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Manuel do Nascimento Vargas Netto

     Carreteiro
       Jornal A Semana, 11 de agosto de 1955
     Palmilhador infatigável através os rincões do pampa, representa o carreteiro, rebelde da civilização, uma legenda maravilhosa, tão cara aos corações daqueles que cultuam as tradições gauchescas.
     Raras vezes, ainda, temos oportunidade de encontrar pelos caminhos do nosso Estado - agora rasgados pelo progresso, em rodovias trepidantes - a figura singular de um carreteiro, aguilhada à mão, desempenado, varonil e cismarento, impassívele sereno, levando consigo a tradição que não morre, num desafio a êsse progresso deshumano que inexoravelmente vai mudando a fisionomia de sua terra, - qual Quixote audaz, com a alma povoada de sonhos, de legenda, de amor e de bravura.
     O soneto que abaixo reproduzimos, da lavra de VARGAS NETTO, representa a homenagem merecida e justa désta coluna a êsse humilde e quáse esquecido heroi de uma época que já se vai perdendo nas brumas do tempo...

Carreteiro

Carreteiro é a paciencia caminhante!
Jamais na vida soube o que era pressa!
Ao passito desceu pelo lançante...
Ao passito a subida êle começa...

Sempre ao passito, vai seguuindo adiante...
A  vida toda leva a viajem essa!
Sob o sól quente ou sob o frio cortante,
Segue assim, sempre assim, nunca se apressa.

Leva n'alma gemidos de carreta...
E é impassivel, por mau ou por bondade,
Embora a desventura lhe acometa.

Nesse viajar sem fim, que êle não sente,
Lembra a viajem constante da saudade,
Carregando passado p'ra o presente.


     O Quero-Quero
       Jornal A Semana, 28 de junho de 1956
       O quero-quero, êsse amigo e sentinela dos pampas, é enlevado, em poesia-soneto, por Vargas Neto, em mais uma das suas tiradas campeiras, que o consagram como o mais ginete dos nossos poetas regionalistas.
 

O Quero-Quero

Como é que tu queres, quero-quero? Implíco
Com teu grito, que os tímidos maneia,
Pois veêm fantasmas, de que o pampa é rico,
Quanto tu gritas numa noite feia.

Aborrecido, quando te ouço, fico
E uma grande saudade me esporeia,
Porque dizem que gemem no teu bico
Os gaúchos que morrem na peleia.

És a ronda do pampa com teu bando...
A noite toda passas denunciando
Cruzada de viajante ou de índio vago.

E os mistérios das lendas entropilhas,
Quando gritas na dobra das coxilhas,
Sentinela perdida do meu pago.
 

Trechos de Tropilha Crioula e Gado Xucro
O amor duma chinoca
é o mesmo que os tremedais,
pra a gente entrar é tão fácil
mas pra sair... nunca mais!

Quando eu ouço uma cordeona
No dia em que tomo uns tragos,
Saudades tenho do pingo
E das caboclas dos pagos.

Quando me lembro, la pucha!,
Da china que deixei lá,
Sinto um repuxo por dentro,
Que nem sei o que será.

Não se chegue pra meu lado
Com manhas de sorra mansa
Que eu sou guará ressabiado
Que guaipeca não alcança.

Eu tinha um pingo tordilho,
Que era o melhor pra o lombilho
De todos que já encilhei.
Mas nunca falta um estorvo...
Já encheu barriga de corvo
O meu cavalo de lei...
 

Chimarrão
Desculpa boa pra eu apertar os dedos da chinoca,
quando, horas a fio,
ela me alcança esse amargo, que é tão doce!

Companheiro do rancho e do crioulo,
esquecimento e prazer!
Vício que é remédio do companheiro...
amargo que derrete as amarguras...
meu amigo também!

Ele é a canha,
quando a solidão fez o gaiteiro,
inventaram o índio vago e o desafio,
Hoje é o melhor protetor dos amores do pago...
Quanto beijo transmite sem querer!

Quando ela toma um gole antes de mim,
e deixa a boca como uma flor colorada
na haste branca da bomba
e fica assim... sem dizer nada...
Depois, que mate bom!

Cada trago teu que eu vou sorvendo,
parece que me cai na alma,
me lavando as mágoas,
me adoçando as penas,
mate amargo!


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