Landell de Moura
ANTES DE MARCONI...
História triste de um inventor brasileiro: Padre LANDELL DE
MOURA
Por Ernani Fornari
Nascimento de LANDELL DE MOURA e de suas Teorias
Nasceu o Monsenhor ROBERTO LANDELL DE MOURA no dia 21 de janeiro
de 1861, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, à rua de Bragança,
numa casa que faz esquina com antiga praça do Mercado, tendo sido batizado,
conjuntamente com sua irmã Rosa, a 19 de fevereiro de 1863, na igreja do
Rosário, de cuja freguesia, anos mais tarde, e até falecer, viria a ser o
vigário. Era êle o quarto de doze irmãos, sendo seus pais o Sr.Inácio José
Ferreira de Moura dona Sara Mariana Landell de Moura, ambos descendentes tradicionais
famílias riograndenses.
Remediados e muito religiosos, colocaram-no seus pais Colégio dos Jesuitas,
em São Leopoldo, localidade próxima de Porto Alegre, onde fez os primeiros
estudos. Terminado que foi o curso de humanidades, tirado todo êle, aliás,
com excepcional brilhantismo, por volta de 1879 transferiu-se o jovem
Roberto para a Côrte, onde , segundo uns, se matriculou na Escola
Politécnica, e, segundo outros, se empregou num armazém de secos e molhados,
como caixeiro de cão.
Êsse pormenor, sem dúvida importantíssimo, foi-nos possível esclarecer. O
que é certo, porém, é que êle já se encontrava, havia alguns meses, na
Capital do Império, segundo seu irmão Guilherme, que ia seguir a carreira
eclesiástica, passou pelo Rio de Janeiro, em trânsito para Roma.
Essa visita de Guilherme foi decisiva na vida de Roberto. Por influência
daquele, Roberto, que era também dotado de fervoroso espírito místico,
decidiu, de repente, abandonar o comércio (ou a Escola Politécnica) e
abraçar a sacerdócio- o que ia, de resto, ao encontro dos desejos de seus
pais, que sonhavam em vê-lo Padre.
Homem de resoluções prontas e enérgicas,ROBERTO segue imediatamente para
ROMA, em companhia do irmão. Ali ingressa no COLEGIO PIO AMERICANO, e
passa a frequentar, concomitantemente, a UNIVERSIDADE GREGORIANA,
na qualidade de aluno de física e química, para o estudo de cujas matérias
manifestara, desde muito criança, a mais pronunciada inclinação.
Diante, porém, de tão brusca deliberação, não é ilógico supor-se que, embora
fôsse êle sincero na escolha da nova carreira, e verdadeira a sua vocação ao
sacerdócio, Roberto jamais teria ido para Roma, se, ao lado do Colégio Pio
Americano, não funcionasse uma Universidade Gregoriana.
A CIÊNCIA e a RELIGIÃO, por intermédio da voz de Guilherme, teriam falado
a Roberto a mesma linguagem sedutora.
Se é que a primeira não tenha falado eloquentemente.
NASCIMENTO da TEORIA sobre "UNIDADE DAS FORÇAS E HARMONIA NO
UNIVERSO"
Foi em Roma que o jovem seminarista principiou a conceber as primeiras
idéias em tôrno de sua teoria sôbre a "Unidade das fôrças e a harmonia do
Universo". Ordenado sacerdote em 28 de novembro de 1886, e já de volta para
o Brasil, quando viajava de Roma para Paris, um fenômeno muito comum que se
observa naquelas regiões, durante o estio, veio confirmar-lhe ainda mais
fundamente o ponto de vista que, pouco mais tarde, o levaria às suas
prodigiosas descobertas. Êsse fenômeno é o mesmo que se observa muitas vezes
em nosso país, especialmente em nossas cordilheiras, quando o ar, aquecido,
parecE galopar no espaço-fenômeno êsse que também se verifica na combustão
dos campos.
De retôrno ao Rio de Janeiro, foi residir em uma casa de Padres que então
existia no antigo e hoje desaparecido môrro do Castelo, tendo ali
permanecido cêrca de dois meses, até que, em 28 de fevereiro de 1887, foi
nomeado capelão do Bomfim e lente de História Universal do vetusto Seminário
Epicospal, de Porto Alegre, cargo êsse que desempenhou com invulgar
capacidade e eficiência. Nomeado em 1891 vigário em Uruguaiana, demorou-se
perto de um ano naquela cidade fronteiriça, sendo, em 1892, transferido para
o Estado de São Paulo, onde, durante, sete anos, numa verdadeira vida de
judeu errante, consequência talvez de seu gênio irriquieto e independente,
foi sucessivamente vigário em Santos, Santa Cruz, Campinas e Sant'Ana.
A genialidade do pastor incomodava as ovelhas...
Foi em Campinas, essa época um burgo tranquilo e devoto, propício ao estudo
e à meditação, que o Padre Roberto Landell de Moura positivou,
ou melhor: deu forma definitiva às suas teorias, sôbre as quais, aliás, não
deixara um único momento de refletir. Ali, pois, atirou-se afoitamente ao
trabalho de investigação e apuro.
Por fenômenos um pouco complicados que também ali observou, mas de cuja
natureza, infelizmente, não nos deixou descrição alguma, deduziu o seguinte
princípio: " Todo movimento vibratorio que até hoje, como no futuro, pode
ser transmitido através de um condutor, poderá ser transmitido através de um
feixe luminoso, e por esse mesmo fato, poderá ser transmitido sem o concurso
dêsse agente".
Estabelecido o então absurdo princípio, deduziu imediatamente a lei
seguinte: "Todo movimento vibratório tende a transmitir-se na razão direta
da sua intensidade, constância e uniformidade de seus movimentos
ondulatórios, e na razão inversa dos obstáculos que se opuserem à sua marcha
e produção".
Mas não parou aí o ousado Padre. Espírito incontentado, sempre em busca do
mais além, formula então, audaciosamente, o seguinte e grande postulado, que
foi, talvez, a causa principal de todos os seus sofrimentos, pelo grande
escândalo que provocou entre seu inculto rebanho: "DAI-ME UM MOVIMENTO
VIBRATÓRIO TÃO EXTENSO QUANTO A DISTÂNCIA QUE NOS SEPARA DÊSSES OUTROS
MUNDOS QUE ROLAM SÔBRE A NOSSA CABEÇA, OU SOB OS NOSSOS PÉS, E EU FAREI
CHEGAR A MINHA VOZ ATÉ LÁ".
Como? Pois então havia um Ministro de Deus que insinuava a pluralidade dos
mundos habitados, com os quais se poderia falar?
Êsse postulado, que pretendia ser uma grande bem. foi o seu grande mal.
Era necessário emudecer êsse Padre herético. Urgia fazê-lo calar! Mas de que
maneira? Estrangulando-lhe a voz, antes que ela pudesse chegar até lá.
E foi o que procuraram fazer.
O que não puderam impedir, entretanto, foi que ela fizesse, pelo menos, a
metade do percurso.
E aí estão as Estações de Rádio a atestá-lo!
AS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS
Quatro anos antes de sua morte, no dia 3 de novembro de 1924, declarava o já
então Cônego Penitenciário LANDELL DE MOURA a um redator da "Última
Hora", orgão portoalegrense hoje desaparecido, o qual o entrevistara:
-"DEUS serviu-se da minha humilde pessoa para levantar o véu que encobre
os segredos da natureza, porquanto o sistema de rádiotelefonia, atualmente
em uso, é baseado no princípio da superposiçao dos movimentos ondulatórios
elétricos e na aplicação de uma lâmpada semelhante à lâmpada de Croockes ,
de 3 eletrodos, um pouco modificada, e a qual serve tanto para transmitir
quanto para receber mensagens telefônicas e telegráficas e, sem fio
condutor".
Realmente, êstes dois aspectos principais foram descobertos e aplicados,
pela primeira vez, pelo Padre Landell de Moura, e não sómente para
êsses fins, mas também para outros, todos de grande alcance científico.
Ninguém, em verdade, antes dele, jamais se utilizara das ondas emitidas pela
lâmpada supra-mencionada. A glória dessa extraordinária conquista cabe,
inteira, integralmente, a êle, pois só em 1907 LEE DE FOREST apresentava ao
mundo sua célebre "Lâmpada de 3 eletrodos"...
PRIMEIRA TRANSMISSÃO TRANSPORTANDO SINAL DE
AUDIO SEM O CONCURSO DE FIOS - VIA ONDAS ELETROMAGNETICAS
Prossigamos, porém, em nossa descrição:
Um dia, surge o Padre Landell de Moura na Capital de São Paulo, sobraçando
misteriosos embrulhos que continham um aparélho por êle inventado e com o
qual - segundo afirmava-poderia falar com outra pessoa colocada a
quilómetros de distância, sem ser necessário fio algum. Apesar da dúvida com
que foi acolhida tal afirmação, houve quem nela acreditasse. Interessados,
pediram provas. Deu-as o estranho Padre, com seu aparelho ainda rudimentar,
realizou várias experências de transmissão e recepção sem fio, coroadas,
tôdas elas, do mais completo e retumbante êxito.
Verificou-se isso entre os anos de 1893 e
1894.
Essas experiências, como já dissemos, tiveram lugar na Capital paulista, do
alto da Avenida Paulista ao Alto de Sant! Ana, numa distância aproximada de
oito quilômetros, em linha reta,um ano e alguns meses antes, portanto, da
primeira e elementaríssima experiência realizada, por intermédio das ondas
hertzianas, por GUGLIELMO MARCONI , em Pontechio, de Bolonha na
primavera de 1895.
Obtenção da Primeira Patente no
Brasil
Em 1900, finalmente, depois de passar por toda sorte de vexames,
perseguições e dificuldades, depois de sustentar renhidas lutas contra o
espírito supersticioso e rotineiro da época, que já começava a enxergar nele
um feiticeiro perigoso, vendo-se mesmo obrigado a enfrentar a oposição e a
ira dos próprios irmãos de crença, que chegaram, um dia, (Isso se passou em
Campinas) a invadir violentamente seu laboratório e destruir todos os seus
aparelhos, consegue obter uma patente brasileira, sob o número 3.279,
expressamente concedida "para um aparelho apropriado à transmissão da
palavra à distância, com ou sem fios, através do espaço, da terra e da
água".
Experiência de Transmissão presenciada pelo Consul Britânico
em São Paulo, Sr. C.P.LUPTON, autoridades brasileiras, povo e vários
capitalistas paulistanos.
Obtida a patente, torna o sábio brasileiro a fazer novas experiências, sendo
que uma delas em presença do então cônsul britânico em São Paulo, sr. C. P.
Lupton (ou Lepton?), de autoridades brasileiras, povo e vários capitalistas
paulistanos, transmitindo e recebendo a voz humana por meio de seu
maravilhoso aparêlho, a uma distância aproximada de 40 a 45 milhas.
O Consul Britânico aconselha Padre Landell a ir para a Inglaterra
patentear seu invento
Deslumbrado com invento tal, que prometia revolucionar totalmente a ciência,
o sr. C. P. Lupton aconselhou ao Padre Ladell de Moura, que era, por
parte de sua mãe, de descendência escosesa, a ir para a Inglaterra, a fim de
lá patentear seu invento, prontificando-se mesmo a fornecer-lhe até as
necessárias credenciais que o recomendariam ao Govêrno de seu país.
Brasileiro acima de tudo, recusou-se o modesto vigário a aceder ao
entusiasmo científico, mas patrióticamente inglês, do ilustre representante
britânico.
Não! A glória de sua descoberta êle só a daria ao Brasil!
Entretanto, muito em breve o pobre inventor patrício teria de compreender a
dolorosa verdade do provérbio que afirma que ninguém é profeta em sua terra.
No Brasil, olhavam-no com espanto. Mais do que isso-com mêdo! Pois já não
existia até quem asseverasse ter êle partes com o demônio, como já havia
acontecido, de resto, em 1709, com outro Padre, também brasileiro,
Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o Voador, inventor do aeróstato?
Fazia-se mistér, pois, uma viagem ao estrangeiro para ser levado a sério em
seu país. como desgraçadamente ainda hoje acontece, embora em escala já bem
mais reduzida.
E ele mesmo declarou, ao decidir-se a levar avante sua tarefa:
Padre Landell reafirma sua convicção de que CIÊNCIA e RELIGIÃO não
são incompatíveis.
-"Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da ciência e do
progresso humano. Indivíduos, na Igreja, podem, neste ou naquele caso,
haver-se oposto a esta verdade; mas fizeram-no por cegueira. A verdadeira fé
católica não a nega. Embora me tenham acusado de participante com o diabo e
interrompido meus estudos pela destruição dos meus aparelhos,hei de sempre
afirmar: isto é assim, e não pode ser de outro modo... -E com amargura:-Só
agora compreendo Galileo exclamando " E pur si muove!"
EM NORTE AMÉRICA
Os Estados Unidos da América do Norte, como na atualidade, já era então a
meca dos inventores, motivo por que foi êsse o país escolhido pelo Padre
Landell de Moura para o seu banho de valor.
Deixando, pois, a terra nativa, que tão ingrata e adversa lhe vinha sendo,
para lá se dirigiu o eminente cientista, em meados de 1901, sem auxílio de
quem quer que fôsse.
Em 1902, o Rev. Padre Landell de Moura enchia páginas, com as suas
descobertas, dos grandes jornais estrangeiros, como o "NEW YORK HERALD".
Era ele então, como o descreve um escritor norte-americano pelas colunas do
New York Herald, de 12 de outubro de 1902, um "gentleman de uns quarenta
anos de idade" , e estava na plenitude de seu gênio.
Naquele país, viveu o Padre Landell por espaço de três anos, durante os
quais assombrou os meios científicos americanos com seus numerosos e
prodigiosos inventos, entre os quais os três da mais decisiva importância
para o mundo: a Telefonia-sem-fio, a Telegrafia-sem-fio e o
TRANSMISSOR DE ONDAS...
Essa sua demora na América do Norte, no entanto, tem uma história: Três
meses após sua chegada à grande nação, fez o Padre LANDELL DE
MOURA demonstrações teóricas perante The Patent Office at
Washington, a fim de oficializar seu primeiro invento a
Telefonia-sem-fio. Requerido o patenteamento do mesmo, em ofício datado de 4
de outubro de 1901, foi declarado por aquela Repartição "que suas
teorias eram tão revolucionárias que a patente não poderia ser
concedida sem a apresentação de um modelo do aparelho, para a
demonstração prática das mesmas". (#).
Ora como já foi dito, seus primeiros aparelhos haviam sido destruídos no
interior de São Paulo por um grupo de fanáticos em fúria; quanto aos
últimos, não os havia levado consigo. Não teve pois o Padre outro remédio
senão demorar-se longo tempo em Norte-América, onde pretendia permanecer
apenas seis meses-o que veio agravar mais ainda sua situação financeira, já
então bem difícil.
Dificílima, aliás,. Em um dos diversos cadernos que temos em nosso poder,
nos quais o Padre Landel registava suas observações, esquemas e o
resultado de suas experiências, encontrámos, por sinal, uma curiosa previsão
de orçamento para essea viagem. Pela sua leitura, podem-se conhecer os
parcos recursos financeiros de que êle dispunha, e ter uma idéia das
tremendas dificuldades por que deve ter passado nos Estados Unidos.
Vemos ali escrito, a lápis de cópia:
"Viagem de ida e volta.......1:000$000
Estada 6 meses 250$000.......1:500$000
Roupa (preparativos).........200$000
Extraord. ...................300#000"
Mil e quinhentos cruzeiros para viver seis meses no país dos dólares!
Mas a tudo êle resistiu. Sem esmorecimento, antes cheio de entusiasmo,
apesar dos prejuizos morais e materiais que êsse retardamento lhe viria
ocasionar, meteu mãos à obra na construção de novo aparêlho.
REGISTRO DAS PATENTES DO TELEGRAFO SEM FIO e
TRANSMISSOR DE ONDAS
Foi no decurso dêsses três trabalhosos anos que êle requereu, em ofícios
datados de 16 de janeiro de 1902 e 9 de fevereiro de 1903,
respectivamente, o patenteamento dos outros dois inventos: a
Telegrafia-sem-fio e o Transmissor de Ondas.
"Entretanto, ainda para êsses, The Patent Office exigia os os
respectivos modelos.Fê-los.Uma vez apresentados, foram lhe concedidas
finalmente as tres patentes, assim mesmo sòmente depois de árduas, repetidas
e meticulosas provas e contra-provas, que consumiram dois anos. É que, dada
a responsabilidade que aquela República assumiria perante o mundo, com a
expedição de patentes de tão relevantes e grandiosos inventos, que,
fatalmente, viriam imprimir novas e imprevisíveis perspectivas à civilização
moderna e às relações entre os povos, não seria aconselhável registrá-las
sem, antes, ter tido provas materiais concludentes, positivas, da
exequibilidade de suas teorias e da eficiência de seus aparelhos".
FINALMENTE... O REGISTRO DAS PATENTES.
Cumpridas essas formalidades, foram-lhe entregues as patentes sob números
771.917, de 11 de outubro de 1904 (TRANSMISSOR DE ONDAS); 775.337, de
22 de novembro de 1904, (TELEFONIA-SEM-FIO),e 775.846, da mesma data
(Telegrafia-sem-fio), conforme as provas com as fotografias adiante
impressas,de cada fax-simile.(veja os fax em outra página).
O PATRIOTISMO DO PADRE LANDELL
Em extensa carta enviada de Nova York pelo Monsenhor Vicente Lustosa a 7 de
maio de 1904, e publicada no "Jornal do Commercio" do dia 19 de junho do
mesmo ano, assim se expressava aquele ilustre representante do clero
brasileiro: "Visitámos também o nosso patrício Padre Roberto Landell de Moura,
rio-grandense do Sul e que, há uns 5 anos foi vigário em Campinas de São
Paulo, e que aqui reside há 3 anos, fazendo estudos sôbre electrecidade.
Montou um modesto gabinete e conseguiu descobrir novas interessantes
aplicações de electricidade, e sôbre a espécie já obteve do Govêrno
americano dois privilégios, e está em vias de alcançar outros.
Os jornais de Nova York já se ocuparam honrosamente de seu nome, publicando
o seu retrato e diplomando-o se sábio. E distintos engenheiros, em sinal de
apreço e consideração, ofereceram-lhe um jantar.
Entretanto, o Padre Landell de Moura está inteiramente abandonado de
seus patrícios, vive aqui com parcos recursos e sem poder alargar a esfera
de sua atividade nos seus inventos e aplicações. Uma companhia exploradora
já quis comprar por preço insignificante os seus privilégios, para rotular
tudo como coisas americanas.
O americano é muito cioso do seu gênio inventivo.
Se a princípio, porém, como revelou o Monsenhor Vicente Lustosa, houve quem
quisesse fraudar a boa-fé do Padre Landell, apenas divulgada a notícia da
concessão das patentes diversos magnatas norte-americanos, vivamente
interessados na exploração industrial dos inventos do
insigne brasileiro, movimentaram-se em acirrada disputa, desejosos de
adquirir, por somas realmente fabulosas, seus direitos de propriedades sobre eles.
Mas o virtuoso sacerdote riograndense era, antes de tudo, antes mesmo de seu
desprendimento às coisas terrenas, brasileiro e patriota cem por cento.
Recusou tôdas as propostas, desdenhou tôdas as vantagens, ficou impassível a
tôdas as promessas de fausto e de relêvo mundano com que lhe acenavam. Em
sua cristianíssima humildade, em sua natural modéstia, o Padre Landell
de Moura como que procurava mesmo atenuar a repercussão universal que seu
nome estava tomando, quase a pedir perdão aos homens por ostentar tanta
genialidade e tanto renome.
-Não. Desculpem-me. Agradeço infinitamente tamanha generosidade; mas êsses
inventos já não mais me pertencem. Por mercê de Deus, sou apenas depositário
dêles. Vou levá-los para a minha Pátria, o BRASIL, a quem compete
entregá-los à humanidade.
Essas foram, aliás, as constantes de seu pensamento, os refrões de toda sua
vida: Deus, Pátria e Humanidade.
Ainda a 8 de abril de 1905, em resposta a um ofício que, em data de 28 de
março do mesmo ano, lhe dirigia o "Centro de Sciencias, Letras e Artes", de
Campinas, assim se exprimia o sábio Padre:
Botucatú, 8 de abril de 1905.
Exmo. Sr. Dr. J. César Bueno Bierrenbach.
Dign. Secretário geral do Centro de Ciências, Letras e Artes.
Exmo. Amigo e Senhor.
Por intermédio de V. E. tenho a satisfação de notificar aos digníssimos
Representantes do Instituto Científico de Campinas, que aceito muitíssimo
penhorado o vosso gentil convite para fazer parte dessa bem nascida
instituição, na qualidade de sócio correspondente, e que agradecendo com
toda efusão de minha alma, faço votos ao Criador, para que, em um futuro não
remoto, possais ter ocasião de glorificar, não a mim, mas sim Aquele que em
meus estudos e pesquisas científicas me ilumina e guia, para decôro da
sotâina que envergo, exaltação da Pátria e bem-estar da humanidade.
Sou, com toda estima e consideração, de Vossa Excelência, Criado e Amigo
muito agradecido.
(a) P. Roberto Landell de Moura.
E cheio dessa piedosa ilusão, confiante no espírito de justiça de seus
compatriotas, satisfeito do dever cumprido, faz-se de malas para o Brasil,
onde aporta em princípio de 1905.
Pretendia ser êsse, entretanto, um regresso de curta duração. O Padre
Landell pensava permanecer apenas três meses no Rio de Janeiro, retornando
então a Nova York, a fim de ali, terra de maiores recursos científicos,
prosseguir seus estudos e experiências outras. Não obstante os resultados
integrais e positivos a que chegara, seus aparêlhos pareciam de
aperfeiçoamentos, para uma melhor utilização prática e comercial.
Primeira página de patente obtida, em 1904, nos EE. UU., pelo rev.
Landell de Moura, a propósito de aparelhagens para transmissão de
ondas. Nesta biografia, em tempo oportuno, serão descritas em todas as
suas minúcias essas aparelhagens.
Estava escrito, porém, que o futuro Cônego não sairia mais do Brasil, e que
em sua Pátria seria forçado a abandonar seus estudos e investigações
científicas.
O TRISTE DESTINO DOS INVENTORES NACIONAIS
Mas não é impunemente que se vence a rotina e se conquista a glória.
Estava-lhe reservado o mesmo destino de tantos outros grandes brasileiros.
Já a maldade, a inveja e poderosos interêses ocultos, vinham-no há muito
espreitando de longe. Aqui, de perto, iriam, com renovado furor, tomar mais
corpo as perseguições, e deflagrar, enfim. A vítima, um sacerdote sem
manchas, era mansa demais para opôr séria resistência às explosões do ódio
dos impotentes mentais, e aos manejos do ciúme dos ineptos e malogrados. Nem
mesmo a sua nunca deshonrada batina, que era o puríssimo escudo de sua
bondade e do seu despêgo aos bens materiais, nem mesmo a sua fé jurada e seu
sincero sacerdócio, puderam livrá-lo da babugem inimiga, do vilipêndio soez
e da difamação mais sórdida. E as intrigas tramadas, por influentes
adversários estrangeiros e nacionais, a calúnia dos incapazes e dos imbecis,
o chasque baixo dos incultos, dos fanáticos e dos supersticiosos,
estrugiram, de repente, fortes e invencíveis, cevando-se na sua reputação
ilibada, desvirtuando-lhe até os propósitos altruísticos.
- Êle é um mentiroso!- ganiam uns.
- É um louco e um bruxo! - vociferavam outros.
-É um Padre renegado!
Em suma, mais do que tudo isso: "É um espírita!"
Certo país, interessado por outro inventor, alarmado com as investigações do
sábio brasileiro subreticiamente dentro do próprio Vaticano. A pressão,
antes dissimulada, faz-se sentir cada vez mais fortemente, e evidencia-se
por fim.
E ao bom, e ao casto, e ao nobre benfeitor da humanidade, ao Padre
ROBERTO LANDELL DE MOURA, o preclaro cientista brasileiro, a quem,
ainda em NOva York, fôra, como castigo, cassado o direito de Oficiar,
aguarda no Brasil a prevenção e a hostilidade dos próprios concidadãos.
" Na angélica bondade que o caracterizava", na expressão de um escritor
contemporâneo seu, forrada de corajosa independência mental, alheio à
peçonha que dentro em breve desabaria sôbre sua cabeça, desembarca o
diabólico Padre no Porto do Rio de Janeiro.
Um grande amigo seu, o então popularíssimo Almirante José Carlos de
Carvalho, hoje falecido, que o conhecera em Norte América, onde assistira
às suas experiências, e que, por sinal, em muitas ocasiões lhe valera
monetàriamente-matando-lhe mesmo a fome algumas vezes! - abre-lhe, bem
contra a vontade do sábio, as colunas do "Jornal do Commercio", em
memorável entrevista sôbre suas invenções e descobertas.
Ficaram todos alerta com aquele roupeta escaveirado, sêco como um arenque e
alto como um poste, que afirmava poder falar até com a China, como se seu
interlocutor estivesse à sua frente, numa mesma sala. Sua reputação de ter
"parte com o sobrenatural" parecia assim confirmar-se.
Dias após sua chegada, compareceu êle à presença do então Presidente da
República, dr. Rodrigues Alves, a quem solicitou dois navios de nossa
esquadra de guerra, para uma demonstração de seus inventos. O Presidente,
homem culto e superior, embora um pouco desconfiado, prometeu-lhe os navios.
Dias mais tarde, apresentou-se ao sábio um dos assistentes civis do Chefe da
Nação, desejando saber, de ordem daquele, que distância desejava o Padre
ficasse um navio do outro.
Ora, falar em "distância" ao homem que riscara essa palavra do dicionário,
não deixava de constituir uma legítima gaffe.
LANDEL DE MOURA, nessa ingenuidade que é a carcterística dos homens de
gabinete e de laboratório, ingenuidade que ainda se espanta de como haja
alguém que faça perguntas ingênuas, pois que é um permanente estado de
espírito dos verdadeiros sábios a convicção de que todos estejam no
conhecimento de seus conhecimentos, olhou-o de alto a baixo e retrucou:
- Distâcia? Dentro da baía?!... Não,doutor!Fóra da baía, em ALTO
MAR!!,e à distância máxima que fôr possível.
Assombro do enviado palaciano:
- Quantas milhas, por exemplo, Reverendo?
- As que quiserem ou puderem,- afirmou com decisão.- Os meus aparelhos
podem estabelecer comunicação com quaisquer pontos da terra, por mais
afastados que estejam uns dos outros. Isto, presentemente, porque,
futuramente, servirão até mesmo para COMUNICAÇÒES
INTERPLANETÁRIAS.
Coube, desta vez, ao oficial... "de gabinete" olhá-lo de alto a baixo:
-Muito bem, Reverendo. Farei S. Excelência ciente do que me diz.
Chegado ao palácio, o assistente transmitiu sua impressão ao Presidente:
- Excelência, o tal Padre é positivamente
MALUCO.Imagine que êle chegou até a falar-me em
conversar com OUTROS MUNDOS!!(#).
No dia subsequente, uma carta amável da Secretaria da Presidência da
República informava ao egrégio brasileiro não ser possível no momento,
lamentàvelmente, atender seu pedido, devendo Ele, por isso, aguardar a
oportunidade...(#)
Por êsse mesmo tempo, o Govêrno italiano, que já em 1902 cedera a Marconi a
belonave "Carlo Alberto", punha toda a sua esquadra à disposição do jovem
electricista bolonhês...
Sabedor de toda a verdade, profundamente abalado, completamente desiludido,
o Padre Landell de Moura, num ímpeto de irritação, destruiu seus
aparelhos e encaixotou suas patentes e documentos. Resolvido a voltar-se
exclusivamente ao sacerdócio, onde por certo, encontraria consôlo para as
suas decepções, retornou às antigas atividades cultuais, como vigário em
Botuacatú e Mogí das Cruzes, no Estado de São Paulo, voltando mais tarde
para o Rio Grande do Sul, onde foi vigário, primeiro, da freguesia do Menino
Deus, depois, da do Rosário.
Mas terminaram aí suas atribuições?
Não, desgraçadamente. Êle nascera para jamais ser compreendido. Muito
teríamos nós a dizer acêrca dessa última transferência de freguesia, e...
Mas é melhor parar por aqui, pois, no momento, do Padre Landell de
Moura sòmente o cientista nos preocupa e interessa. Saiba-se apenas que,
apesar das perseguições "ratas de igreja", como êle mesmo dizia, as quais
não toleravam seu verbo incandescente e direto, mas feito de verdade e de
verdadeira prática da Religião, foi êle elevado a Monsenhor a 17 de
setembro de 1927, e a Arcediago do cabido Metropolitano seis meses
antes de falecer. Não venceu a rumurosa questão do bispado, é verdade (Êle
fôra candidato a Bispo), mas morreu de alma limpa, como sempre viveu,
perdoando aos que o haviam sempre acossado e combatido.
E foi assim que findou seus dias, incompreendido, ignorado-mais do que isso:
negado e, frequentemente, até mesmo ridicularizado pelos seus patrícios - um
dos maiores gênios que o mundo já viu nascer.
Ainda em um de seus velhíssimos livros manuscritos salvos milagrosamente da
destruição, e que estão em nosso poder, encontramos esta página
profundamente melancólica, escrita de seu próprio punho num momento de
íntimo desabafo, intitulada:
UMA PERGUNTA PATRIÓTICA.
Quem foi que inventou a telefonia sem fio?
A telefonia-sem-fio tanto acústicaa, como a ondulatória luminosa e elétrica,
foi o autor destas linhas. A acústica, que consiste na transmissão da voz
através do ar, êle a conseguiu mediante um aparêlho acústico com o qual êle
transmitiu e recebia a voz humana. A luminosa, mediante os raios ou a luz
abundante em raios actínios e ultravioletas e uma propriedade do selenium
por êle descoberta. A Elétrica ou Magnética mediante ONDAS ELÉTRICAS
especiais por êle descobertas em seu transmissor fonomicrofone por
êle inventado e a sua lâmpada reveladora das ondas eléctricas.
Além dessas invenções sôbre telefonia-sem-fio, o autor dessas linhas foi o
inventor do sistema das ondas reflexas e o descobridor dos receptores
baseados na magnetismo e na sindérese magnética. Tudo quanto acaba de expor
poderá ser confirmado com as tres patentes que lhe foram concedidas pelo
Govêrno dos E.U.do Norte, as quais cobrem várias invenções. Êle é
também autor de muitos outros aparelhos eléctricos, tais como o "EDIFONO",
o "CALEOFONE", o "TELETITON", o "GEOFONE" e vários outros que figuram
na relação que o livro do "Brasil moderno" traz, conjuntamente com seu
retrato. (#)
Assim é que o que foi SANTOS DUMONT para a navegação aérea quanto ao mais
leve e o mais pesado, foi o autor destas linhas para a transmissão sem fio
tanto do sinal inteligente como da palavra articulada. Santos Dumont está
bem, porém o seu colega contemporâneo vive esquecido porque cometeu um
crime, o de querer sair da sacristia, para mostrar ao mundo que a RELIGIÃO
nunca se opôs ao PROGRESSO DA HUMANIDADE, e que o sol também passou e
ainda continua a passar estas plagas...(ilegível). Tudo quanto tem feito o
autor destas linhas obedece ás suas teorias sôbre a Unidade da força e
Harmonia do Universo, outrora muito combatida, porém hoje admitida por
ele, e outros mais felizes conseguirão confirmá-la com os fatos.
E o Monsenhor ROBERTO LANDELL DE MOURA, o pioneiro da
Telegrafia-sem-fio,o percursor da RADIOTELEFONIA, o bandeirante da
própria TELEVISÃO, o descobridor das Ondas Landeleanas, de que
falaremos mais adiante, e de tantas e tantas outras descobertas notáveis,
morreu anônimamente, aos 67 anos de idade, no dia 30 de julho de 1928 ,
num modesto quarto da Beneficiência Portuguesa, de Porto Alegre, cercado
apenas por seus parentes e meia dúzia de amigos fiéis e devotados.
Ondas landeleanas
Dissemos anteoriormente ser o Monsenhor Landell de Moura o descobridor
das Ondas Landeleanas.
Expliquemos o que sejam essas ondas, de que êle se servia em seus sistemas
de Telegrafia e Telefonia-sem-fio.
Essas ondas, denominadas Landeleanas por um jornal de São Paulo que em
1900 se ocupou das teorias científicas do Padre inventor, conquanto sejam,
aparentemente, do mesmo número das Ondas Hertzianas, todavia diferem
muito destas últimas, porque estas são ondas mais ou menos amortecíveis e
produzidas por movimentos vibratórios elétricos sem Constância,nem
Uniformidade, que vão, pouco a pouco, decrescendo, ao passo que aquelas -
ondas Landeleanas - não estão sujeitas a tais transformações e são
produzidas por movimentos vibratórios elétricos, cujos valores
ondulatórios são CONTÍNUOS e permanecem sempre iguais.
Em suas teorias sõbre a SUPERPOSIÇÃO, a que já nos referimos, dos
movimentos vibratórios, acústicos, luminosos, radiantes e eletromagnéticos ,
para transmitir e receber o sinal fônico, luminoso, harmônico, acústico, e
da VOZ HUMANA ARTICULADA, ou FOTOGRAFADA, através do ESPAÇO, da
TERRA e do elemento aquoso, essas ondas têm uma ação defenitiva, pois
se projetam de um contínuo, entre as estações receptoras e transmissoras,
formando um campo ondulatório permanente e uniforme. E era através dêsse
campo que êle enviava suas mensagens telegráficas e telefônicas.
Como bem se verifica, as ondas landeleanas desempenham, em seu sistema
de telegrafia e telefonia-sem-fio, o papel de um condutor metálico.
A idéia da criação dêsse CAMPO ONDULATÓRIO através do espaço, além
de ser genial, é de grande alcance prático e científico, pois já tem sido
aproveitado para vários fins.
Nela baseava, de resto, o Padre Landell a possibilidade de transmitir,
também sem fio, a IMAGEM a grandes distâncias, ou seja a "TELEVISÃO"
que agora se pratica.
Era ainda nesse mesmo princípio que ele alicerçava igualmente a
possibilidade de transmitir as vibrações correspondentes ao "Logus", ou
Verbo Mental, assim como hoje se transmitem as vibrações
correspondentes à palavra falada!
*Observações deste Webmaster: Veja o que hoje se estuda em muitas Universidades dos
EE.UU. e Europa:
"Transcomunicação Instrumental"*
Êste último enunciado foi que veio consolidar nas mentalidades acanhadas a
sua fama de maluco...
Mas será que ainda não veremos realizada essa genial teoria do padre Roberto
Landell de Moura?
O futuro dir-nos-á. E dir-nos-á confirmando,estamos convencidos.
O SISTEMA DE RUHMER e o SISTEMA DE
LANDELL
Não levando em conta as experiências feitas no Brasil (1890-1894), não
faltará quem diga que, mais ou menos pela mesma época das experiências
levadas a efeito pelo Padre em Norte América (1902), também o professsor
Ernest Ruhmer fazia demonstações públicas, na Alemanha, de transmissão da
palavra por intermédio da luz, o que, de certa forma, vem prejudicar um
pouco, a originalidade da descoberta do Padre Landell de Moura.
Nada menos exato.
Além das experiências do Padre serem muitos anteriores, para que se veja a
diferença essencial existente entre um sistema e outro, transcrevemos aqui,
com grifos nossos, um resumo das experiências feitas por aquele eminente
cientista alemão, conforme vem descrito na edição de 12 DE OUTUBRO DE 1902,
do New York Herald: O professor Ernest Ruhmer há vários anos é bem conecido como infatigável
físico. Há tempos deu provas de que suas investigações não foram vãs,
inventando o instrumento conhecido como fotografone.
Consequentemente, os maiores eletricistas e outros especialistas da Alemanha
não se surpreenderam, quanto êle os informou, recentemente ($), que tinha
descoberto um método para enviar mensagens sem fio, por telefone, e que iria
fazer demonstrações práticas a respeito, e que desejava fossem por êles
testemunhadas.
Muitos aceitaram o convite, contando-se entre êles Von Rudiger, proeminente
personalidade do Govêrno, e os professores kalisch e Kapp, da Alta Escola
Técnica de Charlottenburg, assim como representantes da imprensa de berlim e
de Viena.
As experiências foram feitas em Wannsee, perto de berlim, e deram os
melhores resultados, apesar da chuva pesada que caía e do ar ser
constantemente perturbado pelo barulho dos navios próximos.
O inventor enviou mensagens sem fio, por telefone, a uma distância, primeiro
de 2 meia, e, depois, de 4 milhas e um quarto.
Como conseguiu o Professor Ruhmer inventar coisa tão maravilhosa? -
perguntaram agora muitas pessoas. Respondem os cientistas que êle obteve
êsse resultado seguindo fielmente o caminho do Professor Alexander Graham
Bell, com relação à luz. Em 1880, o Professor Bell propunha que o radiofone
fôsse empregado na utilização de energia radiante, quer como luz, quer como
calôr irradiante, para a transmissão do som.
O radiofone, que então atraia a atenção de muitos, era um aparelho baseado
na descoberta do Snr. May, quando êste procedia a experiências com selênio,
e, segundo a qual, quando o selenio é exposto à luz, sua resistência
elétrica difere muito de quando está no escuro.
Luz Transportando Audio
Refletindo sôbre esta descoberta, o Professor Bell concebeu a idéia de que,
se um raio luminoso, partindo de uma estação, pudesse ser dirigido para uma
placa de selênio, colocada em outra estação, e se sua intensidade pudesse
ser tornada variável pela voz de um locutor, então, se fossem ligados um
telefone e uma bateria em circuito com a placa de selênio, as palavras
pronunciadas na estação seriam ouvidas no telefone.
As experiências feitas provaram a exatidão da teoria. Por essa ocasião, o
Professor Simon, inventor da lampada que conta e o snr. Dudell, cientista
inglês, mostraram perfeitamente que a luz pode ser usada para transmitir o
som, e que suas experiências, neste sentido, foram de grande auxílio para o
Professor Ruhmer, ao mesmo tempo que os especialistas acham muito provável o
êxito do método empregado para a telefonia-sem-fio, desde que seja
aperfeiçoado.
O professor Ruhmer fez uma importantíssima descoberta, e, por isto, sem
negar o que possam merecer outros que realizaram experiências com a luz, êle
está perfeitamente apto a receber os elogios que agora lhe fazem, visto
como, se não tivesse feito esta descoberta, não poderia ter aperfeiçoado seu
sistema de telefonia-sem-fio. Êle foi o primeiro a descobrir como obtre o
máximo possível do emprêgo do curioso metal, que é o selênio.
Supunha-se que o selênio era insensível às côres, ou, em outras palavras,
que só sentia a influência dos ratos vermelhos e amarelos. Agora (#),
entretanto, o Professor Ruhmer descobriu, depois de muitas experiências
químicas, que o selênio é sensível também aos raios azuis, violetas e
ultra-violetas, ou aos raios invisíveis. Para mostrar a importância desta
descoberta, basta dizer que, se o selênio fosse apenas sensível aos raios
vermelhos e amarelos, seria impossível o telefone sem fio de Ruhmer, à luz
do sol.
Quanto mais o selênio fôr expôsto à luz, melhor atuará como condutor de
eletricidade, e o invento de Ruhmer baseia-se neste princípio.
Suas experiências em Wannsee fôram surpreendentemente simples.
Na estação transmisssora, uma pessôa falava no diafragama de um telefone
comum, e as ondas sonoras atuavam sôbre a corrente eléctrica que produzia a
luz, sendo esta então transportada para a estação receptora. Aí, a luz
atuava sôbre o selênio, o qual, como já foi dito, conduz a corrente de
maneira melhor ou pior, conforme a luz é mais forte ou mais fraca; e de
acôrdo com a intensidade de corrente, que era ora mais fraca, ora mais
forte, os mesmos sons gerados na estação transmissora eram exatamente
reproduzidas na estação receptora.
Os diafragmas vibravam de modo idêntico em cada estação, e os sons remetidos
de um local eram distintamente percebidos no outro. O selênio usado na
ocasião, estava num espêlho que tinha menos de 14 polegadas de diâmetro.
As mensagens foram enviadas, nessa ocasião, da "Torre do Imperador
Guilherme", em Havel, para uma ilha próxima a Potsdam, e, embora o espêlho
fôsse tão pequeno e a luz, por conseguinte, tão imperfeita, os sons fôram
ouvidos distintamente nos dois lugares, permitindo que as pessoas
conversassem fàcilmente entre si. A distância era de 4 milhas e um quarto".
E mais adiante:
"A única desvantagem do sistema é que a distância a que podem ser enviadas
as mensagens, é reduzida. Os peritos sabem que o sistema só poderá ser
eficiente para uma distância máxima de 125, 150 ou, possívelmente 175
milhas, e dizem que nas condições atuais, apenas isto pode esperar".
Ora, um dos vários sistemas seguidos pelo Padre Landell de Moura,
além de muito diferente do de Ruhmer e de absolutamente original (embora
também nêle empregue a luz como agente condutor do som), é
impressionantemente inédito no seu processo de recepção. Transmitindo
palavras através de um feixe luminoso, sem a mínima intervenção, seja
do selenio, seja do microfone - simplesmente assombroso! - todas as
pessoas colocadas dentro do raio de recepção, sem a utilização de receptor
algum, ouvem-nas perfeitamente, coma ajuda apenas dos próprios órgãos
naturais. (!)
Por outro lado, ( o que é ainda mais importante), essas transmissões podem,
práticamente, alcançar o infinito!
OS CINCO SISTEMAS DE TRANSMISSÕES AÉREAS DE LANDELL DE
MOURA
Antes de entrarmos própriamente na descrição minuciosa de suas descobertas,
com a tradução integral do texto das patentes expedidas pelo Governo
Norte Americano, façamos um resumo de seus sistemas de trasmissões
áereas.
As patentes a que nos referimos, e que são três, levam o nome de
WIRELESS TELEGRAPH, WIRELESS TELEPHONE e WAVE
TRANSMITTER, ou seja:Sistemas de Telegrafia e
Telefonia-sem-fio e TRANSMISSOR DE ONDAS.
Nessa patentes figuram, englobadamente, vários sistemas de transmissões
aéreas, que passamos a enumerar:
Primeiro Sistema: Transmissão acústica da voz articulada, ou
fotografada, a curta distância, mediante uma corrente de ar mandada na mesma
trajetória percorrida pela voz, ao natural, no intuito de reforçá-la.
Êsse aparelho esteve exposto à curiosidade pública, há muitos anos, num
cinema da capital riograndense.
Segundo Sistema: Transmissão acústica luminosa, através de um feixe
luminoso. A influência dêsse feixe, como a da corrente de ar, no primeiro
sistema, foi descoberta pelo mesmo Padre.
Terceiro Sistema: Transmissão elétrica da voz humana, através de um
feixe luminoso, produzido por um ARCO VOLTAICO, ou qualquer outra
fonte de irradiações atínicas. O receptor, que é uma Cápsula
selenica,, que só funciona sob a ação dos Raios atínicos, é uma
propriedade também descoberta pelo Monsenhor LANDELL.
Quarto Sistema: Transmissão eletromagnética do sinal
fônico,harmônico,
luminoso, e da voz humana, mediante a superposição de vibrações
elétricas e irradiantes. Neste caso, o Padre Landell utilizava-se
da sua lâmpada de 3 electrodos e de vários outros aparelhos que figuram em
suas patentes, combinados entre si, e segundo os efeitos que o mesmo tinha
em mente produzir quando telegrafava, ou telefonava, sem fio condutor.
Quinto Sistema: Transmissão elétrica do sinal fônico da palavra
ou da nota musical, mediante cintilações produzidas por uma lâmpada da
sua invenção, dita cintilante, e a qual figura no seu transmissor de ondas.
Mas onde está tudo isso, afinal? - perguntará o leitor, justamente
intrigado.- Que fim levaram todas essas descobertas?
Respondeu-as já o próprio Monsenhor LANDELL DE MOURA ao já citado
jornal de Porto Alegre, Última Hora, em 1924:
-" Os americanos, decorridos os 17 anos de prazo que marca a lei das
patentes, puseram em execução prática as minhas teorias. Não sou menos feliz
por isso. Eu vi sempre nas minhas descobertas uma Dádiva de DEUS. E como,
além disso, sempre trabalhei para o bem da humanidade, tentando, ao mesmo
tempo, provar que a RELIGIÃO não é incompatível com a CIÊNCIA, folgo
em ver hoje realizado, na prática utilitária, aquilo que foi todo o meu
sonho de muitos dias, de muitos mêses, de muitos anos.
ANTES DE MARCONI...
História triste de um inventor brasileiro: Padre LANDELL DE MOURA
Por Ernani Fornari
Restos mortais de Landell de Moura são trasladados
A Paróquia Nossa Senhora do Rosário, no centro de Porto Alegre, preparou-se para receber na manhã de sábado os restos mortais do padre Roberto Landell de Moura (1861-1928).
Considerado um dos pioneiros da radiodifusão mundial por suas experiências no final do século 19 e no início do século 20, o padre gaúcho seria sepultado sob um altar lateral da Igreja do Rosário, onde atuou como pároco.
Os restos mortais estavam no Cemitério São Miguel e Almas, no bairro Glória, e receberam um espaço reservado na Igreja do Rosário, na Rua Vigário José Inácio, 402. No altar reservado para seus ossos, ficará uma placa com seu nome, as datas de nascimento, ordenação e morte, o registro de seus inventos e a inscrição “Sacerdote, cientista e precursor da comunicação”. Os ossos seriam levados em cortejo até a igreja, onde o arcebispo metropolitano de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, e o pároco Remídio José Bohn, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, celebrariam missa.
13-07-2002