Título: Abolição - prólogo

Autora: Umi no Kitsune ([email protected])

Claimer: Abolição e suas personagens são propriedade de Adriana Adurens / Umi no Kitsune.

Avisos: Se você gostou da fic e a quer em seu site, peça permissão.

 

 

 

 

 

No Brasil colonial, quando um filho de senhor de engenho completava oito anos, ele ganhava dois presentes: uma pequena faca e um negro. Andrea não foi exceção. Filho de pai português e mãe francesa, era o filho mais moço, herdeiro de parte, mesmo que pequena, das terras de cana do pai.

 

Sendo o mais novo, foi o mais mimado. Tanto pelos pais quanto pelos dois irmãos mais velhos, que admiravam e atendiam a qualquer pedido da criança. Seus dois irmãos, Antoine e Luciano, eram muito parecidos com o pai, morenos e cheios de pêlo, altos e robustos. Mas Andrea, ao contrário, tinha os cabelos loiros e finos, os olhos azuis da mãe, era pequeno e mais fraco até que a maioria dos filhos de escravos.

 

Mesmo assim, desde pequeno, sempre fora adorado pela família. Nascera muito depois de seus irmãos, Antoine tinha 17 anos e Luciano 14 anos quando sua mãe ficara grávida pela terceira vez. Crescera cheios de cuidados e mimos, tornando-se uma criança impossível, que não conheceu nenhuma frustração, achando que tudo o que quisesse conseguiria.

 

A faca era uma obra de arte. A lâmina brilhante, afiada, pontiaguda como um alfinete de senhora. O cabo era feito a partir de um dente de javali, meio curvo, com detalhes em prata. O negro era uma criança, da sua idade, mas uma cabeça maior que ele, com os dedos grossos de trabalhar na terra. Fora escolhido porque era forte e tinha todos os dentes, brancos e bem enfileirados. E também nunca tinha pego piolhos. A mãe ficara feliz de saber que o filho serviria o sinhozinho, comeria melhor e seria menos açoitado na Casa Grande, pelo menos.

 

Mas, a primeira coisa que Andrea fez ao ganhar seus presentes, foi cortar o braço do negro.

 

"Pronto!", ele disse feliz, recolhendo a faca que pingava com sangue. O neguinho recuou um passo e tapou com a outra mão o ferimento, mas não disse nada, "Agora você foi marcado.", Andrea sorriu satisfeito e virou-se para a família, que assistia a tudo com os olhos arregalados, "Agora ele é meu, pai! De verdade! Agora tem minha marca!", e levantou, sorridente, a faca manchada de sangue para o pai.

 

Antoine, o filho mais velho, foi o primeiro a se recuperar, rindo nervoso, "Muito bem, Déa...", ele deu dois tapinhas nas costas do pai, "Ele já sabe como tratar o negro, pai!"

 

Antônio, o pai, como se saindo de um transe, riu, respondendo rapidamente, "É verdade! É verdade!", mas perdeu a pose logo, "Mas, filho... agora que o escravo é seu... tire-o daqui, sim? Ele está sujando a sala de sangue!", e virou-se para a esposa, que segurava um lenço na boca, "Sua mãe é uma mulher sensível, veja, já está passando mal. Tire ele daqui, vamos."

 

"Sim, pai!", feliz, Andrea virou-se para o negro, que ainda tentava conter o sangue que escorria pelo ferimento, e fez um gesto para que ele o seguisse, "Vamos lá fora."

 

Chegando ao pátio de trás do casarão, Andrea lavou a faca nova em um tonel de água, admirando-a depois ao sol enquanto esperava que secasse naturalmente, vendo o próprio reflexo na lâmina.

 

Depois, virou-se para o negro, "Você não pode mais entrar em casa assim.", ele examinou o escravo de cima a baixo e aproximou-se do ferimento, ainda tapado pela mão, mas que mesmo assim, ainda escorria muito sangue. Andrea levantou o olhar para os olhos negros do escravo, "Você é tão negro que mal dá pra ver o sangue."

 

O escravo ficou calado.

 

Andrea sorriu, "Bom! Você não tem medo de mim!", e, ainda sorrindo inocentemente, colocou um dedo fino e pálido entre os negros e grossos do escravo, sentindo o ferimento e apertando-o contra a carne. O escravo recuou, retirando o seu braço de perto de Andrea com violência, seus olhos arregalados de espanto.

 

Franzindo o cenho, Andrea se aproximou de novo, examinando a face do negro, "Você não tem língua? Vou dizer ao meu pai que quero outro escravo se você não tiver língua."

 

Com o dedo manchado de sangue, ele segurou o queixo do negro, como se segurasse um cachorro, e forçou-o a abrir a boca, olhando os dentes e a língua.

 

"Não... você tem língua.", ele falou mais para si mesmo do que para o negro. Depois, soltou o menino e perguntou, "Por que não gritou?", o negro não respondeu, apenas abaixou a cabeça, seu sangue ainda escorrendo por entre seus dedos, "Vamos, responda! Eu vou trocar você se não me responder!"

 

"... não posso...", o negro respondeu baixinho, encolhendo mais a cabeça.

 

"Não pode? Não pode falar?", ao aceno afirmativo do negro, Andrea fez uma cara de escárnio, "Ora, que bobagem!", ele deu um passo à frente e bateu com o dedo vermelho de sangue na testa do negro, "Não seja burro! Você pode ser escravo, mas se foi escolhido para mim não deve ser tão burro! Fale quando eu mandar ou eu vou te trocar.", depois, voltando a sorrir, Andrea disse, "Lave o seu braço. E a cabeça, as mãos e os pés também. Você tem que estar limpo se eu quiser você dentro do meu quarto."

 

Ele virou-se de costas, olhando as terras do pai enquanto o negro obedecia suas ordens, lavando-se no tonel de água.

 

"Eu não me importo com a sala. Mas não quero que meu quarto fique cheirando a negro. Muito menos sangue de negro...", e, como se percebesse seu dedo sujo, ele fez uma careta de nojo e correu para o lado do escravo, enfiando a mão na água, "Ah, você sujou a água toda!", ele retirou a mão em concha, a água vermelha escorrendo pelos seus dedos, "Jogue essa água fora, não dá pra fazer mais nada com ela."

 

O menino negro retirou suas mãos e tentou levantar o tonel de água, muito maior que ele. Ao fazer esforço, seu ferimento se abriu um pouco mais e uma quantidade maior de sangue escorreu. Ele fez uma careta de dor e, não agüentando mais, deixou o tonel cair no chão, molhando a terra seca de vermelho.

 

"Olha o que fez!", Andrea acusou, afastando-se da água que escorria para o seu lado. Mas, ao invés reclamar mais, ele se aproximou e ficou olhando admirado o sangue escorrer brilhante pela pele negra, "Bonito. O sangue é uma coisa bonita...", olhando nos olhos do menino, ele ordenou, "Vamos para o rio. Lá, pelo menos, você se limpa sem sujar nada.", ele olhou em volta e gritou, "Lobo! Lobo!"

 

Um cachorro enorme, com pelo marrom e rabo comprido, peludo e um pouco gordo, veio correndo na direção de Andrea. Ao chegar perto dos dois meninos, ele se retesou e mostrou os dentes, rosnando para o negro.

 

"Não, Lobo, não!", Andrea correu para o cachorro, afagando-lhe atrás da orelha, "Ele é meu escravo. Um pouco burro, mas é meu. Quando eu precisar eu mando você atacá-lo, está bem assim?", o cachorro ficou mais calmo nas mãos dele e balançou o rabo, lambendo o dedo ainda manchando de sangue.

 

Lobo acompanhou-os até o rio. Andrea ficou sentado debaixo da sombra de uma árvore, fazendo carinho no cão com uma mão e admirando a faca com a outra enquanto o negro se agachava na margem e tentava limpar o braço, sem muito sucesso, pois o corte foi muito profundo e o sangue resistia em parar de escorrer.

 

"Faça o seguinte.", disse Andrea depois de alguns minutos em silêncio, apenas escutando o som da água sendo mexida, "Mergulhe no rio, limpe-se e depois fale a uma das negras da cozinha que eu mandei colocar um pano nisso aí.", ele olhou o negro por um instante, acusador, "Você sangra demais.", e depois, voltou a admirar a faca.

 

 

 

Continua...

 

 

 

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