Alceu Wamosy (1895 - 1923). Morto no Combate do Ponche Verde.
Integrante da última geração simbolista, recebeu influência
de Cruz e Sousa. Obras: Na terra virgem (1914), Poesias (1924).
Amor Obscuro
Nem uma flor, uma saudade, um verso apenas ficou,
para lembrar a passagem daquela de grandes olhos
leais e tristes mãos serenas, a quem o amor fêz
santa e o sofrimento bela.E no entanto ela andou, derramando, às mão plenas,
naquele gesto bom, que era somente dela, sobre o
meu peito, lírios, açucenas, dando ao meu coração
frescuras de capela.E nada que a recorde! E nada que a recorde!
Nem uma letra só nas urnas da memória...
Na harpa que ando a tanger, nem um simples acorde...
E entre os amores - pobre amor! - que tenho tido,
esse amor fica assim, longe , humilde, esquecido,
como um sepulcro abandonado... sem história...
Duas Almas
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entre, e sob êste teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca fôste amada...A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...
O Grande Sonho
...e eu sonho que hás de vir.
Sonho que um dia mais ardente
e mais bela do que eras,
virás encher de graça e de harmonia
meu jardim de tristíssimas quimeras.Sonho que hás de trazer toda a alegria,
todo o encanto das tuas primaveras,
ou que em um reino antigo de poesia,
o meu amor,
entre rosais, esperas.E nesse sonho de ouro mergulhado,
o teu vulto alvoral surgindo
vejo como um lírio das brumas do passado.E fico na ilusão de que tu vieste
o bálsamo estendendo do teu
beijo, sobre as próprias feridas que fizeste...