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Jorge Luís Borges


           O Gaúcho
           O gaúcho. Prefácio de J.L.B. Fotografia de René Burri. Texto de José Luiz Lanuza. Buenos Aires, Muchnik Editores. 1968.

           O ginete, o homem que vê a terra de cima do cavalo e que o governa,  despertou em todas as épocas uma consideração instintiva, cujo símbolo mais notório é a estatua eqüestre. Roma já aplicara este adjetivo a uma ordem militar e social: ninguém ignora a etimologia análoga da voz Caballero e das vozes Ritter (barão) e Chevalier.
           Nas Ilhas Britânicas, a critica sublinhou na poesia de Yeats o peso e o valor da palavra rider, ginete. Nestas terras, esse homem foi o gaúcho. Tudo o havia perdido, exceto o prestígio antigo que exaltaram a aspereza e a solidão.
           Samuel Johnson disse que as profissões de marinheiros e de soldado têm a dignidade do perigo. Teve-a o nosso gaúcho, que conheceu nos pampas e nas coxilhas a luta com a intempérie, com uma geografia desconhecida e com a fazenda bravia. Inútil defini-lo etnicamente; filho casual de esquecidos conquistadores e povoadores, foi mestiço de índio, às vezes de negro, ou foi branco.
           Ser gaúcho era um destino. Aprendeu a arte do deserto e de seus rigores; seus inimigos foram o inesperado ataque dos indígenas que espreitavam por detrás do horizonte fortuito, a sede, as feras, a seca, os campos incendiados. Depois vieram as campanhas da liberdade e da anarquia.
           Não foi, como seu distante irmão do faroeste, um aventureiro, um explorador de imensas terras virgens ou de filões de ouro; as guerras o levaram muito longe e ele deu estoicamente a sua vida, em estranha regiões do continente, por abstrações que talvez não tenha podido entender – a liberdade, a pátria -, por uma divisa ou um chefe.
           Nas tréguas do risco alimentava o ócio; suas preferências eram a guitarra  que temperava com lentidão, o estilo menos cantado do que falado, a taba,26 as cavalhadas, a roda de mate junto ao fogo de lenha e as trapaças feitas de tempo, não de cobiça. Foi, sem suspeitá-lo, famoso; em 1856, Whitman escreveu:

         Vejo o gaúcho que cruza as planícies,
         Vejo o incomparável ginete de cavalos atirando o laço,
         Vejo sobre o pampa a perseguição da fazenda brava.

           Meio século depois, Ricardo Güiraldes repetiria com acento retórico a mesma figura de nômade:

        Símbolo pampeano y hombre verdadero,
        Generoso guerrero,
        Amor, coraje
        ¡Salvaje!

Gaucho, por decir mejor,
Ropaje suelto de viento
Protagonista de un cuento
Vencedor.

Corazón
De afirmación.
Voluntad

De lealtad,
Cuerpo “morrudo” de hombría,
Peregrina correría
Que va tranqueando los llanos,
Con la vida entre las manos
Potentes de valentía. 27-27ª

           Sua pobreza teve um luxo: a coragem. Criou ou herdou – dessas coisas César já sabia – a arte da arma curta; o braço esquerdo envolto num poncho à guisa de escudo, o punhal pronto para a estocada de baixo para cima, lutava em duelo singular com o homem ou, se era peão tigrero em alguma estância do Norte, com o jaguar.
           Exerceu uma atividade desinteressada; em Chivilcoy me falaram de um gaúcho que cruzou meia província para desafiar com bons modo um outro, de que só sabia que era valente. Ao longo do tempo ocorreram fatos como este, mas suspeitos de que não devemos exagerar a força do gaúcho, exacerbada em certos indivíduos pelo quizilento álcool dos sábados.
           O decantado Martín Fierro de Hernández e as biografias dos bambas do punhal de Eduardo Gutiérrez nos induziram a ver em seus heróis o arquétipo de nosso homem do campo; na verdade, o gaúcho rebelde, já definido por Sarmiento, outra coisa não foi que uma das espécies do gênero.
           Matreros como Formiga Negra, do distrito de San Nicolas, ou o Tigre do Quequén ou, na República Oriental, o Clinudo Menchaca, que à frente de uma quadrilha assaltava estâncias, foram felizmente episódicos; se não o tivessem sido, a lenda não o recordaria ainda hoje.
           Um epigrama de Oscar Wilde nos adverte de que a natureza imita a arte; os Podestá podem ter influído na formação do guapo suburbano que, com força de crioulo, acabou de identificar-se com os protagonistas de suas ficções.
           Em 1908, Evaristo Carriego, primeiro cantor dos arrabaldes de Buenos Aires, dedicava seu poema “O guapo” “à memória de San Juan Moreira, mui devotadamente”. Nos arquivos policiais de fins de século passado ou de princípios deste, acusavam-se os perturbadores da ordem “de haver pretendido ser como Moreira”. Talvez não agrade recordar que de todos os gaúchos foragidos, Juan Moreira foi o mais famoso e que agora substitui Martín Fierro.
           A dura vida impôs aos gaúchos a obrigação de serem valentes. Nem sempre o foram seus caudilhos. Rosas era notoriamente covarde; numa época de cargas de cavalaria, teve de admitir a fama de incruentos exercícios de equitação. Além disso, a estirpe gaúcha não produziu caudilhos. Artigas, Oribe, Güemes, Ramírez, López, Bustos, Quiroga, Aldao, o já citado Rosas e Urquiza eram abastados, não peões. Nas guerras anárquicas, o gaúcho acompanhou o seu patrão.
           Podia não ser supersticioso. Um amigo meu muito culto indagou de um tropeiro entrerriano sobre os lobisomes, que nas noites de sábado costumam assumir a forma de cães. O homem reprovou-o com um sorriso: “Não creia nisso, senhor. São fábulas”.
           Ascasubi celebrou-o como soldado da boa causa num volume cujo titulo já é uma espécie de epopéia: Paulino Lucero ou os gaúchos do Rio da Prata cantando e combatendo até derrubar o tirano Juan Manoel Rosas e seus satélites.
           Num livro feliz, Estanislao del  Campo usou-no para deixar-nos ver a mais recatada e firme paixão dos argentinos, a amizade varonil. Depois viria O repentista, de Leopoldo Lugones, que dilata e recria a obra de Hernández. O acento é épico; em Dom Segundo Sombra (1926), de Güiraldes, já é totalmente elegíaco. Sentimos de algum modo que cada um dos feitos narrados ocorre pela primeira vez. A época pastoril de nossa história ficou muito longe.
           Morto, o gaúcho sobrevive no sangue e em certas nostalgias sombrias ou demasiado públicas e na literatura que inspirou homens da cidade.
           Enumerei, ao longo desse prólogo, alguns livros; não gostaria de esquecer os de Hudson, que, nascido e criado nos pampas, procurou o desterro para sentir melhor o que perdera.

           26 Jogo do osso, muito comum entre os gaúchos. (N. do T.)
           27 Os derradeiros anos de vida de Dom Segundo Sombra têm a sua graça. Por um lado, visitavam-no figuras internacionais ( Keyserling, Reyes);  por outro, procuravam-no para desafiá-lo os mais ilustres virtuoses do punhal de Areco: o Touro, seu filho, o Tourinho, e Andréa Soto, incomodados com sua gloria literária. O velho Dom Segundo era homem de paz e morreu entre a fama e a justificada aflição.
           27a “Símbolo do pampa e homem verdadeiro, / Generoso guerreiro, / Amor, coragem / Selvagem! // Gaúcho, para dizer melhor, / Roupagem solta de vento / Protagonista de um conto / Vencedor. // Coração / De afirmação, / Vontade de lealdade, / Corpo ‘beiçudo’ de honraria, / Peregrina correria / Que vai engolindo as planícies, / Com a vida entre as mãos / Potentes de valentia.” (N. do T.)
 

           Macedonio Fernández
           Macedonio Fernández, Seleção e prólogo de J. L. B. Buenos Aires, Ediciones Culturales Argentinas, Biblioteca do Sesquicentenário, 1961.

           Não se escreveu ainda a biografia de Macedonio Fernández, homem que raras vezes cedeu à ação e que viveu entregue aos puros deleites do pensamento.
           Macedonio Fernández nasceu em Buenos Aires a 1º de junho de 1874 e faleceu nessa mesma cidade a 10 de fevereiro de 1952. Bacharelou-se em ciências jurídicas; freqüentou ocasionalmente os tribunais e, em princípios deste século, foi secretário do Tribunal Federal em Posadas. Por volta de 1897 fundou no Paraguai, com Julio Molina y Vedia e Arturo Muscari, uma colônia anarquista, que durou o que costuma durar tais utopias.
           Em meados de 1900 casou-se com Elena de Obieta, que lhe deu vários filhos e de cuja morte é patético monumento uma famosa elegia. A amizade era uma das paixões de Macedônio. Entre seus amigos, lembro Leopoldo  Lugones, José Ingenieros, Juan B. Justo, Marcelo Del Mazo, Jorge Guilhermo Borges, Santiago Dabove, Julio César Dabove, Enrique Fernández Latour e Eduardo Girondo.
           Nos últimos dias de 1960, dito, ao sabor da memória e de seus vaivens, o que o tempo me deixa das queridas e decerto misteriosas imagens que, para mim, foram Macedônio Fernández.
          No decurso de uma vida longa conversei com pessoas famosas; nenhuma me impressionou como ele ou sequer de modo análogo. Procura esconder, nunca exibir, sua extraordinária inteligência; falava como a  margem do diálogo e, não obstante, era o seu centro.
           Preferia o tom interrogativo, o tom da modesta consulta, à afirmação magistral. Jamais pontificava; sua eloqüência era de poucas palavras e mesmo de frases truncadas. O tom habitual era de cautelosa perplexidade. Posso imitar, mas não definir, essa voz sincera, enrouquecida pelo tabaco. Recordo-lhe a vasta fronte, os olhos de uma cor indefinida, o cabelo e os olhos grisalhos, a figura breve e quase vulgar.
           O corpo era nele quase um pretexto para o espírito. Os que com ele não privaram podem recordar os retratos de Mark Twain  ou de Paul Valéry. O primeiro destes o teria agradado, não muito o segundo, pois desconfio que, para ele, Valéry era uma espécie de charlatão do escrúpulo.
           Sua simpatia pelo francês era bastante imperfeita; de Victor Hugo, a quem eu admirava e admiro, lembro tê-lo ouvido dizer: “Saí dali com esse galego insuportável. O leitor se foi e ele continua a falar."". Na noite da famosa luta entre Dempsey, já estará o francesinho na platéia, pedindo que lhe devolvam o dinheiro porque o espetáculo foi muito curto.
           Preferia julgar os espanhóis por Cervantes, que era um de seus deuses, e não por Gracián ou por Góngora, que lhe pareciam umas calamidades.
           Herdei de meu pai a amizade e o culto de Macedonio. Por volta de 1921 regressamos da Europa, depois de uma estada de muitos anos. As livrarias de Genebra e certo generoso estilo de vida oral que eu descobrira em Madri me faziam muita falta no princípio; esqueci essa nostalgia ao conhecer, ou recuperar, Macedônio.
           Minha última emoção na Europa foi o diálogo com o grande escritor judeu-espanhol Rafael Cansinos-Asséns, em que estavam todas as línguas e todas as literaturas, como se ele próprio fosse a Europa e todos os ontens da Europa.
           Em Macedonio achei outra coisa. Era como se Adão, o primeiro homem, pensasse e resolvesse no Paraíso os problemas fundamentais. Cansinos era a suma do tempo; Macedônio, a jovem eternidade. A erudição lhe parecia uma coisa vã, um modo espalhafatoso de não pensar.
           Numa mercearia da rua Sarandí, nos disse uma tarde que se pudesse ir ao campo, estender-se na terra ao meio-dia, fechar os olhos e compreender, distraindo-se com as circunstâncias que nos distraem, poderia resolver imediatamente o enigma do universo. Não se tal felicidade lhe foi concedida, mas sem dúvida a entreviu.
           Anos depois da morte de Macedônio, li que em certos mosteiros budistas o mestre costumava avivar o fogo com algumas imagens sacras ou destinar a empregos infames os livros canônicos, para ensinar aos noviços que a letra mata e o espírito vivifica; pensei que curiosa informação se amoldasse aos hábitos mentais de Macedônio, mas também que o entediaria caso lha referisse, dado seu caráter exótico. Aos adeptos do zen-budismo molesta que se lhes fale das origens históricas de sua própria doutrina; da mesma forma, desagradaria a Macedonio que lhe falassem de uma prática circunstancial e não da intima verdade,  que é agora e aqui, em Buenos Aires.
           A essência onírica do Ser era um dos temas preferidos de Macedônio, mas quando me atrevi referir-lhe que um chinês sonhara que era uma mariposa ou uma mariposa que agora sonhava ser um homem, Macedonio não se reconheceu nesse antigo espelho e limitou-se a perguntar-me pela data do texto que eu citava. Falei-lhe do século V anterior à era cristã e Macedonio observou que o idioma chinês mudara tanto desde aquela data remota que de todas as palavras do conto a palavra mariposa seria a única de sentido inequívoco.
           A atividade mental de Macedonio era incessante e rápida, embora sua exposição fosse lenta; nem as refutações nem as afirmações alheias o interessavam.
           Seguia imperturbavelmente sua idéia. Lembro que atribuiu essa ou aquela opinião a Cervantes; algum imprudente assinalou que em determinado capítulo do Quixote se lê precisamente o contrário: Macedonio não se desviou diante desse breve obstáculo e disse: “Assim será, mas Cervantes o escreveu para ficar bem com o comissário”.
           Meu primo Guilhermo Juan, que cursava a Escola Naval de Río Santiago, foi visitar Macedonio e este observou que naquele estabelecimento, em que há tantos provincianos, tocariam muita guitarra. Meu primo lhe disse que, nos vários meses que ali estivera, não soubera de ninguém que o fizesse; Macedonio aceitou essa negativa como se fosse uma confirmação e disse-me, com o tom de um homem que complementa o que o outro afirmou: “Já vês, um notável centro guitarrístico”.
           A indolência nos move a pressupor que os outros são feitos a nossa imagem; Macedonio Fernández cometia o generoso erro de atribuir sua inteligência a todos os homens.
           Em primeiro atribuía aos argentinos, que constituíam, como é natural, seus mais freqüentes interlocutores. Minha mãe acusou-o certa vez de ser partidário, ou de haver sido partidário, de todos os diversos e sucessivos presidente da República. Tais vicissitudes, que o fizeram passar em um só dia do culto de Yrigoyen ao de Uriburu, procediam de sua convicção de que Buenos Aires não pode enganar-se.
           Admirava, é claro que sem os haver lido, José Quesada ou Enrique Larreta, pela única e suficiente razão de que todos os admiravam. Esta superstição do argentino levou-o a opinar que Unamuno, e os demais espanhóis, se posto a pensar,  e não raro a pensar bem, porque sabiam que seriam lidos em Buenos Aires.
           Estimava pessoalmente e apreciava literariamente Lugones, de quem foi muito amigo, mas em algum momento viu-se às voltas com a iminência de escrever um artigo em que manifestaria sua estranheza quanto ao fato de que Lugones, apesar de suas muitas leituras e de seu indiscutível talento, jamais se houvesse dedicado a escrever. “Por que não nos dá um verso?”, perguntava Macedonio.
           Macedonio possuía em altíssimo grau as artes da inércia e da solidão. A vida pastoril num território quase deserto nos ensinara, aos argentinos, o hábito da solidão sem o tédio; a televisão, o telefone e – por que não dizê-lo – a leitura são culpados por havermos perdido esse precioso dom. Macedonio era capaz de estar só, sem fazer nada, durante muitas horas. Um livro muito famoso fala do homem que esta só a espera;  Macedonio estava só e nada esperava, abandonando-se docilmente ao manso fluir do tempo.
           Habituara seus sentidos a não perceber o desagradável e a demorar-se em uma satisfação qualquer: o odor de tabaco inglês, de um mate curado ou de um volume – O mundo como vontade e representação, 25 me lembro -, encadernado em papelão espanhol.
           O acaso o levava a peças modestas, sem janelas ou com uma janela que se abria para um submerso pátio interior, em pensões do Once ou do bairro dos Tribunais; eu abria a porta e ali estava Macedonio, sentado na cama ou numa cadeira de espaldar ereto. Dava-me a impressão de não se haver movido durante horas e de não sentir a pequenez, e um pouco a agonia, do ambiente. Não conheci homem mais friorento.
           Costumava abrigar-se sob uma coberta que lhe caia sobre o peito e os ombros, à maneira dos árabes; uma cartolinha de cocheiro ou um sombreio negro de palha poderia coroar essa estrutura  ( os gaúchos enfarpelados de certas litografias o recordam ).
           Aprazia-lhe falar do “afago térmico”; este afago, na prática, estava constituído de três fósforos, que ele acendia ao mesmo tempo e aproximava, sob a forma de leque, de seu ventre. A mão esquerda dirigia essa efêmera e mínima calefação, enquanto a direita acentuava alguma hipótese de caráter estético ou metafísico. O temor das perigosas seqüelas de um resfriamento brusco o aconselhara a conveniência de dormir vestido no inverno;
           O calor adicional da cama não lhe importava. Sustentava que a barba, que assegura uma temperatura constante, era uma proteção natural contra as dores de dentes. A dietética e as guloseimas o interessavam.
           Uma tarde discutiu longamente sobre as respectivas virtudes do merengue e do doce de amêndoas com nozes; ao fim de imparciais e escrupulosas considerações teóricas, pronunciou-se a favor dos doces nativos e tirou uma valise poeirenta que guardava embaixo da cama. De seu interior exumou, entre manuscritos, erva e tabaco, umas coisas confusas que já haviam perdido seu caráter de doces de amêndoas ou merengue e que nos ofereceu com insistência.
           Estas historias correm o risco de parecerem ridículas; assim nos pareceram naquela época e as repetíamos, talvez exagerando-as um pouco, mas sem o menor prejuízo de nossa reverência. Não quero que se perca nada de Macedonio.
           Eu, que agora me detenho em registrar tais absurdos pormenores, continuo a crer que seu protagonista é o homem mais extraordinário que conheci. O mesmo ocorreria a Boswell, sem dúvida, com relação a Samuel Johnson.
           Escrever não era uma tarefa para Macedonio Fernández. Vivia (mais do que qualquer outra pessoa que conheci) para pensar. Diariamente se entregava às vicissitudes e surpresas do pensamento, como um nadador às águas de um grande rio, e essa maneira de pensar que se chama escrever não lhe custava o maior esforço.
           Seu pensamento era tão vivaz quanto a redação de seu pensamento; na solidão de seu quarto ou na agitação de um café, enchia páginas e páginas com a escrita perfilada de uma época que desconhecia a máquina de escrever e para qual uma clara caligrafia era a parte dos bons modos.
           Suas cartas mais casuais não eram menos engenhosas e pródigas do que as páginas que enviava ao prelo e talvez  as superassem em graça. Macedônio não dava o menor valor à sua palavra escrita; ao mudar de alojamento, não levava os manuscritos de índole metafísica ou literária que se haviam amontoado sobre a mesa e que enchiam as gavetas e armários.
           Muito se perdeu assim, talvez para sempre. Lembro haver-lhe reprovado essa distração; disse-me ele então que supor que se possa perder algo era uma pretensão, já que a mente humana é tão pobre que esta condenada a encontrar, perder ou redescobrir sempre as mesmas coisas.
           Outra razão de suas facilidade literária era seu incorrigível desdém pelas sonoridades verbais e, ainda, pela eufonia. Não sou leitor de bagatelas declarou uma vez, e as ansiedades prosódicas de Lugones ou de Dario lhe pareciam de todo inúteis.
           Julgava que a poesia está nos caracteres, nas idéias ou numa justificação estética do universo; eu, ao fim de alguns anos, desconfio que está essencialmente na entonação, em certa respiração da frase. Macedonio procurava a música na música, não na linguagem. Isso não impede que em seus textos – sobre tudo em sua prosa – percebamos uma música involuntária que corresponde à cadência pessoal de sua voz.
           Macedonio exigia da novela que todos os seus personagens fossem eticamente perfeitos; nossa época parece inclinar-se ao contrário, sem outra exceção que a muito honrosa de Shaw, que imaginou e modelou heróis e santos.
           Por trás da sorridente cortesia e do ar algo alheio de Macedonio pulsavam dois temores, o da dor e o da morte. Este, último levou-o a negar o eu, a fim de que não houvesse um que eu morresse; aquele primeiro, a negar que a dor física pudesse ser intensa.
           Queria persuadir-se, e persuadir-nos, de que o organismo do homem é incapaz de um prazer muito forte e, por conseguinte , de uma dor violenta. Latour e eu dele ouvimos esta pitoresca metáfora: “Num mundo em que os prazeres são de zombaria, as dores não podem ser de ferraria”. Inútil foi objetar que nem sempre os prazeres são de zombaria e que o mundo e que o mundo, além disso, não tem por que ser simétrico.
           Para não enfrentar o boticão do dentista, Macedonio costumava praticar o tenaz oficio de amolecer continuamente os dentes; esta manipulação se fazia por detrás da mão esquerda, que funcionava como quebra-luz, enquanto a direita insistia. Não se o êxito chegou a coroar este trabalhos dos dias e dos anos. O homem que vai padecer de uma dor procura, instintivamente, não pensar nela; Macedonio sustentava, ao contrário, que devemos imaginar previamente a dor e em todas circunstâncias, a fim de que a realidade não chegue a nos assustar. Imaginava assim a sala de espera, a porta que se entreabre, a saudação, o centro cirúrgico, o instrumental, o odor dos anti-sépticos, a água morna, as pressões, as luzes, a penetração da agulha e o dilaceramento final.
           Esta preparação imaginaria devia ser perfeita e não deixar o menor resquício ao insólito; Macedonio jamais a concluiu. Talvez o método outra coisa não fosse que uma maneira de justificar as terríveis imagens que o perseguiam.
           O mecanismo da fama o interessava, não sua obtenção. Durante um ano ou dois envolveu-se com o vasto e vago projeto de ser presidente da República. Muitas pessoas se propõem a abrir uma tabacaria e quase ninguém a ser presidente; com base nesse dado estatístico, deduzia ele que seria mais fácil chegar a presidente do que a dono de uma tabacaria.
           Um de nós observou que também seria lícito deduzir que abrir uma tabacaria poderia ser mais difícil do que se tornar presidente; Macedonio assentiu com seriedade. O mais necessário (nos repetia) era divulgação do nome. Colaborar no suplemento de algum dos grandes jornais era fácil, mas a divulgação obtida por esse meio corre o risco de ser tão trivial quanto Júlio Dantas ou os cigarros “43”.
           Convinha insinuar-se na imaginação das pessoas de modo mais sutil e enigmático. Macedonio optou por aproveitar seu curioso nome de batismo; minha irmã e algumas de suas amigas escreviam o nome de Macedonio em tiras de papel ou cartões de visita, que cuidadosamente esqueciam nas confeitarias, bondes, ruelas, vestíbulos de casas e cinemas.
           Outra habilidade era congratular-se com as comunidades estrangeiras; Macedonio, com uma sonhadora gravidade, nos contava que havia deixado no Clube Alemão um volume manuseado de Schopenhauer, com sua assinatura e anotações a lápis.
           Destas manobras mais ou menos imaginárias e cuja execução não havia por que acelerar, uma vez que devíamos proceder com extrema cautela, surgiu o projeto de uma grande novela fantástica, cuja ação transcorrias em Buenos Aires e que começamos a escrever juntos. (Se não me engano, Julio César Dabove guarda ainda o manuscrito dos dois primeiros capítulos; creio que poderíamos tê-la concluído, mas Macedonio a foi retardando, pois o que lhe agradava era falar das coisas, e não executá-las.) A obra se intitulava O homem que será presidente; os personagens da fábula eram os amigos de Macedonio e, na última página, o leitor receberia revelação de que o livro fora escrito por Macedonio Fernández, o protagonista, pelos irmãos Dabove, por Jorge Luis Borges, que se matou ao final do nono capítulo, e por Carlos Pérez Ruiz, que teve aquela singular aventura com o arco-íris. E assim por diante.
           Na obra se entreteciam dois argumentos: um, visível,as curiosa gestões de Macedonio para tornar-se presidente da República; outro, secreto, a conspiração urdida por uma seita de milionários neurastênicos e talvez loucos para obter o mesmo fim. Estes resolvem solapar e minar a resistência das pessoas mediante uma série gradual de invenções incômodas.
           A primeira ( a que nos sugeriu a novela) é a dos açucareiros automáticos, que, de fato, impedem que se adoce o café. A esta se seguem outras: a dupla lapiseira, com uma pena em cada ponta, que ameaçava ferir os olhos; as íngremes escadarias nas quais não existem dois degraus de mesma altura; e tão recomendado pente-navalha que nos corta os dedos; os utensílios fabricados com dois novos materiais antagônicos, de sorte que as coisas grandes fiquem muitos leves e as coisas pequeninas, pesadíssimas, para burlar nossa expectativa; a multiplicação de parágrafos empastelados nas novelas policiais; a poesia enigmática e a pintura dadaísta ou cubista.
           No primeiro capítulo, quase todo à perplexidade e ao temor de um jovem provinciano perante a doutrina de quem não há o eu, o qual, por conseguinte. Não existe, figura um único artefato, o açucareiro automático.
           No segundo aparecem dois, mas de modo lateral e fugaz; nosso propósito era apresentá-los em proporção crescente. Queríamos também que à medida que enlouquecesse;  para o primeiro capítulo escolhemos o tom coloquial de Pio Baroja; o último teria correspondido às paginas mais barrocas de Quevedo. Ao fim, o governo cai; Macedonio e Fernández Latour entram na Casa Rosada, mas já nada significa coisa alguma nesse mundo anárquico. Nesta novela inconclusa é bastante possível que haja algum reflexo involuntário do Homem que foi Sexta-feira.
           Macedonio se preocupava menos com a literatura do que com o pensamento e menos com a publicação do que com a literatura, isto é, quase nada. Milton ou Mallarmé procuravam a justificação de sua vida na redação de um poema ou talvez de uma página, Macedonio queria compreender o universo e saber quem era ou saber se era alguém.
           Escrever e publicar eram coisas subalternas para ele. Para além do encanto de seu diálogo e da reservada presença de sua amizade, Macedonio nos propunha o exemplo de um modo intelectual de viver.
           Os que hoje se chamam de intelectuais na verdade não o são, já que fazem da inteligência um oficio ou um instrumento para a ação. Macedonio erra um contemplativo puro, que às vezes condescendia em escrever e muito raramente em publicar.
           Para explicar Macedonio não achei recurso melhor do que as histórias sobre ele, mas estas, quando são memoráveis, têm a desvantagem de converter seu protagonista num ente mecânico, que infinitamente repete o mesmo epigrama, agora clássico, ou tem a mesma saída. Coisa muito distinta foram os ditos de Macedonio, imprevisivelmente agregados à realidade, que com eles se enriquecia e se assombrava.
           Eu desejaria recuperar de algum modo o que foi Macedonio, essa felicidade de saber que numa casa de Morón ou de Once havia um homem mágico cuja solitária existência despreocupada era mais importante que nossas venturas ou desventuras pessoais. Isto eu senti, isto sentiram alguns de nós, isto eu não posso comunicar.
           Negada uma matéria duradoura por detrás das aparências do mundo, negado um eu que percebe as aparências, Macedônio afirmava, todavia, uma realidade e essa realidade era a paixão, que se manifestava nas espécies da arte e do amor. Suspeito que o amor parecia a Macedonio mais prodigioso ainda que a arte; esta preferência radicaria em seu caráter afetivo, não em sua doutrina, que comportava (já o vimos) a negação do eu, de modo que não há objeto nem sujeito da paixão, que seria a única realidade. Macedonio nos disse que o abraço dos corpos outra coisa não é que o sinal – ou melhor, talvez a saudação –que uma alma faz às outras almas, mas não há almas em sua filosofia.
           Como Güiraldes, Macedonio permitiu a vinculação de seu nome a geração chamada de “Martín Fierro”, que sugeriu à atenção, um tanto distraída ou cética, de Buenos Aires versões tardias e caseiras do futurismo e do cubismo. Fora do trato pessoal, a inclusão de Macedonio neste grupo é ainda mais injustificada que a de Güiraldes; Dom Segundo Sombra procede de O repentista, de Lugones, como todo o ultraísmo procedeu do Lunário sentimental, mas o orbe de Macedonio é bastante mais diverso e mais vasto. Pouco lhe interessou a técnica da literatura.
           O culto do ribeirinho e do gaúcho suscitava sua bondosa zombaria; numa encosta declarou que os gaúchos eram um entretenimento para os cavalos e acrescentou: “Sempre no chão! Que homem mais andarilho!” Uma tarde discorreu sobre as turbulentas eleições que deram fama ao átrio de Balvanera; Macedonio nos disse: “Todos os vizinhos de Balvanera pereceram nesses atos eleitorais tão perigosos”.
           Para além de sua doutrina filosófica e de suas freqüentes e delicadas observações estéticas, Macedonio nos oferecia, e continua nos oferecer, o espetáculo incomparável de um homem que, indiferente as vicissitudes da fama, vivia na paixão e na meditação. Não sei que afinidades ou divergências no revelaria o cotejo da filosofia de Macedonio com a de Schopenhauer ou de Hume; baste-nos saber que em Buenos Aires, por volta de mil e novecentos e vinte tantos, um homem repensou e descobriu certas coisas eternas.

25 Obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer ( 1788- 1860). (N. do T.)


           O Matrero
           Jorge Luiz Borges: O matrero. Seleção e prólogo de J.L.B. Buenos Aires. Edicom S.A., 1970. (Há edição posterior.)

           Uma curiosa convenção decidiu que cada um dos países em que a história e seus acasos dividiram fugazmente a esfera tenha seu livro clássico.
           A Inglaterra elegeu Shakespeare, o menos inglês dos escritores ingleses; a Alemanha, talvez para contrabalançar seus próprios defeitos, escolheu Goethe, que fazia pouco de seu admirável instrumento, o idioma alemão; a Itália, irrefutavelmente, o alígero Dante, para repetir o melancólico jogo de palavras de Baltazar Gracián; Portugal, Camões; a Espanha, apoteose que teria suscitado o douto escândalo de Quevedo e de Lope, o engenhoso leigo Cervantes; a Noruega, Ibsen; a Suécia, creio, resignou-se a Strindberg.
           Na França, onde as tradições são tantas, Voltaire não é menos clássico que Ronsard, nem Hugo que a Canção de Rolando; Whitman, nos Estados Unidos,não tira o lugar nem de Melville nem de Emerson.
           No que nos diz respeito, penso que nossa história seria outra, e bem melhor, se houvéssemos escolhido, a partir deste século, o Facundo, e não o Martín Fierro.
           Sarmiento enumerou famosamente as diversas variedades do gaúcho: o guia, o rastreador, o repentista e o gaúcho perverso, que Ascasubi já chamava de malandro. No prólogo do Santos Vega ou Os gêmeos de La Flor (Paris, 1872), Ascasubi nos diz: “É a história de um malandro capaz de cometer todos os crimes e que deu muito o que fazer à justiça”. O culto à obra de Hernández, iniciado pó O repentista (1916), de Lugones, e logo ampliado por Rojas, induziu-se à singular confusão dos conceitos de matrero e de gaúcho. E se o matrero tivesse sido um tipo freqüente, ninguém continuaria a recordar, ao fim de alguns anos, a alcunha ou o nome de uns poucos: Moreira, Formiga Negra, Calandra, o Tigre do Quequén.
           Há distraídos que teimam em dizer que o Martín Fierro é a súmula de nossa complexíssima história. Aditamos, por algumas linhas, que todos os gaúchos hajam sido soldados; admitamos também, como o protagonista da epopéia, tenham sido desertores, trânsfugas e matreros, e que afinal hajam passado para o lado dos índios. Neste caso, não teria havido então conquista do deserto; as lanças de Pincén ou de Coliqueo teriam assolado nossas cidades e, entre outras coisas, José Hernández teria ficado ssem tipógrafos. Careceríamos também de escultores para os monumentos ao gaúcho.
           Em Buenos Aires, os conceitos de compadre e de bamba da faca sofreram idêntica confusão. O compadre era o plebeu do centro ou dos arrabaldes, o mariola ou o pastor; podia ou não saber usar a faca. Desprezava o ladrão e o homem que vivia das mulheres. Os veteranos de Bartolomé Hidalgo, “os gaúchos do Rio da Prata, cantando e combatendo” que Hilario Ascasubi exaltou e os espirituosos conversadores que recriam a história do doutor Fausto não são menos reais que os rebeldes glorificados por Gutiérrez. Dom Segundo, o velho tropeiro, é homem de paz.
           É natural e talvez inevitável que a imaginação eleja o matrero, e não os gaúchos da força policial que andava à sua procura. Atrai-nos o rebelde, o indivíduo, pelo menos inculto ou criminoso, que se opõe ao Estado; Groussac assinalou esse fascínio em diversas latitudes e épocas.
           A Inglaterra se lembra de Robin Hood e de Hereward, o Desperto; a Islândia, de seu Grettir, o Forte. Cabe relembrar até mesmo aquele Billy the Kid, do Arizona, que, ao morrer vítima de um súbito balaço aos vinte e dois anos, devia à justiça vinte e duas mortes, sem contar os mexicanos e Macario Romero, de quem diz uma copla algo jocosa:

¡Qué bonito era Macario
Em su caballo retinto,
Con la pistola en la mano,
Peleando con treinta y cinco!48
           A história universal é a memória das gerações posteriores e, como se sabe, não exclui a invenção e o erro, que é talvez uma das formas da invenção.
           O ginete acossado que se esconde, como por arte mágica, estrita vacuidade dos pampas ou nos emaranhados labirintos do mato ou da coxilha é uma figura patética e valorosa de que de algum modo precisamos. Também o gaúcho, em geral sedentário, terá reverenciado o trânsfuga que fatigava as léguas da província e atravessava, desafiando a lei, ss amplas águas agitadas do Paraná e do Uruguai.
           Menos do que de indivíduos, a história dos tempos que se foram está cheia de arquétipos; para os argentinos, um desses arquétipos é o matrero. Hoyo e Moreira podem ter liderado bandos de foragidos e ter manuseado o trabuco, mas nos agrada imaginá-los lutando sozinhos, com o poncho e o facão. Uma das grandes virtudes do matero, sem dúvida desprezível, é a de pertencer ao passado; podemos venerá-lo sem risco.
           Esconder-se no mato podia ser um episódio na vida de um homem. O ânimo, o álcool dos sábados e aquele receio quase feminino de haver sido insultado que se chama, não sei bem por quê, machismo, favoreciam as rixas mortais. No Fausto se lê:
Cuando a usté un hombre lo ofiende,
Ya sin mirar para atrás,
Pela el flamenco y ¡sás! ¡trás!
Dos puñaladas le priende.

Y cuando la autoridá
La partida le ha soltao,
Usté en su overo rosao
Bebiendo los vientos va.

Naides de usté sse despega
Porque se aiga desgraciao,
Y es muy bien agasajao
En cualquier rancho a que llega.

Sí es hombre trabajador,
Ande quiera gana el pan:
Para eso com usté van
Bolas, lazo y maniador.

Pasa el tiempo, vuelve al pago,
Y cuando más larga ha sido
Su ausiencia, usté es recebido
Con más gusto y más halago. 49-49a

           É curioso observar que a desgraça era do matador, não do morto.
           Este livro antológico não é uma apologia do matrero nem uma acusação de fiscal. Escrevê-lo foi um prazer; Oxalá partilhem desse prazer os que folhearem as suas páginas.

           48  “Que bonito era Macário / Em seu cavalo retinto, / Com a pistola na mão, / Lutando com trinta e cinco!”  (N.do T.)
           49 O mais ilustre dos matreros literários lastima, em troca, sua desgraça, não seus bons momentos: “Es triste dejar sus pagos / Y largarse a tierna ajena, / Llevándose la alma llena / De tormentos y dolores, / Mas nos llevan los rigores / Como el pampero a la arena.”(É triste deixar seus pagos / E lançar-se à terra alheia,/ Carregando a alma cheia / De tormentos e de dores, / Mas nos levam os rigores / Como o pampeiro a areia.”)
           49a  “Quando algum homem lhe ofende, / Já sem olhar para trás, / Saca o punhal e zás-trás! / Com dois bons golpes o estende. // E quando a autoridade / A quadrilha houver soltado, / Você, em seu potro malhado. / Bebe o ventoem liberdade. // Ninguém de você se alheia / Porque agora é desgraçado, / E é muito bem festejado / Em qualquer rancho que apeia. // Se é homem trabalhador, / Onde quiser ganha pão: / Para isso com você vão / Bolas, laço e bridão. // Passa o tempo, volta ao pago, / E quando maior houver sido / sua ausência, será você recebido / Com mais gosto e mais agrado.” (N. do T.)

Fonte:  JLB em Prólogos com um prólogo dos prólogos. Tradução Ivan Junqueira Rio de Janeiro : Editora Rocco 1985.

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