A Difícil Travessia do Uruguai
Em
dezembro passado, Otavio Frias Filho escrevia na Folha de São Paulo
que a região mais desenvolvida do país, do ponto de vista
social e político, o Sul, transformou-se em “nordeste”, por sua
escassa contribuição cultural e artística (“Na Fronteira
do Sul” (FSP, 11/12/97). O jornalista enfiava o dedo numa chaga que há
décadas vem corroendo os gaúchos. Mais precisamente, desde
o início do século. Como Porto Alegre sempre foi o maior
pólo gerador de cultura dos três Estados ao sul de São
Paulo, para efeitos de argumentação, considero Sul como sinônimo
de Rio Grande do Sul.
Pelas contraditórias
reações que provocou, o artigo foi obviamente mal interpretado.
Gaúchos eriçaram-se em brios ao ver o Sul comparado com o
Nordeste e nordestinos não gostaram de ver seu gentílico
transformado em uma metáfora de aridez cultural. Frias, em verdade,
havia transposto a imagem econômica que temos do Nordeste para o
plano cultural e, no fundo, deplorava a ausência de vozes do Sul
no panorama artístico nacional.
No ensaio
“O Nordeste cultural” (FSP, 01/03/98), eu afirmava em resposta a Otavio
Frias que a intelligentsia paulistana não era inocente neste imbroglio.
Por seu potencial econômico, por sua tradição universitária,
São Paulo sempre determinou o que é ou não é
literatura nacional. O critério não é dos mais complexos:
o que se escreve e publica no eixo Rio-São Paulo é literatura
nacional. O resto... é o resto: é regional, a menos que seja
traduzido no exterior. Por exemplo, Graciliano Ramos. Quando ensaiava seus
primeiros passos nas letras, era escritor nordestino. Quando se tornou
um dos referenciais da literatura brasileira na Europa e Estados Unidos,
foi promovido a escritor brasileiro.
Para equacionar
o problema, alguns elementos devem ser levados em conta: os critérios
dos construtores do cânone literário nacional, que não
vêm o Sul como representativo do Brasil; nosso pendor platino, que
nos faz mais irmãos de uruguaios ou argentinos que de um baiano
ou nordestino; e o poder das imagens sobre o Brasil que a Europa impõe
aos produtores culturais do eixo Rio/São Paulo.
Alguns
critérios do cânone - Ao estabelecer o cânone tupiniquim,
São Paulo, através da USP e historiadores como Antonio Candido
e Alfredo Bosi, privilegiou o chamado “romance de 30”. Romance de profundo
cunho social, como rezam eufemisticamente os catecismos para vestibulandos.
Quais eram seus expoentes? Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado,
Dyonelio Machado. Coincidentemente, todos militantes comunistas. Noves
fora Os Ratos, o Rio Grande do Sul nada mais tinha a oferecer para
competir com os zdanovistas avant la lettre.
Um lembrete
aos mais jovens sobre zdanovismo: é uma tosca teoria literária,
também conhecida por realismo socialista, elaborada pelo teórico
russo Andrei Zdanov e importada ao Brasil por Jorge Amado. Foi o único
estilo de arte permitido na URSS após a subida de Stalin ao poder
e no fundo transformava a literatura em um panfleto a serviço da
revolução socialista. O exemplo mais acabado desta perversão
literária é a trilogia Subterrâneos da Liberdade
, de Amado.
Mesmo sem
ter aderido ao zdanovismo, Dyonelio oferecia aos construtores do cânone
um personagem compatível com o gosto de então: Naziazeno
é um pobre diabo que não consegue colar pestana com medo
de que os ratos roam os últimos centavos que tem para pagar um litro
de leite. Servia para exportação.
Na época,
Erico Verissimo fora salvo da morte como escritor por um incêndio
providencial que incinerou toda uma edição de Fantoches,
infeliz exercício literário cometido em 1932, mais tarde
ridicularizado com certa ternura pelo próprio Érico, em reedição
facsimilar e comentada. Em 33, Érico entrega Clarissa, e
em 35, Música ao Longe, ambos contra-indicados para diabéticos
em geral. O grande poema gaúcho, Antônio Chimango,
estava proibido pelos áulicos de Borges de Medeiros. O grande romance,
Memórias do Coronel Falcão, fora recomendado às
traças: durante três décadas e meia, esta obra de Aureliano
Figueiredo Pinto permaneceu inédita, pois os donos da cultura gaúcha,
arrinconados em Porto Alegre, o consideravam eivado de espanholismos. Escrito
em 1937, só foi publicado em 1973. Sem falar que o personagem de
Aureliano nada tem de miserável. O romance narra a trajetória
de um fazendeiro pressionado por dívidas bancárias. Quando
cai, cai em pé, não provoca a mesma comiseração que os personagens
de um Graciliano. Não serve para o cânone. O campo, ou melhor, o campus, estava aberto às
letras do Nordeste.
Já
em 22, os paulistas pretenderam definir o que seria literatura brasileira,
com a famigerada Semana de Arte Moderna. Semana que pouco ou nada repercutiu
na época em que ocorreu, mas cresceu e foi tomando corpo, décadas
mais tarde, graças à construção ensaística
montada pelos acadêmicos da USP. Pretendendo estabelecer um arquétipo
nacional, Mário de Andrade volta-se para o Brasil indígena
e seus mitos. Acaba por construir Macunaíma, personagem moldado
não a partir do Brasil que começava a pôr timidamente
um pé no século XX, mas um espécie de bon sauvage
ao gosto dos europeus: preguiçoso, indolente, sem nenhum caráter,
em suma, um ser tropical. Em vez de dar continuidade à cultura européia
trazida pelos colonizadores, os “modernistas” voltam-se para o Brasil Carahiba.
Meio século
antes, um gaúcho antecipava o que hoje se convencionou chamar de
“teatro do absurdo”. Mas era gaúcho, não freqüentava
os círculos da burguesia cafeeira nem escrevia sobre mitos indígenas.
Qorpo Santo foi relegado ao pó das bibliotecas, acusado de louco
e só teve suas primeiras peças encenadas exatamente um século
após tê-las escrito. Mesmo assim, na época em que foi
descoberto, graças ao trabalho de sapa de Aníbal Damasceno
Ferreira, Qorpo Santo não foi valorizado. Foi preciso que a crítica
do eixo Rio/São Paulo referendasse a descoberta, para que o esquecido
dramaturgo adquirisse estatura nacional, o que só aconteceu quando
Yan Michalski, em artigo para o Jornal do Brasil, o proclamou precursor
do teatro do absurdo.
O ano de
22 também marca, para os paulistas, a criação do Partido
Comunista em São Paulo. Em verdade, já em 1918, três
anos antes da fundação do PC francês em Paris, em Santana
do Livramento já tínhamos uma célula comunista. O
que demonstra que o gaúcho é pioneiro até mesmo no
obscurantismo.
São
Paulo, culturalmente, sempre esteve voltada para a Europa. É aqui
na Paulicéia que brotam, através do dandy Oswald de Andrade,
as primeiras simpatias pelo fascismo e pelo stalinismo, manifestas tanto
no “Manifesto Antropófago” como em O Homem e o Cavalo. Nestes
panfletos, Oswald louva tanto o belicismo mussoliniano de Marinetti, quanto
o otimismo utópico de Stalin. O próprio Macunaíma,
suposto herói nacional, é fruto da imagem que a Europa nutre
em relação ao Brasil, praga que nos foi rogada por Rousseau,
com seu mito de um homem puro nos trópicos, não contaminado
pela civilização. Mesmo o reconhecimento de Qorpo Santo
paga tributo ao paladar europeu: não existissem autores como Becket
ou Ionesco, o esquisito dramaturgo porto-alegrense não teria de
quem ser precursor, nem seria reconhecido pelo Eixo.
Sob a
sombra de Fierro - Os gaúchos, no início deste século,
estão ainda voltados para
o Plata. Há algo de hernandiano
nos personagens de Aureliano Figueiredo Pinto e mesmo nos gaúchos
estereotipados de Érico Verissimo. Não poderia ser diferente,
já que gaúchos do Brasil e Argentina estão mais próximos
entre si, tanto pelo meio geográfico como pela cultura, do que um
rio-grandense e um nordestino, por exemplo.
Que é
o Antônio Chimango senão uma onda distante, mas concêntrica,
provocada pelo Martín Fierro?. Também nas canções
de Teixeirinha como na poesia produzida pelos poetas ligados ao movimento
tradicionalista, lá está a caricatura contemporânea
do gaúcho de Hernández. Até mesmo em manifestações
literárias mais populares, encontramos o dedo do poeta argentino.
Circula subterraneamente no Rio Grande do Sul um conhecido poema
pornográfico, “Comendo éguas
e outros bichos”. Vejamos uma de suas coplas:
Temos a reprodução rítmica exata de uma sextilha do Martín Fierro, com os versos rimando no esquema ABBCCB. Sabemos que esta pérola da fescenina gaúcha foi criada coletivamente por poetas tradicionalistas, que não gostam muito de citar Hernández. Mas a influência é inegável:
A propósito,
este poema argentino - mas também nosso -, que tanto mexe com a
alma do homem da fronteira rio -grandense, começou a ser escrito
por José Hernández em Santana do Livramento. Não por
acaso, o poema maior que a América Latina legou à literatura
universal é praticamente desconhecido nos cursos de Letras do país.
Mas já participei de uma “Semana Martín Fierro” em Berlim,
onde Hernández foi comparado a Homero, e já o ouvi declamado
nas ilhas Canárias, geografia que nada tem a ver com a pampa onde
perambula Fierro. Em Paris, um dos professores que participou de minha
defesa de tese, Paul Verdevoye, o traduziu ao francês. Herdeiros
de Fierro, pertencentes a uma outra geografia, pouco dizemos aos paulistas,
mais voltados para o agreste ou para a selva, conforme o que deles esperam
os europeus. Para estes, gaúcho é coisa de argentinos. Europa
dixit: São Paulo, submissa, obedece.
A propósito,
em setembro do ano passado, ministrei um curso sobre o poema de Hernández,
em Passo Fundo, durante a VII Jornada Nacional de Literatura. Neste cidade,
famosa por suas tradições gaúchas, meus alunos praticamente
desconheciam Fierro. Está na hora, parece-me, de a universidade
gaúcha esquecer um pouco as confusas teorias literárias geradas
às margens do Sena e olhar com mais carinho para a riqueza cultural
do Plata.
O poder
das imagens - As imagens que o centro do país emite para
o exterior obedecem a uma procura, são aquelas que a Europa convencionou
serem definidoras do Brasil. Estas imagens são poderosas. Me permito
citar duas anedotas (no sentido europeu da palavra).
Transportemo-nos
para os anos 70, Lyon, França. Um bolsista gaúcho, para mostrar
um pouco do Sul brasileiro, reunia seus trocados e a cada mês oferecia
um churrasco a seus professores e colegas de curso. Logo foi chamado pela
instituição que o financiava. Teria de acabar com os churrascos
ou abandonar o curso. Surpreso, o gaúcho queria saber as razões
da alternativa: não haviam gostado do churrasco? Nada disso. O churrasco
estava excelente. Mas ao apresentar um churrasco como prato típico
do Sul do Brasil, para pessoas que só se permitiam consumir no dia-a-dia
um transparente bifinho de boi, dava aos franceses uma imagem contraproducente
do país.
- “Te convidamos
para que possas comover a burguesia francesa falando sobre a miséria
no Brasil” - disseram seus anfitriões -. “Mas como vamos convencer
um francês de que se passa fome no Brasil, quando apresentas o churrasco
como prato nacional?” O gaúcho foi devolvido a Porto Alegre. Em
seu lugar, receberam bolsa dois nordestinos, bem ao estilo morte-e-vida-severina.
Assador emérito, o amigo que protagonizou este episódio se
chamava João Carlos Barbosa. Era gaúcho daqueles que não
se fazem mais, e sua memória ainda vaga pelas ruas de Porto Alegre.
Alguns anos
mais tarde, quando lecionava na UFSC, recebi a visita de um professor francês
na ilha. Através de uma amiga, encaminhei-o à Califórnia
da Canção Gaúcha, para conhecer um pouco de nosso
folclore, música e culinária. Voltou perplexo. Não
entendia os espetos de churrasco girando durante o festival, aquele esbanjamento
de carne com o qual francês algum sonha em seu dia-a-dia. “Et la
famine, où est la famine?” queria saber o francês. Associava
Brasil com Nordeste e miséria e não conseguia entender o
Sul e o churrasco. João Carlos sentira o outro lado do problema
em sua estada em Lyon. Após ter ido duas ou três vezes a uma
casa de carnes providenciar seu churrasco, o açougueiro não
se conteve: “Desculpe a pergunta, Monsieur, mas o senhor tem um hotel?”.
Para o francês, o modesto churrasco que nosso gaúcho oferecia
a amigos, só era concebível para consumo de um hotel.
Estes episódios
nos mostram a imagem que o francês - e, por extensão, o europeu
- tem de nós. Nordeste, sertão, cangaço, miséria,
matança de índios, favelas, infância abandonada, tudo
isto é compatível com Brasil. Esta imagem não é
nutrida apenas pelo europeu médio, mas também por seus intelectuais
e produtores culturais. Um carioca publicou no ano passado Cidade de
Deus, um amontoado de anotações sobre a vida na favela,
ao qual deu o nome de romance. Era seu primeiro livro e já tem contratos
com editoras alemãs e francesas. Um dos organizadores do último
Salão do Livro em Paris inclusive declarou aos jornais que este
era o tipo de literatura que se esperava do Brasil.
Não
por acaso, recentemente recebeu o Urso de Prata em Berlim, o filme Central
do Brasil, relato choramingoso da infância de um menino pobre...nordestino.
Tudo fecha: miséria, infância abandonada, analfabetismo, nordeste.
Décadas após
Vidas Secas , de Graciliano, e de O
Cangaceiro, de Lima Barreto, continuamos alimentando na Europa a imagem
do Brasil como sendo um imenso sertão. A premiação
de Titanic no mesmo ano nos permite uma oportuna comparação:
enquanto a indústria cinematográfica do Primeiro Mundo apela
ao recurso de um transatlântico de luxo para arrancar lágrimas
e dólares das platéias, tentamos comover com o que temos
de esteticamente mais exportável, a miséria.
O
“Sul maravilha” pouco diz a um europeu como parte integrante do Brasil.
O exemplo mais sintomático desta exclusão do Sul no imaginário
europeu, encontrei-a em uma declaração de um repórter
do “Monde”, que acompanhava o Papa em sua primeira visita ao Brasil. Quando
João Paulo se dirige a Porto Alegre, não interessa mais ao
jornalista. “Segundo meus colegas brasileiros, lá não é
mais Brasil”, disse. Ou seja, eram jornalistas brasileiros que reforçavam,
no correspondente francês, o preconceito que este já nutria
em relação ao país.
Para cúmulo
das desgraças, em relação ao Brasil mais ao norte,
os gaúchos são cultos e predominantemente brancos. Tais características
não cabem no conceito de um país imaginado como negro, exótico,
tropical. Quem viu isto muito bem foi Wilson Martins, crítico e
historiador execrado nos meios acadêmicos, et pour cause.
Ainda há pouco, dizia o autor paranaense:
“A verdade
é que a nossa literatura é sempre encarada como algo de exótico,
de tropical. É por isso que Jorge Amado é extremamente popular
nos outros países, ele oferece esse estereótipo da violência,
da conquista da terra, da luta de classes e da opressão racial.
Essa idéia exótica, uma espécie de ilha dos mares
do sul, todos de tanga pelas ruas, armados de arco e flecha, e caçando
onças na Avenida Rio Branco. Quando aparece um brasileiro branco
e com grande cultura internacional, ele causa um espanto extraordinário.
Nós alimentamos esse preconceito com todas as forças. Fazemos
questão de mostrar que somos tropicalistas, que isto aqui é
um país tropical, que somos mestiços, que branco aqui não
tem vez. Quem defende tudo isso são esses grupos dos baianos e dos
novos baianos, dos trios elétricos. É até um preconceito
contra a cultura, no sentido ecumênico da palavra”.
Talvez por
estar sempre voltada para a Europa, talvez magoada pela mão rude
com que a tratou Getúlio Vargas, São Paulo sempre marginalizou
a cultura feita no Rio Grande do Sul. Um episódio ocorrido na redação
de um jornal paulista explica às maravilhas esse desdém.
O enxadrista Mequinho havia sido derrotado em uma final de campeonato.
O redator titulou: CAMPEÃO BRASILEIRO É DERROTADO EM FINAL
DE XADREZ. O editor trocou brasileiro por gaúcho. Mequinho era campeão
brasileiro quando ganhava. Quando perdia, era gaúcho.
A affaire
Quintana - Se há, para os gaúchos, uma injustiça
que clama aos céus reparação, esta foi a recusa por
duas vezes, da candidatura de Mário Quintana à Academia Brasileira
de Letras, instituição dominada e controlada pelos escritores
do Eixo Rio/São Paulo. Que o poeta gaúcho tenha se candidatado,
já foi um erro. Picado por alguma mosca azul, Quintana pensou que
poderia ser aceito pelos sedizentes imortais da Academia. Foi preterido
por um ex-presidente da República, cujo nome provoca mal-estar entre
escritores, e por um ex-ministro da ditadura militar, de obra praticamente
desconhecida. Quintana, em sua ingenuidade de nefelibata, talvez tenha
imaginado que para participar dos chás dos imortais bastava seu
gênio como credencial. Enganou-se feio e foi humilhado em praça
pública. Ninguém entra na Academia sem os rapapés
de praxe aos medíocres que a habitam. Em seu lugar, foi aceito Carlos
Nejar, o escrevinhador hermético que, como Neruda, julga que fazer
poesia é alinhar palavras na vertical. Comentando meu artigo “O
Nordeste Cultural”, Carlos Nejar (Folha de São Paulo, 21/03) fez
a defesa, como seria de se esperar, dos colegas de fardão que escantearam
Quintana, José Sarney e Eduardo Portella. Poeta urbano, Nejar ainda
reivindicava,
estranhamente, a condição
de “homem do pampa”. Mas alguma verdade havia naquela auto-definição:
apesar de ter nascido em meio ao concreto de Porto Alegre, certamente foi
contaminado por uma virtude típica dos homens da pampa, a coragem.
Pois muita coragem intelectual é necessária para saudar Sarney
como “admirável ficcionista” e um ex-ministro da ditadura, Eduardo
Portella, como “uma das grandes personalidades do Brasil contemporâneo”.
Nejar, imortal
sem ter consultado a posteridade, fez bem em defender seus amigos de fardão
e, entre estes, o amigo das fardas. Mas não precisava concluir sua
carta com tamanho cinismo, ao afirmar que ingressou na Academia “apenas
pelo poder silencioso e humilde da poesia”. Terá sido este poder
silencioso da poesia que levou à Academia sumidades literárias
como Getúlio Vargas, o general Aurélio de Lira Tavares (assinado
Adelita) e Roberto Marinho, entre outros. A Academia tem três vias
de acesso: imposições do poder, disposição
para fazer rapapés aos imortais e, ultimamente, a ideologia marxista.
Mário Quintana carecia de qualquer uma destas três “virtudes”.
Era apenas um poeta maior: nada de espantar que fosse ignorado.
E só
poderia ser assim. Se saudar Sarney como admirável ficcionista é
condição necessária para pertencer ao sodalício
dos supostos imortais, temos de convir que o sedizente “homem do pampa”
fez o necessário para merecer sua cadeira. Quem conheceu Quintana,
sabe que o poeta da Rua da Praia jamais se submeteria a tais salamaleques.
A travessia
do Uruguai - Me ative, nestas reflexões, a um enfoque estritamente
literário do isolamento cultural do Rio Grande do Sul. Outras abordagens
poderiam ser feitas no que diz respeito à música, cinema
ou pintura, se é que se pode chamar de cinema o que se fazem Porto
Alegre, e se é que a pintura contemporânea ainda tem a ver
algo com arte. Se bem que os gaúchos choram de barriga cheia: o
Rio Grande do Sul conseguiu criar um invejável circuito próprio
de difusão de sua literatura, que permite a existência de
um aquecido mercado editorial, sem depender do resto do país. Além
deste dar-de-ombros do Eixo Rio/São Paulo em relação
ao Sul, um outro fator elementar impede a literatura gaúcha de atravessar
o rio Uruguai: a distância dos autores do Sul em relação
aos centros decisórios de política cultural. É preciso
estar perto do MEC, da USP, das historiografias por ela produzidas, das
cúpulas brasilienses que decidem os currículos do ensino
secundário e universitário. Se os escritores gaúchos
quiserem divulgação nacional, precisarão infiltrar-se
junto a essas instâncias. Pois neste Brasil de final de século,
ainda impregnado de um ranço marxista, arte é uma questão
de Estado.
O suporte
da indústria do livro, hoje, é a universidade. Se um dia
o livro foi um instrumento sem o qual a universidade não podia existir,
hoje a universidade é um instrumento sem o qual a indústria
do livro perde seu vigor. O que era fim, a aquisição de saber
através da universidade, se tornou meio para sustentação
de um comércio. E o que era meio, o livro como instrumento de deleite
espiritual ou comunicação do saber, tornou-se fim, uma mercadoria
como qualquer outra, para alegria de editores e massagens no ego de escritores
com boas relações junto ao MEC e crítica acadêmica.
Determinados
autores e editores há muito descobriram isto e buscaram refúgio
na universidade, não só no Brasil como até mesmo onde
impera o livre mercado, como Estados Unidos e França. Burlar as
leis da oferta e procura torna-se fácil: para vender um autor, não
é necessário que este seja buscado pelos leitores. Basta
impor seu nomes e sua obra nas listas de vestibulares e nos currículos
colegiais e universitários. Nisto consiste o obsceno mercado do
livro paradidático. Ou, como prefiro chamá-lo, do livro estatal.
Esta imposição
gera uma indústria paralela de estudos, monografias e análises,
que criam uma fortuna literária artificial para o autor: ele passa
a fazer parte da cultura nacional, não por preferência de
uma coletividade, mas por imposição de um pequeno número
de autores e editores íntimos do poder. Resultado: os coitados dos
estudantes passam a odiar literatura, quando são obrigados a ler
obras indigestas como as de Mário ou Oswald de Andrade, de Clarice
Lispector ou Guimarães Rosa. Aliás, este mineiro é
hoje, indubitavelmente, o mais encombrant elefante branco adotado pela
universidade brasileira.
Grande
Sertão: Veredas goza entre nós do mesmo status do Ulisses,
de Joyce: é muito citado e raramente lido. Mas como foi adaptado
como noveleta para a Rede Globo, mesmo o leigo em literatura pode se permitir
alguns palpites sobre os conflitos de Riobaldo e Diadorim.
Se os gaúchos
quiserem renome nacional, não se preocupando com métodos,
este é o caminho mais fácil de difusão de sua literatura:
conseguir padrinhos junto à USP ou ao MEC, e impor suas obras através
de determinações do Estado. Prestarão um desserviço
à literatura, mas conseguirão divulgar seus nomes. Aliás,
não poucos autores gaúchos já utilizam os instrumentos
locais do Estado para impor suas obras no Rio Grande do Sul.
Para estes,
que já conhecem o caminho das pedras, basta apenas ampliar seu raio
de ação.
Há uma outra hipótese, que
não implica promiscuidade com o poder. Os escritores contemporâneos
parecem esquecer que vivemos dias de Internet. Com um computador e um fax/modem,
um escritor pode editar e divulgar sua obra, eliminando aqueles intermediários
sem os quais até hoje o livro era impensável: gráficos,
editores, distribuidores e livreiros. Qualquer internauta pode ter hoje
dois megabytes na geocities ou em outras praias, sem despender nenhum vintém.
Se quiser 10 megabytes, pagará algo em torno a 15 dólares
ao ano. Ou seja, hoje um gaúcho pode atravessar o Uruguai e colocar
seu trabalho à disposição não só do
público brasileiro, mas do planeta todo, sem sequer sair de sua
mesa de trabalho. Entre os participantes de newsgroups, há horas
se fala na criação de um forum, a soc.culture.gaucho, que
englobaria três países, Brasil, Uruguai e Argentina. Como
o gaúcho é gaudério, e sua cultura não se limita
a um só país, a Internet poderá fornecer uma pátria
espiritual a este tipo humano em vias de extinção.
A Internet
não pode mais ser ignorada como uma nova mídia. Como tampouco
os disquetes e os CD-ROMs. Na recente Feira do Livro de São Paulo,
estavam sendo vendidos CD-ROMs com a ficção completa de Machado
por R$ 10,00, e disquetes com seus romances por R$ 2,50. A edição
e difusão da obra literária tornam-se inacreditavelmente
baratas. O que é quase um milagre neste Brasil onde o preço
do livro em papel é um dos mais caros do mundo, a ponto de os editores
nacionais, para ter algum lucro, estarem imprimindo na Espanha, Itália,
Chile e Colômbia.
Os direitos
de autor praticamente vão pras cucuias. Mas, fora os amigos do Rei,
quantos escritores vivem de direitos autorais neste país? Estamos
nos encaminhando para uma sociedade em que computador será tão
comum como qualquer eletrodoméstico, e editores e escritores terão
de levar em conta este mundo novo. Permanece, por enquanto, a velha questão:
não é mais agradável ler no papel que na telinha?
Pode ser. Nos dias de Gutenberg, certamente não faltaram leitores
para alegar saudades do pergaminho. Claro que é pouco prático
usar o computador para ler na cama. Mas a Internet permitirá ao
escritor - aliás, já permite - uma liberdade com a qual não
pode sonhar quem depende do papel impresso. A utopia está ao alcance
de nossas mãos: hoje, cada escritor pode ser próprio editor.
Há
evidentemente a solução mais radical: a criação
de um Estado à parte do Brasil. Seria como dar um tapa num cego:
da noite para o dia os autores estaduais seriam promovidos a nacionais.
Esta idéia separatista, sempre viva no inconsciente coletivo gaúcho,
é mal vista ao norte do Sul. Quando indígenas querem um território
para si, estão lutando pelos seus direitos. Mas ocorre que somos
brancos: quando gaúcho sonha em separar-se, é logo tachado
de nazista.
Janer Cristaldo
Cristaldo é Dr. em Letras Francesas e Comparadas
pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III)
e-mail: [email protected]
www.uol.com.br/cultvox/novos_artigos/a_dificil_travessia_do_uruguai.pdf