Claro: eu
sou da Província. nela nasci, nela vivo. É ao mesmo tempo,
delicioso e cruel viver na Província. Não conheço
o mundo, nem sequer o Brasil. Contudo um e outro vêm até mim
por várias maneiras. A palavra - que a Natureza, sempre pródiga,
versátil e fantasista, deu também ao homem - a palavra, sobretudo
escrita (que é a menos estridente) se encarregou, em tantos anos
de vida, de me instruir sobre as propriedades de uma Provínvia.
Propriedades, - o qe quer dizer: coisas que lhe são próprias.
O que logo avulta é
a Simplicidade.
Nada mais precioso.
Tudo de grande que foi feito no mundo tem suas raízes na Simplicidade.
E, quando tudo quanto de grande já foi feito no mundo ameaça
ruir pelo mau uso que dele se fez, é ainda a volta à Simplicidade
o melhor caminho da salvação. Assim tem sido na arte, na
Política, na Religião, mesmo na Ciência.
Mas então?
É que a simplicidade,
por mais estapafúrdio que isso possa parecer, não é,
em si, uma coisa simples. Como o branco da luz solar, que resulta da combinação
de diversas cores, a Simplicidde surge duma situação dialética.
Tanto basta para reconhecer-lhe inúmeros elementos, muito dos quais
conflituosos.
...
A soma algébrica:
Criança mais Criança cria o Caudilhismo, em que a criança
sádica e sabida (geralmente as crianças maiores) mobiliza
no seu interesse a criança propriamente dita, quer dizer: confiada,
sonhadora, idealista. Pois não são esses os atributos da
Infância legítima?
Confiada, como a criança
que não acredita na existência do mal. Sonhadora, quer dizer
apegada ao seu mundo fictício, o mundo dos brinquedos. Idealista,
limpa de qualquer sujeira com que a realidade (de que ela mal suspeita)
costuma salpicar os que a tocam.
A Província
não amadureceu, eis toda a verdade. Um mal? Nem há dúvida.
Mas que encanto tem esse infantilismo quando ele se mostra todo na ingenuidade
que o caracteriza e que o define! A tropelia mesmo, a briga, a que o seu
imediatismo (quase automatismo) o arrasta, adquire aspectos da bravura
cavalheiresca, de lances duma Idade Média que não passou,
a despeito do progresso que tumultua em roda. Para dizer tudo numa metáfora:
a Província é um Quixote, com todo o rídiculo duma
figura ultra-humana.
A Província
guarda as coisas, como uma curva de ria, pouco atingida pela caudal, conserva
por algum tempo os restos da vida das torrentes, que atroam lá longe.
Fica sendo um remanso. A sovrevivência de arcaísmos da língua
portuguesa, como por exemplo, o "tu", bem demonstra o caráter conservador
(conservador no melhor sentido) do Rio Grande. O fato não é
inédito: Roquette Pinto encontrou numa pequena cidade do interior
do Brasil e na boca duma pessoa idosa o verbo "assistir" com o saboroso
significado de morar, habitar, que tem nos poemas arcádicos e pastorais
de Tomás Antônio Gozanga.
Penso que deixei bem definido
o senso político do rio-grandense. Não "político"
na acepção de Aristóteles. O homem antigo vivia em
função da Cidade. Sócrates rejeitou a fuga da prisão
para não ofender Atenas - sua cidade. O gaúcho, mesmo quando
não possuía cidades e até o gaúcho dos campos,
que ainda não as tem, é um político.
...
Pode-se objetar: nem todos
têm espírito político. Certo; mas todo intelectual,
ao mesmo tempo que abomina a mentalidade reinante dentro dos partidos políticos,
está constitucionalmente preparado pela luta pelo Ideal. De resto,
é o que os caracteriza: o Ideal. Às vezes mesmo são
depreciados como "Idealistas". Na planície humana onde se acham
em minoria, são considerados minoria, são considerados marginais,
fracassados, imprestáveis, exatamente porque tomaram o partido de
Dom Quixote, em contraposição ao de Sancho Pança.
...
Estranho o que digo do homem
vivendo num estado semifeudal, onde a regra é polarização
de toda a vida política na pessoa dum só indivíduo
- o barão o senhor. O resto ele convoca e mobiliza a seu talente,
e sem o dever de consulta: é a sua gente, a sua mesnada.
Todavia essa gente é,
afinal, gente mesmo, homens que lutam com denodo e que se embriagam com
seus feitos. Basta ouvir-lhes contar, no galpão, as proezas de que
foram heróis. só quem já conviveu com essa arraia
miúda (dum novo gênero, sim), pode aquilatar do grau de politização
primária que sai desses recantos, nas coxilhas, - habituais nos
sucessos políticos do Pampa.
Nenhum povo alcançou
seu desenvolvimento, seja qual for o grau, sem árdua luta. Não
temos o apanágio duma vicissitude que é condição
mesma da vida, nos indivíduos e nas nacionalidades. Mas para a sua
idade histórica, Gaúcho já viveu muito intensamente,
porque muito intensamente lutou. E, se alcançou alguma coisa, essa
coisa traz o selo dum sangue quente, não derramado em vão.
O Gaúcho,
quer dizer o homem da fronteira, aquele que me é mais familiar,
traz inata a qualidade específica de todo o povo na sua mais primitiva
e arcaica formação: a Poesia.
A Poesia não
é um produto do supérfluo, do ócio e da abastança
- almejada situação que o mais das vezes só o que
traz é a inação e o tédio. A Poesia, sublimação
da primitiva animalidade, feita esta de pulmões - antribien
- depredadoras, é o início da marcha do Homem na íngreme
subida da humanização.
O Gaúcho
encontra por si mesmo uma conciliação dialética entre
os seus impulsos destruidores e seus anseios de humanidade: a Poesia Épica.
Depois da refrega, onde verte o sangue - às vezes a jorros, como
nisso que tão tristemente nos tem celebrizado: a degola - depois
da carnagem, a gesta, a narrativa heróica.
Já no trato cotidiano da sua vida
profissional, ele recorre, despremeditadamente, ao mesmo mecanismo de conpensação
e defesa. Suas tarefas mais habituais e mais específicas impõem
aos animais - sua matéria-prima - sofrimentos cruciais. É
o abate do gado, a castração, a marcação.
O Gaúcho
enfrenta seus bichos a ferro e fogo, como o faz com o inimigo.
Todavia tem para com eles ternuras de
pai e irmão. Com eles entretém um convívio quase humano.
Entende-os e faz-se entender por eles. Escuta-os e fala-lhes. Quando montado
no cavlo, por exemplo, díficil encontrar um plano de clivagem por
onde pudessem ser separados. Em rigor, nesse centauro, não se sabe
onde um começa e outro acaba. Estão indissolúvelmente
irmanados.
Daí seus
rasgos de generosidade, mesmo em plena batalha. Rasgos, porque há
ainda masculinidade e bravura no gesto de levar à boca do inimigo
moribundo o cantil do cordial.
Foi essa atmosfera
que eu sorvi ao vir ao mundo. Nasci quando ainda não findara a Revolução
Federalista. E num lugar que fora o teatro dessa tremenda luta. Como se
isso não bastasse, lá se achavam nossos vizinhos - Os Orientais
- vivendo o mesmo drama. A guerra estava presente ainda nos nossos brinquedos.
E, como ela continuava nas campanhas políticas, a impressão
que se tinha era de que a paz - a sonhada paz - ainda não chegara.
Memórias
de um Pobre Homem