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Dyonélio Machado - O Fronteiro

 
Sou provinciano. Com os provincianos me sinto bem. (....) Me explico: as palavras 'província', 'provinciano', 'provincianismo' são geralmente empregadas pejorativamente por só se enxergar nelas as limitações do meio pequeno. Há, é certo, um provincianismo detestável. Justamente o que namora a 'Corte'. O jornaleco de município que adota a feição material dos vespertinos vibrantes e nervosos do Rio, - eis um exemplo de provincianismo bocó. É provinciano, mas provinciano do bom, aquele que está nos hábitos de seu meio, que sente as realidades, as necessidades do seu meio. Esse sente as excelências da província, - tem é orgulho. Manuel Bandeira

      Claro: eu sou da Província. nela nasci, nela vivo. É ao mesmo tempo, delicioso e cruel viver na Província. Não conheço o mundo, nem sequer o Brasil. Contudo um e outro vêm até mim por várias maneiras. A palavra - que a Natureza, sempre pródiga, versátil e fantasista, deu também ao homem - a palavra, sobretudo escrita (que é a menos estridente) se encarregou, em tantos anos de vida, de me instruir sobre as propriedades de uma Provínvia. Propriedades, - o qe quer dizer: coisas que lhe são próprias.
    O que logo avulta é a Simplicidade.
    Nada mais precioso. Tudo de grande que foi feito no mundo tem suas raízes na Simplicidade. E, quando tudo quanto de grande já foi feito no mundo ameaça ruir pelo mau uso que dele se fez, é ainda a volta à Simplicidade o melhor caminho da salvação. Assim tem sido na arte, na Política, na Religião, mesmo na Ciência.
    Mas então?
    É que a simplicidade, por mais estapafúrdio que isso possa parecer, não é, em si, uma coisa simples. Como o branco da luz solar, que resulta da combinação de diversas cores, a Simplicidde surge duma situação dialética. Tanto basta para reconhecer-lhe inúmeros elementos, muito dos quais conflituosos.
    ...
    A soma algébrica: Criança mais Criança cria o Caudilhismo, em que a criança sádica e sabida (geralmente as crianças maiores) mobiliza no seu interesse a criança propriamente dita, quer dizer: confiada, sonhadora, idealista. Pois não são esses os atributos da Infância legítima?
    Confiada, como a criança que não acredita na existência do mal. Sonhadora, quer dizer apegada ao seu mundo fictício, o mundo dos brinquedos. Idealista, limpa de qualquer sujeira com que a realidade (de que ela mal suspeita) costuma salpicar os que a tocam.
    A Província não amadureceu, eis toda a verdade. Um mal? Nem há dúvida. Mas que encanto tem esse infantilismo quando ele se mostra todo na ingenuidade que o caracteriza e que o define! A tropelia mesmo, a briga, a que o seu imediatismo (quase automatismo) o arrasta, adquire aspectos da bravura cavalheiresca, de lances duma Idade Média que não passou, a despeito do progresso que tumultua em roda. Para dizer tudo numa metáfora: a Província é um Quixote, com todo o rídiculo duma figura ultra-humana.
    A Província guarda as coisas, como uma curva de ria, pouco atingida pela caudal, conserva por algum tempo os restos da vida das torrentes, que atroam lá longe. Fica sendo um remanso. A sovrevivência de arcaísmos da língua portuguesa, como por exemplo, o "tu", bem demonstra o caráter conservador (conservador no melhor sentido) do Rio Grande. O fato não é inédito: Roquette Pinto encontrou numa pequena cidade do interior do Brasil e na boca duma pessoa idosa o verbo "assistir" com o saboroso significado de morar, habitar, que tem nos poemas arcádicos e pastorais de Tomás Antônio Gozanga.
   Penso que deixei bem definido o senso político do rio-grandense. Não "político" na acepção de Aristóteles. O homem antigo vivia em função da Cidade. Sócrates rejeitou a fuga da prisão para não ofender Atenas - sua cidade. O gaúcho, mesmo quando não possuía cidades e até o gaúcho dos campos, que ainda não as tem, é um político.
   ...
   Pode-se objetar: nem todos têm espírito político. Certo; mas todo intelectual, ao mesmo tempo que abomina a mentalidade reinante dentro dos partidos políticos, está constitucionalmente preparado pela luta pelo Ideal. De resto, é o que os caracteriza: o Ideal. Às vezes mesmo são depreciados como "Idealistas". Na planície humana onde se acham em minoria, são considerados minoria, são considerados marginais, fracassados, imprestáveis, exatamente porque tomaram o partido de Dom Quixote, em contraposição ao de Sancho Pança.
   ...
   Estranho o que digo do homem vivendo num estado semifeudal, onde a regra é polarização de toda a vida política na pessoa dum só indivíduo - o barão o senhor. O resto ele convoca e mobiliza a seu talente, e sem o dever de consulta: é a sua gente, a sua mesnada.
   Todavia essa gente é, afinal, gente mesmo, homens que lutam com denodo e que se embriagam com seus feitos. Basta ouvir-lhes contar, no galpão, as proezas de que foram heróis. só quem já conviveu com essa arraia miúda (dum novo gênero, sim), pode aquilatar do grau de politização primária que sai desses recantos, nas coxilhas, - habituais nos sucessos políticos do Pampa.
     Nenhum povo alcançou seu desenvolvimento, seja qual for o grau, sem árdua luta. Não temos o apanágio duma vicissitude que é condição mesma da vida, nos indivíduos e nas nacionalidades. Mas para a sua idade histórica,  Gaúcho já viveu muito intensamente, porque muito intensamente lutou. E, se alcançou alguma coisa, essa coisa traz o selo dum sangue quente, não derramado em vão.
     O Gaúcho, quer dizer o homem da fronteira, aquele que me é mais familiar, traz inata a qualidade específica de todo o povo na sua mais primitiva e arcaica formação: a Poesia.
     A Poesia não é um produto do supérfluo, do ócio e da abastança - almejada situação que o mais das vezes só o que traz é a inação e o tédio. A Poesia, sublimação da primitiva animalidade, feita esta de pulmões - antribien - depredadoras, é o início da marcha do Homem na íngreme subida da humanização.
     O Gaúcho encontra por si mesmo uma conciliação dialética entre os seus impulsos destruidores e seus anseios de humanidade: a Poesia Épica. Depois da refrega, onde verte o sangue - às vezes a jorros, como nisso que tão tristemente nos tem celebrizado: a degola - depois da carnagem, a gesta, a narrativa heróica.
Já no trato cotidiano da sua vida profissional, ele recorre, despremeditadamente, ao mesmo mecanismo de conpensação e defesa. Suas tarefas mais habituais e mais específicas impõem aos animais - sua matéria-prima - sofrimentos cruciais. É o abate do gado, a castração, a marcação.
      O Gaúcho enfrenta seus bichos a ferro e fogo, como o faz com o inimigo.
Todavia tem para com eles ternuras de pai e irmão. Com eles entretém um convívio quase humano. Entende-os e faz-se entender por eles. Escuta-os e fala-lhes. Quando montado no cavlo, por exemplo, díficil encontrar um plano de clivagem por onde pudessem ser separados. Em rigor, nesse centauro, não se sabe onde um começa e outro acaba. Estão indissolúvelmente irmanados.
     Daí seus rasgos de generosidade, mesmo em plena batalha. Rasgos, porque há ainda masculinidade e bravura no gesto de levar à boca do inimigo moribundo o cantil do cordial.
     Foi essa atmosfera que eu sorvi ao vir ao mundo. Nasci quando ainda não findara a Revolução Federalista. E num lugar que fora o teatro dessa tremenda luta. Como se isso não bastasse, lá se achavam nossos vizinhos - Os Orientais - vivendo o mesmo drama. A guerra estava presente ainda nos nossos brinquedos. E, como ela continuava nas campanhas políticas, a impressão que se tinha era de que a paz - a sonhada paz - ainda não chegara.

     Memórias de um Pobre Homem

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