O que é célula-tronco

Quem responde é Mayana Zatz, professora titular de Genética, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano - Depto. de Biologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP)

- É um tipo de célula que pode se diferenciar e constituir diferentes tecidos no organismo. Esta é uma capacidade especial, porque as demais células geralmente só podem fazer parte de um tecido específico (por exemplo: células da pele só podem constituir a pele).

Outra capacidade especial das células-tronco é a auto-replicação, ou seja, elas podem gerar cópias idênticas de si mesmas.

Por causa destas duas capacidades, as células-tronco são objeto de intensas pesquisas hoje, pois poderiam no futuro funcionar como células substitutas em tecidos lesionados ou doentes, como nos casos de Alzheimer, Parkinson e doenças neuromusculares em geral, ou ainda no lugar de células que o organismo deixa de produzir por alguma deficiência, como no caso de diabetes.

 


As células-tronco são classificadas como:

Totipotentes ou embrionárias - São as que conseguem se diferenciar em todos os 216 tecidos (inclusive a placenta e anexos embrionários) que formam o corpo humano.

Pluripotentes ou multipotentes - São as que conseguem se diferenciar em quase todos os tecidos humanos, menos placenta e anexos embrionários. Alguns trabalhos classificam as multipotentes como aquelas com capacidade de formar um número menor de tecidos do que as pluripotentes, enquanto outros acham que as duas definições são sinônimas.

Oligopotentes - Aquelas que conseguem diferenciar-se em poucos tecidos.

Unipotentes - As que conseguem diferenciar-se em um único tecido.

 


Quais as funções naturais das células-tronco no corpo humano?

Elas funcionam como células curingas, ou seja, teriam a função de ajudar no reparo de uma lesão. As células-tronco da medula óssea, especialmente, têm uma função importante: regenerar o sangue, porque as células sangüíneas se renovam constantemente.

 


Onde ficam as células-tronco?

As células-tronco totipotentes e pluripotentes (ou multipotentes) só são encontradas nos embriões.

As totipotentes são aquelas presentes nas primeiras fases da divisão, quando o embrião tem até 16 - 32 células (até três ou quatro dias de vida). As pluripotentes ou multipotentes surgem quando o embrião atinge a fase de blastocisto (a partir de 32 -64 células, aproximadamente a partir do 5.o dia de vida) - as células internas do blastocisto são pluripotentes enquanto as células da membrana externa do blastocisto destinam-se a produzir a placenta e as membranas embrionárias.

As células-tronco oligopotentes ainda são objeto de pesquisas, mas podemos dizer como exemplo que são encontradas no trato intestinal.

As unipotentes estão presentes no tecido cerebral adulto e na próstata, por exemplo.

 


O que torna a célula-tronco capaz de formar um tecido ou outro?

A ordem ou comando que determina, durante o desenvolvimento do embrião humano, que uma célula-tronco pluripotente se diferencie em um tecido específico, como fígado, osso, sangue etc, ainda é um mistério que está sendo objeto de inúmeras pesquisas.

 

O que é terapia com células-tronco

Quem responde é Mayana Zatz, professora titular de Genética, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano - Depto. de Biologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP)

- É uma terapia celular para tratar doenças e lesões através da substituição de tecidos doentes por células saudáveis.

Por exemplo, o transplante de medula óssea para tratar pacientes com leucemia é um método de terapia celular já conhecido e comprovadamente eficiente. A medula óssea do doador contém células-tronco sangüíneas que vão fabricar novas células sangüíneas sadias.

A terapia com células-tronco poderá no futuro tratar muitas doenças degenerativas, hoje incuráveis, causadas pela morte prematura ou mau-funcionamento de tecidos, células ou órgãos.

Como exemplo, podemos citar as doenças neuromusculares, diabetes, doenças renais, cardíacas ou hepáticas. Para isso, estão sendo feitas inúmeras pesquisas no mundo todo para descobrir como fazer as células-tronco se diferenciarem no tecido que está doente.

É possível programar as células-tronco para que se diferenciem nos tecidos que precisam ser reparados?

Existem substâncias ou fatores de diferenciação que, quando colocados em culturas de células-tronco in vitro (isto é, cultivadas em laboratório), determinam que elas se diferenciem em um certo tecido.

Uma outra possibilidade que está sendo investigada é se células-tronco, em contato com um tecido diferenciado, transformam-se naquele tecido. Por exemplo: células-tronco obtidas de embriões, cordão umbilical ou medula, se colocadas em contato com um músculo, conseguem diferenciar-se em músculo?

Isso já foi demonstrado com células-tronco embrionárias, mas ainda não sabemos qual é o potencial que células-tronco de sangue de cordão (adultas) têm de se diferenciar em vários tecidos.

Essa é uma das pesquisas em andamento no nosso laboratório, com células-tronco obtidas de cordão umbilical que estão sendo cultivadas juntamente com células musculares.

Trata-se ainda de pesquisas experimentais e que ainda não constituem um tratamento comprovado a ser aplicado em seres humanos.

Como é o uso de células-tronco adultas?

As células-tronco adultas são encontradas em vários tecidos (como medula óssea, sangue, fígado, polpa dentárea) de crianças e adultos, e também no cordão umbilical e na placenta. Entretanto, ainda não sabemos em que tecidos elas são capazes de se diferenciar.

Um estudo recente com células-tronco retiradas da medula e injetadas no coração da própria pessoa, o auto-transplante, sugere uma melhora aparente do quadro clínico em pessoas com insuficiência cardíaca. Mas a questão é se essas células são capazes de formar tecido cardíaco ou só promover uma neo-vascularização (fabricar novos vasos sangüíneos).

De qualquer forma, a maior limitação quando usadas células da própria pessoa é que não serviria para portadores de doenças genéticas, pois o defeito está presente em todas as células daquela pessoa.

Como é o uso de células-tronco de embriões?

As pesquisas com células-tronco embrionárias estão sendo feitas nos países que permitem esses estudos.

As células-tronco embrionárias têm o potencial de formar todos os tecidos humanos. Elas podem ser retiradas de:

a) embriões excedentes que são descartados em clínicas de fertilização, por não terem qualidade para implantação ou por terem sido congelados por muito tempo;

b) pela técnica de clonagem terapêutica.

O que é clonagem terapêutica

Quem responde é Mayana Zatz, professora titular de Genética, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano - Depto. de Biologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP)

- A clonagem terapêutica, muitas vezes confundida com terapia celular, é a transferência de núcleos de uma célula para um óvulo sem núcleo. Ela nada mais é do que um aprimoramento das técnicas hoje existentes para culturas de tecidos, que são realizadas há décadas.

A grande vantagem é que, ao transferir o núcleo de uma célula de uma pessoa para um óvulo sem núcleo, esse novo óvulo ao dividir-se gera, em laboratório, células potencialmente capazes de produzir qualquer tecido.

Isso abre perspectivas fantásticas para futuros tratamentos, porque hoje só é possível cultivar em laboratório células com as mesmas características do tecido de onde foram retiradas.

A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição, se o doador fosse a própria pessoa. Seria o caso, por exemplo, de reconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico após um acidente ou substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto.

No caso de portadores de doenças genéticas não seria possível usar as células da própria pessoa (porque todas têm o mesmo defeito genético), mas de um doador que fosse compatível, por exemplo, a mãe de um afetado por distrofia muscular progressiva.

Cientistas coreanos anunciaram ter clonado embriões humanos, pela primeira vez, para obter células-tronco. Isso é clonagem terapêutica?

Sim. O estudo confirmou a possibilidade de obter células-tronco pluripotentes com a clonagem terapêutica ou transferência de núcleos.

O trabalho foi feito graças à participação voluntárias que doaram óvulos e células cumulus (células que ficam ao redor dos óvulos) para contribuir com as pesquisas.

As células cumulus, que já são células diferenciadas, foram transferidas para os óvulos dos quais haviam sido retirados os próprios núcleos. Dentre esses, 25% conseguiram se dividir e chegar ao estágio de blastocisto e, portanto, capazes de produzir linhagens de células-tronco pluripotentes.

Entretanto, essa técnica só teve sucesso quando a célula cumulus e o óvulo pertenciam à mesma mulher. Os pesquisadores coreanos relatam também que não obtiveram sucesso quando usaram células masculinas, o que mostra que essa técnica ainda tem limitações.

Qual é a diferença entre clonagem terapêutica e clonagem reprodutiva?

A clonagem reprodutiva humana, condenada por todos os cientistas, é a técnica pela qual pretende-se fazer uma cópia de um indivíduo. Nessa técnica, transfere-se o núcleo de uma célula, que pode ser uma célula de um adulto ou de um embrião, para um óvulo sem núcleo. Se o óvulo com esse novo núcleo começasse a se dividir, fosse transferido para um útero humano e se desenvolvesse, ter-se-ia uma cópia da pessoa de quem foi retirado o núcleo da célula.

A diferença fundamental entre os dois procedimentos é que:

1) Na transferência de núcleos para fins terapêuticos as células são multiplicadas em laboratório para formar tecidos;

2) A clonagem reprodutiva humana requer a inserção em um útero humano.

Por que a clonagem terapêutica é um assunto polêmico?

Toda tecnologia nova gera polêmicas. Os argumentos das pessoas que se opõem à clonagem terapêutica são: isso vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva, isso vai gerar um comércio de óvulos e embriões.

Nesse sentido é fundamental lembrar que existe um obstáculo intransponível, que é o útero. Basta proibir a transferência para o útero de embriões produzidos por clonagem terapêutica.

Quanto ao comércio de óvulos ou embriões, é a mesma situação que ocorre hoje com comércio de órgãos. Qualquer tecnologia tem seus riscos e benefícios.

 

CÉLULAS-TRONCO PODEM RECUPERAR NEURÔNIOS DEBILITADOS

          15/10/2002 01:10

Células-tronco podem recuperar neurônios debilitados

          Pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard afirmaram que dois novos estudos realizados com camundongos reforçam as esperanças de que as células-tronco podem ser usadas no tratamento de lesões e degeneração no cérebro de humanos. As células-tronco são células imaturas capazes de originar vários tipos de tecido.

          No estudo, os pesquisadores trataram os animais com células-tronco neuronais, tipo de célula encontrado em fetos e embriões que origina vários tipos de células cerebrais durante o desenvolvimento do cérebro. Estas células-tronco podem ser encontradas no sistema nervoso central em qualquer idade, mas sua contribuição no mecanismo de reparação do cérebro ainda não está clara.

          Quando os cientistas injetaram células-tronco neuronais derivadas de camundongos em tecido cerebral lesionado ou degenerado de animais, elas pareceram interagir com as células hospedeiras, informou Evan Snyder, professor de neurologia da Escola de Medicina de Harvard. "O cérebro e as células-tronco se comunicam e trocam mensagens", explicou o pesquisador.

          No primeiro estudo, os pesquisadores injetaram células-tronco neuronais no crânio de camundongos afetados por danos graves em grandes áreas do cérebro. Um tipo semelhante de lesão ocorre em pessoas com paralisia cerebral grave.

          As células-tronco não foram capazes de restaurar o tecido cerebral, mas a equipe verificou que aquelas com uma "armação" especial de material biodegradável formaram várias interconexões com o tecido hospedeiro.

          Quando houve rompimento da armação, ocorreu a substituição por um novo tecido cerebral abastecido por vasos sanguíneos. "Neste caso, o cérebro manda as células emitirem suas conexões e, ao mesmo tempo, as células-tronco fazem com que o cérebro estabeleça conexões com elas e com o restante do cérebro", explicou Snyder.

          No segundo estudo, a equipe introduziu células-tronco neuronais no cérebro de camundongos tratados com substâncias químicas que imitam o processo de envelhecimento ou a doença de Parkinson em humanos. Neste caso, as células "recuperaram" e reativaram os neurônios com problemas funcionais.

          "Estes resultados demonstraram que há comunicação entre as células-tronco e órgãos lesionados permitindo a reconstrução", disse Snyder. "Na nossa opinião, o processo não é aplicável só ao cérebro, mas também pode ser usado no coração, pulmão ou intestino".

          No futuro, essas aplicações poderiam ser testadas em humanos e não exigiriam procedimento muito invasivos. "Seria uma cirurgia, mas não seria uma cirurgia difícil", avaliou o especialista.

          Fonte: Reuters

 

Células-tronco enganam pesquisadores

CLAUDIO ANGELO
Editor-assistente de Ciência da Folha de S.Paulo

O sonho de usar células-tronco de embriões para curar diabetes vai ter de esperar. Um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard (EUA) descobriu que células que se achava terem sido transformadas para produzir o hormônio que falta em portadores da doença estavam, na verdade, absorvendo-o do ambiente e secretando-o depois.

O truque celular foi descoberto pela equipe do médico indiano Jerry Rajagopal e denunciado na edição de hoje da revista "Science" (http://www.sciencemag.org/). "Foi uma surpresa para nós, pois trata-se de um fenômeno novo", afirmou. Apesar de não achar que isso seja um golpe mortal nas pesquisas, Rajagopal diz que os estudiosos vão precisar descobrir um novo método para transformar células-tronco em células produtoras desse hormônio, a insulina.

Células-tronco embrionárias são uma grande promessa da medicina porque têm a capacidade de se transformar em virtualmente qualquer tipo de tecido no organismo. Em tese, seria possível programá-las para recompor cérebros, corações e fígados, por exemplo. Doenças degenerativas como o mal de Alzheimer, no qual células do cérebro morrem, poderiam ser tratadas com um implante dessas células multiuso.

Portadores de diabetes têm um defeito no pâncreas que faz com que eles produzam pouca ou nenhuma insulina, hormônio que ajuda as células a absorver açúcar. Os cientistas têm tentado usar células-tronco para produzir as chamadas ilhotas de Langerhans, células produtoras de insulina.

Embora nenhum ser humano tenha recebido esse tipo de tratamento ainda, vários estudos têm demonstrado que células-tronco de embrião podem ser programadas para produzir o hormônio.

Para testar o sucesso da transformação, os cientistas misturam-nas a um anticorpo —molécula que reage com a insulina.

O que o grupo de Rajagopal descobriu foi que essa reação não garante o "pedigree" das ilhotas. Como a insulina é usada no laboratório para estimular a diferenciação das células-tronco, elas simplesmente absorvem o hormônio do meio de cultura e secretam-no aos poucos —dando a impressão de que são as suas verdadeiras produtoras.

Os médicos de Harvard desmascararam as falsas ilhotas cultivando-as num meio pobre em insulina. "Ninguém esperava que isso pudesse acontecer. E não sabemos bem como acontece", contou Rajagopal. "Mas os implantes de ilhotas feitos em camundongos terão de ser revistos."

Não é que a diferenciação não aconteça. "Havia células genuínas, mas em quantidade muito pequena, não o bastante para produzir insulina em quantidade [terapêutica]", afirmou. Mesmo assim, o pesquisador se disse animado com o potencial das células embrionárias. "As perspectivas são grandes."

 

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