Um gesto que não é só um gesto.

 

 

 

Certos homens dão-se mais liberdades com os próprios genitais, em público, do que as mulheres. Tocam-se sem pudor, sentam-se de pernas abertas, ajeitam apetrechos dentro das cuecas, insultam as pessoas enchendo a mão e dizendo aqui pra você, ó. Já as mulheres saem das piscinas de pernas juntinhas, sentam-se de joelhos apertados, vão ao toalete só para acertar uma calcinha “que entrou”. Ladies.

Entre os gestos rudes de alguns homens não muito gentlemen está o de coçar o sexo. Na verdade é uma carícia inconsciente, que Freud explicaria se tivesse vivido algum tempo do lado de baixo do Equador, mas que todos disfarçam, simulando o ato de coçar. Como acontece com muitos gestos humanos, este também revela um modo de ser, uma personalidade, um estilo. Se algum amigo do leitor é dado a esta prática, de modo distraído ou não, e não consegue evitá-la, que ele peno menos saiba que corre o risco de ser interpretado. A variedade de estilos existe, a interpretação é livre.

O tipo clássico segura o equipamento com toda a mão e o comprime ostensivamente algumas vezes, bombando, tchof, tchof, tchof. Passa a imagem de indiscreto e autoconfiante.

Alguns passam apenas a mão por cima, num rápido toque, como para certificar-se de que ele ainda está lá. Aparentam ser reprimidos e inseguros.

Outros utilizam somente o indicador e o polegar, em pinça, e dão uma sacudidela, cordialmente, como quem pega na bochecha de um neném. Parecem bonachões, gente boa.

Existe um tipo parecido com o clássico, mas que não pode ser confundido com ele. É aquele indiscreto que afasta as pernas, procurando ganhar mais espaço ou ventilação, e ajeita – aí é que está a diferença – como se arrumasse as almofadas de um sofá, para arejá-las. Dá a idéia de pessoa espaçosa e desagradável.

Há outro tipo que tem alguma semelhança com este, mas é diferente. A manipulação dele só é possível com a cueca samba-canção. Começa igual, abrindo as pernas. Depois empalma o aparelho com a mão toda, em concha, e, em vez de bombar ou ajeitar, ele sopesa, com indisfarçável orgulho. Passa uma imagem de arrogância.

Tem um tipo que age sentado, e é bastante constrangedor porque fica muito visível. O gesto, entretanto, é delicado: ele usa só um dedo, o indicador, para arrumar e alisar – como quem acaricia um gatinho, um passarinho doente. Uma variante mais constrangedora ainda é o que usa a braguilha de botões e introduz o dedo na abertura. Quem vê pensa: é um pervertido.

Outro tipo sentado é aquele que cochila e fica com a mão ali, tomando conta, dando às vezes uma involuntária ou distraída apertadinha, guardião sonolento. Dá a idéia de seguro, sovina, cauteloso.

Também acariciador de um dedo só, mas de pé, é o que se coça com o dedo médio, o qual vai direto ao ponto e ali aplica o toque com a vibração rápida e intensa de um beija-flor. Dá a impressão de ansioso, de que talvez ejacule rápido demais.

Há os que esfregam as virilhas, com sofreguidão, escandalosos, impossível parar. Geralmente é uma micose. No início dos anos 70, um destes jornalistas em São Paulo, foi detido pela polícia na Rua Augusta e levado para o 4º Distrito, confundido com um masturbador compulsivo. Eis o que realmente são: descuidados, faltos de higiene.

Um tipo curioso, e mais raro, é aquele que vai indo, vai indo, e quando chega perto muda a aparência e o gesto, finge que está tirando um cisco da frente das calças, e bate bem lá com as costas dos dedos, umas três vezes. Quando não há testemunhas, age como o tipo clássico. A imagem que passa é de falso, fingido.

Os chamados pianistas usam calças bem apertadas, geralmente jeans, levam a mão esquerda meio em concha ao volume e dedilham numa seqüência rápida do mínimo ao indicador, como num piano, duas ou três vezes. Transmitem a imagem de exibicionistas, oferecidos, mercenários.

Este outro usa roupas largas: dá umas três lambadas rápidas, de baixo para cima, com os dedos mínimo, anular e médio, como se pretendesse acordar um bichinho adormecido. Parece alguém inofensivo, mas apressado.

Chocante é o tipo que, esteja onde estiver, empolga o principal e puxa várias vezes para baixo, como se ordenhasse, ou pega o secundário e estica, como se de borracha fosse. O gesto indica um homem direto, porém rude e grosseiro.

Finalmente, há os que se tocam por dentro dos bolsos, esgueiram ágeis dedos pelos elásticos ou fendas e chegam ao essencial disfarçadamente, ma oh! com que alívio, que satisfação. Passam a imagem de tímidos, dissimulados, masturbadores reprimidos.

São estilos. Na vida, o estilo é o homem.

 

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