Quarta-feira, 04 de Junho de 2003 - JORNAL DIÁRIO DO COMÉRCIO 
MANCHETE
A injustiça do trabalho e os seus custos
O guerrilheiro tributário volta a atacar. Desta vez, ele mira um assunto delicado e polêmico: a relação de desconfiança que se criou entre empresas e empregados, "a mãe de todas as bombas". Resultado: o acúmulo de 2,5 milhões de ações na Justiça do Trabalho.

Os brasileiros, que sonham sempre com títulos de melhores do mundo, têm a pior relação empresa versus empregado do planeta. No Brasil, na Justiça do Trabalho, existem atualmente mais de dois milhões e meio de reclamações trabalhistas, enquanto nos Estados Unidos há apenas setenta e cinco mil e no Japão, pouco mais de duas mil e quinhentas.
Somadas todas as queixas trabalhistas dos empregados, de todos os países da comunidade européia, acrescentando os Estados Unidos e Japão, não se chega a 10% das queixas do Brasil. Qualquer governante, deputado estadual, federal, tributarista, legislador sabe que se armou uma mãe de todas as bombas, que estimula todo o tipo de fraude, corrupção, sonegação e o que é pior de tudo, a maior tragédia, ou o que também pode ser chamada de mãe de todas as tragédias: a não existência de mais nenhum tipo de relação de confiança, entre patrão e empregado.
Inimigo - Todo empregado é tratado como um inimigo pago e isso é complicado para qualquer empresa, seja ela politicamente correta, fundadora ou associada dos institutos de ética e de todas as empresas que se dedicam ao terceiro setor. Se o empresário tentar desmentir é só puxar sua ficha sobre queixas na Justiça do Trabalho.
A tragédia da desconfiança criou uma geração de brasileiros que se aculturaram no registro de queixas e uma geração de advogados tão perigosos quanto os dezessete defensores do traficante Fernandinho Beira Mar.
O maior fenômeno é o custo disso para os brasileiros. Preste atenção: a média de uma reclamação trabalhista é de R$ 900,00 (novecentos reais) e custa para o governo administrar R$ 1.800,00 (hum mil e oitocentos reais). Ou seja: seria muito mais barato para o governo pagar imediatamente a reclamação direto ao reclamante, do que custear tudo.
Só aí o governo economizaria 50% de toda a despesa direta e evitaria bilhões de reais com a perda de produtividade de todas as pessoas que deixam de trabalhar para participar da farsa que se montou.
Como todo político brasileiro sabe tudo, eles devem saber que essa trágica situação provoca, há anos, uma vida marginal a toda a população brasileira, matando as empresas brasileiras e tirando a chance de que se possa dar um choque de empregabilidade no Brasil.
O Governo não pode fingir que está criando empregos, por discurso, ou inchando os órgãos públicos e, o pior, o povo não pode fingir que está empregado.
(Guerrilheiro Tributário
)

Especialistas concordam com o guerrilheiro e apontam soluções
Advogados especialistas em Direito do Trabalho ouvidos pelo Diário do Comércio concordam com o estado caótico da Justiça Trabalhista retratado na carta do Guerrilheiro Tributário. "A realidade está escancarada no texto e um dos caminhos para revertê-la é incentivar os procedimentos de auto-composição, como a conciliação, mediação e arbitragem", diz o professor titular da Faculdade de Direito da USP, Octávio Bueno Magano. Apesar da existência de leis prevendo a celebração de acordos fora do âmbito da Justiça trabalhista, eles são pouco utilizados no Brasil. Nos Estados Unidos, exemplica, as questões trabalhistas são resolvidas em duas ou três semanas, enquanto aqui, um processo demora sete anos ou mais. "É preciso mudar a prioridade que se dá à Justiça que está sob a tutela governamental", recomenda. Na opinião do advogado, os altos custos decorrentes de um processo trabalhista para o Estado e toda a sociedade e a desconfiança gerada entre patrões e empregados são consequências dessa "tutela governamental".
Para evitar o acúmulo de processos, cabe ao governo incentivar a utilização de meios alternativos para resolver esses conflitos. "Se o governo pudesse multiplicar por cem as varas do trabalho, diminuiria-se o tempo de tramitação de uma ação. Como não há dinheiro para isto, o caminho viável é investir nos mecanismos de auto-composição, que permitem às duas partes chegarem a um acordo", explica.
Realidade - "O texto pinta com cores extremamente fortes a realidade da Justiça do Trabalho", diz o professor de Direito do Trabalho da Universidade de São Paulo, Cássio Mesquita Barros, que também integra a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo ele, no Japão, as reclamações trabalhistas não chegam a mil por ano, número inferior aos dados coletados pelo autor da carta.
O quase colapso da Justiça Trabalhista no Brasil, considerada uma das recordistas em número de processos, tem várias causas. O tamanho e detalhamento da legislação é uma delas. "As leis trabalhistas regulam tudo ou quase tudo. Hoje, um contrato de trabalho está sob duas égides. De um lado, o legislador, sempre presente em todas os momentos da prestação de serviço. Do outro, o Juiz do Trabalho, que é a autoridade que interpreta a aplicação da lei", analisa. Os advogados costumam até brincar com situação criada: o empregador celebra um contrato de trabalho e, mais tarde, o empregado entre com uma reclamação. O juiz, então, "reinventa" o contrato, acrescentando encargos não previstos para o empregador.
A situação econômica do País também tem seu peso quando se analisa o número de ações trabalhistas. "É muito comum o desempregado ingressar na Justiça para, na pior das hipóteses, conseguir um acordo. Há quem diga que a Justiça do Trabalho é uma substituta do seguro desemprego", diz.
Ele também compartilha da opinião de que é preciso mudar a cultura da população. As pessoas precisam confiar mais nos métodos alternativos de resolução de conflitos e nas suas vantagens. "O Governo tem incentivado esses mecanismos, através da elaboração de leis, mas ainda não pouco utilizados", conclui.

(Sílvia Pimentel) 
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