Até hoje
são assim. Sempre os achei muito com os pastores bíblicos.
Citemos um testemunho: Dom Ramon Texera, uruguaio, proprietário
de duas quadras de campo, em Alegrete, defronte da "Estância de Santa
Rosa". Afoito e áspero, no trabalho rude de campo - quebrara-se...
atendi-o. Durante o trabalho de examiná-lo e fazer-lhe um aparelho
gessado, foi dando ensanchadas à sua facúndia de uruguaio,
ao saber que eu era de São Francisco de Assis: "Usted es de San
Francisco de Assis?!... Gente buena... gente buena!..." (e seguiu narrando,
na sua língua, o que procuro reproduzir em português): "Na
seca de 1917 me vi muito mal, vi que ia perder todo o meu gado... Botei
ele na estrada e fui para São Francisco em busca de campo... Passei
o Ibicuí e fui indo... Não encontrava campo - estavam todos
ocupados... Era muita gente que tinha emigrado gado... Me vi mal... mas
quando cheguei nos seus pagos, ali pela encosta da Serra, na Sanga Funda,
no Cerro do Braga, na Timbaúva, os moradores foram agasalhando de
1, de 2, de 4, 5 e 6 reses, no campinho de cada morada... Vim embora...
Passados muitos meses, voltei lá, terminada a seca, a ver o que
sobrava... Lá estava o meu gadito todo, não tinha morrido
nenhuma rês (se estou lembrado seriam perto de 200 reses)... Me entregaram
todo ele, e não me cobraram nada, nem pasto, nem sal, nem nada...
"Gente buena, amigo!..."
Antero Marques, Autos de um Processo de Distorção Literária, Sociológica e Histórica (1977).