C A D E R N O S  D O  M E C

20

Reformando o acesso e a permanência na universidade

Ronaldo Mota*

Um dos desafios da Reforma do Ensino Superior Brasileiro é a questão do acesso e da permanência. Esse é um tema que se interliga com todos os demais – missão da educação superior; autonomia; financiamento; gestão e estrutura; programas e conteúdos; e avaliação –, além de estabelecer um vínculo nítido e necessário com os outros níveis da Educação, vínculo esse mediado pela interdependência lógica com estudantes egressos de um sistema anterior, ou seja, o nível médio.

Primeiramente, há de se estabelecer que a Educação não deve ser entendida apenas no campo do direito, uma vez que ela é, reconhecidamente, determinante na construção do desenvolvimento social e econômico de um nação soberana. Mas é preciso refletir com mais profundidade sobre a aplicação desse direito fundamental em uma sociedade desigual e profundamente estratificada como a nossa. É urgente que o Estado estabeleça uma política de inclusão inserida no processo de democratização do acesso das camadas menos privilegiadas ao ensino superior e crie mecanismos que garantam a permanência desses alunos na universidade.

O Estado brasileiro, por meio de várias iniciativas, tem buscado o que chamaríamos de expansão com qualidade. Entretanto, o crescimento tem ocorrido, muitas vezes, com prejuízo evidente da qualidade, ou seja, tem-se priorizado a expansão mesmo quando as garantias de qualidade são, no mínimo, bastante frouxas.

O Plano Nacional de Educação (PNE), elaborado para o decênio 2001-2010, determina que ao final do período sejam ofertadas matrículas em cursos superiores correspondentes a 30% dos jovens entre 18 e 24 anos. Considerando que este ano temos ao redor de 3,5 milhões de universitários, seria necessário dobrar esta população em seis anos para atingir essa meta. Isso considerando projeções populacionais defensáveis e levando-se em conta que em torno de 40% dos atuais universitários têm acima de 24 anos.

O PNE responde à legítima pressão pela expansão, decorrente sobretudo dos formandos do ensino médio, que eram três milhões em 1994 e triplicaram em 2000. Em 1991 registravam- se 600 mil concluintes para 500 mil vagas universitárias ofertadas, numa relação formandos/vaga de 1,2. Em 2000 essa relação já era de 1,9 e as projeções indicam 2,4 concluintes/ vaga para 2004.

Motivado por tal pressão e disposto a abrir a educação superior ao mercado, o Estado brasileiro disparou um processo de expansão com início bem demarcado: o ano de 1995. O Sistema Federal de Ensino Superior contava então com 741 Instituições de Ensino Superior, sendo 57 públicas e 684 privadas, ou seja, comunitárias, confessionais e particulares. Havia 1.420.000 universitários assim distribuídos: 370.000 nas públicas federais e 1.050.000 nas privadas. Seis anos após, em 2001, as 741 instituições privadas transformaram-se em 1.258 (aumento de 76%) e as matrículas cresceram impressionantes 129%. Nesse período, o número de instituições públicas não se alterou praticamente e o crescimento de matrículas foi somente de 38%, ou seja, o sistema público cresceu três vezes menos que o privado.

O papel do

Estado, como

regulador do

sistema federal,

esteve francamente

enfraquecido

 

Mais impressionante ainda foi que no ano de 2002 foram autorizadas outras 234 novas instituições, implicando um crescimento anual de 19%. O ano de 2003 demonstra mudança significativa no ritmo da expansão: possivelmente como resultado da aplicação de critérios mais rígidos, foram criados apenas 118 novos estabelecimentos, com um crescimento de 8% – menos da metade do ano anterior. Ainda estão sendo analisados mais de 800 pedidos de credenciamento de novas instituições.                     Além disso, o processo expansionista do ensino superior se caracterizou por uma forte concentração, seja de caráter regional, seja de áreas de conhecimento. Senão vejamos: a região Nordeste, com 29% da população, tem apenas 13% das instituições e 12% da oferta de vagas. Por sua vez, o Sudeste, com 43% da população, contribui com 56% das instituições e 58% da oferta de vagas. Se considerarmos somente a rede privada, os números são ainda mais contrastantes: no Nordeste temos 11% das instituições e 7% da oferta de vagas, ao passo que no Sudeste concentram-se 60% das instituições privadas e 64% da oferta de vagas.

Um caso particularmente notável é o do Distrito Federal, com quase meia centena de instituições privadas e uma única pública, a UnB. Das vagas oferecidas, 86% são particulares – e, assim mesmo, sem contar com as comunitárias e confessionais – contra 12% de vagas públicas.

Se analisarmos as possibilidades de acesso à pós-graduação no que diz respeito às regiões do País, os números refletindo a concentração regional são ainda mais alarmantes. Por exemplo, os Cursos de Doutoramento têm 80% de suas matrículas no Sudeste e, destes, 58% em apenas duas universidades (USP e Unicamp). Se somarmos o Sudeste com o Sul, teremos 92% das vagas nessas duas

regiões do País.

A concentração por área de conhecimento também merece destaque e está diretamente associada à possibilidade de acesso. A área de Ciências Sociais Aplicadas – Administração, Direito e Contabilidade – representa hoje no País algo em torno de 41% das matrículas. Somada com a área da educação, que responde por mais 22%, temos 63% do “mercado”. Evidentemente tal concentração está associada à política expansionista e tem a marca da escolha guiada pelo fato de que nessas áreas os investimentos em infra-estrutura e equipamentos são menores, numa equação perversa que visa à maximização dos lucros.

A única interpretação possível para esses números é que o papel do Estado, como regulador do sistema federal, esteve francamente enfraquecido, permitindo que o mercado operasse na sua lógica mais imediatista, agindo muitas vezes, ainda que nem sempre, em detrimento de qualquer conteúdo acadêmico ou preocupação em atender a demandas sociais ou a critérios de qualidade essenciais à formação dos futuros profissionais.

Com relação ao processo de evasão nos cursos superiores, os números do Inep não demonstram um processo de evasão acentuado. Ou seja, em torno de 60% dos alunos de graduação concluem seus cursos no tempo razoável. No entanto, nossas experiências  pessoais em salas de aula evidenciam que, desses 40% que evadem ou retardam demasiadamente, boa parte tem motivações de ordem econômica, que variam da necessidade de trabalho a dificuldades de acompanhamento decorrentes de fraca formação no ensino médio. O processo de evasão pode e deve ser compensado pela ocupação das vagas ociosas e por políticas assistenciais e acadêmicas adequadas.

No campo das políticas inclusivas, é papel do Governo tratar da educação especial em todos os níveis de ensino, com medidas como a formação de equipes de profissionais – professores especializados, psicopedagogos, terapeutas, fisioterapeutas e fonoaudiólogos – e a construção de edifícios com acessos apropriados para portadores de deficiências.

A definição e a implantação de medidas positivas que promovam o acesso de grupos étnicos aos bancos universitários têm se acentuado no período recente, abrindo importante discussão sobre o tema. A pressão por tratamento diferenciado aos formandos do ensino médio provenientes de escolas públicas tem também resultado em reflexões que buscam o melhor entendimento dos problemas reais, para chegar às melhores soluções.

Muito provavelmente, a melhor opção entre as modalidades de políticas compensatórias propostas e em execução é o somatório de todas elas em caráter experimental. Ou seja, neste momento, seria mais recomendável que diferentes instituições promovessem diferentes políticas, levando em conta aspectos regionais, do que a adoção de uma política compensatória em todo o território nacional, única e aplicada compulsoriamente a todos os estabelecimentos. A partir de um rico conjunto de programas experimentais, será possível que, a médio prazo, sejam analisadas as respectivas eficiências e eficácias, a fim de que no futuro se possa adotar uma política global que leve em conta a especificidade de cada um desses segmentos e as realidades regionais envolvidas. O ideal seria que tais programas experimentais gerassem acréscimo de vagas, garantindo assim a sua legalidade no caso de interpelações judiciais possíveis.

No que diz respeito à diversidade multicultural e étnica, faz-se necessária uma readequação curricular para abrigar, na educação superior, as culturas de mais de 220 etnias indígenas, que mantêm 180 línguas vivas e um conjunto fantástico de conhecimentos tradicionais, formando um patrimônio inestimável. Distinguem-se, no campo das inovações curriculares, políticas de afirmação para negros, indígenas, trabalhadores e trabalhadoras do campo. O tema do acesso e permanência se coloca como estratégico para a reparação republicana do reconhecimento como cidadãos dos excluídos – os historicamente esquecidos e discriminados.

Outro componente relacionado ao acesso é a implementação de educação à distância com qualidade, sobretudo em função das dimensões continentais do País e de suas gigantescas desigualdades. Sabemos, no entanto, que há ainda um longo caminho a percorrer até que tenhamos possibilidade de ações em grande escala e padrão de qualidade para essa modalidade de ensino.

No entanto, entre todas as alternativas de facilitação do acesso de todas as classes ao ensino superior, nenhuma delas é mais importante ou eficiente do que a melhoria significativa do ensino básico na rede pública. E entre todas as possibilidades de melhoria do ensino médio – assim como do fundamental e infantil – nenhuma é mais urgente que a melhoria da formação dos professores do ensino básico. Não há missão mais desafiadora nem tarefa mais premente e necessária do que promover a valorização do trabalho docente qualificado. A reforma do ensino superior só será eficiente se ao ensino básico for dedicado o mesmo nível de preocupação e ação.

 

Seria mais recomendável que

diferentes instituições promovessem

diferentes políticas, levando

em conta aspectos regionais, do

que a adoção de uma política

compensatória em todo o

território nacional

 

Dos maiores desafios, porém, tanto para a rede pública quanto para a privada, é conseguir despertar nos estudantes o desejo constante de ir além, de completar sua formação e alcançar o nível subseqüente.

Há, sem sombra de dúvida, uma grave crise na educação brasileira, como um todo, que afeta diretamente as  instituições de ensino superior. De fato, é impossível falar em qualidade do ensino superior para atendimento de grandes massas quando nosso ensino médio ocupa hoje um dos últimos lugares no aprendizado de Ciências e Matemática, mesmo se comparado com países periféricos, e quando parte significativa dos alunos formandos no ensino fundamental demonstra dificuldades elementares de  leitura.

Por outro lado, no nosso país há instituições superiores de alto nível, que não precisam de reforma alguma para cumprir seus compromissos. A tarefa hercúlea – porém improrrogável e intransferível – é fazer com que a Educação e, em particular, o ensino superior possam ser oferecidos em

grande escala, atendendo a anseios de parcelas expressivas da sociedade e conjugando qualidade com inclusão social. Não podemos continuar com políticas que discriminam pelo berço, sem levar em conta as aptidões. É nossa missão acabar, ou pelo menos minimizar, nossa longa história de desperdício de talentos.

 

* Secretário Executivo do Conselho Nacional de

Educação. Professor da UFSM. Pós-doutorado na

University of British Columbia – Canadá e na

University of Utah – EUA. Autor de Método

Científico e Fronteiras do Conhecimento com R.

Flores, L. Sefel e E. Loreto.

 

Acesso e

Permanência/

Conteúdos e

Programas

• O acesso se fará por processo seletivo que

deverá constar do PDI de cada instituição,

devendo levar em consideração os resultados

do Enem, tornando-o obrigatório para

todos os concluintes do ensino médio.

Pretende-se, assim, que o ensino médio

 

Oscilações de interesse mercadológico e do Estado não devem interferir na autonomia

48

cumpra os conteúdos de suas diretrizes

curriculares, de acordo com as políticas

traçadas para este segmento do ensino. A

melhoria progressiva da qualidade do ensino

médio público é, por certo, a mais eficiente

política de inclusão social no que diz

respeito ao acesso à educação superior.

• Aprofundar a política de cotas nas IFES,

priorizando alunos provenientes do sistema

público e, entre eles, via cotas étnicas,

em acordo com os índices regionais

do IBGE. Além do mínimo de 50% por

processo seletivo para alunos que cursaram

integralmente o ensino médio em

escolas públicas, é preciso que gradativamente

seja aplicado o mesmo critério por

curso (por exemplo, começando em mínimo

de 10%, crescendo 10% ao ano, até

atingir 50%). Igualmente, promover uma

discussão em que possam ser abordados

novos elementos, tais como um diferencial

máximo entre as notas dos ingressos via

cotas e os demais, evitando discrepâncias

maiores. Da mesma forma, tal diferencial

pode ser pensado como decrescente ao

longo dos anos (por exemplo, 30% no

primeiro ano de aplicação, 25% no segundo

ano, 20% no terceiro, 15% no quarto e

10% nos demais), dado que o ensino

médio público deverá gradativamente ser

recuperado.

• A nova Lei Orgânica deverá considerar a

implementação nas IFES de formas de

apoio material aos estudantes carentes com

bom rendimento escolar comprovado,

como bolsas de trabalho, implantação do

Programa de Primeiro Emprego Acadêmico,

bem como a ampliação dos cursos

noturnos, como ações fundamentais para

permitir a presença de estudantes que não

disponham dos recursos suficientes, garantindo

a sua permanência pelo tempo

necessário para a sua adequada formação.

• Aflexibilização dos currículos dos cursos

de graduação será estimulada de modo a

permitir aos estudantes uma experiência de

estudos mais rica e diversificada. Serão

favorecidas as atividades extracurriculares

e a implantação de procedimentos que

favoreçam a mobilidade entre diferentes

programas de formação.

• Propomos uma ampla discussão para que as

universidades possam organizar-se de

modo a oferecer um ciclo inicial de formação,

com duração mínima de dois anos,

após o qual o estudante receberá um título

próprio, Estudos Universitários Gerais, sem

valor de habilitação, correspondente à formação

básica em nível superior. A introdução

de tal modalidade deverá ser conjugada

com a melhoria do ensino médio,

propiciando a entrada nos cursos superiores

de estudantes em níveis melhores que os

atuais. Caberá a cada universidade definir

se nessa etapa também deverão simultaneamente

constar disciplinas específicas de

cada curso. Assim, os primeiros anos do

currículo acadêmico deverão também se

constituir como elementos de um programa

mais amplo, durante os quais são aprimoradas,

sob orientação tutorial, as capacidades

de compreensão e de expressão escrita

e oral, conceitos de ciências naturais,

práticas esportivas e artísticas, visando ao

pleno desenvolvimento da capacidade crítica

e criativa necessária à formação de

cidadãos e profissionais que participarão do

projeto de futuro da Nação. A flexibilidade

curricular nos anos subseqüentes, nos termos

preconizados pela LDB, será fator primordial

para que o estudante possa seguir

sua formação em rumos que otimizem o

seu aprendizado dentro dos limites de seu

interesse, fator básico para a conclusão do

curso.

• Discutir as bases preliminares em direção

a um processo de integração disciplinar,

em consonância com as melhores instituições

do mundo, que promova no futuro

a possibilidade de mobilidade global entre

os programas de graduação e pós-graduação.

Hosted by www.Geocities.ws

1