isso. Você vai usá-los para me acompanhar na viagem.", ele explicou pausadamente, querendo que a mensagem fosse bem entendida, apesar de saber que seu escravo sempre fazia o que mandava, "Este, você usará amanhã, quando chegarmos na fazenda de meu irmão, e no último dia, quando partirmos. Este outro, mais desgastado, você usará quando formos sair para ver a cidade."

 

O negrinho acenou com a cabeça, recebendo as roupas sem muita cerimônia. Mas Andrea o ficou olhando, examinando seu corpo até que bateu a mão na testa. Seu escravo ainda era muito maior do que Andrea e as roupas que tinha dado eram velhas, pequenas para ele mesmo. Não poderia deixar seu escravo sair com roupas ridiculamente pequenas, o que pensariam dele?

 

"Ah, não! Devolva, devolva!", ele arrancou as roupas da mão do escravo e chamou de novo a outra escrava, "As roupas antigas de meus irmãos ainda estão guardadas? Ótimo! Procure dois conjuntos de brincar, um branco e outro bege, entendeu? Espere! Veja algo que esteja gasto ou remendado... e mais uma coisa!", ele apontou para o escravo, "A roupa precisa ser do tamanho dele. Entendeu? Pode ir, então."

 

Quando a escrava voltou, Andrea examinou os conjuntos e, achando-se satisfeito, entregou-os ao seu negro, "Cuide bem disso. Podemos aproveitar para uma próxima ocasião."

 

O negro acenou e tomou cuidado para que as roupas não se sujassem com as que usava. Andrea sorriu satisfeito. Seu escravo era esperto. Era mais esperto que muito negro velho. Ele notou que, para o seu escravo, nunca precisava ralhar ou perguntar se tinha entendido a ordem. Sempre sabia que tinha entendido e sempre sabia que, seja lá o que for, a ordem seria bem realizada.

 

 

 

Na manhã seguinte, todos estavam acordados bem cedo e bem vestidos. Até mesmo o negro de Andrea, lhe encheu de orgulho ao aparecer com o conjunto branco, as mãos e os pés limpos e o rosto bem lavado, sua negritude brilhando azulada ao sol. Levava um pequeno pacote amarrado às costas com sisal novo. Andrea até sorriu para ele quando apareceu próximo à carruagem.

 

Andrea por sua vez, parecia o anjo de sempre. Vestia um conjunto azul e branco de costura fina, com bordados nas mangas e golas. Ele estava penteado, com o cabelo fino e loiro jogado para trás e perfumado o bastante para que não enjoasse. Sua faca estava presa na cintura, por um cinto que seu irmão Luciano trouxera da viagem que fez à Paris.

 

A viagem durou dois dias inteiros. Antônio e seus filhos iam de cavalo, na frente, enquanto Andrea e sua mãe iam na carruagem. Os escravos iam à pé ou, no caso do escravo de Andrea, sentado na traseira da carruagem, revezando lugar com a escrava pessoal da mãe.

 

Mesmo com tanta excitação, Andrea acabou dormindo no final da viagem, acordando somente quando chegaram na fazenda, ao pôr-do-sol. Sua mãe o acordou de leve e mostrou-lhe o cenário pela janela. Estavam muito próximos à praia, apenas alguns bons metros de árvores separavam a estrada da areia fina. Andrea, arregalando os olhos de surpresa, acordou de imediato. Abriu a porta da carruagem e correu entre as árvores, na direção da água.

 

Ele chegou a escutar os gritos dos seus pais e irmãos, até mesmo o barulho de passos rápidos que corriam logo atrás dele, mas mesmo assim ele não parou. Correu entre o mato, arranhando as pernas e sujando a roupa tão cuidadosamente separada para a ocasião, alcançou a areia, sentindo seus pés afundarem nos grãos. Ele ia entrar na água, molhar-se na pequena onda que vinha ao seu encontro quando uma voz, forte e sonora como um trovão, o fez parar:

 

"Espere!"

 

Andrea nunca ouvira aquela voz e virou-se assustado. Seu negro, seu escravo, também estava parado, logo atrás dele. Enquanto o loiro ofegava pelo esforço da corrida, o negro nem parecia cansado. Mal sujara a roupa, ainda por cima! Intrigado, Andrea procurou por outra pessoa, mas não achou ninguém, os outros escravos e seu irmão Luciano estavam se aproximando somente agora dos dois. Ele franziu o cenho e perguntou, irritado, "O que disse?"

 

O negro assumiu uma postura mais submissa agora, abaixando um pouco a cabeça, mas sempre olhando nos olhos do seu dono, "... espere."

 

Sem pensar duas vezes, Andrea ergueu a mão e esbofeteou o negro, "O que pensa que está fazendo? Não lhe dei o direito de falar assim comigo!"

 

"Andrea!", Luciano alcançou os dois meninos, colocando-se entre o irmão e o negro, "O que aconteceu? O que ele fez?"

 

"Nada.", o loiro respondeu secamente, mas o negro ainda olhava-o nos olhos, submisso, mas sem medo. Ele voltou-se para o irmão, "Por que toda essa comoção?"

 

"Antoine está louco da vida, Andrea!", o irmão segurou-o pelo ombro e o fez caminhar de volta para a carruagem, "Ainda tem selvagens por aqui, é muito perigoso sair sozinho no meio dessa mata, meu irmão. E estamos atrasados, Antoine quer ver a esposa e o filho e você fica fugindo por aí? Nessa mata de ninguém?"

 

"Pensei que aqui fosse a terra do meu irmão...", Andrea disse, sem entender direito.

 

"É, mas ele ainda briga muito com os selvagens para que eles sejam expulsos completamente daqui. Não fale nada quando chegarmos ou, no máximo, peça desculpas à Antoine. Ele está bufando de raiva."

 

Andrea parou, com os olhos arregalados, "Mas eu não fiz nada demais! Antoine não pode estar tão bravo assim!"

 

Luciano balançou a cabeça, sorrindo e afagando o cabelo do irmão menor, "Déa, meu querido irmão... quando você se casar vai entender como uma esposa e um filho mudam a cabeça de um homem. Antoine não é mais somente nosso irmão. Agora ele é filho, irmão, esposo e pai... tem outras obrigações na cabeça além de nós."

 

Estranhando essa nova forma de encarar as coisas, Andrea abaixou a cabeça, prestando atenção para onde pisava e permaneceu em silêncio até que alcançassem a carruagem. Seu irmão Antoine não lhe dirigiu a palavra, apenas olhando-o com raiva até que a porta da carruagem fechasse.

 

Andrea não gostou do comportamento do irmão. Sentiu um aperto incômodo no peito pela frieza dele e deixou que sua mãe secasse algumas de suas lágrimas, mesmo que ele negasse que estava chorando. Pensou em Luciano, que estava noivo, por ironia, com uma francesa. Agora não queria mais que o outro irmão também se casasse; se fosse para tratá-lo assim, como Antoine fizera, queria que não se casasse.

 

Sem dar motivos muito específicos, Andrea começou a odiar Larissa e o seu sobrinho. Foram os dois que mudaram seu irmão, afinal de contas. Não importa como, mas eles mudaram Antoine. Antoine que sempre fora tão bom e carinhoso. Que chamava-o de anjo e sempre atendia a tudo que pedia. Andrea queria apostar com qualquer um que se Antoine não tivesse se casado, ele agora estaria com o irmão brincando no mar. Estava com raiva, estava triste.

 

No meio das lágrimas, Andrea voltou a dormir, nos braços da mãe. Ao chegarem na Casa Grande, que tinha duas varandas, uma para a praia e outra para a mata, foi Luciano quem carregou Andrea no colo. Antoine foi direto abraçar a esposa e o filho pequeno, mimando o bebê de um jeito que Andrea, meio acordado meio dormindo, sentiu ciúmes, querendo aqueles carinhos para ele.

 

Sentiu a mão de Luciano fazendo-lhe um cafuné e abraçou o pescoço do irmão, escondendo o rosto no ombro largo dele. Não deixaria que seu outro irmão mudasse, não deixaria.

 

 

 

Andrea acordou de manhã cedo, por causa do frio da noite. Tremia e estava com as pernas e braços frios, mesmo com o lençol. Tomou um banho com água quente, deixando que as negras escovassem suas costas e pescoço, sem nem ralhar com nenhuma delas, por escovar forte demais. Seu escravo, que dormira no chão, ao lado de sua cama, estava apenas com o calção sujo e esgarçado de sempre e, Andrea percebeu, tinha três vergões novos, vermelhos e brilhantes nas costas. Mas, o pacote com o conjunto limpo de roupas, estava no chão, em um cantinho protegido, pronto para ser usado quando necessário.

 

"Andrea?", seu irmão, Antoine, abriu a porta de leve, "Bom, já está acordado... podemos conversar?"

 

Ao ver o irmão, Andrea sentiu novamente aquela dor estranha no peito e, sem dizer nada, deixou-o entrar, virando o rosto e desviando o olhar quando Antoine tentou dar-lhe um beijo de bom-dia.

 

"Ah...", Antoine suspirou, sentando-se na cama e puxando Andrea junto, muito relutante, "Meu irmão... eu preciso me desculpar com você por ontem de noite. Estava muito ansioso para voltar e fiquei bravo à toa, descontando injustamente em você. Deveria ter imaginado que você iria ficar contente ao ver o mar... mas ali e tão perigoso, Andrea... até mesmo escravos morreram nas mãos dos selvagens que ficam ali..."

 

"Você não se preocupou comigo.", queixou-se o menino, "Estava apenas querendo ver sua esposa e filho! Se era tão perigoso, por que não foi me buscar?", ele perguntou, sentindo algumas lágrimas embaçar-lhe a visão, "Meu escravo foi a primeira pessoa a me alcançar, e não meu irmão!"

 

Antoine abraçou o menino, sentindo-se envergonhado de ter deixado seu irmão tão triste, "Alguém tinha que cuidar de nosso pai e nossa mãe, não é? Mandei Luciano logo quando o vi correndo na mata, ele é tão bom irmão quanto eu... e quem poderia culpar um homem de querer ver sua esposa e filho? Mesmo assim... oh, anjo, não chore...", ele limpou o rosto de Andrea, "Homens não devem chorar. Mesmo assim... mesmo assim, meu irmão, eu peço que me desculpe. Deixei meu anjo triste."

 

Depois de ouvir aquelas palavras, Andrea abraçou o irmão fortemente, "Antoine! Diga que sempre irá me amar! Sempre, mesmo com esposa e mais trinta filhos, diga que irá me amar! Prometa que será sempre meu irmão!"

 

Rindo e embalando o irmão no colo, Antoine respondeu, "Mas é claro, Déa... eu prometo que sempre irei te amar."

 

Afastando-se, mas sem deixar de abraçar o irmão, Andrea sorriu e disse, "Então eu te perdôo."

 

Antoine dispensou a escrava e ajudou Andrea a terminar de se vestir. Mais tarde, quando saíram do quarto, ele apresentou o loirinho aos convidados. A fazenda já estava cheia de gente, com várias carruagens e carroças chegando. Todos admiravam a beleza de Andrea e concordavam em dizer que sim, sim, ele era mesmo um anjo.

 

Mas nem todos pensavam que a beleza de Andrea era uma coisa boa. O governador da província, um homem gordo e sujo, que enojou o menino, reclamou que ele era muito magro e parecia doente, comentário que lhe rendeu o desprezo, escondido, de Antoine e Luciano. Outros fazendeiros, homens que prezavam muito os pêlos nos peitos e os músculos nos braços, torceram o nariz para Andrea, cochichando às costas dos irmãos que ele era muito loiro e pequeno.

 

No mais, mesmo pequeno e magro, mesmo loiro e pálido, era consenso geral de que Andrea era muito bonito e lembrava muito os pequenos anjos das pinturas antigas, aos quais a beleza, sempre fora idealizada.

 

Larissa, esposa de Antoine, mimou muito Andrea, dando-lhe sempre os melhores doces e sorrindo maternalmente para ele. Ele já não sentia mais raiva nenhuma da portuguesa, tão alta e robusta como o irmão. Seria impossível não simpatizar com ela, sendo tão parecida com Antoine, mas com o indiscutível estilo de matrona.

 

Porém, no final da tarde, um choro agudo interrompeu a música e a boa conversa. Larissa saiu correndo para dentro da casa e Luciano apareceu, de repente, ao lado de Andrea, pegando-o no colo, para que visse por cima dos adultos, "Parece que nosso sobrinho finalmente acordou, Déa!"

 

Do alto, no colo de Luciano, Andrea pôde ver Larissa e Antoine voltando de dentro da casa, carregando um embrulho de pano no colo, "Mas... não tem ninguém lá! Só estão os dois!", exclamou, fazendo seu irmão rir.

 

"Calma. Deixe Larissa chegar mais perto."

 

E, conforme o casal se aproximava, mais atenção chamava, mais expressões satisfeitas e contentes deixava para trás. Depois de receber as bênçãos do padre e dos pais, Antoine guiou Larissa e o bebê para seus irmãos.

 

"Meus irmãos, vejam o sobrinho de vocês!", Antoine disse sorrindo, "A criança mais linda do mundo!"

 

Larissa aproximou-se e mexeu o tecido branco, revelando um rosto rosado e redondo. Gordo, com os olhos fechados e um monte de cabelo preto no topo da cabeça. Andrea não conseguia entender onde estava a beleza naquele ser e permaneceu de boca aberta e olhos arregalados enquanto Luciano, por outro lado, ria e saudava o irmão.

 

"Lourenço.", alguém disse no meio da confusão.

 

Ainda estranhando que aquele bebê poderia ser lindo, Andrea estendeu a mão para tocar nele, não acreditando no que seus olhos viam. Era muito pequeno. Muito gordo. Muito fedido... como poderia ser considerado bonito? Com certeza, pelo menos, era interessante. E Andrea estava curioso para conhecê-lo. Ainda mais vendo, com grande surpresa, o embrulho gordo apertando o seu dedo e abrindo os olhos, olhando-o diretamente, azul com azul.

 

Foi então que Andrea sorriu e, voltando-se para Luciano, disse, "Ele olhou pra mim!", virou-se para Antoine, "Ele tem olhos azuis, Antoine!", voltou-se novamente para o bebê, sussurrando o que ficou perdido na confusão da festa e que nenhum dos seus irmãos pôde escutar, "Está olhando pra mim... nos meus olhos..."

 

A risada e a alegria invadiram completamente o lugar e Luciano abraçou Andrea, começando a pular e rodopiar com ele no colo, ao som da música portuguesa. Andrea estava feliz, muito feliz. Jogou a cabeça para trás e riu, enquanto seu irmão girava com ele pelo grande salão.

 

Depois que sua mãe deixou o quarto, Andrea sentiu frio. Encolhendo-se debaixo do lençol. Nunca pensara que as noites no litoral pudessem ser tão frias. Ele virou-se na cama e deu de cara com seu escravo, que provavelmente estava com muito mais frio do que ele, mas, estranhamente, não aparentava isso.

 

"Ei... ei!", Andrea o chamou, acordando-o, "Eu estou com frio...", o escravo não se mexeu, apenas observava, sem emoção, "Não fique aí parado! Vá procurar um outro lençol!", ele sussurrou na noite, o som da música no salão, onde a festa ainda continuava, quase silenciando sua voz.

 

O negro sentou-se no chão e olhou em volta, depois levantou-se e dirigiu-se até uma das cômodas, procurando por alguma coisa que pudesse esquentar Andrea, que ficou observando seus movimentos da cama. Achando uma pequena coberta, fina, ele voltou para junto do loirinho, estendendo o tecido sobre ele. Quando ajeitou o lençol e a coberta sob o pescoço de Andrea este segurou-lhe a mão.

 

"Como você consegue?", ele perguntou, apertando a mão do negro na sua, vendo as unhas corroídas e sujas e várias pequenas e grandes cicatrizes por toda a pele, "Como consegue ficar quente?", seus dedos percorreram a palma branca, onde a pele era dura e seca, como uma casca, por causa dos calos.

 

O negro não respondeu, ajoelhando-se ao lado da cama e deixando que a mão fria e pálida de Andrea explorasse a sua. Era pequena, de um rosado pálido, macia e cheirava à água de rosas, o perfume de sua mãe. As pontas dos dedos mais frias que o resto de sua mão. As unhas limpas e cortadas rentes, com um formato uniforme, curvo. Era uma mão que cabia tranqüilamente dentro da sua palma. Os dois meninos sabiam perfeitamente que, se o negro quisesse, poderia quebrar os dedos de Andrea facilmente, mas, também sabiam, que não importava a força física, o branco era o mais forte, naquele momento, dentro daquela casa.

 

Bocejando de sono, Andrea disse, já com os olhos fechados, "Se você fosse branco ou, pelo menos, limpo, eu deixaria que se deitasse aqui comigo...", encolhendo-se debaixo da coberta, Andrea trouxe a mão do negro para junto do peito dele, querendo que aquele calor passasse para ele, "É muito frio aqui..."

 

 

 

 

A festa durou três dias. Com muita bebida, muita comida e muita gente. Quando apenas os parentes de Antoine e Larissa restaram na casa, foi permitido à Andrea entrar no mar. Pois tudo estaria mais calmo e poderiam manter um olho nele, se acontecesse alguma coisa.

 

O dia estava claro, sem nenhuma nuvem no céu e Antoine mandara os negros montarem uma tenda na areia. Larissa e o bebê, Luciano, Andrea e a mãe ficaram na praia. Mas só Luciano e Andrea entraram no mar.

 

"Pronto?", Luciano perguntou, olhando para o irmão. Vestia uma calça azul cortada no meio da canela, uma blusa regata branca e um lenço preto amarrado na cabeça, segurando o cabelo do vento.

 

"Pronto!", Andrea confirmou, respirando fundo. Usava um conjunto simples de brincar branco, de algodão. O chapéu de palha que deveria usar estava esquecido no colo da mãe.

 

"Então... 3, 2, 1... Já!"

 

Os dois irmãos dispararam, correndo em direção ao mar. Luciano estava na frente claro, mas diminuiu as passadas, deixando que Andrea ficasse ao seu lado. Os dois alcançaram juntos a água e mergulharam. Segundos depois, Luciano reaparecia com Andrea nos braços, os dois ofegantes e sorridentes. Colocando o irmão nas costas, Luciano foi nadando cada vez mais para o fundo. Até que a água alcançasse o seu peito. O mar estava calmo, apenas com algumas marolas.

 

"Mais pro fundo! Mais!!", Andrea pediu.

 

"Não... ou nós dois nos afogamos!", ele segurou o irmão nos braços, na frente dele, "Agora, você sabe nadar no rio, não sabe?", Andrea confirmou apesar de estar segurando firmemente nos braços morenos do irmão, "Aqui é a mesma coisa, só que você precisa prestar atenção. Os rios lá da fazenda mudam pouco de profundidade e, qualquer coisa, é só nadar para a margem. Mas aqui tem a maré e ela puxa você pra lá.", ele apontou para a linha do horizonte, onde só podia se ver mar, "A maré pode ser mais forte que um boi, Andrea, preste atenção. Não se afaste de mim e procure nadar tomando como referência a tenda na areia. Se você ver a tenda muito longe, nade de volta, ou grite."

 

"Você não vai ficar aqui comigo?", Andrea perguntou num tom choroso.

 

"Vou, mas por pouco tempo, depois, peça para um escravo que saiba nadar ficar ao seu lado, mas na margem.", Luciano sorriu para o irmão, "Está pronto? Posso te soltar?"

 

"Pode!"

 

Andrea mergulhou e reapareceu, sozinho, sorrindo travesso.

 

Quando Luciano teve que ir embora, Andrea sentou na areia, dentro da água, com pequenas ondas batendo na sua cintura. Ele olhou para seu escravo e jogou água nele, "Você sabe nadar?", o negro demorou a responder, recebendo um olhar desconfiado de Andrea quando ele acenou que sim, apesar disso ele disse, "Bem, então, se sabe nadar, vamos entrar!"

 

O negro hesitou um instante, mas entrou no mar, seu rosto sem emoção alguma, até que a água alcançou sua cintura. Ele mordeu o volumoso lábio, mas seus olhos continuaram os mesmos.

 

"O que foi? Se não sabe nadar não fique aqui!", Andrea disse impaciente, mas o negro continuou seguindo-o, sem dizer nada. Ele o olhou, descrente, "Você sabe mesmo nadar?"

 

Como resposta, o negro mergulhou e nadou até onde Andrea estava, reaparecendo com todo o orgulho e honra que lhe seria possível, na posição de escravo. Andrea sorriu, aprovando a atitude dele, mas não reparando nos músculos tensos do tronco do escravo, nos vergões vermelhos das suas costas, ainda abertos, ardendo com o sal do mar.

 

"Bom. Vamos...", ele foi interrompido com um grito agudo, selvagem.

 

Na praia, sua mãe ergueu-se da cadeira de vime, chamando por ele desesperadamente, enquanto sua cunhada corria com o bebê no colo para dentro da Casa Grande. Um pouco mais de dois quilômetros distante da tenda, um bando de selvagens, corriam e gritavam, com lanças e flechas na mão. Saindo da Casa Grande, estava um grupo de homens armados com trabucos, liderados por Antoine e um outro mulato, acompanhados de outros negros.

 

Andrea e o negro nadaram o mais rápido que puderam para a praia, correndo ao encontro da sua mãe e dos outros escravos. A mãe de Andrea segurou-o pela mão e correu na direção da casa, mas, viu que a casa já estava tomada pela batalha e recuou, voltando para a areia e correndo na direção contrária dos selvagens.

 

Luciano apareceu na frente deles, com um trabuco na mão, dando ordens para os escravos, "Mãe, a senzala está vazia! Eles não vão atacar lá, é seguro! Corra!", ele empurrou a mãe e o irmão para o meio do mato, nenhum dos dois sequer sabia onde a senzala ficava, "Vai! Vai! Vai!!", ele virou-se, apontou e soltou um tiro. Voltou mais uma vez para a mãe quando seu olhar pousou no negro mudo de Andrea. Ele segurou o menino pelo braço, começando a levá-lo junto quando teve uma idéia, parou e disse, ameaçador, por entre os dentes, "Fique do lado de Andrea e proteja ele com a sua vida, entendeu? Não saia do lado dele! Se ele quiser vir pra cá, prenda-o, amarre-o, mas não deixe que ele se machuque, entendeu? Se alguma coisa acontecer com ele, você vai pagar em dobro!", jogando o menino no chão, sem mais uma palavra, Luciano correu, sumindo da vista dos três.

 

Assustado e com medo, Andrea correu ao lado da mãe, sem rumo, seu escravo na frente, procurando pela grande construção de madeira, retangular e mal-feita, que era a senzala. Eles a acharam, correndo para dentro do grande quarto, com cheiro de mofo e mijo, nauseando Andrea, que tapou o nariz e encolheu-se no meio de uma palha fedida. Mas, infelizmente, eles foram vistos.

 

Mal entraram na senzala, dois selvagens armados gritaram, correndo atrás deles. O negro, pensando rápido, empurrou Andrea e a mãe na palha, atrás de uma das pilastras que seguravam o teto, catou uma corrente enferrujada do chão e rodou-a no ar, acertando a cabeça do primeiro. O sangue espirrou, manchando de vermelho a terra batida, quase acertando o menino branco, que recuou, com medo e nojo.

 

Um segundo selvagem pulou por uma das poucas janelas, assustando a mãe de Andrea que gritou, estridente, alertando o negro. Ele desviou da lança, se jogando no chão com um gingado que Andrea nunca vira antes e ergueu a perna, acertando a lateral do tronco do índio, agachando-se novamente, como uma mola, seu corpo escapando de um golpe, com uma cambalhota.

 

Mesmo fascinado, Andrea continuava com muito medo. Agora eram dois índios contra um negro e Andrea arrastava-se no chão, afastando-se cada vez mais, sem perceber, até mesmo de sua mãe, que estava paralisada de medo, no mesmo local que fora jogada, tremendo e gemendo. Ele estava sujo, no meio da senzala, com apenas um negro para defendê-lo e sem seus irmãos, sem poder fazer nada.

 

Andrea bateu as costas contra a parede dos fundos da senzala, notando, com desprazer, que sua mão estava úmida. E, de alguma forma, ele sabia que não era por causa da sua roupa, molhada com água do mar. Ele estava se arrastando entre as secreções dos negros. Antes que pudesse ter qualquer reação de nojo, um movimento o assustou. Na janela, acima de sua cabeça, um selvagem pulou, e saiu andando silenciosamente, sem o perceber colado à parede, para atacar sua mãe.

 

Desesperado, Andrea procurou no chão, no meio da palha seca e fedida, das secreções e pedaços de comida estragada algo, qualquer coisa, para atacar. Sentia falta de sua faca. Seu escravo tinha derrubado um índio mas estava ferido e ainda lutava com outro! E sua mãe estava paralisada, sozinha.

 

Exasperado, pois suas mãos não encontraram nada, Andrea correu na direção do índio, jogando-se contra ele, surpreendendo-o com seu peso. Ao se ver no chão, sobre o corpo do índio, melado com alguma gosma colorida, Andrea avistou uma bola de ferro, presa a uma corrente, na parede.

 

Sem perder tempo, ele passou por cima do índio, seu pé pisando no peito e cabelo dele, alcançando a bola e segurando-a como se fosse a própria vida nos braços. A bola era pesada, fria, suja, mas Andrea a abraçou e, num esforço tremendo, que deixou seu rosto vermelho, ele lançou-a na direção do selvagem, ainda caído no chão.

 

A corrente era grande e bola rolou depois, na sua direção, parando, encostando-se no seu joelho. Vermelha, não de ferrugem, não de sujeira.

 

Andrea gritou. Encolheu-se e foi afastando-se o máximo que pôde, arrastando-se com as mãos e os pés, da cena que ele mesmo criou. Sentiu lágrimas embaçando sua visão e uma sombra tirando a claridade da sua frente. Ele enlouqueceu de medo e se debateu contra os braços que tentavam agarrá-lo. Chorando, arranhando, gritando até ficar rouco, desistindo e se encolhendo, se escondendo dentro do abraço de quem quer que fosse.

 

As mãos que o seguravam não eram gentis, eram estúpidas, inexperientes, e o apertavam com força desnecessária. Grossas, como lixas, grandes como patas de cachorro. Mas, Andrea soube no mesmo instante de quem eram as mãos que estavam sobre ele apenas por um único detalhe: eram quentes. A inconsciência tomou conta dele no instante seguinte, e ele deu graças a Deus por isso.

 

 

 

Continua...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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