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VARIG e Ruben Berta

          A VARIG
          Oficialmente estabelecida em 7 de maio de 1927, a Varig é a maior e mais antiga companhia aérea brasileira em atividade. Assim como suas congêneres, a Varig sofreu os efeitos das recentes crises no mercado de transporte aéreo. A reestruturação por que vem passando nos últimos anos, traduzida na padronização da frota, enxugamento do quadro de pessoal e celebração alianças estratégicas e operacionais (como a Star Alliance, por exemplo) vem minimizando tais efeitos e consolidando sua posição de liderança no País.
          A história da Varig está intimamente ligada ao nascimento da aviação comercial no Brasil. Suas origens datam de 1924, com a criação, na Alemanha, do Condor Syndikat pelo engenheiro e piloto Fritz Hammer, por Peter von Bauer (um dos diretores da SCADTA, que deu origem à mais antiga empresa aérea latino-americana, a colombiana Avianca) e pelas empresas Aero Lloyd e Schlubach Teimer. O objetivo do Condor Syndikat era estabelecer a ligação aérea entre Estados Unidos e Colômbia, via América Central.
          Em 1925, Hammer liderou uma viagem experimental entre a Colômbia e Palm Beach, na Florida, utilizando dois hidroaviões Dornier Wal, um dos quais tinha a matrícula D-1012 e era batizado "Atlântico". Além de analisar a viabilidade da rota, a viagem serviu como tour promocional da indústria aeronáutica alemã no Continente.
          Com a criação da Lufthansa, em 1926, o Condor Syndikat encerrou suas atividades, renascendo em dezembro de 1927 como Syndicato Condor, representando os interesses da Lufthansa no Brasil, sendo o principal deles o estabelecimento da ligação aérea entre o Brasil e a Alemanha. Do Syndicato Condor nasceu a Cruzeiro do Sul, depois absorvida pela Varig. Na mesma época, Otto Ernst Meyer, oficial aviador da Força Aérea alemã, iniciou estudos para a criação de uma empresa aérea no Brasil, contando com o apoio de nomes influentes no Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Com a chegada ao Brasil do Dornier Wal "Atlântico", adquirido pelo Syndicato Condor, Meyer percebeu que seus planos estavam para se tornar realidade.
          A primeira reunião para discutir a criação da nova empresa aconteceu em 1 de abril de 1927, na Associação Comercial de Porto Alegre. Na mesma semana, um anúncio publicado pelos dez sócios-fundadores convidava novos acionistas a tomarem parte no empreendimento. Em 7 de maio de 1927 foi realizada a primeira assembléia geral, com a participação de 550 acionistas, sendo eleito o corpo de diretores: Otto Ernst Meyer (Diretor Administrativo), Rudolf Cramer von Clausbruch (Diretor Técnico), Fritz Hammer, Major Alberto Bins (Diretor do Conselho Fiscal), e os Conselheiros Carlos Albrecht Jr., Max Sauer e o Barão von Duddenbrock. Do capital inicial da empresa, 21% pertenciam ao Syndicato Condor, valor representado pelo Dornier Wal P-BAAA "Atlântico" e pelo Dornier Merkur P-BAAB "Gaúcho". Em 1930, o Syndicato Condor retirou sua participação da nova empresa, transferindo-a ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
          Em 10 de maio de 1927 a Varig recebeu autorização para iniciar operações ligando cidades no Rio Grande do Sul e litoral de Santa Catarina, com possibilidades, após negociações com o Governo uruguaio, de expandir suas rotas até Montevidéu. A primeira rota da Varig, ligando as cidades de Porto Alegre e Rio Grande, conhecida como "Linha da Lagoa" (ambas as cidades situam-se às margens da Lagoa dos Patos), foi inaugurada em 3 de fevereiro de 1927, com o Dornier Wal "Atlântico". A saída do Syndicato Condor da sociedade, em 1930, fez com que a Varig buscasse apoio no Governo gaúcho para expandir suas operações. Este alugou à empresa um campo de pouso em Gravataí e liberou fundos para a construção de um hangar e para a a aquisição de novos aviões (quatro Junkers F-13, para o transporte de passageiros, dois Junkers A-50, para correio e cargas, e dois Klemm L-25, para treinamento de pilotos). Em 1931, três aviões foram adicionados à frota: um Morane-Saulnier MS-130, para treinamento; um monomotor de asa alta Nieuport Delage 641, com cabine fechada para 6 passageiros, e outro Junkers A-50. O A-50 voava regularmente entre Porto Alegre e Santa Maria, levando um único passageiro e malotes de correio. Em 18 de abril de 1930, o Junkers F-13 P-BAAF (depois PP-VAF) voaria para a Varig pela primeira vez, seguido pelo P-BAAG (depois PP-VAG), tornando possível o aumento do número de cidades servidas, entre elas Livramento, Santa Cruz, Cruz Alta e Santana do Livramento. Em 1937 a Varig recebeu um Messerschmitt M20, para dez passageiros, e o vôo para Livramento foi estendido até Uruguaiana. Este avião foi utilizado até 1948. Em 6 de Julho de 1938, entrou em serviço um Junkers JU-52 (PP-VAL, "Mauá"), trimotor de fuselagem metálica, o maior avião na frota da empresa até então.
          Com a II Guerra Mundial, as empresas aéreas que operavam aviões de fabricação alemã, como a Varig, passaram a sofrer com a falta de peças de reposição, o que forçou-as a uma renovação das frotas. No caso da Varig, foi adquirido inicialmente um bimotor biplano inglês DeHavilland DH89A Dragon Rapide (PP-VAN, "Chuí"), com o qual a empresa inaugurou seu primeiro vôo internacional, ligando Porto Alegre a Montevidéu. O DH89A tinha capacidade para oito passageiros e voou nas cores da empresa até 1945 (um exemplar deste tipo de avião encontra-se hoje exposto no Museu Aeroespacial, no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, cedido por empréstimo pelo Museu da Varig, de Porto Alegre). Em 1943 foram encomendados oito Lockheed L-10 Electra, bimotores de fabricação norte-americana. Finda a II Guerra Mundial, empresas de todo o mundo e do Brasil, entre as quais a Varig, incorporaram a suas frotas aviões provenientes do conflito, entre os quais o Douglas DC-3/C-47 e o Curtiss C-46 Commando.
          No ano de 1951, a Varig já servia a 14 cidades no Rio Grande do Sul, seis em Santa Catarina, seis no Paraná, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu. No ano seguinte, adquiriu o controle da Aero Geral - empresa que mantinha uma linha regular entre Rio de Janeiro e Natal, com escalas por cidades do litoral brasileiro -, e expandiu seus serviços rumo ao Nordeste, tornando-se uma das grandes empresas aéreas nacionais, ao lado da Vasp, Cruzeiro, Panair do Brasil e do consórcio Real/Aerovias. Na mesma época, passou a oferecer tarifas mais baixas para o transporte de cargas, obtendo um substancial aumento de sua parcela neste mercado. Em 1955, a malha de rotas domésticas da Varig atendia a 20 cidades.

          www.aviation.com.br/photoweb/materias/FL330/fl330_varig/
 

          Ruben Berta
          O alemão Otto Ernst Meyer tinha uma metáfora que julgava infalível para saber em quem podia confiar: a firmeza do aperto de mão, a franqueza do olhar e os sapatos limpos. Usou a regra para selecionar os candidatos que apareceram em resposta ao anúncio que publicou nos jornais de Porto Alegre, em 1927, oferecendo emprego na companhia que pretendia abrir, a Viação Aérea Riograndense (Varig). Um moço de 19 anos - Ruben Martin Berta nasceu a 5 de novembro de 1907 -, neto de alemães e húngaros, foi o que mais impressionou. Era inquieto, curioso e de memória espantosa. E o principal: nem discutiu o salário, que não era dos melhores. Também não se importava com o fato de ser o único funcionário da empresa. Para completar, tinha os sapatos engraxados!
          Até então, jamais passara pela cabeça de Berta embarcar em tal aventura. Até os 13 anos, enquanto os dois irmãos brincavam na calçada, ele sumia da vista da mãe e escondia-se na biblioteca de um vizinho. Tinha até planos de ser médico. Aí o pai contraiu tuberculose e se afastou da fábrica de fogões e cofres. Ele empregou-se na loja de tecidos de um padrinho para ajudar o sustento da casa. Era um serviço sem perspectiva e, por isso, alguns anos depois, quando leu o anúncio da companhia aérea, entusiasmou-se. Contudo, a mãe, dona Helena, ficou furiosa ao saber que ele pretendia trocar o certo pelo duvidoso. "Não tem cabimento largar a loja para se meter nessa maluquice de voar." Berta dormiu três noites no escritório da Varig até a mãe se acalmar.
          Na Varig, além de varrer o chão, foi guarda-livros, datilógrafo, caixa e carregador de malas. A origem da empresa foi épica. Meyer, observador aéreo no front da Primeira Guerra Mundial, ao chegar ao Brasil, em 1921, percebera que, dada a dimensão continental do País, a aviação comercial por essas bandas haveria de ser um bom negócio. Em 1925, convenceu o governador gaúcho Borges de Medeiros a lhe conceder isenção fiscal por 15 anos.
          Animais na pista
          Era a época dos hidroaviões. Meyer e Berta arregaçavam as calças até os joelhos e remavam para levar os passageiros até a aeronave. O barco ia ziguezagueando, a bordo homens de terno e chapéu e mulheres de vestido longo, a lata de combustível a seus pés, até alcançar o avião, que voava a 140 km por hora sobre a Lagoa dos Patos. Em 1932, a Varig passou a operar com aviões terrestres, que flanavam sobre as coxilhas sem rádio, guiando-se pelas estradas lá embaixo em meio à neblina e dando rasantes para afastar os animais do campo de pouso. Quando nem existia Ministério da Aeronáutica, a Varig implantou por conta própria equipamento de rádio que abrangia 130 localidades e instalou luzes de pista em 19 aeroportos para viabilizar os vôos noturnos.
          Em 1941, com os estrondos da Segunda Guerra, Meyer, que temia ser alvo de violência por causa da origem alemã, passou o manche para Berta e se afastou da empresa. Berta era tão dedicado à companhia que a mulher, Wilma - que lhe deu duas filhas e sete netos -, brincava: "Sei que ele tem uma amante, não precisa me dizer. É a Varig." Impressionava o pessoal da manutenção ao dar palpites certeiros em assunto tão complexo. "Cansei de vê-lo sair de casa, à uma hora da manhã, levando uma cesta de sanduíches que minha mãe preparava para os mecânicos", contou a ISTOÉ Ivone, a filha mais nova. A confiança em seus comandados se consolidaria em 1945, quando - inspirado no papa Leão XIII, que sugeria repartir a propriedade em nome da bondade e da justiça - convenceu os acionistas a doarem 50% da Varig à Fundação dos Funcionários. Hoje, rebatizada Fundação Ruben Berta, ela controla 87,5% da empresa.
          Traçou o plano de vôo para conquistar o mundo no início dos anos 40. Em 1942, inaugurou a linha de Porto Alegre a Montevidéu. Em 1946, chegou ao Rio de Janeiro. Em 1955, no vôo inaugural Rio-Nova York, Berta passou a maior parte do tempo (a viagem durava 22 horas, com três escalas) na copa-cozinha supervisionando o serviço de bordo. "Não é favor atender bem o passageiro. É ele que presta um grande favor quando nos procura." Em 1965, assumiu as linhas para a Europa, a África e o Oriente Médio da falida Panair.
          Extremo Oriente
          Ao sofrer o primeiro infarto, em 1950, tratou de estudar doenças cardíacas a fundo. "O objetivo era convencer o médico de que não precisava reduzir o ritmo de trabalho", lembra a filha Ivone. O segundo infarto o pegou em seu gabinete, a 14 de dezembro de 1966. Sentiu-se mal, mas continuou a ditar tarefas enquanto o médico o atendia. O "Velho", como era carinhosamente chamado, morreu 20 minutos depois de ataque do coração, sem ver a Varig dar a volta ao mundo, como sonhara. Em 1972, um jato da companhia pousaria suavemente no aeroporto de Tóquio, no Extremo Oriente. A utopia se transformara em realidade.
          Você Sabia?
          Autodidata, estudou botânica, mineralogia e agricultura. Suas idéias avançadas lhe valeram dois convites para ser ministro de Juscelino Kubitschek. "Foi o único homem que não nos pediu nada e, quando convidado para ministro, deixou o presidente três dias à espera de uma resposta para, afinal, recusar", escreveu JK.

          www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/empreendedor/emp12.htm

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