O escritor Gore Vidal discute os feitos do primeiro homem a cruzar o oceano Atlântico em um avião; biografia de Lindbergh sai do mês que vem no Brasil pela Companhia das Letras
O grande herói
americano Entre 20 e 21 de maio de 1927, Charles A. Lindbergh Jr. voou
durante 33h30 sem escalas de Nova York para o aeroporto de Le Bourget,
em Paris.
Aos 25
anos, Slim, para os íntimos, tornou-se a pessoa mais famosa do mundo
-e continuou assim durante grande parte de uma vida que acabou em 1974.
Como é frequente em heróis, a sua popularidade cresceu e
diminuiu. Além disso, como não é frequente em heróis
comuns, ele foi muito mais do que apenas aquela única aventura.
Também foi um gênio criativo com uma tendência mística
que, no momento de sua morte, fez com que ele se arrependesse do mundo
que havia ajudado a criar: "Tempos Modernos" (estrelando o segundo homem
mais conhecido do mundo, Chaplin).
Slim passou
a sentir-se mais e mais atraído por Thoreau e pela natureza primitiva
de Lao Tsu, que enxerga a transformação essencial nas águas
e nas marés, que conseguem erodir superfícies de pedra, não
importa quão adamantinas, para criar um mundo novo. Por fim: Lindbergh
transformou-se num bom escritor.
De fato,
na linha de Júlio César, mas de um Júlio César
cruzado com o sentido lucreciano da beleza das "coisas" e o seu arranjo.
Tudo isso descrito de maneira precisa. Lindbergh foi um tipo de americano
muito estranho da primeira metade deste século. Ele é praticamente
incompreensível hoje em dia. A. Scott Berg (autor de "Lindbergh
- Uma Biografia", Companhia das Letras, tradução de Carlos
Eduardo Lins da Silva, previsão de lançamento para outubro)
realizou uma pesquisa caracteristicamente talentosa sobre as várias
coisas que Lindbergh fez e de algumas das coisas que ele foi.
Não
apenas desenvolveu linhas aéreas na década de 30, mas também
inventou as "bombas de aspersão", das quais algumas variantes são
utilizadas hoje em dia para manter vivos os órgãos do corpo
antes de transplantes médicos. Além disso, já em 1929
o premonitório Lindbergh ajudou Robert Goddard, cujas pesquisas
aeroespaciais poderiam ter garantido aos EUA o míssil automático
muito antes do V-2 de Hitler, que quase fez os nazistas ganharem a guerra.
Em 1932,
quando o seu filho de dois anos foi sequestrado e morto, Lindbergh e sua
mulher, Anne Morrow, temendo pela família em expansão e perseguidos
por uma imprensa já naquela época tão terrível
quanto hoje, mudaram-se para a Europa, onde permaneceram durante três
anos.
A pedido
do serviço militar americano, Lindbergh inspecionou a Luftwaffe
alemã, que ele achou alarmantemente avançada tanto em termos
de design quanto de produção, num momento em que as Forças
Aéreas francesa e britânica juntas não chegavam nem
perto desse nível.
Em 1939
voltou para casa a fim de clamar por "um sistema de defesa nacional que
fosse impenetrável". Além disso, entre 1939 e 1941, foi a
principal voz contrária à intervenção americana
na Segunda Guerra Mundial.
Num discurso
notório que realizou em Des Moines, em 1941, identificou três
grupos intervencionistas americanos: o governo Roosevelt, os judeus e os
ingleses.
Apesar
de o país ser profundamente isolacionista, os intervencionistas
eram muito espertos, e Lindbergh, que não era mais do que um tradicional
isolacionista do Meio-Oeste, representativo de uma parcela significativa
da população, foi prontamente atacado como pró-nazista
anti-semita. E, no entanto, o movimento conhecido como "America First"
(América do Norte Primeiro), que contava com isolacionistas ilustres
como Norman Thomas e Burton K. Wheeler -para não mencionar o amigo
de Lindbergh, Harry Guggenheim, e sua fundação-, atraiu alguns
fascistas nativos autênticos, que ficariam estupefatos ao descobrirem
que nunca houve um "complô judeu" para fazer os EUA entrarem na Segunda
Guerra Mundial. Muito pelo contrário.
Como assinala
Berg, antes de Pearl Harbor, "apesar de os judeus serem donos da maioria
dos estúdios de cinema americanos, a maioria deles vivia obstinada
em deixar o sentimento pró-judeu fora das telas".
Além
disso, apenas em setembro de 1941 Arthur Hayes Sulzberger, editor do "The
New York Times", admitiu ao agente executivo de Operações
Especiais da Grã-Bretanha, Valentine Williams, "que pela primeira
vez na vida se arrependia de ser judeu porque, com a crescente onda de
anti-semitismo, se considerava incapaz de vencer a política anti-hitlerista
da administração da maneira radical e absoluta que desejava,
já que os isolacionistas atribuiriam o patrocínio de Williams
à influência judaica, o que o faria perder a sua força".
Foi só
em 25 de novembro de 1996 que um acadêmico americano, Thomas E. Mahl,
pesquisando diversos arquivos do serviço secreto britânico,
achou o dossiê Williams. Recentemente publicou "Desperate Deception"
(Fraude Extrema), a história mais completa já escrita até
hoje a respeito das "Operações Secretas Britânicas
nos Estados Unidos - 1939-1944".
Apesar
da mídia e das escolas sempre condicionarem os americanos a rir
sarcasticamente quando alguém menciona a palavra "conspiração",
o fato é que, das conspirações das mais variadas que
cruzam os nossos céus e campos de trigo a todo momento -e todas
neste século-, a maior, mais intrincada e mais bem-sucedida foi
a que os ingleses tramaram para fazer o país participar da Segunda
Guerra Mundial.
Mahl demonstra
precisamente o quanto se engajaram os agentes britânicos: de Ronald
Colman, que estrelava filmes pró-britânicos, e os irmãos
Korda, que os produziam, a Walter Winchell, que lia no seu noticiário
dominical mensagens pró-britânicas escritas para ele por Ernest
Cuneo, o qual também redigia colunas jornalísticas pró-britânicas
para Drew Pearson.
De fato,
existiu uma grande conspiração para conduzir um país
essencialmente isolacionista à guerra. Também houve uma conspiração
para destruir a reputação de Lindbergh como herói.
Mas, afinal,
que herói era esse? Em 1927, o extravagante jornalista inglês
Beverly Nichols encontrou Lindbergh. Mais tarde haveria a polêmica:
"Para que todo esse bafafá em torno do vôo dele sobre o Atlântico?
Essa não é de fato a única coisa que um bolha como
esse faria? Agora, se Noel ou eu tivéssemos voado, aí sim
você teria algo para contar!". Realmente teríamos.
Entretanto
foi Slim que voou, sozinho, e em torno disso gira a grande história
do nosso século, a da Águia Solitária.
A filha
de Lindbergh, Reeve, acaba de escrever um fascinante livro de memórias
sobre os seus pais, "Under a Wing" (Debaixo da Asa). Ela começa
por situar o seu pai na região em que nasceu, especificamente Little
Falls, acima do rio Mississipi, no norte de Minnesota.
Por razões
que têm que ver com a natureza dos céus no alto Meio-Oeste,
muitos dos primeiros -eu ia quase escrevendo verdadeiros- pilotos vieram
daquela parte do mundo: dos irmãos Wright, de Ohio, que praticamente
começaram com a coisa toda na virada do século, a Lindbergh,
de Minnesota, e Earhart, de Kansas, até chegar ao meu pai, de Dakota
do Sul, piloto militar desde 1917 e, entre 1927 e 1930, gerente-geral da
Transcontinental Air Transport (TAT, mais tarde TWA), para a qual Lindbergh
atuou como consultor e publicitário.
O vôo
inevitável Durante a minha única visita a Dakota do Sul,
enquanto eu dirigia de Madison para Sioux Falls, notei um globo de luz
em volta de mim, como se estivesse no fundo de um daqueles aquários
redondos para peixinhos dourados.
Só
que o mais bizarro era que a luz parecia vir tanto de baixo quanto de cima.
Depois eu percebi quão plano era o terreno que que eu estava percorrendo
e como o céu alto e o horizonte baixo de fato criavam um globo luminoso.
Numa tal paisagem, voar parece inevitável, de certa forma.
Lindbergh
deve ter sentido isso em relação a sua região natal,
que ele sobrevoaria durante grande parte da sua juventude como um dos primeiros
aviadores do correio aéreo. A geografia terrestre o impulsionou
para os céus. A família também.
O avô
paterno deixou a Suécia no bojo de um escândalo político-financeiro
que Berg aborda melhor do que qualquer pessoa que eu já tenha lido.
Ola Mansson era um fazendeiro que tinha uma família grande. Eleito
para o Parlamento sueco em 1847, teve um filho ilegítimo com uma
garçonete de Estocolmo. Devido a um escândalo que envolveu
até o rei, Mansson fugiu da Suécia, deixando para trás
a sua primeira família, a fim de emigrar para os Estados Unidos
com a mãe do seu filho pequeno, Karl August. Por volta de 1859 ele
tinha mudado o seu nome para August Lindbergh.
Também
tinha se tornado fazendeiro perto de Sauk Center, Minnesota, onde o escritor
Sinclair Lewis nasceria em 1895.
Político
no seu país natal, August tornou-se algo parecido na nova terra,
mas foi o seu filho mais velho, que agora se chamava Charles August, que
teria sucesso naquela linha de trabalho. Charles August tornou-se advogado,
casou e teve dois filhos.
Depois
da morte de sua esposa, casou-se com a filha de um médico. Evangeline
Land tinha 24 anos; Charles August, 40. Eles eram considerados o casal
mais bonito no coração do coração do país.
Entra em cena a literatura americana.
Evangeline
foi professora escolar, culta para o seu tempo, com incrível talento
artístico. Ela adorava teatrólogos amadores. Beleza também.
Ela queria "ser uma inspiração. Eu acho que é melhor
então eu virar professora. (...) Aí eu farei eles construírem
um bosque com graciosos chalés (...)". Assim fala Carol Hunnicott,
a heroína do livro "Main Street", de Sinclair Lewis.
Aparentemente
era esse o estilo de Evangeline Lindbergh, que parece ter inspirado a personagem
Carol. O mais intrigante é que Lewis escreveu a sua novela sete
anos antes do filho de Carol-Evangeline se tornar mundialmente famoso.
Apesar de Lindbergh (nascido em 1902) ser bastante ligado a sua mãe
-dentro dos limites que permeiam a relação entre dois frios
escandinavos (pelo menos foi essa a expressão que Evangeline usou
quando os dois recusaram abraçar-se na frente da imprensa antes
de ele viajar para Paris)-, ela nunca teria sobre ele a influência
que teve o pai.
Em 1906,
Charles August foi eleito para a Câmara dos Deputados como progressista
pela legenda republicana, inserido na tradição isolacionista
populista de Robert LaFollette. Para entender a política do filho
de Charles August tem-se que entender Charles August e seu mundo.
Apesar
de o livro de Berg ser bem construído e repleto de novos detalhes,
"Loss of Eden" (A Perda do Éden), de Joyce Milton, talvez ainda
seja a biografia mais vívida escrita sobre Lindbergh, já
que a autora consegue dar vida a seu enredo de um modo que é pouco
usual em biografias contemporâneas. E, no entanto, é o próprio
Lindbergh, em particular no seu póstumo "Autobiography of Values"
(Autobiografia de Valores), que fornece o testemunho mais interessante
de uma vida que é tão extraordinária que se transforma,
paradoxalmente, no emblema mais acabado do caráter americano.
A respeito
da sua infância, Lindbergh escreveu: "O meu pai cresceu na frente
pioneira. Os seus pais o levaram para lá da Suécia quando
ele tinha seis anos de idade. Demarcaram um lote, abriram uma clareira
e araram a terra.
A primeira
infância do garoto foi permeada pelo temor constante dos índios
e a confiança cega nos soldados.
Numa certa
ocasião, quando os sioux estavam em pé de guerra com os brancos,
o meu avô abandonou o seu lote e fugiu com sua família num
carro de boi para o forte de St. Cloud.
Numa aldeia
do Sul aconteceu um massacre de colonos e não foi possível
se sentir seguro até os soldados chegarem com os seus rifles (...).
Durante
os primeiros anos da minha vida, eu vivi sob a influência de três
ambientes: a nossa fazenda e o vilarejo, o laboratório de meu avô
em Detroit (dr. Land inventou o dente de porcelana), além da cidade
de Washington, onde o meu pai trabalhou durante dez anos no Congresso e
onde eu frequentei a escola.
Os meus
interesses se dividiam entre a fazenda e o laboratório, já
que eu não gostava da escola e tinha pouca curiosidade pela política
de Washington".
É
difícil imaginar o menino Lindbergh frequentando durante dois anos
o colégio por onde tantos de nós passariam anos mais tarde,
incluindo o presidente Ronald Reagan.
No Congresso,
Charles August foi o homem do povo -ou, como explica Milton: "O evento
que mais simbolizava para os progressistas tudo o que havia de errado com
o capitalismo liberal foi uma reunião realizada na biblioteca da
casa do banqueiro J.P. Morgan, em dezembro de 1890.
No encontro
Morgan convenceu os presidentes de sete grandes estradas de ferro a suspenderem
a competição ferrenha que havia entre eles e a formarem um
cartel. Aquele encontro marcou o início da era dos trustes e, durante
os 15 anos seguintes, Morgan presidiria pessoalmente a organização
de mais de meia dúzia de megacorporações -entre elas
a United States Steel, o truste do cobre, de Guggenheim etc.
A maior
parte dos progressistas aceitou, carrancuda, as coisas como estavam sendo
encaminhadas, mas Charles August declarou guerra ao que ele chamava de
"money trust" (truste do dinheiro), concentrado na casa de Morgan.
É
desnecessário dizer: o "money trust" sobreviveu aos ataques de Charles
August, mas o casamento dele não. Por volta de 1907, ela e Charles
estavam em Detroit com os pais dela. Dr. Land era, como muitas das personalidades
ativas naquela idade, um inventor.
Charles
também se tornaria inventor, tipo de atividade comum no alvorecer
da era da tecnologia, cujo gênio principal foi Henry Ford. Por fim,
Evangeline concordou em viver em Washington, mas não com Charles
August.
Aos 11
anos, Charles manipulava bem o invento de Ford e conduzia Charles August
de carro pelo seu distrito de Minnesota. Apesar de mais interessado no
motor de combustão do que nos ataques do pai ao "money trust", Charles
estava predestinado a assumir um bom bocado de fé populista.
Charles
August execrava o padrão-ouro, a "imprensa subsidiada" e os "anglófilos",
que, por volta de 1914, estavam ávidos para que entrássemos
na guerra européia e eram auxiliados e estimulados por J.P. Morgan,
que apoiava as moedas britânica e francesa enquanto fornecia armas
aos aliados.
Fora da
guerra durante esse processo, o presidente Wilson silenciosamente conduzia
os EUA para a guerra, enquanto concorria para a reeleição
em 1916, usado o slogan do senador T.P. Gore: "Ele nos manteve fora da
guerra".
O deputado
Lindbergh e o senador Gore não apenas eram aliados nisso, mas também
admiravam LaFollette, que também se opunha -como a maioria dos americanos-
a intrigas estrangeiras. Mas a "guerra dos banqueiros" era inevitável.
A imprensa
subsidiada, que mais tarde tanto prejudicaria a reputação
de Charles, fez campanha em favor da guerra. Segundo a hipérbole
de Charles August, "em nenhum momento da história houve uma fraude
tão impertinente e agressiva quanto hoje em dia, engolindo toda
a humanidade num turbilhão do inferno".
Apolítico
e amante da ciência, Charles pouco suspeitava que anos depois ele
estaria fazendo o mesmo tipo de discurso diante de uma conspiração
que nem ele nem ninguém mais entendeu no momento em que ocorria.
Ponto
alto
Berg chega
a seu ponto alto ao narrar os dois grandes fatos jornalísticos da
vida de Lindbergh: o vôo de 1927 a Paris e a subsequente fama, mas
também o sequestro e assassinato de seu filho de dois anos, em 1932,
e a busca caótica do assassino, um imigrante alemão chamado
Bruno Richard Hauptmann.
Berg obedientemente
assinala que a primeira pergunta que o rei George 5º fez a Lindbergh
depois do vôo sobre o Atlântico foi: "Como você fez para
mijar?". Lindbergh já estava acostumado à pergunta. Tinha
usado copos de papel.
Meu pai,
Gene Vidal, colega dele, era mais ousado. Lindbergh ria: "Como você...?".
"Bem", dizia Vidal, "sinto um pouco de pena daqueles franceses que me carregaram
nos ombros".
Nem o livro
de Berg nem o de Milton são bons quando o assunto são os
primeiros dias da aviação, período que ainda espera
pelo seu historiador. Por volta de 1928, Lindbergh e Gene estavam às
voltas com a primeira companhia aérea transcontinental que, em vôos
diurnos, cruzava o país inteiro em dois dias de trem e de avião,
aterrissando em Glendale.
Segundo
os pessimistas, o nome da companhia, TAT, designava a abreviatura de "take
a train" (tome um trem). Já que o íntegro Lindbergh se recusava
a fazer uso comercial do seu nome (chegou a rejeitar a fortuna que William
Randolph Hearst lhe ofereceu para aparecer num filme sobre a sua vida),
concordou em se transformar em propagandista da aviação comercial
em geral e da TAT em particular. "Mas o que ele fazia?", eu certa vez perguntei
a meu pai. "Ele nos deixava utilizar o seu nome. Nós nos concebíamos
como "linha Lindbergh".
Ele visitava
o país todo, algumas vezes inspecionando possíveis locais
para a instalação de campos de pouso. Mas depois todos nós,
(...) aqueles de nós que eram pilotos (...), passamos a fazer isso.
Nós
também contratamos Amelia Earhart. Nós a chamávamos
de diretora-assistente de tráfego. Mas basicamente tudo eram relações
públicas. Todas as pessoas no mundo queriam olhar para aqueles dois.
A função principal de Amelia para nós era convencer
as mulheres de que era seguro voar." "Você quer dizer que vocês
queriam mais pilotos mulheres?", Gene se divertia. "Não. Nós
estávamos tentando fazer as mulheres deixarem os homens -seus maridos,
parentes, amigos- voarem.
Amelia
tinha um temperamento tão frio e sereno que realmente aliviava as
pessoas, fazendo a coisa toda parecer muito mais segura do que realmente
era." O livro de Milton é divertido quando narra a relação
um tanto tensa entre o deus e -precisamente em 1928- a deusa do vôo.
Exagerou em relação à semelhança física
entre Charles e Amelia.
Aparentemente
Milton pensa que o editor publicitário George Palmer Putman tinha
"feito a aviadora sair do anonimato por ter ficado impressionado com a
incrível semelhança entre ela e o herói de 1927".
Sempre
achei que ela própria saiu do anonimato ao se transformar em aviadora
e que Putman foi bem sucedido em comercializá-la. Amelia foi uma
protofeminista engajada, cuja bíblia era o livro de Virginia Woolf,
"A Room of One's Own." Anne Morrow, a nova mulher de Lindbergh, também
era uma entusiasta de Woolf, mas Anne desapontou Amelia ao insistir que
não se considerava "uma mulher moderna de carreira, mas antes a
mulher de um homem moderno".
Segundo
Milton, enquanto as duas pela primeira vez conversavam em torno de uma
mesa de cozinha, o prosaico brincalhão Slim surpreendeu a sua mulher
por trás e pingou água em seu vestido de seda. Amelia ficou
feliz quando Anne virou-se e jogou um copo de creme de leite no rosto do
marido. Mas o fato é que sempre houve um certo tipo de tensão
entre o yin e o yang do vôo. Como disse Gene uma vez: "Amelia não
era uma aviadora pautada na intuição e na experimentação
como Slim".
Berg, por
sua vez, conta uma piada que eu nunca tinha ouvido antes. Depois de Amelia
ir sozinha para a Irlanda, em 1932, Lindbergh teria dito: "Ouvi falar que
Amelia fez um bom pouso -uma vez".
Tanto Berg
quanto Milton dão espaço quase igual a Anne Morrow. Anne
nasceu em território inimigo. Era filha de um abastado parceiro
de Morgan, Dwight Morrow, que estava trabalhando como embaixador no México
para o seu amigo, o presidente Coolidge.
Foi lá
que Anne viu pela primeira vez o seu futuro marido. Ela se graduara, publicava
poesia. Apesar da timidez, gostava de vida social. Meninos de fazenda e
meninas de sociedade em princípio não têm muita coisa
em comum e, em certa medida, o casamento de fato não foi equilibrado,
mas ela queria se casar com um herói, e isso implicava se acomodar
a uma personalidade de herói.
De certa
forma, ela nunca deixou de admirá-lo, o que é o lema de qualquer
casamento. Eles teriam seis filhos. Sob inúmeros aspectos, o casamento
foi uma parceria bem-sucedida: ele lhe ensinou a voar, enquanto ela o encorajou
a se tornar um escritor respeitado.
Hoje em
dia é difícil imaginar que durante anos os dois tenham feito
parte do rol dos escritores mais populares do mundo, um mundo que eles
enxergavam tão do alto que acabam sendo um pouco como deuses observadores,
levitando acima de todos os nossos mares e campos e vendo aquilo que o
simples terráqueo não vê: a unidade das coisas.
Eles também
deram origem a uma família, que a sua filha caçula agora
descreve em "Under a Wing" (Debaixo da Asa). A etérea, mas forte,
Anne talvez precisasse de alguém mais sensível ao seu temperamento
-para não dizer alguém que estivesse em casa com mais frequência.
Slim estava
sempre em movimento. Mais tarde, parece que Anne encontrou uma alma gêmea:
primeiro, breve e intensamente, outro piloto-poeta, Antoine de St. Exupéry;
mais tarde, o seu médico.
O interessante
é que aparentemente o Charles de 27 anos e a Anne de 23 casaram
virgens. Milton nos conta que, antes do vôo para Paris, Slim nunca
tinha participado de jantares sociais, aprendido a dançar, saído
com uma garota -porque não tinha tempo de aprender aquilo que ele
chamava de "língua à parte" das mulheres.
As fotografias
deixam entrever que a sua vida amorosa parece ter envolvido uma série
de cães -é impossível falar em privação
afetiva. O primeiro grande duelo Em 1933, Gene Vidal tornou-se diretor
de comércio aéreo de Roosevelt e, por quatro anos, sistematizou
a aviação comercial, padronizou o sistema nacional de aeroportos,
emitindo os primeiros brevês (prevenido, deu-se o número um).
Também trabalhou próximo ao seu antigo colega da TAT, agora
consultor da Pan-American Airways de Juan Trippe.
Durante
este período, os Lindbergh mudaram-se para a Europa -mas não
antes do primeiro episódio daquilo que provaria ser o mais significativo
duelo mano a mano da vida do herói. O presidente Franklin Delano
Roosevelt concebia que, naquele momento de crise, não poderia haver
dois heróis nos Estados Unidos ao mesmo tempo.
Quando
era simples governador, pediu a Slim uma fotografia autografada. Mas em
1932, depois de assumir o mandato, transformou-se na encarnação
dos medos e esperanças de toda uma nação. Ele estava
sozinho... bem, quase. Infelizmente, a Águia Solitária conseguia
sempre atrair uma multidão maior que o presidente.
Felizmente
para este, Lindbergh realmente odiava holofotes e, depois da morte do seu
filho, se escondia o quanto podia dentro do laboratório novaiorquino
de Alexis Carrel, onde trabalhou na bomba de aspersão, longe do
olhar venenoso da imprensa. Retrospectivamente, é possível
reconhecer o quão dramaticamente inevitável era que as duas
mais importantes figuras do cenário nacional americano por fim se
confrontassem.
Até
aquele momento, o grande dramaturgo dos ares dominou cuidadosamente a cena,
utilizando-se às vezes de Gene como figurante. A administração
Hoover tinha distribuído contratos de correio aéreo de maneira
um tanto questionável, favorecendo ricos conglomerados em detrimento
de companhias aéreas independentes. Quando a companhia aérea
Ludington, de Gene Vidal, foi passada para trás em favor de um conglomerado,
este foi a público denunciar o "socialismo Hoover", algo verdadeiramente
novo no cenário nacional. Já no poder, Roosevelt enxergou
uma ótima maneira de tirar pontos do Partido Republicano.
Fez o diretor-geral
dos correios acusar o seu predecessor de "conspiração e intriga"
no processo de distribuição dos contratos. Então,
em 9 de fevereiro de 1934, ele cancelou todos os contratos de correio aéreo.
O Exército
tinha sido responsável pelo correio aéreo em 1918 -faria
isso novamente. O diretor de comércio aéreo protestou. Os
pilotos do Exército não tinham os talentos de lince dos pilotos
do correio aéreo. Gene sabia disso. Ele era piloto do Exército.
Mas Roosevelt foi irredutível.
Sempre
suspeitei de que Gene tenha secretamente se encontrado com Lindbergh, que
era tanto piloto do Exército quanto antigo piloto do correio aéreo,
pedindo-lhe para abrir a boca antes de que as coisas ficassem ainda piores
-isso se fosse possível as coisas piorarem ainda mais: no fim da
primeira semana, cinco pilotos do Exército estavam mortos, seis,
gravemente machucados, oito aviões destruídos. Enquanto isso,
companhias aéreas sem contrato iam abruptamente à bancarrota.
Lindbergh enviou um telegrama de 275 palavras ao presidente enquanto, simultaneamente,
liberou uma cópia para a imprensa. Isso foi crime de lesa-majestade.
A Casa
Branca atacou Lindbergh. O Senado o convocou perante um dos seus comitês.
O herói foi acusado de querer publicidade para si. Isso foi a única
diversão dessa confusão toda.
No íntimo,
Gene sabia que o fato de Roosevelt recusar ter cometido um erro implicava
que Lindbergh se tornasse o vilão da história. Nisso o presidente
foi auxiliado por outro paladino dos ares, o general Billy Mitchell, apóstolo
da aeronáutica. Mitchell achava que Roosevelt deveria ter assumido
a TWA para transportar a correspondência até que novos -"honestos"-
contratos tivessem sido distribuídos.
Enquanto
isso, Mitchell chamava Lindbergh de "uma das frentes do truste aéreo"
-e, pior, identificava-o como "aquele genro de Dwight Morrow". Assim Charles
August, inimigo mortal do "money trust" e da House of Morgan, agora era
pai de alguém tido como escravo dos poderes endinheirados do mal.
Por sorte,
Charles August morreu antes do seu filho se casar com Anne Morrow. Como
pilotos militares continuavam caindo dos céus, o presidente Roosevelt
voltou atrás. Declarou que o correio aéreo ficaria nas mãos
de qualquer linha comercial que não tivesse sido beneficiada pelo
regime anterior.
A velha
TAT, agora Transcontinental and Western Air, transformou-se em Trans World
Airlines. Lindbergh encarava essa solução semântica
como "reminiscência de algo que poderia ser encontrado em "Alice
no País das Maravilhas'".
A inevitável
cena schilleriana entre os antagonistas não ocorreu antes de abril
de 1939. Lindbergh ficou impressionado -foi enganado, achavam alguns- com
a Força Aérea militar alemã.
A serviço
do Exército americano também foi à União Soviética,
onde ficou chocado com a incompetência militar geral e deprimido
com o sistema político. Como tantos outros conservadores americanos
daquele tempo, ele temia o comunismo "asiático" mais do que a eficiência
nazista.
De qualquer
forma, depois de quase quatro anos de exílio, voltou para casa a
fim de fazer campanha pelo desenvolvimento militar dos Estados Unidos,
para o caso de alguma eventualidade. Ele também retornou para pregar
contra o envolvimento americano na iminente guerra européia.
No bojo
desse processo de desenvolvimento militar, os dois heróis, como
eram aliados cautelosos, encontraram-se pela primeira e última vez.
Narra Lindbergh em seu diário: "Fui ver o presidente por volta
das 12h45 (...). Ele estava sentado atrás da sua escrivaninha num
dos cantos de uma grande sala. Havia várias navios em miniatura
em volta de todas as paredes. Ele inclinou-se para frente na sua cadeira
para me recepcionar quando entrei e só agora me lembro de que ele
é deficiente.
De fato,
durante o nosso encontro não notei ou pensei nisso. Imediatamente
me perguntou como estava Anne, mencionando o fato de que ela conhecera
a filha dele no colégio. Ele é um interlocutor talentoso,
encantador e interessante. Gostei dele e senti que poderíamos nos
dar bem.
Nossa
relação poderia ser agradável e interessante. Mas
havia algo nele em que eu não confiava, algo um pouco encantador
demais, por demais agradável, excessivamente fácil. Ainda
assim, ele é o nosso presidente e não há razão
para qualquer tipo de antagonismo entre nós em relação
ao trabalho que estou fazendo agora.
A situação
do correio aéreo já é coisa do passado -uma das piores
manobras políticas que eu conheci, além de injusta ao extremo,
para dizer o mínimo. Mas não levaria a nada retomar esse
assunto durante a conversa. Roosevelt me deu a impressão de ser
um homem cansado, mas com energia bastante para levar as coisas adiante
por muito tempo. Duvido que ele perceba o quão cansado é.
O seu rosto tem aquele olhar cinzento de empresário que trabalha
demais. E a sua voz tem aquele tom monocórdico, rotineiro, que a
pessoa adquire quando a mente fica entediada por conversas numerosas e
frequentes demais. A voz tem aquela característica monótona
que toma conta de todos os sentidos quando são empregados em excesso:
o paladar, quando a comida é sempre a mesma dia após dia;
a audição, quando a música não muda nunca;
o tato, quando a mão da pessoa nunca se ergue.
Rapidamente
Roosevelt faz uma idéia da pessoa à sua frente e a manipula
com destreza. Na maioria das vezes, é político, e acho que
nós nunca nos daríamos bem com relação a vários
princípios fundamentais. Mas há coisas nele de que gosto:
por que se preocupar com os outros a não ser -e até- que
eles necessitem de consideração? É melhor que trabalhemos
juntos o máximo que pudermos. Entretanto de alguma forma eu tenho
uma sensação de que não será por muito tempo".
Assim o grande dramaturgo mantém o enredo em suspense.
Além
disso, as impressões de Lindbergh são um instantâneo
tão interessante e "acurado" de Roosevelt quanto o depoimento de
qualquer outro contemporâneo.
Certamente
esse é um trecho único no diário de Lindbergh, já
que o herói -observado constantemente por todos os outros- raramente
observa qualquer pessoa, não tanto devido à falta de interesse,
mas de oportunidade.
Felizmente
-para os fofoqueiros-, ele de fato notou quão impressionantemente
monótono o duque de Windsor foi durante o jantar em que discutiu
longamente o quão maior era a Étoile em comparação
com a Place de la Concorde (praças de Paris). A trégua com
Roosevelt durou pouco tempo.
Naquele
verão, Lindbergh trabalhou com o general-comandante da Aeronáutica,
H.H. Arnold. Sua tarefa: pesquisa e desenvolvimento. No primeiro dia de
setembro os alemães invadiram a Polônia. A guerra européia
tinha começado.
Em 15 de
setembro, Lindbergh foi ao rádio falar sobre "A América
do Norte e as Guerras Européias". A respeito disso ele escreve:
"Um incidente interessante relacionado ao discurso aconteceu um pouco
antes deste, naquele mesmo dia".
Mandaram
um coronel até ele para dizer-lhe que "o governo está
bastante preocupado com a minha intenção de falar pelo rádio
e opor-me ativamente à entrada do país na guerra européia.
(Ele) disse que, se eu deixasse de fazer isso, eles criariam no gabinete
uma Secretaria da Aeronáutica e a dariam para mim!(...).
Essa
oferta, vinda de Roosevelt, não me surpreende, depois das coisas
que eu sei a respeito do seu governo. Apesar disso, de fato me impressiona
que ele ainda pense que uma tal oferta possa me influenciar. É um
grande erro dele deixar o Exército saber que ele age dessa forma".
De fato,
isso é bastante decoroso, mas Lindbergh sabia que, de Arnold para
baixo, todos tinham dito ao presidente que ele não aceitaria. "Independentemente
do fato de (o presidente Roosevelt) promover publicamente uma política
de neutralidade para os Estados Unidos, parece-me óbvio que ele
tenta levar o nosso país à guerra.
Os poderes
que ele influencia e controla são fortes. Opor-se a eles requer
planejamento, habilidade política e organização. Para
mim, isso implicaria desenvolver uma nova estrutura de vida."
Por quase
três anos, ele eletrizou o país com os seus discursos e comícios.
Estava em curso naquele momento a primeira e até agora única
grande polêmica do "século americano".
Apesar
de Lindbergh ter vários aliados formidáveis, o presidente
contava não apenas com grande habilidade e poder. Sabemos agora
que ele tinha a seu dispor pelo país afora o serviço secreto
britânico, cuja primeira tarefa era desconstruir o herói.
Para levar
a opinião pública americana a apoiar a guerra, os ingleses
sabiam que só até certo ponto poderiam contar com o ardiloso
Roosevelt. Ele queria ganhar uma terceira eleição em 1940;
também tinha de lidar com um país de maioria isolacionista
e com as críticas da Águia Solitária.
Ele ainda
poderia "jogar verde", como no seu discurso de 1937, "Quarentena aos Agressores",
que tinha sido, segundo o governador-geral do Canadá, o lorde Tweedsmuir,
"o clímax de uma longa conspiração nossa em andamento
(isso deve ser mantido em segredo!)".
Infelizmente,
aquele golpe não deu certo, e Roosevelt calou-se por um tempo. Ele
sempre dava o mesmo conselho para entusiastas de cujos objetivos ele compartilhava,
mas que não ousava apoiar abertamente quando faltava maioria política.
"Você tem de me forçar a agir", ele dizia jovialmente.
Quando
os intervencionistas se preparavam para denunciar a sua falta de ação,
ele sugeria a palavra "pusilânime" como adequada para descrever as
suas cautelosas políticas públicas.
O filho
de Charles August agora começava a ver, se não a mão
secreta dos ingleses nos nossos negócios, pelo menos a mão
aberta da House of Morgan -para não mencionar a do seu próprio
sogro, Dwight Morrow.
Lindbergh
nunca tinha se preocupado muito com o "money trust" que tanto indignara
seu pai. De menino de fazenda, ele se tornou um aviador bem-sucedido, piloto
militar e depois herói mundial. A injustiça social parece
nunca tê-lo preocupado. Afinal, ele sempre cuidou de si e tudo deu
mais do que certo.
Tinha permitido
que Dwight Morrow e os parceiros de Morgan o absorvessem, investindo o
dinheiro deles nele e fazendo-no enriquecer sem nunca comercializarem o
seu nome. A propósito: Berg fez um acordo de cavalheiros com Anne
Morrow Lindbergh para fazer uso dos diários e da correspondência
dela. Um "quid" deste "quo" é o fato de Berg nunca mencionar que
a brilhante Anne Morrow era alcoólatra. Por isso, Milton é
muito mais interessante do que Berg em relação à família
com a qual Lindbergh se casou.
Um aspecto
da condição nacional que se pode discutir abertamente é
o sistema de classes. No ápice da pirâmide americana -que
guarda no seu interior aquele terrível olho aberto que não
pisca- está a instituição ocidental "wasp" (protestantes
anglo-saxões brancos).
Mahl nota
que C. Wright Mills se deparou com enormes críticas quando "a identificou
em seu livro "A Elite do Poder" (1956).
Segundo
Mills, os Estados Unidos são controlados não pela massa dos
seus cidadãos tal como descrita pela teoria democrática,
mas por uma elite anglo-saxã protestante das escolas da Ivy League,
do Nordeste do país.
Numa enxurrada
de resenhas e críticas sarcásticas, não raro os liberais
da Guerra Fria negaram com veemência que houvesse esse tipo de elite.
Essa polêmica agora parece ter passado, como assinalou Douglas Little
numa resenha recente, em "Diplomatic History': "Longe de rejeitar a idéia
de uma elite do poder (...), (os livros resenhados) celebram a sua curta
duração nos 25 anos que se seguiram a 1945" (...)". Os ingleses
nunca se questionaram sobre a existência ou não de uma "elite
do poder" americana.
Já
em 1916, o lorde Robert Cecil assinalava que, "apesar de o povo americano
ser em grande parte composto por estrangeiros, tanto em sua origem quanto
no seu modo de pensar, os seus legisladores são quase exclusivamente
anglo-saxões e compartilham nossos ideais políticos". Do
lado da elite.
Os suecos
Lindbergh
eram tão estrangeiros a essa instituição quanto os
Sulzberger. Mas o fato é que os Sulzberger ficaram do lado da elite
dos "wasp" nas épocas de guerra e de paz, enquanto Charles Lindbergh
não entendeu o que Anne captou no momento em que ele lhe mostrou
a medalha que Goering inesperadamente lhe entregara durante um jantar em
Berlim. Ela disse: "O seu fardo".
Parece
que Lindbergh nunca chegou a entender o que ela quis dizer com essas palavras.
Enquanto isso, em meio à elite dos "wasp" e aos agentes britânicos,
os EUA se transformavam. O isolacionismo sempre fora uma crença
nacional estimada, mesmo que algumas vezes ignorada por razões oportunistas.
Porém,
por volta de 1940, três encantadoras senhoras pagas pelos ingleses
converteram um dos dois senadores isolacionistas de maior destaque, Arthur
Vandenberg, em defensor da guerra -e, mais tarde, da hegemonia global.
Mahl fornece os nomes e endereços dessas mulheres.
Uma delas,
casada com um diplomata britânico, codinome "Cynthia", foi a heroína
de um estudo epônimo de H. Montgomery Hyde, de 1965. Para concluir,
no caso de Roosevelt ser derrotado em 1940, o outro grande isolacionista,
o senador Robert A. Taft, foi vencido na convenção republicana
pelo candidato britânico, o até então desconhecido
Wendell Willkie.
Fica-se
imaginando o que Lindbergh teria pensado - de fato, o que o povo americano
teria pensado - se todos tivessem entendido o que realmente aconteceu na
Filadélfia em junho de 1940.
Eu estava
lá. O calor era enorme. Os apoiadores de Vandenberg carregavam leques
de folha de palmeira com a legenda "Fan with Van" (Abane-se com Van). Difundia-se
por todos os cantos o que o já derrotado Taft teria dito amargamente.
"Nenhum candidato republicano à Presidência consegue ser nomeado
sem a aprovação do Chase Manhattan Bank".
Perguntei
ao meu pai o que isso significava. "Acredito", disse ele, um democrata
populista, "que os banqueiros querem um candidato intervencionista". Mahl
conta que um agente britânico imprimiu o dobro de ingressos para
as arquibancadas, de forma que elas ficaram abarrotadas de pessoas que
cantaram durante horas: "Queremos Willkie!". Com certeza isso soou aos
meus ouvidos como a própria voz do povo. Segundo Mahl, quando Herbert
Hoover se levantou para fazer o seu discurso isolacionista, os microfones
ficaram mudos e, anos mais tarde, Hoover depôs a respeito desse episódio.
Eu só
posso dizer que quem estava sentado na frente ouviu Hoover bem. Talvez
as arquibancadas tenham sido privadas do sistema de som. Hoje em dia nós
sabemos que os grandes chefes estavam se divertindo bastante com o processo
democrático. O líder da House of Morgan, T.W. Lamont, enviou
ao seu amigo Roosevelt um discurso elaborado pelo líder do Partido
Comunista, Earl Browder.
Lamont
tinha sublinhado o seguinte trecho no "Daily Worker": "Robert Taft (...)
foi derrotado na convenção da Filadélfia, e Wendell
Willkie, o democrata renegado pró-guerra, foi indicado por uma junta
conspiratória, organizada por Thomas W. Lamont, da firma de J.P.
Morgan, que trabalhava em acordo direto com Roosevelt e arquitetada por
Walter Lippmann (...)". Roosevelt escreveu a Lamont, em 13 de setembro
de 1940: "Como é mesmo aquele velho ditado sobre política
e companheiros de cama que não se conhecem? Tudo que eu posso dizer,
Tom, é que, se você consegue aguentar isso, eu também
consigo".
A resposta
de H.L. Mencken foi clerical: "Estou totalmente convencido de que a nomeação
de Willkie foi arranjada pelo Espírito Santo em pessoa".
Essa inversão
fundamental e extraordinária no equilíbrio político
americano não apenas nos levou à guerra, como também,
durante a subsequente era periclesiana, fez-nos ser oprimidos primeiro
por um Estado de Segurança Nacional e depois por uma economia global
bizarra nunca sonhada nem por J.P. Morgan e muito menos por Charles August.
Mas tudo isso era desconhecido para aqueles dentre nós que estiveram
na Filadélfia naquele dia quente de junho, quando dois partidos
razoavelmente distintos tornaram-se um só.
Depois
daquela união nenhum debate nacional sério sobre as grandes
questões voltaria a acontecer no país até as batalhas
do Vietnã -uma guerra que possivelmente nunca teria ocorrido se
o sistema não tivesse sido tão transformado.
Piloto
clandestino
Depois
de Pearl Harbor, Lindbergh ofereceu seus serviços à Aeronáutica.
Roosevelt, alguém que nunca superou inimizades, deleitou-se em dispensá-lo,
apesar do editorial do "The New York Times" preconizando que Lindbergh
deveria ser contratado, já que "é um aviador soberbo, e essa
é primária e essencialmente uma guerra aérea". Mas
Roosevelt não conseguia admitir que o seu adversário recobrasse
o estatuto de herói que -apesar dos enormes esforços dos
vários setores interessados- nunca perdera, para a maioria das pessoas.
Águias
solitárias tendem a voar mais alto que presidentes, independentemente
das condições climáticas. Assim, Lindbergh foi para
o Pacífico Sul, onde tomou parte em missões clandestinas
de combate aéreo com homens de metade da sua idade. Isso era ilegal,
dado que Lindbergh era apenas um observador. Mas os comandantes estavam
satisfeitos de poder contar com um aviador tão completo.
Depois
do fim da guerra, Lindbergh continuou as suas viagens com Anne. Eles também
criaram os cinco filhos que lhes restavam. Parece que Lindbergh foi um
pai consciencioso, com uma tendência de reinventar a roda toda vez
que havia algo a ser explicado. Atentava para a utilidade das coisas.
Reeve recorda-se
de uma explicação hilária sobre "design miserável":
"Ele também tinha uma lanterna comum com uma cabeça hexagonal
feia, para cujos traços ele chamava a nossa atenção
toda vez que deitava a lanterna sobre uma superfície plana. "Você
vê isso?", indicava. "Não se move." Nós víamos.
A lanterna
ficava ali na estante, na mesa ou no chão, exatamente como ele a
tinha posicionado. Não se movia nem um pouco. Nem nós, enquanto
ele nos fixava com o seu olhar azul penetrante, instrutivo.
"Não
rola da mesa", ele dizia, fitando-nos inquisitorialmente e desafiando-nos
a lhe contradizer. Ninguém o fazia. "Por que eles não fazem
todas as lanternas dessa forma?", questionava-se em voz alta. Nenhum de
nós arriscava uma opinião.
"Cilindros!",
ele explicava irritado. "Você compra uma lanterna, e 9 em cada 10
vêm dentro de um corpo cilíndrico. Mas um cilindro sempre
rola. Um cilindro foi feito para rolar. E rolar é ótimo,
para um pino. Mas, se você deposita uma lanterna cilíndrica
na escuridão, perto do lugar onde você está trabalhando,
a fim de ter as suas duas mãos livres, o que acontecerá?
A lanterna rolará para longe de você, é lógico!
Para fora da estante, para baixo do carro -para que tudo isso?" Para nada,
nós sabíamos. E também sabíamos o que ele diria
a seguir. "A única coisa que eles teriam de fazer é mudar
a forma da cabeça. Não a lanterna toda, apenas a cabeça.
O problema
estaria resolvido. Por que não fazem isso? Cabeças pentagonais,
hexagonais, até quadradas, pelo amor de Deus. Apenas a cabeça
(...).'". Etapa em etapa Quando se pesquisa a vida de Lindbergh, vê-se
que ele se move de etapa em etapa, como a própria raça humana.
O menino
na fazenda era fascinado por economia doméstica. Por eugenia, uma
pseudociência daqueles tempos. Pela natureza. Pela ciência
médica, para melhorar a vida. Por engenharia. Por voar. Pelo que
veio depois da hélice, da propulsão a jato -já no
fim da década de 20.
Fascinado
pelas velhas civilizações que ele tinha sobrevoado durante
toda a sua vida, Lindbergh agora via o quão precárias elas
eram diante do instrumento que ele tinha ajudado a aperfeiçoar:
o avião.
Ele achava
fundamental que se evitasse a guerra, ao mesmo tempo em que preconizava
um equilíbrio entre as reservas naturais do planeta e a população
humana. Ficava fascinado pelos antigos padrões tribais, a fim de
desfazer ou diminuir os efeitos que a ciência exerce sobre o homem
moderno.
Viveu em
meio a tribos primitivas; tentou compreender os seus antigos mecanismos
de adaptação.
Ele literalmente
se concebia num pêndulo constante entre um nível e outro.
Perto da morte, ele começou a desgostar do mundo que tanto contribuíra
para criar. Primeiro, notou a padronização de bases aéreas
em todos os lugares. A mesma coisa em relação à comida
ou à paisagem. A monotonia das viagens em jatos. A diversão
desapareceu. Uma palavra-chave nos seus primeiros trabalhos era "aventura".
Ele parou de empregá-la.
Por fim,
o que resistiu foi a veia de misticismo que o acompanhou durante toda a
vida. Muitos dos primeiros pilotos desenvolveram um curioso sentido de
hiper-realidade ao contemplarem a sua própria relação
com o céu e a terra.
Os primeiros
aviadores foram literalmente extraterrestres, à medida que se submetiam
às suas aterrissagens, ao seu renascimento enquanto terráqueos.
Lindbergh se divertia discutindo esse assunto pessoalmente com o grande
criador de mitos, Carl Jung. Os Lindbergh sentavam-se com o "velho mágico"
na margem norte do lago de Zurique. "A conversa concentrava-se em "discos-voadores".
Jung tinha
escrito um livro sobre eles (...). Eu esperava que ele fosse discutir os
aspectos psicológicos e psiquiátricos das fantasias das pessoas
(...). Fiquei impressionado ao descobrir que ele acreditava que eles existissem
(...). Quando eu mencionei uma discussão minha com o general Carl
Spaatz, chefe de equipe da Aeronáutica (...), Jung disse: "Há
várias coisas ocorrendo na Terra e que você e o general Spaatz
ignoram completamente"."
Humanidade
em fluxo
Ao refletir
a partir das coisas que observava, Lindbergh conseguiu lembrar-se de Lucrécio:
"Nil posse creari de nilo" (nada pode ser criado a partir do nada). Ou:
"A soma das coisas está sempre sendo reposta, e os mortais vivem
todos de dar e receber.
Algumas
raças surgem e outras desaparecem e, num pequeno espaço,
as tribos das coisas vivas se modificam, passando adiante a tocha da vida
como corredores numa competição".
Lindbergh
resume: "Eu sou forma e sou disforme. Sou vida e substância, mortal
e imortal. Sou um e sou muitos -eu mesmo e a humanidade em fluxo (...).
Depois de morrer, as moléculas do meu ser retornarão à
terra e ao céu. Elas vieram das estrelas. Sou das estrelas".
É
uma incrível ironia que Roosevelt e Lindbergh, antagonistas heróicos,
compartilhassem, ao fim, a mesma religião. Cada um dos dois queria
ser enterrado de forma que os seus átomos voltassem a circular o
mais rápido possível.
Assim,
o primeiro foi enterrado num jardim de rosas, num caixão em que
faltava um dos lados, enquanto o segundo num caixão de madeira biodegradável
numa ilha do Pacífico Sul.
Era assim
que cada um planejava se reincorporar à corrente da vida e às
estrelas originais. Enquanto isso, pode ser um presente agradável
para o novo século e milênio substituir a vulgar caricatura
do ardiloso e falso "Tio Sam", de 1812, pela de Lindbergh, o melhor dos
heróis de estilo americano que conseguimos produzir até hoje.
Domingo,
17 de setembro de 2000
Charles
Lindbergh X João Ribeiro de Barros
O
primeiro aviador das três Américas que fez a travessia aérea
da Europa para a América do Sul - "Gênova (Itália)
- Santo Amaro (São Paulo - Brasil)", no dia 28 de abril de 1927,
cruzando o Oceano Atlântico com o hidroavião "JAHÚ".
JOÃO
RIBEIRO DE BARROS, piloto da aviação civil, nascido aos 04
de abril de 1900 no município de Jaú, região central
do Estado de São Paulo, Brasil. Comandante do hidroavião
"JAHÚ" marca Savoia Marchetti S-55, com o qual cruzou o Oceano Atlântico
em 1927, ligando Gênova (Itália) a São Paulo (Brasil).
Alex Pinheiro Machado Rodrigues
Prezados
Senhores,
Sou
assinante do jornal FOLHA DE SÃO PAULO e, como cidadão jauense,
mas principalmente em nome da verdade histórica, gostaria de tecer
alguns comentários sobre texto publicado no caderno "Mais!" de 17
de setembro de 2000 (capa e mais 10 páginas), a respeito do lançamento
da biografia do aviador norte-americano Charles A. Lindbergh Jr.
NÃO
É VERDADE que Charles Lindbergh tenha sido, conforme palavras transcritas
do próprio texto, "o primeiro homem a cruzar o oceano Atlântico
em um avião". No momento em que o piloto norte-americano "se preparava
para testar o avião Spirit of St. Louis, em maio de 1927" (legenda
da foto da página 4 do citado caderno), o aviador brasileiro e jauense
João Ribeiro de Barros (1900-1947) já havia COMPLETADO seu
histórico reide sobre o oceano Atlântico.
O
vôo do piloto brasileiro, a bordo do hidroavião italiano Savoia
Marchetti S-55, denominado "JAHÚ" em homenagem à sua cidade
natal, foi previsto para ser realizado e em 2 etapas:
1)
O "transporte" do hidroavião até a posição
geográfica-terrestre mais próxima possível do Brasil.
Esta etapa (COM ESCALAS) teve início em Gênova, na Itália,
em outubro de 1926, e foi concluída com a chegada do "JAHÚ"
ao arquipélago de Cabo Verde, em novembro daquele mesmo ano.
2)
A travessia do Oceano Atlântico, em vôo direto, SEM ESCALAS,
realizada entre 04h45 (horário da partida de Porto Praia, Cabo Verde)
e 14h30 (horário da amerissagem no arquipélago de Fernando
de Noronha) do dia 28 de abril de 1927.
Uma
terceira etapa complementar ainda pode ser considerada, já que o
Comandante Ribeiro de Barros e sua equipe iriam concluir o vôo em
Santo Amaro (SP), partindo de Fernando de Noronha e com escalas em Natal,
Recife, Salvador, Rio de Janeiro. Eis porque alguns historiadores e enciclopedistas,
ficaram com a imagem menos exata sobre o vôo do "JAHÚ", supondo
que ele teria sido efetuado com inúmeras escalas. Porém esta
etapa constituiu-se apenas em atendimento às "Comissões de
Festejos" e à consagração pública dos tripulantes,
os quais inclusive foram recebidos pelo então presidente Washington
Luis no Palácio do Catete (RJ).
Ainda
sem desmerecer o feito do piloto norte-americano e, muito menos o do meu
conterrâneo do qual muito me orgulho, vale lembrar que no ano de
1922 os pilotos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral JÁ HAVIAM
realizado a travessia do Oceano Atlântico, unindo Europa (Lisboa)
e América do Sul (Rio de Janeiro), tornando-se, ESTES SIM, os primeiros
homens a cruzar o oceano Atlântico em um avião. Estendendo
esta idéia, podemos afirmar que o primeiro AMERICANO a cruzar o
Atlântico foi realmente João Ribeiro de Barros, hoje patrono
do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER).
A Charles Lindbergh caberia o título de primeiro NORTE-AMERICANO
a realizar tal feito ou, se desejarem, o primeiro homem a cruzar o ATLÂNTICO
NORTE sem escalas.
Não
quero entrar no mérito das diferenças das condições
destes dois últimos vôos, uma vez que o piloto brasileiro
teve toda sorte de adversidades (sabotagem, traição, doença,
etc.), enquanto o aviador norte-americano cumpriu seu feito contando com
apoio governamental de seu país e inclusive com direito a prêmio
em dinheiro de, se não me engano, US$ 25,000.00.
Para
finalizar, gostaria de pedir-lhes que não se repita com este caso,
obviamente guardadas as devidas proporções, a "falha" do
jornal FOLHA DE SÃO PAULO quando, traduzindo edição
especial da revista TIME com as mais importantes personalidades do século
XX, omitiu-se quanto ao verdadeiro inventor do avião.
Grato pela atenção, Atenciosamente, Roberto Fernando Nascimben Junior
PS - À Prefeitura Municipal de JAHÚ, à Fundação Educacional de JAHÚ, ao INCAER (Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica) e ao jornalista José Henrique Teixeira, que recebem cópia deste, solicito a possibilidade de verificarem os dados históricos contidos acima. A este último, solicito ainda o reenvio deste à redação do jornal Comércio do JAHÚ, que muito tem colaborado para o resgate da memória do piloto jauense e cuja edição histórica de 15/08/2000 serviu-me de base para muitas informações aqui citadas.
www.promotur.com/jrb/br/colabora/carta_do_leitor1.htm
Os vôos
bem-sucedidos no início deste século consolidaram o que pioneiros
de várias épocas perseguiram incansavelmente. Dos homens
da caverna que desenhavam criaturas humanas com asas de pássaros
nas paredes de suas habitações até cidadãos
comuns que têm o hobby de construir seus próprios aviões
nas horas vagas, a história está cheia de exemplos que mostram
como o desejo de voar e superar os limites de outros pioneiros está
arraigado nas pessoas.
"Os
homens não têm asas. Mas nós as construiremos, e então
poderemos voar." Foi assim que o arquiteto e escultor Dédalo, pai
de Ícaro, despertou no filho a vontade de deslizar pelo céu,
feito aves. Os dois são personagens de uma das histórias
mais famosas da mitologia grega, que mostra como a ânsia de liberdade
sempre perseguiu o homem. De acordo com a lenda, Dédalo e Ícaro
foram presos pelo rei Minos no Labirinto de Cnossos, em Creta, construído
pelo próprio arquiteto. Idealizado para conter a fúria do
Minotauro, o labirinto era intransponível. Para escapar, Dédalo
decidiu construir asas com as penas das aves que sobrevoavam a região,
o que fez com a ajuda de Ícaro.
As
penas foram coladas com cera e presas às costas com tiras de couro.
Antes de saltarem do rochedo, Dédalo recomendou a Ícaro que
não voasse muito baixo, para não mergulhar as asas no mar,
nem muito alto, para não queimar as penas com o calor do sol. Entusiasmado
com a sensação de voar, Ícaro se esquece dos conselhos
do pai e se aproxima demais do sol. A alta temperatura derrete a cera que
fixava as penas e as asas começam a se desfazer. Ícaro despenca
no mar, desaparecendo para sempre na água. Segundo a mitologia,
cada pena das asas de Ícaro transformou-se numa ilha, formando o
arquipélago das Icárias.
Ao
longo dos tempos, o fascínio pelo vôo contagiou muita gente.
Conta-se que, no século 11, um monge beneditino inglês chamado
Olivier de Malmesbury teria construído um par de asas, inspirado
na técnica usada por Dédalo e Ícaro. Confiante, o
religioso atirou-se do alto de uma torre, planou um pouco, mas a aventura
rendeu-lhe várias fraturas nas pernas. Ele não foi o único
a lançar-se no ar, na esperança de voar. A história
está cheia de registros deste tipo, com resultados igualmente desastrosos.
O
gênio Leonardo da Vinci (1452-1519), um incansável investigador
nos mais diversos campos do conhecimento científico, tentou, durante
mais de 20 anos, descobrir uma maneira de fazer o homem voar. Estudou o
vôo de pássaros, morcegos e insetos e criou várias
máquinas voadoras, cujos projetos estão documentados em muitos
desenhos. Uma delas, o "parafuso aéreo", pode ser considerada a
precursora do helicóptero. Há quem acredite que seus inventos
só não chegaram a voar por falta de motor.
O
escritor Júlio Verne (1828-1905) era um aficionado por tecnologia
e viagens fantásticas. Chegou a prever, em seus livros, a invenção
de várias modernidades, entre elas o avião e o helicóptero.
Em Robur, o Conquistador, criou o Albatroz, um aparelho mais pesado do
que ar que voava graças a 74 pás giratórias e motores
elétricos. Para Júlio Verne, autor de Cinco Semanas em um
Balão, o futuro da locomoção aérea estava na
aeronave e não no aeróstato.
Antes
de o avião ser inventado, dezenas de pessoas perderam a vida saltando
da Torre Eiffel, das pontes do Rio Tâmisa e dos edifícios
mais altos de Nova York com asas de madeira presas nas costas. Logo depois
que o homem conseguiu voar num mais pesado do que o ar, começaram
a surgir tentativas cada vez mais ousadas de avançar na nova tecnologia.
Competições para bater novos recordes passaram a ser comuns
nas primeiras décadas do século, estimulando os participantes
a se arriscar em empreitadas até pouco antes inimagináveis.
O
francês Louis Bleriot fez a primeira travessia do Canal da Mancha
em 1909. Em 1913, seu conterrâneo Roland Garros sobrevoou o Mediterrâneo
num monoplano. Vôos com maior autonomia foram sendo realizados nos
anos seguintes: travessias do Atlântico, do Pacífico e depois
intercontinentais, até a volta ao redor do mundo. Entraram para
a história pioneiros como Charles Lindbergh, piloto do vôo
solitário sobre o Atlântico em 1927, a bordo do pequeno monomotor
Spirit of Saint Louis. A viagem sem escalas entre Nova York e Paris levou
33 horas e meia e rendeu o Prêmio Orteig a Lindbergh.
Mas
se o homem estava buscando uma maior autonomia de vôo, também
não faltaram competições inusitadas na história
da aviação. No fim da década de 60, a Federação
da Aeronáutica da Inglaterra instituiu um prêmio para a pessoa
capaz de elevar-se do solo por força muscular, permanecer no ar
o tempo suficiente de fazer uma evolução no formato de um
número oito entre dois postes colocados a uma distância de
150 metros e pousar no chão com segurança. O desafio rendeu
uma corrida maluca de inventores do mundo todo, que apareceram com geringonças
acoplando rodas de bicicletas, hélices de madeira e asas enormes.
O concurso deixou para trás um rastro de participantes sem fôlego
e com diversas partes do corpo fraturadas.
Neste
fim de século, o homem não se contenta apenas em voar, mas
também em construir seu próprio avião, assim como
Santos Dumont fez em 1906 com o 14-Bis. Diversas empresas vendem kits de
modelos simples de avião, feitos com fibra de carbono ou de vidro,
que podem ser montados na garagem de casa. Com cerca de US$ 60 mil, inclinação
para mecânica e 400 horas de trabalho (de acordo com os fabricantes),
qualquer um pode experimentar a sensação vitoriosa dos pioneiros
da aviação. (Mitsi Goulias)
www.estado.estadao.com.br/edicao/especial/seculo/designer/temas/aviao/aviao2.html