O Gaúcho
Conferência
pronunciada Congresso Mundial de Folclore de Chicago em 14 de julho de
1893.
Senhoras e Cavalheiros
Tanto
ponderei vossa indulgência para com os estrangeiros que procuram
expressar-se em vossa língua concisa e forte, que senti certa curiosidade
de discorrer ao azar. Talvez a tentativa seja um tanto atrevida; mas, entre
as muitas coisas que desejo apreender entre vós, creio que a timidez
não figura no programa. Em suma, a aventura não é
muito perigosa para ninguém, nem mesmo para mim, posto que não
coloco amor próprio nela; e, uns e outros, devermos nos dizer que
um mau momento logo passa...
Contudo,
uma experiência recente deveria deixar-me alguma inquietude. Visitava
há pouco um distrito mineiro do extremo Oeste, em companhia de um
vosso compatriota que se ofereceu gentilmente para "pilotar-me". Este excelente
coronel - pois sem dúvida o era ! -, não menos instruído
que solícito, explicava-me tudo com uma complacência inesgotável.
Durante não sei que permanência na Europa havia apreendido
o francês; mas já fazia algum tempo, creio que nas vésperas
da guerra da Criméia. Como falasse o inglês muito depressa,
eu não alcançava sempre o sentido de certas frases recalcitrantes;
imediatamente ele as traduzia para a minha língua. Oh!, então
era coisa muito diferente: quando me falava em francês, já
não entendia uma palavra sequer ! Sem dúvida era culpa de
meu ouvido neófito; e estou seguro de que ireis entender quase tão
bem como se eu falara em inglês. Esforçar-me-ei por ser claro,
se não correto: vossa benevolência superará minhas
deficiências.
Apesar
da carência de notas auxiliares, logo aceitei o convite que me foi
dirigido, faz alguns dias, para dissertar neste Congresso sobre um tema
familiar. Elegi o presente, por parecer-me que vem preencher uma lacuna
de vosso interessante e variado programa. Trata-se da vida rústica
e aventureira, dos costumes e crenças de nossa gaúcho argentino.
O
nome não é novo, nem tampouco a variedade étnica que
este designa, para o público instruído que se digna escutar-me.
Fora os relatos dos viajantes, creio que Walter Scott foi o primeiro a
lançar a palavra à ampla circulação literária;
mas costumava escrever guacho, americanismo que agora tem significado diferente.
O grande Carlyle, em um admirável ensaio sobre o doutor Francia,
ditador do Paraguay - em que prodiga um pouco de humor
às expensas de nossos heróis
sul-americanos -, desenhou a fisionomia real do gaúcho, insolente,
estóico, desalinhado: em suma, pitoresco, por mais que "careça
amiúde de sabão", como disse o ensaísta inglês.
Este pintou como ele sabe pintar, com essa intuição aguda
do visionário, esse arrojo de pincel e exuberância de cor
que mesmo nosso Michelet nunca sobrepujou. O tema é vasto e difuso;
sobretudo para os que o estudam muito de perto, e o conhecemos por todos
seus aspetos variados e múltiplos. Trata-se de um grupo que chega
quase a ser um povo. E pelo fato de se apresentar espalhado e, por assim
dizer, indefinido como o imenso teatro que este nômade atravessa
sem ocupá-lo jamais, devo limitar-me desflorar o tema demasiado
vasto, sem tentar sequer aprofundá-lo, deixando a vosso conhecimento
das evoluções e analogias etnográficas o cuidado de
preencher os vazios que encontrareis entre alguns poucos rasgos significativos.
Por outra parte, os limites forçosos desta conferência, assim
como a composição deste distinto público, tão
variado em sua língua e procedência, proíbem embrenhar-me
pelos amplos desenvolvimentos e peculiaridades assaz locais do tema; muito
mais as datas repetidas em um dialeto que, mesmo para os espanhóis
ou os habitantes de outras regiões hispano-americanas, requer amiúde
uma interpretação.
Apesar
de ser antigo "educacionista", tenho tendência ao ensino pelo seu
aspecto. Assim, quero mostrar-vos a cena antes de bosquejar o ator. Tereis
dela uma idéia vagamente aproximada comparando nosso território
argentino aos Estados Unidos de há meio século, limitados
a oeste, desde o norte até o sul, por uma altíssima cordilheira
de "Montes Rochosos"; mas de cujo conjunto, por uma desgraça que
haveis conseguido evitar, alguns dos ricos e populosos Estados do leste
deixaram de segregar-se. Na embocadura de um rio muito mais longo que vosso
Mississipi, às margens do Rio da Prata, Buenos Aires de esparrama
sem elevações, com o dobro da população de
Nova Orleans, em uma incomensurável planície verde, onde,
além da Luisiana, caberiam folgadamente o Texas, Kansas e o Missouri
reunidos: aquela é a savana pampeana que desce dos contrafortes
dos Andes e se estende para o sul, até os desertos da Patagônia.
Ali era, e ainda é, o habitáculo próprio do gaúcho
pampeiro, o qual foi tantas vezes descrito e a quem se conhece melhor.
Desde o nordeste, sobre o rio Paraná, em uma orientação
semelhante a de Illinois, outro grupo étnico, indígena em
sua maioria, ocupa Corrientes, não sendo mais do que um ramo dos
guaranis que povoavam o vizinho Paraguay. Ao noroeste, por fim, em uma
região que corresponde a pouco mais ou menos Nebraska e Dakota,
um terceiro grupo povoa o antigo Tucumán dos anais espanhóis,
cujo nome se conservou numa pequena província muito rica, mas cuja
língua e tradições primitivas, apenas "mordidas" pela
civilização européia, perpetuou-se nas selvas de Santiago.
Por outra parte, peço-vos que não concedais valor científico
e preciso a estas vagas analogias geográficas, que me aventuro com
o único objetivo de uma orientação provisória.
Destas
três variedades étnicas, que a nacionalidade e a vida moderna
vêm confundindo cada vez mais, pode-se dizer que o indígena
quase puro de Corrientes e Misiones, que ainda falam o guarani e pouco
tem se modificado desde a era colonial, se encontra suficientemente descrito
nos relatos jesuíticos do último século. Deve-se acrescentar,
também, que seus costumes gauchescos não são inatos,
senão adquiridos por contato e infiltração. As duas
variedades reais, propriamente falando, são formadas pelo gaúcho
de Buenos Aires e províncias limítrofes, e o das selvas de
Tucumán, cujo verdadeiro tipo vive em Santiago. Este, sobretudo,
além de ter sido muito menos estudado que o primeiro, apresenta
um problema etnográfico muito especial: um caso de enxerto lingüístico
cuja analogia creio que se buscará em vão no resto da América
espanhola, e que, filológicamente, lembra o fenômeno da Romênia
latina, encravada durante séculos, como uma concreção
parasita, no âmago do corpo eslavo. Quanto ao habitante dos vales
vizinhos do Chile, penso que se deveria, em uma descrição
étnica, vincular ambas vertentes contíguas, tanto por causa
de um provável parentesco, quanto em razão do contato incessante
que as mantém semelhantes há muito tempo A primitiva forma
de ocupação do pampa, ou do campo de Buenos Aires, é
muito conhecida: além do mais, tendes nela uma reprodução
bastante fiel de vossos ranchos do oeste. A própria palavra rancho
é genuinamente espanhola; mas, no sentido californiano que a haveis
tomado, provém sem dúvida do México. No Perú,
um rancho é em geral uma casa de campo e de recreio; na república
Argentina é propriamente a habitação do gaúcho.
Vosso ranch do Far West corresponde à nossa estância, e também
em outros casos a nosso puesto, que corresponde, para se dizer assim, a
uma sucursal daquela.
Antes
que as ferrovias aproximassem as distâncias, multiplicando os centros
populacionais e a subdivisão das propriedades territoriais, o mar
imenso de pradarias cobertas de gado solto, em parte alçado e sem
dono, estendia-se num raio de vinte a trinta léguas ao redor da
capital. Depois começava o deserto, somente ocupado pelas tolderias
dos indígenas. No centro daqueles estabelecimentos rurais, vagamente
medidos e nunca cercados, a casa-estância com seus alpendres cobertos
por açotéias ou por duas águas, levantava sua paredes
de adobe pintadas com cal; quase sempre um umbu enorme ou pomarzinho de
pêssegos dava sua nota alegre sobre o lar campeiro. A curta distância
da casa senhorial, alguns ranchos de peões e pastores se antecipavam
com seus tetos de palha aos currais das ovelhas.
O
gado de maior porte, vacas e cavalos, pastava em liberdade. Os rebanhos,
manadas e pastagens dos vizinhos, se confundiam sem grandes prejuízos
para ninguém; nos dias de rodeio se marcava a fogo o animal ao lado
da mãe, e se encerravam no curral as reses destinadas à próxima
venda. Durante o rodeio, cada proprietário reconhecia e apartava
o que lhe pertencia patriarcalmente, como nos tempos bíblicos. E
aí se davam as grandes festas do ano pastoril ! Muito bem: todos
os que aí trabalhavam com afã, peões permanentes ou
contratados, compadres e transeuntes atraídos pelo acontecimento
e pelo amor de carnes assadas nas brasas: cada qual montado em seu cavalo
ajaezado com o vistoso arreio chapeado de prata; vestindo o poncho rajado
atirado nos ombros, e com a língua tão afiada como a faca
enfiada no cinto, todos eles era gaúchos das planícies, o
que simplesmente significa: homens adestrados no manejo do laço
e do cavalo.
Tenho
falado de tempos passados, pensando sobretudo na antiga província
de Buenos Aires, cuja extensão habitada, repito, não excedia,
há vinte anos, esse semi-círculo de umas trinta léguas
de raio, ao redor da grande cidade, até a fronteira dos índios.
Hoje em dia, estes têm sido rechaçados, dispersados no deserto,
onde, a semelhança dos vossos, estão se extinguindo lentamente;
e os gaúchos, que tomaram seu lugar, vão retrocedendo por
sua vez diante da imigração européia ou se transformando
com seu contato e miscigenação O encarecimento rápido
da propriedade rural tem tido por conseqüência sua divisão
e medição exata. A criação científica
de gado de raça fina e o cultivo do solo, cuidadosamente cercado,
tem criado a verdadeira indústria pastoril. Cavalariças e
estábulos substituíram o antigo curral. Da vizinha estação
de trens, o proprieetário enriquecido chega em carruagem à
sua estância: a antiga moradia rústica converte-se em verdadeira
casa de campo, algumas vezes em um castelo com parques e jardins. Há
estâncias, a umas cem léguas de Buenos Aires, que conhecemos
como campos abertos às tribos indígenas, onde hoje as carruagens
com tiro inglês percorrem a planície, e em cujas mansões
luxuosas se almoça em trajes de etiqueta. Os criadores europeus
relegaram o gaúcho às grandes propriedades de estilo antigo.
Cumpriu-se a lei fatal: De fora virá... E o filho do pampa se refugiou
no que do pampa resta, pelo distante sul. É ali onde ainda se o
encontra, mas desorientado e empobrecido no contato da civilização
invasora, quando não consegue fundir-se ao grupo urbano. Esta última
evolução, por outra parte, costuma cumprir-se sem grande
esforço: muitos filhos de gaúchos têm sido educados
no colégio e habitam a cidade.
A
transformação tem sido bem mais fácil, quanto as nossas
instituições e costumes democráticos , muito semelhantes
aos vossos, se aplicam também entre nós a um elemento popular
que não difere essencialmente do elemento superior. Agregai a ele
a pressão crescente do advento europeu, sendo que as condições
de clima benigno e da terra fértil designam a República Argentina
como o país de maior atração imigratória que
existe no mundo, depois dos Estados Unidos. Nos demais países hispano-americanos
quase sempre o aluvião sobrevivente teve que se refundir com a população
indígena, muito numerosa, que ocupava o solo, e, algumas vezes,
como no México e no Peru, havia alcançado um grau notável
de civilização. Esta superioridade inicial foi um primeiro
obstáculo para a transformação profunda, e aparece
atéagora como um fator contrário ao progresso moderno. Fora
algumas províncias de que logo falarei, a nação argentina
encontrou tábula rasa ou varreu para o deserto as tribos nômades
que percorriam as planícies. Salvo nas primeiras gerações,
pela aliança com as índias convertidas, o povo argentino
quase não assimilou o indígena.
Este
logo se tornou inimigo do cristão, refugiando-se na solidão
das montanhas e do pampa. O gaúcho, flexível e esbelto, com
seu tipo semi-árabe, não tem nas veias senão uma parte
diminuta de sangue indígena, diluída depois de cada geração
em uma mistura mais rica de sangue europeu. O primeiro cruzamento com um
imigrante completa a depuração. Os cabelos castanhos ou louros
abundam já no antigo campo pampeano; por seu aspeto e tendências,
o argentino rural se confunde com o filho do italiano ou espanhol; e dentro
de alguns anos, o gaúcho da planície não será
senão uma legenda e uma recordação.
Acerca
deste, abundam estudos e bosquejos, como se o encontrava, por assim dizer,
às portas da cidade. Os jornais ilustrados, e até os dramas
populares, espalharam pelo mundo sua silhueta pitoresca e seu traje desalinhado,
metade beduíno, metade inca; o chapéu mole enterrado na longa
cabeleira escura; o lenço de seda, cuja ponta cobre a boca do poncho,
o qual é uma simplificação do albornoz beduíno;
o chiripá (cujo nome creio ser o mesmo que o zarapé mexicano)
flutuando como calça de suábio, preso na cintura pelo amplo
tirador do couro adornado com moedas de prata, e cruzado pela adaga para
o trabalho e para as peleias; por fim, as largas calças bordadas
que caem sobre as botas de couro de potro: vede aí o gaúcho
de Buenos Aires.
Por
seu aspeto e vezos orientais, se explica a tendência persistente
de alguns escritores modernos em pedir ao vocabulário árabe
a etimologia deste nome estranho, que não parece ser castelhano
nem derivado do francês, apesar de sua analogia. Mas este procedimento
antiquado é inadmissível: este século não criou
a filologia comparada para continuar empregando as velhas tentativas etimológicas
anteriores à lei de Grimm. Tratando-se de uma única palavra
isolada, de uma concreção estrangeira e de origem desconhecida,
que aparece no tecido da língua, não se podem aplicar com
eficácia as leis filológicas; mas é então o
método histórico que deve nos guiar. Nunca se apresentou
o caso, nem poderia se apresentar, de um vocábulo arábico
aparecendo bruscamente na América sem haver antes permanecido e
se aclimatado em solo espanhol. Muito bem, a palavra gaúcho nunca
foi escrita nem conhecida na Espanha senão por translado americano.
Não
se deveria, pois, buscar em outra parte, senão aqui mesmo, sua etimologia,
se o resultado valesse o trabalho da investigação. Pelo o
que a mim toca, acabei acreditando que o inocente lapso de Walter Scott
talvez encerre a verdadeira solução, e que o autor de Ivanhoe,
como o galo da fábula, tenha dado com a pérola buscando somente
o grão de milho. A palavra "guacho" pertence à língua
incaica e ocorre ainda em nossos dialetos: significa órfão,
abandonado, errante, com um sentido algo depreciativo: se o aplica sobretudo
aos animais criados longe da mãe. A inversão silábica,
que os gramáticos chamam metátase, é muito freqüente
nos povos de fala castelhana; daí, guacho transformado em gaúcho,
pelo mais lógicos dos procedimentos, que consiste na precedência
e acentuação da vogal mais forte. Peço-vos perdão
por estas nimiedades que exalam à explicação escolar.
Em
todo caso, senta-lhe o epíteto. É sem dúvida um "errante",
um filho pródigo do grupo social, um outlaw, como o Robin Hood das
velhas lendas saxãs, esse gaúcho tradicional e nômade
cuja grande aventura começa no seu nascimento e não termina
senão em sua morte. Brotado em algum rancho do pampa argentino,
desprendido muito cedo do tronco nutrício e criado sobre o cavalo,
vem apreendendo desde a infância a luta e o sofrimento: suas primeiras
e indeléveis impressões se resumem em um sentimento de abandono
ao lado de uma self-reliance. Faz-se homem frente a uma natureza
impassível, com esta noção sempre presente, se bem
que nunca formulada: que não deve e que não pode contar senão
consigo mesmo. O pampa imenso, sem árvores, sem caminhos trilhados,
para ele mais estéril que o oceano do velho Homero, se estende ante
seus olhos, misterioso, infinito: é aí onde deve viver, lutar,
amar, morrer. O deserto o rodeia como ao pescador insular o mar sem limites.
Para vencer a distância e procurar seu alimento tem seu laço
e seu cavalo; para se dirigir para qualquer ponto desse horizonte invariavelmente
circular, tem o matiz das pastagens, alguma capoeira ou tufo de arbustos
que vislumbrou uma vez e que não esquecerá jamais. De noite,
a cinqüenta léguas de seu pago, depois de dez anos de ausência,
saberá encontrar seu caminho pelo perfume e o gosto dos pastos palmilhados:
dizem que assim costumava fazer o tirano Rosas. Ponto perdido nesse vazio
que para ele é todo o universo, a semelhança do moicano,
tem seus sentidos aguçados como outras tantas armas necessárias:
adquiriu o ouvido e o olfato de uma fera, a vista aguda de um falcão;
e possui, por outra parte, a insensibilidade exterior, a resistência
ao frio e à fome, a faculdade de suportar a dor e curar suas feridas,
próprias dos organismos inferiores.
Em
um rumor de tempestade, discerne se os rebanhos fogem espavoridos do âmago
da tormenta ou diante de um ataque dos índios. Num tropel invisível,
consegue contar os cavalos; distingue se vêm montados e se os ginetes
são soldados, selvagens ou companheiros de correrias. Um grito de
pássaro, a fuga de um avestruz, as orelhas imóveis de um
cavalo, são tantos outros indícios preciosos. Na areia fofa
ou nas pegadas do capim, seu olhar fixo de vidente segue o rastro recente
até dar com o cavalo perdido; a pegada familiar não lhe escapa
no confuso pisoteio de uma tropa numerosa. Reconhece a meia légua,
o potro disparado com as crinas ao vento, marcado no ano anterior, entre
centenas de outros. Individualiza cada animal da manada, igual ao que fazemos
com as pessoas; e conhece o forte e o débil, as qualidades e os
defeitos "morais" do cavalo que escolheu, como conhecemos a psicologia
de um amigo.
Sua
existência é incerta e dura, mas não propriamente triste,
graças a sua fácil resignação, a seu inato
e estóico fatalismo. Desde a infância tem seus músculos
endurecidos e disciplinado o seu estômago. Criou-se ao redor de seu
rancho, entre as aspas dos touros, ágil e forte, ginete como um
centauro; tendo por primeiros jogos infantis o manejo do laço e
as boleadeiras e a esgrima da faca, que serão muito cedo seus únicos
meios de existência ou defesa.
Agrega-se mais tarde em alguma estância,
quase nunca por muito tempo; pois prefere vagar aqui e ali, em busca de
festas, farras e carreiras, impelido pelo desejo incurável da aventura
e da nostalgia do deserto. Indolente e pródigo, o dinheiro ganho
escorre entre seus dedos.
Galopa
até a próxima bodega, a qual é um rancho algo mais
espaçoso que os demais e representa a loja, a taberna e o bazar
do pampa: se a conhece à distância pela bandeira hasteada
em seu telhado de palha, e sobretudo pela fileira de cavalos maneados ou
atados no palanque. Ali é onde se bebe cachaça e genebra,
onde se joga o monte e a taba, onde se dança o gato e o cielito
ao som da guitarra. Ali também o trovador agreste ou "payador" improvisa
suas lentas melopéias, no metro cantante dos antigos romances castelhanos.
Faz-se a roda em seu redor; homens e mulheres, acocorados, com o cigarro
nos lábios, escutam atentamente as toadas e estrofes em modo menor,
heróicas e sentimentais, quase sempre tristes, em que se fala de
guerras distantes, de expedições ao deserto, de misérias
e amores interrompidos pelo olvido ou traição. E as chinas
jovens com suas tranças flutuando às costas, elevam seus
olhos de azeviche, de grandes pestanas e pesadas pálpebras, para
o cantor que escolheram: pois não há deserto árido
que não tenha a sua florescência na primavera; e, aos vinte
anos, a mesma paixão, a mesma força do sangue ardente faz
bater o coração, agitando com o mesmo sonho de felicidade
impossível, tanto o aldeão como o patrício. E muitas
vezes também, incitados pelo amor ou pelo orgulho, dois "payadores"
rivais se desafiam e iniciam um torneio de poesia: com a guitarra apoiada
no joelho, se põem a improvisar alternativamente rodeados pelo silêncio
geral. O certame começa bem, no estilo "amebeo" dos pastores de
Virgílio; mas costuma terminar mais tragicamente. A alusão
irônica e o sarcasmo agressivo logo se introduzem na cantilena. Aquele
que se vê perdido no jogo de consoantes procura sua desforra em jogo
menos inocente. Por entre as formas dialetais e as metáforas tiradas
da vida rústica, que me seria impossível traduzi-las literalmente,
o eterno alardear do guapo abre lugar, o mesmo que entre os heróis
de Homero:
Alguien que la echa de guapoE o adversário replica, no mesmo estilo, com a seguinte ou parecida flor:
Y en lo fiero se echa atrás,
Es poncho de poco trapo,
Purito fleco no más.
Naides com la vaina solaCompreende-se como, uma vez tomado este rumo, não se prolongue muito a justa poética: os punhais saltam sozinhos das bainhas, como os "chassepots" de Mac-Mahon, e, em dois tempos cai por terra um dos trovadores. Entre a gritaria das mulheres e o silêncio dos homens que recolhem o ferido, o outro desatrela seu cavalo sem que ninguém pense em perturbá-lo, monta num pulo em sua sela e se afasta passo a passo. Terá agora que se internar no pampa familiar, escapar da patrulha, a qual por outra parte, não o perseguirá por muito tempo: vagará de pago em pago, contando sua desgraça com mais satisfação que arrependimento, ficando onde tenha boa acolhida, pois não feriu à traição nem peleou contra inimigo sem armas. E o peão submisso de ontem, muitas vezes transformado em "gaúcho malvado" pela fatalidade, emigra para as províncias vizinhas se não prefere buscar refúgio entre os índios.
Al buen gaucho ha de correr,
Lacito de tanta armada
No ha de voltear la res...
Su labio no se pintóEis aqui todavia, em tom algo diferente, o bonito início de um madrigal que é toda uma litania amorosa, que finaliza com este suspiro de reprochee desalento: "Mas, tudo isso, porque me o disseste: Ima pachta niaranki...? "
Con clavel, coral ni grana,
Sino com sangre que mana
Del corazón que partió...
Cómo es, paloma mia,Vede aí o acento e o ritmo habituais. Mas algumas vezes o tom se eleva; uma imagem original e bela, uma profunda reflexão filosófica brota do palpitante coração humano, em todas partes idêntico. Escutei em um concerto campestre conceitos dignos da mais alta poesia; já vi florescer nesses lábios rústicos imagens que, expressas em um estilo perfeito, podem enriquecer qualquer antologia. Sem saber como, acontece que um "payador" volte a encontrar o verso lapidar de tal ou qual grande poeta cujo nome jamais conheceu. Já escutei, por exemplo, à guitarra, uma reminiscência da famosa décima do grande trágico Calderon, que alguns apelidam do Shakespeare espanhol, embora suas características formem exata oposição com o gênio shakesperiano: Cuentan de un sabio que un dia... Por fim, até o clássico Feriunt summos fulgura montes, de Horacio, apresentou-se um dia ao trovador do deserto sob esta antítrse agreste e local ( tranqüilizem-se, esta será minha última citação):
Paloma blanca,
Que, para un pecho solo,
Tienes dos alas?
Es que el amor cobijoQue me entregaras,
Y dos alas [preciso
Para dos almas
Por ser más chico el pobre,Senhoras e cavalheiros: termino esta conferência, que sem dúvida a acháveis interminável, e na qual, não obstante, não fiz senão bosquejar meu tema, plantando aqui e acolá alguns marcos para assinalar o caminho que se seguiria num estudo mais aprofundado. Por incompleta e apressada que tenha sido esta conversa familiar, vejo que haveis percebido a riqueza e o interesse da matéria, entre as deficiências da exposição. Temo que seja esta a dissertação mais longa que até agoira haveis sofrido, e seguramente houvera esgotado a paciência de um auditório menos benévolo. Para desculpar esta verdadeira indiscrição, não podia, por certo, contar com a sedução da forma nem com a atração de meu sotaque estrangeiro.
Es más seguro,
Hiere el rayo al quebracho
Y nunca al suncho...
O
texto em inglês desta conferência circulou em folheto com este
título: Popular customs and belief of the Argentine Provinces,
by P.G., Chicago, Donohueand Co., 1893. A presente versão castelhana
publicou-se em La Nation, de Buenos Aires, precedida de uma breve
introdução cujos parágrafos mais substanciais são
os seguintes, que por acaso não perderam ainda toda sua oportunidade:
Creio
que é necessário e urgente, antes que a rápida evolução
do país acabe por apagar nossas características originais,
reunir em coleção todos os elementos genuinamente argentinos
da antiga vida campestre, que logo se tornará legendária:
costumes, estilo de vida, poesia, música, alguns de um sabor incomparável.
Tal obra realizou-se, total ou fragmentariamente em quase todas as nações
européias e americanas, e até no Brasil. Para nós
a empresa seria relativamente fácil, se fora coletiva. Uma comissão
central em Buenos Aires - que poderia constituir-se na Biblioteca -, distribuindo
comissões locais em todas as províncias e territórios,
realizaria completamente esta obra patriótica. Em princípio,
não se trataria de selecionar; haveria que pedir e agradecer a colaboração
de todos os homens de boa vontade que têm ou tiveram contato com
a vida campestre (e quem de nós não a teve?).
Os
dados remetidos a cada seção provincial poderiam ali mesmo
ser submetidos a um primeiro exame, para eliminar as inumeráveis
repetições.
Grão
a grão, sem esforço e creio que com prazer de cada cooperador,
se juntaria o trigo no paiol, até formar um verdadeiro tesouro de
poesia nacional. Um programa ou questionário de quatro linhas bastaria
para dirigir a recoleção, que haveria de compreender todos
os cantos com sua transcrição musical, poesias, bailes, "tristes",
yaravís, etc, além de contos, crenças, ditos metafóricos
e refrães da terra. A tarefa parece enorme; mas, repito, seria facilmente
realizável por esse meio cooperativo, a moda das catedrais medievais
onde cada crente trazia sua pedra anônima. Reunidos os materiais
em poder da comissão central, chegaria a hora de classificá-los,
resumi-los, conservar os verdadeiramente crioulos e significativos, e publicá-los
em um volume precedido de uma boa resenha explicativa. Creio que nosso
Folklore estaria entre os mais interessantes de seu gênero, e representaria
um precioso retrato da alma popular argentina.
O
pensamento não é frívolo, nem deve deixar indiferente
a nenhum argentino. Desejo verdadeiramente que a imprensa de Buenos Aires
e da República preste seu indispensável apoio, embora me
ocorra o mesmo que com a Biblioteca científica internacional. Aconteceu,
anos atrás, que Sarmiento se dignou felicitar-me publicamente por
haver iniciado com o publicitário Alglave gestões tendentes
a incluir a língua espanhola em dita coleção. Desde
então, não há aniversário do ilustre escritor
sem a menção devida à sua "grande idéia" relativa
à dita biblioteca. Pois bem, eu aceitaria muito satisfeito e orgulhoso
que a presente indicação fosse chamada também uma
"idéia de Sarmiento", como que em verdade ele a tem mais que formulada
em seu inimitável Facundo.
GROUSSAC,
François-Paul, O gaúcho. In: El viaje intelectual. Buenos
Aires: Editorial América Unida, 1928.
Tradução: Franklin Cunha (médico e escritor)
Paul
Groussac
François-François-Paul
Groussac nasceu em Tolouse em 15 de fevereiro de 1848. Desejando fazer
uma viagem ao redor do mundo, tomou o primeiro navio que partia de Bordeuax,
sem saber seu destino. Veio, assim, aportar em Buenos Aires, em fevereiro
de 1866. Completara dezoito anos, não falava espanhol e não
tinha profissão.
Eram
os dias da guerra do Paraguai e Groussac encontrou, segundo suas próprias
palavras, " um ambiente de maneiras demasiado rudes e paixões demasiado
fortes". Embora jovem, teve uma formação clássica
na França, o que lhe possibilitou a nomeação para
professor de matemática no Colégio Nacional, em 1870. Antes,
porém, tivera rápida passagem pelo interior do país
onde se impregnou da poesia dos pampas e conheceu, com sua perspicácia,
o cerne da alma argentina.
Não
demorou a fazer amizades com figuras da incipiente intelectualidade portenha,
principalmente com os colaboradores e diretores da Revista Argentina a
cujas tertúlias Groussac assistia. A partir desse núcleo
cultural, o nome do intelectual francês logo chegou aos ouvidos de
Nicolás Avellaneda, Ministro da Instrução Pública
do presidente Sarmiento que o nomeou, no ano de 1871, professor em Tucumán.
" País feliz e anos felizes aqueles - escreveu Groussac - em que
um ministro da nação e candidato à presidência
se desviava das patranhas políticas para atender a um pobre rapaz
estrangeiro" Este país que Groussac conheceu palmo a palmo, antes
que as ferrovias e a imigração o tivessem transformado, era
o mesmo das lutas pela Independência e da anarquia. Devido ao isolamento
das províncias, tanto os aspectos das cidades como os costumes e
os caracteres étnicos, poucas mudanças haviam ocorrido desde
os primeiros desbravamentos.
Tucumán...
"Natureza exuberante, em formas, matizes e fragrâncias; existência
patriarcal, cheia de rasgos originais e saborosos, em que o tempo não
valia nada e, como se dizia: a vida dava para tudo". Ali viveu onze anos,
onde ensinou, estudou, escreveu, participou das contendas mais apaixonastes
e fundou um lar. Depois de alguns anos de trabalho no Colégio Nacional
de Tucumán, foi a seguir nomeado diretor de ensino da província
e logo inspetor nacional de educação, cargo que exerceu de
1874 a 1878.
Entretanto,
suas atividade não se limitaram às tarefas docentes nos anos
de Tucumán. Sua vinculação com Avellaneda e com a
sociedade local determinaram sua definição política.
Foi jornalista combativo e influente pois naqueles dias um escritor era
uma força. Estas campanhas jornalísticas de Groussac, têm
importância porque nelas ele fez seu aprendizado definitivo de escritor
do idioma espanhol. Mergulhado no estudo dos clássicos, foi adquirindo
cada dia maior destreza no manejo do vernáculo e, ao deixar Tucumán
dois lustros mais tarde, estava apetrechado para alcançar o posto
que hoje ocupa na literatura castelhana.
Além
de comentários do cotidiano, publicou inumeráveis artigos
literários, impressões da natureza e da arte, silhuetas de
grandes escritores, versos, crônicas musicais, etc.
Mantinha
contato com seus amigos de Buenos Aires por meio de artigos que enviava
para A Tribuna. Entre eles lembramos uma análise da Excursão
aos Índios Ranqueles do general Mansilla e uma carta aberta ao presidente
Avellaneda, a quem refutava suas opiniões sobre a necessidade da
dor como elemento indispensável à existência dos grandes
poetas.
"País
feliz e anos felizes aqueles", onde um presidente da República verseja.
Em
1882 publicou seu Ensaio histórico sobre Tucumán, escrito
por encargo do governo provincial para figurar na "Memória" apresentada
na Exposição Continental. Situou os acontecimentos tucumanos
dentro do quadro da história argentina, de cujo desenvolvimento
geral o livro contém descrições de positivo interesse.
A vida dos indígenas anterior à chegada dos espanhóis,
a conquista, a legislação colonial, a realidade de sua aplicação,
o caudilhismo até os dias dos governos estáveis, aparecem
estudados com abundância de informação.
Groussac
viveu na Europa durante o ano de 1883. Tinha quase tantos anos de vida
argentina como de francesa. Era um desconhecido em sua pátria, porém,
logo se tornou notado a partir da publicação no Le Figaro
de um ensaio sobre L'Evangeliste de Alphonse Daudet. O artigo apareceu
em primeiro plano, com um cabeçalho elogioso. Assim ficou vinculado
ao grande novelista, em cuja casa conheceu a Zola, a Edmond de Goncourt
e a muitos outros contemporâneos célebres. Freqüentou
o salão de Victor Hugo, que era como o Olimpo naqueles anos de espetacular
ocaso.
Quando
embarcou para Buenos Aires, trazia a intenção de um pronto
regresso. Mas estava escrito que continuaria vivendo entre os argentinos.
Logo foi nomeado pelo ministro Wilde, inspetor do ensino secundário.
A
capital do país fervilhava em disputas. Iniciava-se a campanha que
culminou com a sanção das leis de ensino laico e do casamento
civil. Jovens impacientes dispunham-se a conquistar os galardões
da vida pública, em brava luta contra "o obscurantismo". Carlos
Pellegrini, de volta da Europa, era recebido triunfalmente pelos homens
de sua geração. Groussac assistiu o banquete de sua recepção
e ficou "imantado" como ele disse, pelo jovem estadista, com quem manteria
amizade sem sombras até sua morte.
De
1883 a 1885, esteve ligado à revista Sud-America cujos editores
políticos eram Carlos Pellegrini e Roque Sáenz Peña
e a editoria literária estava confiada a Groussac e Lucio V. Lopez.
O objetivo da publicação era dar sustento às reformas
liberais de ministro Wilde.
Além
dos aguerridos debates políticos, Sud-América tratava de
realizar o tipo de cotidiano literário que nessa mesma época
triunfava em Paris com Le Figaro. Junto ao comentário de fundo figuravam
a nota ligeira, a crônica, o epigrama em prosa e verso. Todas as
manifestações da vida portenha tinham ali seu eco jovial:
a política, o mundo, o teatro, as letras e até uma atividade
de pouca relevância: "Buenos Aires gastronômico". Groussac
atuava em quase todas as seções mas principalmente na crítica
literária e nos artigos polêmicos, ácidos, eficazes,
inconfundíveis. Abandonou a revista quando em 19 de janeiro de 1885
foi designado diretor da Biblioteca Nacional. Durante mais de quarenta
anos, quase totalmente subtraído da atividade externa, viveu elaborando
sua vasta obra nesse retiro de estudo e reflexão.
As
páginas de Groussac que alcançaram maior ressonância,
são as que se destacam pela acre agudeza de seus juízos.
Difundiu um higiênico terror entre os improvisadores e os verborrágicos.
Com as notas ao pé das páginas de seus livros, com suas retificações
detalhadas que nos revelam as assombrosas lacunas na cultura de certos
autores, poderia compor-se um livro de inesperada comicidade. Groussac
era um leitor temível. Citações relevantes e afirmações
peremptórias de certos autores, que poderiam intimidar ao leitor
comum, submetidas à sua fiscalização resultam em pródigas
fontes de críticas ironias. Até cunhou um neologismo para
as literatices destes "trocatintas": são os "cacógrafos",
produto genuíno do meio intelectual hispano-crioulo.
Colocou
igual tenacidade no fustigamento de outro vício sul-americano de
herança peninsular: o que chamou "a cultura do floripôndio".
Ampolosidade enfática, períodos multicoloridos e fulgurantes,
"metaforões" disformes, adjetivação parasitária,
são outros tantos sintomas de uma
enfermidade do bom gosto, favorecida pela índole do idioma, "que
nos expõe continuamante à vertigem da oratória". Nascem
daí a vacuidade boquirrota, o fetichismo verbal, a debilidade do
pensamento que não necessita concentrar-se para obter os fulgores
do latão.
Groussac
combateu essa peste com uma terapêutica vingativa. Pregou, incansavelmente,
e não sem resultados, a sobriedade, a linha reta e breve, a adequação
estrita da palavra à idéia, o ódio à obscuridade,
a paixão à nobre e difícil simplicidade. Afirmou repetidamente
que "a ironia é útil com a condição de não
vir sozinha mas como um condimento de algo mais substancial".
Com
essa inspiração empreendeu suas impiedosas campanhas contra
males nos quais acreditava perceber a causa da "esterilidade geral do intelecto
hispano-americano".
Segundo
Jorge Luis Borges, Groussac não era um sonhador de invenções,
mas um homem muito inteligente, muito culto, menos propenso à fé
do que à incredulidade e à ironia.
Lugones
costumava defini-lo como um mero professor de francês. Consta que
diante desta observação respondeu: " O que posso fazer num
país em que Lugones é um helenista?" Outra vez, falando de
um escritor famoso, disse: "Ser famoso na América do Sul não
é deixar de ser um desconhecido".
Completamento
alheio à devoção nacionalista, Groussac disse, a respeito
de certa história História da Literatura Argentina, que era
a história do que organicamente nunca existiu.
Ainda
conforme o mesmo J.L. Borges, todos os livros de Groussac são de
leitura hedônica, porém sua obra capital não é
nenhum deles, nem sequer seu conjunto, mas a diversificada e delicada lição
de seu estilo.
Já
em idade avançada, antes da febre freudiana, estudou o labirinto
dos sonhos e deles não tirou uma conclusão porém deixou-nos
uma iluminada pergunta:
"Não
vos parece prodigioso que a cada manhã, com a boa e santificada
luz do sol, emerja também a inteligência intacta de suas trevas
e fantasmas noturnos?"
François-Paul
Groussac deve, em grande medida, a lembrança de sua obra a Jorge
Luis Borges. O destino fez com que este se encontrasse no mesmo lugar físico
em que Groussac trabalhou durante quarenta anos: a Biblioteca Nacional.
Talvez por suportar a mesma luz ou padecer as mesmas sombras, ambos acabaram
cegos. Mal que, coincidentemente, foi inaugurado pelo poeta José
Mármol quando também ocupava o mesmo cargo.
Enfim,
como disse Borges, Groussac é, sem se haver proposto, uma parte
preciosa e necessária das letras argentinas. E acrescentou: "toda
a leitura tem obrigação fundamental de ser um prazer. Ao
relembrar a obra do escritor franco-argentino, queremos convidar ao leitor
a essa felicidade".
Obras de François-Paul Groussac:
*Estudos da história argentina - Buenos Aires (BA)
*Crítica literária - BA
*Discursos - BA
*Ensaio histórico sobre Tucumán - BA
*Fruto vedado (romance) - BA
*Do Prata ao Niágara (viagens) - BA
*Santiago Liniers - BarcelonaEm francês:
*Une Énigme littéraire - Paris
*Le Cahier des sonnets - BA
*Prosper Mérimée - BA
* Études hispaniques - New York
* Les Iles Malouines . Toponymie argentine - BA
* Nouvelles et fantaisies - BA
* L'Action Française en Argentine - BA
www.ufrgs.br/cdrom/groussac/