Capítulos
da História Colonial
Adquirida
a terra para uma fazenda, o trabalho primeiro era acostumar o gado ao novo
pasto, o que exigia algum tempo e bastante gente; depois ficava tudo entregue
ao vaqueiro. A este cabia amansar e ferrar os bezerros, curá-los
das bicheiras, queimar os campos alternadamente na estação
apropriada, extinguir onças, cobras e morcegos.
"A nova colônia do Sacramento por mercê de Deus se conserva",
escrevia alguém pouco depois de 1690, "por meterem nela um presídio
fechado sem mulherio que é o que conserva os homens, porque se não
tem visto em parte alguma do mundo fazerem-se novas povoações
sem casais". Este ninho, antes de contrabandistas que de soldados, foi
talvez o berço de uma prole sinistra, os gaúchos os gaudérios,
originários da margem esquerda do Prata, famosos durante largas
décadas e ainda não assimilados de todo à civilização.
A quantidade de meios de sola exportados do Rio no começo do século
XVIII não se explica pela simples produção indígena
nem por contrabando de Buenos Aires: implica o processo sumário
dos gaúchos na matança das reses, resultante da abundância
e depreciação do gado vacum, do pululamento da cavalhada
e do espaço indefinido e livre para as correrias.
Nos campos gerais do
Paraná viviam bastantes criadores, mas a verdadeira zona pastoril
do Sul ostentava-se nas terras rio-grandenses.
Exceto as faldas da
serra geral ainda desertas, capões salteados e alguns trechos ribeirinhos,
o território era ocupado por pastagens suculentas, tão propícias
à propagação de bois como de cavalos, que dispensavam
rações de sal. Abundava a água perene; nunca passavam
anos sem chuva; não havia as enredadas catingas de outras regiões
menos favorecidas. A proporção entre o gado cavalar e vacum
era muito maior do que ao Norte: basta dizer que havia lotes de baguais,
cavalos bravios e sem dono; os donos só conheciam os cavalos pela
marca, e matavam éguas para extrair o couro. Para viagens mais longas
não chegava uma cavalgadura; era preciso levar uma cavalhada.
Como difere isto dos
sertões nortistas, com poucos cavalos, todos bem conhecidos e estudados,
e o cavalo da sela, ensinado no passo, na estrada, na baralha, no esquipado,
e várias outras marchas de que há mestres habilidosos, promovido
quase a parente da família!
Quando começou
o povoamento já pululava esta criação, procedente
das destruídas missões jesuíticas; apossava-se cada
um do que lhe convinha, e o uso da bola e do laço, conhecido dos
Charruas, dispensava as corridas violentas pelo mato do sertão baiano-pernambucano.
O valor do gado era até certo ponto negativo; sobejava para a população
e não havia para onde exportá-lo; consumi-lo sem parcimônia
parecia ato de prudência, pois mais facilmente se amansava e os pastos
não se esgotariam; os trabalhos de rodeio, únicos reclamados
quando a situação se regularizou, eram antes um divertimento
que uma canseira.
"Toda a guerra era
contra as vitelas", informa Aires de Casal, "e de ordinário uma
não chegava para o jantar de dois camaradas, porque acontecendo
quererem ambos a língua, tinham por mais acertado matar segunda
do que repartir a da primeira. Havia homem que matava uma rês pela
manhã para lhe comer o rim assado; e para não ter o incômodo
de carregar uma posta de carne para jantar, onde quer que pousava fazia
o mesmo àquela que melhor lhe enchia o olho. Não havia banquete
em que não aparecesse um prato de vitelinha recém-nascida".
Aos poucos, a gente se desacostumou do
sal, da farinha (comer do arremesso no Pará) e de qualquer conduto.
A escassez de lenha obrigava a comer a carne quase crua, apenas sapecada
no lume produzido por dejeções animais ou gravetos, e comida
quase sempre sem mastigar. Ao mate, beberagem primeiro descoberta nos sertões
de Guairá e depois propagada pelos jesuítas, atribui-se a
atenuação dos males que deviam resultar desta dieta.
A superfície
ligeiramente ondulada, o descampado quase onipresente, a facilidade de
alimentação, a abundância de cavalgaduras convidavam
à locomoção. Viajava-se principalmente no verão,
quando raras vezes chovia, os rios levavam pouca água e aumentava
o número de vaus; a importância destes em capitania onde não
havia pontes manifesta-se nos passos sem conta que a cada instante se encontram
designando localidades. Serviam-se às vezes de pelotas, canoas frágeis
feitas de pele. De passagem fique notado que também aqui houve uma
época do couro.
Dormia-se ao relento:
os aperos do animal serviam de leito. Estendiam por terra grande peça
chamada carona, o lombilho substituía o travesseiro, sobre a carona
punham o pelego e por cima de tudo deitavam-se embrulhados no poncho e
de cabeça descoberta.
Avigorou-se a tendência
ao nomadismo com a circunstância de passar por ali a fronteira, uma
fronteira disputadíssima, que qualquer dos confinantes ambicionava
estender, e de entre ambos meterem-se os campos neutrais, em que nenhum
tinha direito de penetrar, por isso mesmo violados a cada instante, máxime
da parte do Rio Grande. Os combates regulares não subiram a muitos,
mas as surpresas, as arreatas, os encontros singulares, as incursões
de contrabandistas constituíam fato quotidiano. Forçosamente
os rio-grandenses tornaram-se aventureiros e soldados; só por militares
tinham atenção; a Saint-Hilaire deram o título de
coronel. A quem não montava bem ou não sabia laçar
de cavalo xingavam de baiano ou maturango.
Este desbarato semibárbaro
modificou-se graças ao aumento da população em parte,
em parte graças às secas do Norte. O Ceará não
pôde mais fornecer a carne a que acostumara parte da gente do litoral
e experimentou-se o charque do Rio Grande; diz-se que cearenses concorreram
para a fundação de S. Francisco de Paula, mais tarde Pelotas.
Abriu-se assim uma fonte de riqueza, o gado cresceu de valor e as estâncias,
também aqui estabelecidas geralmente nas eminências, começaram
a ter alguma organização. Com as charqueadas foram introduzidos
os negros, que chegaram a muitas dezenas de mil. Algumas estâncias
rendiam milhares de cruzados, esbanjados no jogo e nas apostas.
Na Bahia, por 1803,
cerca de quarenta navios, de duzentas e cinqüenta toneladas cada um,
empregavam-se no comércio do charque do Rio Grande, que mal completavam
a viagem dentro de dois anos. Levavam da Bahia aguardente, açúcar,
louça, mercadorias européias, principalmente inglesas e alemãs,
que passavam por prata de contrabando em Maldonado e Montevidéu.
Durante este tempo as tripulações empregavam-se em carregar
couro e carne seca. Os navios chegando à Bahia vendiam o charque
e retalho, a dois vinténs a libra. Dispondo da carga por este modo
em vez de desembarcá-la, detinham-se no porto cinco meses e até
mais, de modo que, observa Lindley, no tempo consumido por uma só
viagem podiam ser feitas três.
A agricultura nunca
ficou de todo descurada. A produção do trigo atingiu a milhares
de alqueires; cultivaram outros cereais, a própria mandioca. Aos
inconvenientes da proximidade do gado solto obviava-se abrindo valados,
fazendo sebes vivas de sabugueiro e cactos, levantando cercas de cabeças
com chifres. Entretanto, a faixa agrícola ocupava uma área
insignificante, que só se dilatou depois da chegada de imigrantes
alemães. A decadência na lavoura do trigo, atribuída
a certas medidas anti-econômicas tomados pelo governo central e à
deterioração das sementes em conseqüência da ferrugem,
deve ter causas mais profundas, pois não foi ainda possível
reerguê-la.
Saint-Hilaire, que
percorreu a região, pinta-nos o rio-grandense da campanha como vivo,
corado, em geral de cor branca, de estatura avantajada, sem curiosidade
intelectual, de maneiras agrestes, incrivelmente voraz e pouco sensível,
senão cruel... Falando de alvoroço todas as vezes que se
carneava alguma rês, repara: "A idéia de em pouco poder se
fartar de carne é um dos motivos do prazer, mas não é
o único; o maior é matar e vaca e espedaçá-la,
independente de toda a esperança de poder satisfazer logo a sua
gula. Entretanto, cumpre confessá-lo, esta paixão é
uma das que dominam os habitantes da capitania do Rio Grande.
Ao mesmo autor deve-se
uma observação que explica uma porção de fatos
decorridos desde a regência. Os mineiros, afirma, não se apegam
ao seu país. Com efeito, nem um hábito particular ali os
retém, e não lhes custa acharem outro melhor. Acresce que
a inteligência, que lhes é natural, garante-lhes por toda
a parte meios fáceis de subsistirem. Os habitantes desta capitania,
ao contrário, nunca saem de sua terra, porque sabem que alhures
seriam obrigados a renunciar a andarem sempre a cavalo e em parte alguma
achariam carne em tamanha abundância.
Na formação
do rio-grandense entraram sobretudo açorianos, nortistas, principalmente
de S. Paulo, e não poucos espanhóis imigrados ou incorporados.
Sobretudo na fronteira meridional deu-se a penetração das
duas línguas. Havia poucos mulatos. Notava-se a certos respeitos
um quê de mocidade fogosa ausente das outras capitanias. O combate
contra seres animados difere muito nos efeitos da luta travada contra as
massas da vegetação ou contra as inclementes forças
cósmicas, como ao Norte.
Fonte: Capítulos da História Colonial, Capistrano de Abreu.