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Alberto Zum Felde

    O Gaúcho
    O gaúcho é um homem ginete da pradaria, e não responde a um tipo étnico único, pois é fruto da mestiçagem da região riopratense. Sua origem está vinculada a singulares condições políticas, históricas e econômicas de seu meio.
    Pertence por igual às zonas de gado da Argentina e ao sul do Brasil e do Uruguai. A área geográfica do gaúcho coincide com um região natural. Pode-se afirmar com segurança que seu tipo primogênito nasceu na Banda Oriental durante o século XVIII.
    O vocábulo "gaúcho" provém da expressão quíchua "huachu", que significa "huérfano" - órfão ou desamparado - ou vagabundo. Os colonizadores espanhóis transformaram o significado da palavra: aos órfãos (huérfanos) passaram a chamar "guachos" e aos vagabundos, "gauchos". Somente no Sul do Brasil chama-se "gaudério" o "gaúcho".

   Origens
   A praça de Montevidéo é uma fundação exclusivamente militar, destinada a guardar a fazenda contra os avanços dos portugueses instalados no porto de Colonia. Encerrada entre muros e fossos, à sombra de forte artilharia, um regimento de quartel rege a vida de escassos povoadores traídos pela autoridade.
    A primeira medida do novo governo de Buenos Aires é proibir em absoluto qualquer comércio. Isto convém a seus interesses. Deste modo, a nova praça está condenada a uma vida de guarnição, e Buenos Aires segue usufruindo a riqueza pecuária do país.
     O cabildo de Buenos Aires, desde o primeiro momento, luta contra a prepotência da autoridade militar. Em carta dirigida ao Rei, descreve em duas frases o estado social e econômico da praça: "num meio sem comércio algum, sem ter aonde vender nossos frutos, gozamos da tranqüilidade e do pouco interesse que a guarnição deste presídio nos deixa. Por isto no pão que se destina à sua manutenção, o que se fabrica entre os vencidos".
    Entretanto o contrabando se propaga por todo o país. As partidas de portugueses e indígenas, em consórcio, recorrem livremente o país deserto, arriando gado, fainando couros e vendendo-os em Colonia, nas costas ou nas fronteiras.
    Alguns espanhóis e crioulos descendentes têm se aventurado no interior, implantando estâncias, mas sem afastar-se muito de Montevidéo. O contrabando é a vida normal da campanha, a forma de comércio que a proibição espanhola obriga-lhe. Para contê-lo e puni-lo, a autoridade de Montevidéo incursiona pelo interior e estabelece pontos de guarnição militar.
    Muitos milicianos espanhóis desertam para unir-se às partidas de contrabandistas. Assim, espanhóis, portugueses e indígenas vão se mesclando. Nestas condições empreende-se a formar a população rural do Uruguai. A riqueza do gado coloca o país em condições tais que a natureza por si mesma é o produto em abundância; basta estender a mão e colhê-lo. O trabalho é inútil e o homem vive ocioso e livre, como o rico da vida civilizada.
    A abundância de gado e a ausência de qualquer propriedade permitem-no viver sem trabalhar. O cavalo dá-lhe mobilidade rápida, o couro lhe proporciona apetrechos, botas, rendas, sombreros, petaca, cama e habitação. Se boleia ou laça, derruba ou carneia uma rês, se ele tira o melhor troço que o assador conhece e o resto deixa abandonado no campo... Esta abundância faz o estancieiro hospitaleiro; na cozinha da estância sempre tem um rês preparada para quem queira comer.
    A campanha é para o colono a liberdade, a abundância e a aventura, enquanto a cidade é a monotonia, a sujeição e a necessidade. Por isso, um grande número de espanhóis desertam e se entregam a esta vida livre.
    Porém, a diferença da ociosidade tropical... A abundância e a liberdade desta comarca engendra hábitos viris, rudes e sombrios. Deve-se domar cavalos, deve-se derrubar a rês com a boleadeira ou laço, deve-se adestrar no manejo do punhal, deve-se aguçar os sentidos e fazer-se vaqueiro, deve burlar e pelar com a polícia. A gadaria torna o habitante do campo, nativo ou colono, forte, ossudo, ágil e lutador.
    A expulsão dos jesuítas das Missões orientais produziu, em meados do século XVIII, o exôdo de grande massa de índios para o sul do país. Se espalhar esta nova população pelos campos e pronto, troca seu modo de ser: de mansos agricultores sob a tutela jesuítica, se tornam bravos e eqüestres, mesclando-se com os espanhóis, portugueses e tapes...
    Desta mescla de indígenas, espanhóis e portugueses, na existência livre e bravia do território, surge o tipo nacional do gaúcho.

    Características
    O gaúcho oriental tem os caracteres físicos e psíquicos de seus progenitores, em consórcio com o meio em que nasce e se forma. Geralmente é magro, duro e barbudo, mas tem os sem barba e de pêlo liso; e tem loiros e de olhos azulados, abarcando toda escala que vai do índio cru ao conquistador íbero-germano.
    A vida eqüestre, a alimentação carnívora, a rude intempérie, os ventos fortes do oceano e do Pampa, criam-no magro, duro, ágil e de contextura biliosa. Uns sujeitam as crinas robustas com a vincha do índio; outros colocam sobre sua melena o sombrero panzurro; alguns levam o bronzeado torso desnudo; outros se cobrem com camisas ou ponchos; todos usam a bota de potro e o chiripá. O deserto e a solidão lhe fazem taciturno e silencioso.
    A liberdade e a abundância o fazem altivo, hospitaleiro e leal. A hostilidade permanente com a polícia espanhola e a luta com as bestas bravias lhe dão coragem, audácia, desapego pela vida própria e alheia... Se acostuma a morrer sem pena e matar sem asco.
    Do conquistador recebeu o cavalo e a guitarra; do índio o poncho, a vincha, o mate e as boleadeiras. Sua língua é uma mescla do castelhano arcaico do século XVI com elementos índigenas, aos quais mais tarde se agregaram vozes portuguesas e africanas. As gírias da linguagem são próprias e se expressam geralmente por imagens. O ditado popular é sua forma típica de resposta.
    Seu gênero de vida exige uma qualidade primordial: a coragem. O valor torna-se seu culto supremo, e a maior ignominia que concebe é ser covarde.
     Por inexistir leis e juízes, a justiça se faz com sua própria mão...
     Na campanha oriental o gaúcho é habitualmente reservado e respeitoso; apenas quando bebe busca desavença. Porém, o jogo e as mulheres suscitam pequenas disputas e rivalidades e isto é o motivo mais freqüente do duelo...
       Outra qualidade pela qual o gaúcho tem grande admiração e dá prestígio nos campos é a poesia. Qualquer gaúcho toca a guitarra e sabe cantar um verso; mas o payador, o cantor engenhoso ou inspirado, o que anda de pago em pago, com sua guitarra e sua aventura às costas, fazendo rir e chorar às almas rudes, o que passa as horas inteiras improvisando versos com o seu bordoneo em meio a um atento círculo de auditores, esse é a flor do gauchismo, um aristocrata, agasalhado pelos homens, requerido pelas mulheres, para quem são os melhores postos e os melhores bocados. Tal é o gaúcho quando aparece em cena...

Fonte: El Proceso Histórico del Uruguay / Alberto Zum Felde. -- Montevideo : Arca, 1967.
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