O Gaúcho
O gaúcho. Prefácio de J.L.B. Fotografia de René
Burri. Texto de José Luiz Lanuza. Buenos Aires, Muchnik Editores.
1968.
O ginete, o homem que vê a terra de cima do cavalo e que o governa,
despertou em todas as épocas uma consideração instintiva,
cujo símbolo mais notório é a estatua eqüestre.
Roma já aplicara este adjetivo a uma ordem militar e social: ninguém
ignora a etimologia análoga da voz Caballero e das vozes Ritter
(barão) e Chevalier.
Nas Ilhas Britânicas, a critica sublinhou na poesia de Yeats o peso
e o valor da palavra rider, ginete. Nestas terras, esse homem foi o gaúcho.
Tudo o havia perdido, exceto o prestígio antigo que exaltaram a
aspereza e a solidão.
Samuel Johnson disse que as profissões de marinheiros e de soldado
têm a dignidade do perigo. Teve-a o nosso gaúcho, que conheceu
nos pampas e nas coxilhas a luta com a intempérie, com uma geografia
desconhecida e com a fazenda bravia. Inútil defini-lo etnicamente;
filho casual de esquecidos conquistadores e povoadores, foi mestiço
de índio, às vezes de negro, ou foi branco.
Ser gaúcho era um destino. Aprendeu a arte do deserto e de seus
rigores; seus inimigos foram o inesperado ataque dos indígenas que
espreitavam por detrás do horizonte fortuito, a sede, as feras,
a seca, os campos incendiados. Depois vieram as campanhas da liberdade
e da anarquia.
Não foi, como seu distante irmão do faroeste, um aventureiro,
um explorador de imensas terras virgens ou de filões de ouro; as
guerras o levaram muito longe e ele deu estoicamente a sua vida, em estranha
regiões do continente, por abstrações que talvez não
tenha podido entender – a liberdade, a pátria -, por uma divisa
ou um chefe.
Nas tréguas do risco alimentava o ócio; suas preferências
eram a guitarra que temperava com lentidão, o estilo menos
cantado do que falado, a taba,26 as cavalhadas, a roda de mate junto ao
fogo de lenha e as trapaças feitas de tempo, não de cobiça.
Foi, sem suspeitá-lo, famoso; em 1856, Whitman escreveu:
Vejo o gaúcho que cruza as planícies,
Vejo o incomparável ginete de cavalos atirando o laço,
Vejo sobre o pampa a perseguição da fazenda brava.
Meio século depois, Ricardo Güiraldes repetiria com acento retórico a mesma figura de nômade:
Símbolo pampeano y hombre verdadero,
Generoso guerrero,
Amor, coraje
¡Salvaje!
Gaucho, por decir mejor,Sua pobreza teve um luxo: a coragem. Criou ou herdou – dessas coisas César já sabia – a arte da arma curta; o braço esquerdo envolto num poncho à guisa de escudo, o punhal pronto para a estocada de baixo para cima, lutava em duelo singular com o homem ou, se era peão tigrero em alguma estância do Norte, com o jaguar.
Ropaje suelto de viento
Protagonista de un cuento
Vencedor.Corazón
De afirmación.
VoluntadDe lealtad,
Cuerpo “morrudo” de hombría,
Peregrina correría
Que va tranqueando los llanos,
Con la vida entre las manos
Potentes de valentía. 27-27ª
26 Jogo do osso, muito comum entre os gaúchos.
(N. do T.)
27 Os derradeiros anos de vida de Dom Segundo Sombra
têm a sua graça. Por um lado, visitavam-no figuras internacionais
( Keyserling, Reyes); por outro, procuravam-no para desafiá-lo
os mais ilustres virtuoses do punhal de Areco: o Touro, seu filho, o Tourinho,
e Andréa Soto, incomodados com sua gloria literária. O velho
Dom Segundo era homem de paz e morreu entre a fama e a justificada aflição.
27a “Símbolo do pampa e homem verdadeiro,
/ Generoso guerreiro, / Amor, coragem / Selvagem! // Gaúcho, para
dizer melhor, / Roupagem solta de vento / Protagonista de um conto / Vencedor.
// Coração / De afirmação, / Vontade de lealdade,
/ Corpo ‘beiçudo’ de honraria, / Peregrina correria / Que vai engolindo
as planícies, / Com a vida entre as mãos / Potentes de valentia.”
(N. do T.)
Macedonio Fernández
Macedonio Fernández, Seleção e prólogo de
J. L. B. Buenos Aires, Ediciones Culturales Argentinas, Biblioteca do Sesquicentenário,
1961.
Não se escreveu ainda a biografia de Macedonio Fernández,
homem que raras vezes cedeu à ação e que viveu entregue
aos puros deleites do pensamento.
Macedonio Fernández nasceu em Buenos Aires a 1º de junho de
1874 e faleceu nessa mesma cidade a 10 de fevereiro de 1952. Bacharelou-se
em ciências jurídicas; freqüentou ocasionalmente os tribunais
e, em princípios deste século, foi secretário do Tribunal
Federal em Posadas. Por volta de 1897 fundou no Paraguai, com Julio Molina
y Vedia e Arturo Muscari, uma colônia anarquista, que durou o que
costuma durar tais utopias.
Em meados de 1900 casou-se com Elena de Obieta, que lhe deu vários
filhos e de cuja morte é patético monumento uma famosa elegia.
A amizade era uma das paixões de Macedônio. Entre seus amigos,
lembro Leopoldo Lugones, José Ingenieros, Juan B. Justo, Marcelo
Del Mazo, Jorge Guilhermo Borges, Santiago Dabove, Julio César Dabove,
Enrique Fernández Latour e Eduardo Girondo.
Nos últimos dias de 1960, dito, ao sabor da memória e de
seus vaivens, o que o tempo me deixa das queridas e decerto misteriosas
imagens que, para mim, foram Macedônio Fernández.
No decurso de uma vida longa conversei com pessoas famosas; nenhuma me
impressionou como ele ou sequer de modo análogo. Procura esconder,
nunca exibir, sua extraordinária inteligência; falava como
a margem do diálogo e, não obstante, era o seu centro.
Preferia o tom interrogativo, o tom da modesta consulta, à afirmação
magistral. Jamais pontificava; sua eloqüência era de poucas
palavras e mesmo de frases truncadas. O tom habitual era de cautelosa perplexidade.
Posso imitar, mas não definir, essa voz sincera, enrouquecida pelo
tabaco. Recordo-lhe a vasta fronte, os olhos de uma cor indefinida, o cabelo
e os olhos grisalhos, a figura breve e quase vulgar.
O corpo era nele quase um pretexto para o espírito. Os que com ele
não privaram podem recordar os retratos de Mark Twain ou de
Paul Valéry. O primeiro destes o teria agradado, não muito
o segundo, pois desconfio que, para ele, Valéry era uma espécie
de charlatão do escrúpulo.
Sua simpatia pelo francês era bastante imperfeita; de Victor Hugo,
a quem eu admirava e admiro, lembro tê-lo ouvido dizer: “Saí
dali com esse galego insuportável. O leitor se foi e ele continua
a falar."". Na noite da famosa luta entre Dempsey, já estará
o francesinho na platéia, pedindo que lhe devolvam o dinheiro porque
o espetáculo foi muito curto.
Preferia julgar os espanhóis por Cervantes, que era um de seus deuses,
e não por Gracián ou por Góngora, que lhe pareciam
umas calamidades.
Herdei de meu pai a amizade e o culto de Macedonio. Por volta de 1921 regressamos
da Europa, depois de uma estada de muitos anos. As livrarias de Genebra
e certo generoso estilo de vida oral que eu descobrira em Madri me faziam
muita falta no princípio; esqueci essa nostalgia ao conhecer, ou
recuperar, Macedônio.
Minha última emoção na Europa foi o diálogo
com o grande escritor judeu-espanhol Rafael Cansinos-Asséns, em
que estavam todas as línguas e todas as literaturas, como se ele
próprio fosse a Europa e todos os ontens da Europa.
Em Macedonio achei outra coisa. Era como se Adão, o primeiro homem,
pensasse e resolvesse no Paraíso os problemas fundamentais. Cansinos
era a suma do tempo; Macedônio, a jovem eternidade. A erudição
lhe parecia uma coisa vã, um modo espalhafatoso de não pensar.
Numa mercearia da rua Sarandí, nos disse uma tarde que se pudesse
ir ao campo, estender-se na terra ao meio-dia, fechar os olhos e compreender,
distraindo-se com as circunstâncias que nos distraem, poderia resolver
imediatamente o enigma do universo. Não se tal felicidade lhe foi
concedida, mas sem dúvida a entreviu.
Anos depois da morte de Macedônio, li que em certos mosteiros budistas
o mestre costumava avivar o fogo com algumas imagens sacras ou destinar
a empregos infames os livros canônicos, para ensinar aos noviços
que a letra mata e o espírito vivifica; pensei que curiosa informação
se amoldasse aos hábitos mentais de Macedônio, mas também
que o entediaria caso lha referisse, dado seu caráter exótico.
Aos adeptos do zen-budismo molesta que se lhes fale das origens históricas
de sua própria doutrina; da mesma forma, desagradaria a Macedonio
que lhe falassem de uma prática circunstancial e não da intima
verdade, que é agora e aqui, em Buenos Aires.
A essência onírica do Ser era um dos temas preferidos de Macedônio,
mas quando me atrevi referir-lhe que um chinês sonhara que era uma
mariposa ou uma mariposa que agora sonhava ser um homem, Macedonio não
se reconheceu nesse antigo espelho e limitou-se a perguntar-me pela data
do texto que eu citava. Falei-lhe do século V anterior à
era cristã e Macedonio observou que o idioma chinês mudara
tanto desde aquela data remota que de todas as palavras do conto a palavra
mariposa seria a única de sentido inequívoco.
A atividade mental de Macedonio era incessante e rápida, embora
sua exposição fosse lenta; nem as refutações
nem as afirmações alheias o interessavam.
Seguia imperturbavelmente sua idéia. Lembro que atribuiu essa ou
aquela opinião a Cervantes; algum imprudente assinalou que em determinado
capítulo do Quixote se lê precisamente o contrário:
Macedonio não se desviou diante desse breve obstáculo e disse:
“Assim será, mas Cervantes o escreveu para ficar bem com o comissário”.
Meu primo Guilhermo Juan, que cursava a Escola Naval de Río Santiago,
foi visitar Macedonio e este observou que naquele estabelecimento, em que
há tantos provincianos, tocariam muita guitarra. Meu primo lhe disse
que, nos vários meses que ali estivera, não soubera de ninguém
que o fizesse; Macedonio aceitou essa negativa como se fosse uma confirmação
e disse-me, com o tom de um homem que complementa o que o outro afirmou:
“Já vês, um notável centro guitarrístico”.
A indolência nos move a pressupor que os outros são feitos
a nossa imagem; Macedonio Fernández cometia o generoso erro de atribuir
sua inteligência a todos os homens.
Em primeiro atribuía aos argentinos, que constituíam, como
é natural, seus mais freqüentes interlocutores. Minha mãe
acusou-o certa vez de ser partidário, ou de haver sido partidário,
de todos os diversos e sucessivos presidente da República. Tais
vicissitudes, que o fizeram passar em um só dia do culto de Yrigoyen
ao de Uriburu, procediam de sua convicção de que Buenos Aires
não pode enganar-se.
Admirava, é claro que sem os haver lido, José Quesada ou
Enrique Larreta, pela única e suficiente razão de que todos
os admiravam. Esta superstição do argentino levou-o a opinar
que Unamuno, e os demais espanhóis, se posto a pensar, e não
raro a pensar bem, porque sabiam que seriam lidos em Buenos Aires.
Estimava pessoalmente e apreciava literariamente Lugones, de quem foi muito
amigo, mas em algum momento viu-se às voltas com a iminência
de escrever um artigo em que manifestaria sua estranheza quanto ao fato
de que Lugones, apesar de suas muitas leituras e de seu indiscutível
talento, jamais se houvesse dedicado a escrever. “Por que não nos
dá um verso?”, perguntava Macedonio.
Macedonio possuía em altíssimo grau as artes da inércia
e da solidão. A vida pastoril num território quase deserto
nos ensinara, aos argentinos, o hábito da solidão sem o tédio;
a televisão, o telefone e – por que não dizê-lo – a
leitura são culpados por havermos perdido esse precioso dom. Macedonio
era capaz de estar só, sem fazer nada, durante muitas horas. Um
livro muito famoso fala do homem que esta só a espera; Macedonio
estava só e nada esperava, abandonando-se docilmente ao manso fluir
do tempo.
Habituara seus sentidos a não perceber o desagradável e a
demorar-se em uma satisfação qualquer: o odor de tabaco inglês,
de um mate curado ou de um volume – O mundo como vontade e representação,
25 me lembro -, encadernado em papelão espanhol.
O acaso o levava a peças modestas, sem janelas ou com uma janela
que se abria para um submerso pátio interior, em pensões
do Once ou do bairro dos Tribunais; eu abria a porta e ali estava Macedonio,
sentado na cama ou numa cadeira de espaldar ereto. Dava-me a impressão
de não se haver movido durante horas e de não sentir a pequenez,
e um pouco a agonia, do ambiente. Não conheci homem mais friorento.
Costumava abrigar-se sob uma coberta que lhe caia sobre o peito e os ombros,
à maneira dos árabes; uma cartolinha de cocheiro ou um sombreio
negro de palha poderia coroar essa estrutura ( os gaúchos
enfarpelados de certas litografias o recordam ).
Aprazia-lhe falar do “afago térmico”; este afago, na prática,
estava constituído de três fósforos, que ele acendia
ao mesmo tempo e aproximava, sob a forma de leque, de seu ventre. A mão
esquerda dirigia essa efêmera e mínima calefação,
enquanto a direita acentuava alguma hipótese de caráter estético
ou metafísico. O temor das perigosas seqüelas de um resfriamento
brusco o aconselhara a conveniência de dormir vestido no inverno;
O calor adicional da cama não lhe importava. Sustentava que a barba,
que assegura uma temperatura constante, era uma proteção
natural contra as dores de dentes. A dietética e as guloseimas o
interessavam.
Uma tarde discutiu longamente sobre as respectivas virtudes do merengue
e do doce de amêndoas com nozes; ao fim de imparciais e escrupulosas
considerações teóricas, pronunciou-se a favor dos
doces nativos e tirou uma valise poeirenta que guardava embaixo da cama.
De seu interior exumou, entre manuscritos, erva e tabaco, umas coisas confusas
que já haviam perdido seu caráter de doces de amêndoas
ou merengue e que nos ofereceu com insistência.
Estas historias correm o risco de parecerem ridículas; assim nos
pareceram naquela época e as repetíamos, talvez exagerando-as
um pouco, mas sem o menor prejuízo de nossa reverência. Não
quero que se perca nada de Macedonio.
Eu, que agora me detenho em registrar tais absurdos pormenores, continuo
a crer que seu protagonista é o homem mais extraordinário
que conheci. O mesmo ocorreria a Boswell, sem dúvida, com relação
a Samuel Johnson.
Escrever não era uma tarefa para Macedonio Fernández. Vivia
(mais do que qualquer outra pessoa que conheci) para pensar. Diariamente
se entregava às vicissitudes e surpresas do pensamento, como um
nadador às águas de um grande rio, e essa maneira de pensar
que se chama escrever não lhe custava o maior esforço.
Seu pensamento era tão vivaz quanto a redação de seu
pensamento; na solidão de seu quarto ou na agitação
de um café, enchia páginas e páginas com a escrita
perfilada de uma época que desconhecia a máquina de escrever
e para qual uma clara caligrafia era a parte dos bons modos.
Suas cartas mais casuais não eram menos engenhosas e pródigas
do que as páginas que enviava ao prelo e talvez as superassem
em graça. Macedônio não dava o menor valor à
sua palavra escrita; ao mudar de alojamento, não levava os manuscritos
de índole metafísica ou literária que se haviam amontoado
sobre a mesa e que enchiam as gavetas e armários.
Muito se perdeu assim, talvez para sempre. Lembro haver-lhe reprovado essa
distração; disse-me ele então que supor que se possa
perder algo era uma pretensão, já que a mente humana é
tão pobre que esta condenada a encontrar, perder ou redescobrir
sempre as mesmas coisas.
Outra razão de suas facilidade literária era seu incorrigível
desdém pelas sonoridades verbais e, ainda, pela eufonia. Não
sou leitor de bagatelas declarou uma vez, e as ansiedades prosódicas
de Lugones ou de Dario lhe pareciam de todo inúteis.
Julgava que a poesia está nos caracteres, nas idéias ou numa
justificação estética do universo; eu, ao fim de alguns
anos, desconfio que está essencialmente na entonação,
em certa respiração da frase. Macedonio procurava a música
na música, não na linguagem. Isso não impede que em
seus textos – sobre tudo em sua prosa – percebamos uma música involuntária
que corresponde à cadência pessoal de sua voz.
Macedonio exigia da novela que todos os seus personagens fossem eticamente
perfeitos; nossa época parece inclinar-se ao contrário, sem
outra exceção que a muito honrosa de Shaw, que imaginou e
modelou heróis e santos.
Por trás da sorridente cortesia e do ar algo alheio de Macedonio
pulsavam dois temores, o da dor e o da morte. Este, último levou-o
a negar o eu, a fim de que não houvesse um que eu morresse; aquele
primeiro, a negar que a dor física pudesse ser intensa.
Queria persuadir-se, e persuadir-nos, de que o organismo do homem é
incapaz de um prazer muito forte e, por conseguinte , de uma dor violenta.
Latour e eu dele ouvimos esta pitoresca metáfora: “Num mundo em
que os prazeres são de zombaria, as dores não podem ser de
ferraria”. Inútil foi objetar que nem sempre os prazeres são
de zombaria e que o mundo e que o mundo, além disso, não
tem por que ser simétrico.
Para não enfrentar o boticão do dentista, Macedonio costumava
praticar o tenaz oficio de amolecer continuamente os dentes; esta manipulação
se fazia por detrás da mão esquerda, que funcionava como
quebra-luz, enquanto a direita insistia. Não se o êxito chegou
a coroar este trabalhos dos dias e dos anos. O homem que vai padecer de
uma dor procura, instintivamente, não pensar nela; Macedonio sustentava,
ao contrário, que devemos imaginar previamente a dor e em todas
circunstâncias, a fim de que a realidade não chegue a nos
assustar. Imaginava assim a sala de espera, a porta que se entreabre, a
saudação, o centro cirúrgico, o instrumental, o odor
dos anti-sépticos, a água morna, as pressões, as luzes,
a penetração da agulha e o dilaceramento final.
Esta preparação imaginaria devia ser perfeita e não
deixar o menor resquício ao insólito; Macedonio jamais a
concluiu. Talvez o método outra coisa não fosse que uma maneira
de justificar as terríveis imagens que o perseguiam.
O mecanismo da fama o interessava, não sua obtenção.
Durante um ano ou dois envolveu-se com o vasto e vago projeto de ser presidente
da República. Muitas pessoas se propõem a abrir uma tabacaria
e quase ninguém a ser presidente; com base nesse dado estatístico,
deduzia ele que seria mais fácil chegar a presidente do que a dono
de uma tabacaria.
Um de nós observou que também seria lícito deduzir
que abrir uma tabacaria poderia ser mais difícil do que se tornar
presidente; Macedonio assentiu com seriedade. O mais necessário
(nos repetia) era divulgação do nome. Colaborar no suplemento
de algum dos grandes jornais era fácil, mas a divulgação
obtida por esse meio corre o risco de ser tão trivial quanto Júlio
Dantas ou os cigarros “43”.
Convinha insinuar-se na imaginação das pessoas de modo mais
sutil e enigmático. Macedonio optou por aproveitar seu curioso nome
de batismo; minha irmã e algumas de suas amigas escreviam o nome
de Macedonio em tiras de papel ou cartões de visita, que cuidadosamente
esqueciam nas confeitarias, bondes, ruelas, vestíbulos de casas
e cinemas.
Outra habilidade era congratular-se com as comunidades estrangeiras; Macedonio,
com uma sonhadora gravidade, nos contava que havia deixado no Clube Alemão
um volume manuseado de Schopenhauer, com sua assinatura e anotações
a lápis.
Destas manobras mais ou menos imaginárias e cuja execução
não havia por que acelerar, uma vez que devíamos proceder
com extrema cautela, surgiu o projeto de uma grande novela fantástica,
cuja ação transcorrias em Buenos Aires e que começamos
a escrever juntos. (Se não me engano, Julio César Dabove
guarda ainda o manuscrito dos dois primeiros capítulos; creio que
poderíamos tê-la concluído, mas Macedonio a foi retardando,
pois o que lhe agradava era falar das coisas, e não executá-las.)
A obra se intitulava O homem que será presidente; os personagens
da fábula eram os amigos de Macedonio e, na última página,
o leitor receberia revelação de que o livro fora escrito
por Macedonio Fernández, o protagonista, pelos irmãos Dabove,
por Jorge Luis Borges, que se matou ao final do nono capítulo, e
por Carlos Pérez Ruiz, que teve aquela singular aventura com o arco-íris.
E assim por diante.
Na obra se entreteciam dois argumentos: um, visível,as curiosa gestões
de Macedonio para tornar-se presidente da República; outro, secreto,
a conspiração urdida por uma seita de milionários
neurastênicos e talvez loucos para obter o mesmo fim. Estes resolvem
solapar e minar a resistência das pessoas mediante uma série
gradual de invenções incômodas.
A primeira ( a que nos sugeriu a novela) é a dos açucareiros
automáticos, que, de fato, impedem que se adoce o café. A
esta se seguem outras: a dupla lapiseira, com uma pena em cada ponta, que
ameaçava ferir os olhos; as íngremes escadarias nas quais
não existem dois degraus de mesma altura; e tão recomendado
pente-navalha que nos corta os dedos; os utensílios fabricados com
dois novos materiais antagônicos, de sorte que as coisas grandes
fiquem muitos leves e as coisas pequeninas, pesadíssimas, para burlar
nossa expectativa; a multiplicação de parágrafos empastelados
nas novelas policiais; a poesia enigmática e a pintura dadaísta
ou cubista.
No primeiro capítulo, quase todo à perplexidade e ao temor
de um jovem provinciano perante a doutrina de quem não há
o eu, o qual, por conseguinte. Não existe, figura um único
artefato, o açucareiro automático.
No segundo aparecem dois, mas de modo lateral e fugaz; nosso propósito
era apresentá-los em proporção crescente. Queríamos
também que à medida que enlouquecesse; para o primeiro
capítulo escolhemos o tom coloquial de Pio Baroja; o último
teria correspondido às paginas mais barrocas de Quevedo. Ao fim,
o governo cai; Macedonio e Fernández Latour entram na Casa Rosada,
mas já nada significa coisa alguma nesse mundo anárquico.
Nesta novela inconclusa é bastante possível que haja algum
reflexo involuntário do Homem que foi Sexta-feira.
Macedonio se preocupava menos com a literatura do que com o pensamento
e menos com a publicação do que com a literatura, isto é,
quase nada. Milton ou Mallarmé procuravam a justificação
de sua vida na redação de um poema ou talvez de uma página,
Macedonio queria compreender o universo e saber quem era ou saber se era
alguém.
Escrever e publicar eram coisas subalternas para ele. Para além
do encanto de seu diálogo e da reservada presença de sua
amizade, Macedonio nos propunha o exemplo de um modo intelectual de viver.
Os que hoje se chamam de intelectuais na verdade não o são,
já que fazem da inteligência um oficio ou um instrumento para
a ação. Macedonio erra um contemplativo puro, que às
vezes condescendia em escrever e muito raramente em publicar.
Para explicar Macedonio não achei recurso melhor do que as histórias
sobre ele, mas estas, quando são memoráveis, têm a
desvantagem de converter seu protagonista num ente mecânico, que
infinitamente repete o mesmo epigrama, agora clássico, ou tem a
mesma saída. Coisa muito distinta foram os ditos de Macedonio, imprevisivelmente
agregados à realidade, que com eles se enriquecia e se assombrava.
Eu desejaria recuperar de algum modo o que foi Macedonio, essa felicidade
de saber que numa casa de Morón ou de Once havia um homem mágico
cuja solitária existência despreocupada era mais importante
que nossas venturas ou desventuras pessoais. Isto eu senti, isto sentiram
alguns de nós, isto eu não posso comunicar.
Negada uma matéria duradoura por detrás das aparências
do mundo, negado um eu que percebe as aparências, Macedônio
afirmava, todavia, uma realidade e essa realidade era a paixão,
que se manifestava nas espécies da arte e do amor. Suspeito que
o amor parecia a Macedonio mais prodigioso ainda que a arte; esta preferência
radicaria em seu caráter afetivo, não em sua doutrina, que
comportava (já o vimos) a negação do eu, de modo que
não há objeto nem sujeito da paixão, que seria a única
realidade. Macedonio nos disse que o abraço dos corpos outra coisa
não é que o sinal – ou melhor, talvez a saudação
–que uma alma faz às outras almas, mas não há almas
em sua filosofia.
Como Güiraldes, Macedonio permitiu a vinculação de seu
nome a geração chamada de “Martín Fierro”, que sugeriu
à atenção, um tanto distraída ou cética,
de Buenos Aires versões tardias e caseiras do futurismo e do cubismo.
Fora do trato pessoal, a inclusão de Macedonio neste grupo é
ainda mais injustificada que a de Güiraldes; Dom Segundo Sombra
procede de O repentista, de Lugones, como todo o ultraísmo
procedeu do Lunário sentimental, mas o orbe de Macedonio é
bastante mais diverso e mais vasto. Pouco lhe interessou a técnica
da literatura.
O culto do ribeirinho e do gaúcho suscitava sua bondosa zombaria;
numa encosta declarou que os gaúchos eram um entretenimento para
os cavalos e acrescentou: “Sempre no chão! Que homem mais andarilho!”
Uma tarde discorreu sobre as turbulentas eleições que deram
fama ao átrio de Balvanera; Macedonio nos disse: “Todos os vizinhos
de Balvanera pereceram nesses atos eleitorais tão perigosos”.
Para além de sua doutrina filosófica e de suas freqüentes
e delicadas observações estéticas, Macedonio nos oferecia,
e continua nos oferecer, o espetáculo incomparável de um
homem que, indiferente as vicissitudes da fama, vivia na paixão
e na meditação. Não sei que afinidades ou divergências
no revelaria o cotejo da filosofia de Macedonio com a de Schopenhauer ou
de Hume; baste-nos saber que em Buenos Aires, por volta de mil e novecentos
e vinte tantos, um homem repensou e descobriu certas coisas eternas.
25 Obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer ( 1788- 1860). (N. do T.)
O Matrero
Jorge Luiz Borges: O matrero. Seleção e prólogo
de J.L.B. Buenos Aires. Edicom S.A., 1970. (Há edição
posterior.)
Uma curiosa convenção decidiu que cada um dos países
em que a história e seus acasos dividiram fugazmente a esfera tenha
seu livro clássico.
A Inglaterra elegeu Shakespeare, o menos inglês dos escritores ingleses;
a Alemanha, talvez para contrabalançar seus próprios defeitos,
escolheu Goethe, que fazia pouco de seu admirável instrumento, o
idioma alemão; a Itália, irrefutavelmente, o alígero
Dante, para repetir o melancólico jogo de palavras de Baltazar Gracián;
Portugal, Camões; a Espanha, apoteose que teria suscitado o douto
escândalo de Quevedo e de Lope, o engenhoso leigo Cervantes; a Noruega,
Ibsen; a Suécia, creio, resignou-se a Strindberg.
Na França, onde as tradições são tantas, Voltaire
não é menos clássico que Ronsard, nem Hugo que a Canção
de Rolando; Whitman, nos Estados Unidos,não tira o lugar nem de
Melville nem de Emerson.
No que nos diz respeito, penso que nossa história seria outra, e
bem melhor, se houvéssemos escolhido, a partir deste século,
o Facundo, e não o Martín Fierro.
Sarmiento enumerou famosamente as diversas variedades do gaúcho:
o guia, o rastreador, o repentista e o gaúcho perverso, que Ascasubi
já chamava de malandro. No prólogo do Santos Vega ou
Os gêmeos de La Flor (Paris, 1872), Ascasubi nos diz: “É
a história de um malandro capaz de cometer todos os crimes e que
deu muito o que fazer à justiça”. O culto à obra de
Hernández, iniciado pó O repentista (1916), de Lugones,
e logo ampliado por Rojas, induziu-se à singular confusão
dos conceitos de matrero e de gaúcho. E se o matrero tivesse sido
um tipo freqüente, ninguém continuaria a recordar, ao fim de
alguns anos, a alcunha ou o nome de uns poucos: Moreira, Formiga Negra,
Calandra, o Tigre do Quequén.
Há distraídos que teimam em dizer que o Martín
Fierro é a súmula de nossa complexíssima história.
Aditamos, por algumas linhas, que todos os gaúchos hajam sido soldados;
admitamos também, como o protagonista da epopéia, tenham
sido desertores, trânsfugas e matreros, e que afinal hajam passado
para o lado dos índios. Neste caso, não teria havido então
conquista do deserto; as lanças de Pincén ou de Coliqueo
teriam assolado nossas cidades e, entre outras coisas, José Hernández
teria ficado ssem tipógrafos. Careceríamos também
de escultores para os monumentos ao gaúcho.
Em Buenos Aires, os conceitos de compadre e de bamba da faca sofreram idêntica
confusão. O compadre era o plebeu do centro ou dos arrabaldes, o
mariola ou o pastor; podia ou não saber usar a faca. Desprezava
o ladrão e o homem que vivia das mulheres. Os veteranos de Bartolomé
Hidalgo, “os gaúchos do Rio da Prata, cantando e combatendo”
que Hilario Ascasubi exaltou e os espirituosos conversadores que recriam
a história do doutor Fausto não são menos reais que
os rebeldes glorificados por Gutiérrez. Dom Segundo, o velho tropeiro,
é homem de paz.
É natural e talvez inevitável que a imaginação
eleja o matrero, e não os gaúchos da força policial
que andava à sua procura. Atrai-nos o rebelde, o indivíduo,
pelo menos inculto ou criminoso, que se opõe ao Estado; Groussac
assinalou esse fascínio em diversas latitudes e épocas.
A Inglaterra se lembra de Robin Hood e de Hereward, o Desperto; a Islândia,
de seu Grettir, o Forte. Cabe relembrar até mesmo aquele Billy the
Kid, do Arizona, que, ao morrer vítima de um súbito balaço
aos vinte e dois anos, devia à justiça vinte e duas mortes,
sem contar os mexicanos e Macario Romero, de quem diz uma copla algo jocosa:
¡Qué bonito era MacarioA história universal é a memória das gerações posteriores e, como se sabe, não exclui a invenção e o erro, que é talvez uma das formas da invenção.
Em su caballo retinto,
Con la pistola en la mano,
Peleando con treinta y cinco!48
Cuando a usté un hombre lo ofiende,É curioso observar que a desgraça era do matador, não do morto.
Ya sin mirar para atrás,
Pela el flamenco y ¡sás! ¡trás!
Dos puñaladas le priende.Y cuando la autoridá
La partida le ha soltao,
Usté en su overo rosao
Bebiendo los vientos va.Naides de usté sse despega
Porque se aiga desgraciao,
Y es muy bien agasajao
En cualquier rancho a que llega.Sí es hombre trabajador,
Ande quiera gana el pan:
Para eso com usté van
Bolas, lazo y maniador.Pasa el tiempo, vuelve al pago,
Y cuando más larga ha sido
Su ausiencia, usté es recebido
Con más gusto y más halago. 49-49a
48 “Que bonito era Macário / Em seu cavalo
retinto, / Com a pistola na mão, / Lutando com trinta e cinco!”
(N.do T.)
49 O mais ilustre dos matreros literários lastima,
em troca, sua desgraça, não seus bons momentos: “Es triste
dejar sus pagos / Y largarse a tierna ajena, / Llevándose la alma
llena / De tormentos y dolores, / Mas nos llevan los rigores / Como el
pampero a la arena.”(É triste deixar seus pagos / E lançar-se
à terra alheia,/ Carregando a alma cheia / De tormentos e de dores,
/ Mas nos levam os rigores / Como o pampeiro a areia.”)
49a “Quando algum homem lhe ofende, / Já
sem olhar para trás, / Saca o punhal e zás-trás! /
Com dois bons golpes o estende. // E quando a autoridade / A quadrilha
houver soltado, / Você, em seu potro malhado. / Bebe o ventoem liberdade.
// Ninguém de você se alheia / Porque agora é desgraçado,
/ E é muito bem festejado / Em qualquer rancho que apeia. // Se
é homem trabalhador, / Onde quiser ganha pão: / Para isso
com você vão / Bolas, laço e bridão. // Passa
o tempo, volta ao pago, / E quando maior houver sido / sua ausência,
será você recebido / Com mais gosto e mais agrado.” (N. do
T.)
Fonte: JLB em Prólogos
com um prólogo dos prólogos. Tradução Ivan
Junqueira Rio de Janeiro : Editora Rocco 1985.