Introdução
A
Odisséia de Homero é a maior epopéia escrita pelos
gregos. Trata-se de um poema em verso e prosa, uma exaltação
do povo grego ao herói mortal Ulisses (também conhecido como
Odisseu). Acredita-se que tenha acontecido entre os séculos XII
e VIII a.C.
Tudo
começou quando Menelau e Agamênon convocaram todos os reis
e nobres da Grécia para ajudá-los a montar uma expedição
contra Tróia. Agamênon era o líder da força
grega e rei de Atenas, enquanto seu irmão mais velho, Menelau, era
rei de Esparta. Após a convocação, os heróis
gregos afluíram de todos os cantos do continente e das ilhas para
o porto de Áulis, o ponto de reunião a partir do qual planejavam
velejar através do Egeu até Tróia.
Alguns
dos heróis foram a Áulis mais facilmente do que outros. Ulisses,
que conhecia a profecia de que se fosse a Tróia não retornaria
antes de vinte anos, fingiu loucura quando Menelau e Agamênon chegaram
para convocá-lo. Porém, a farsa de Ulisses foi revelada quando
uma criança foi colocada propositalmente à frente de seus
cavalos em uma corrida de bigas. Completamente senhor de suas sanidades,
o primeiro reflexo foi salvar a criança, caindo assim a máscara
de sua farça.
O
motivo pelo qual Ulisses não intencionava lutar na Guerra de Tróia
era simples: segundo a profecia, ele passaria dez anos lutando em Tróia
e por outros dez anos singraria os oceanos, naufragando, acabando por ficar
desprovido de todos os seus companheiros, freqüentemente com a vida
por um fio, até que no vigésimo ano chegaria novamente às
praias de sua terra natal, a ilha rochosa de Ítaca, onde seu filho
Telêmaco e sua esposa Penélope o esperavam.
A
Guerra de Tróia
A
grande força grega, cujos maiores heróis eram Agamênon,
Menelau, Ulisses e Aquiles, estava pronta para partir. E assim foi. No
sétimo ano de guerra, os troianos tinham fugido da matança
de Aquiles e buscado refúgio atrás de suas muralhas, mas
Hector permaneceu fora dos portões, deliberadamente esperando pelo
duelo que sabia ter que enfrentar. Quando Aquiles finalmente surgiu, Hector
foi tomado de compreensível terror e virou-se para fugir. Percorreram
três voltas ao redor das muralhas de Tróia antes que Hector
parasse e destemidamente enfrentasse seu bravo oponente.
A
lança de Aquiles alojou-se na garganta de Hector, caindo este ao
chão. Mal podendo falar, Hector pediu a Aquiles que permitisse que
seu corpo fosse resgatado após sua morte, mas Aquiles estando furioso,
negou seu apelo e começou a sujeitar seu corpo a grandes indignidades.
Primeiro o arrastou pelos calcanhares atrás de sua biga, ao redor
das muralhas da cidade, para que toda Tróia pudesse ver. A seguir
levou o corpo de volta ao acampamento grego, onde este ficou jogado sem
cuidados em choupanas.
Após
a morte de Hector, um grande número de aliados veio ao auxílio
dos troianos, incluindo as Amazonas e os Etíopes. Todos foram mortos
por Aquiles, mas ele sempre soube que estava destinado a morrer em Tróia,
longe de sua terra natal.
Príamo,
pai de Hector, pede ajuda às Ninfas do Mar e a Posêidon, querendo
saber o ponto fraco de Aquiles e descobre que a mãe sua mãe,
Tétis, quis tornar seu filho imortal e quando este era ainda um
bebê, levou-o ao Mundo Inferior e o submergiu nas águas do
rio Estige; isto tornou seu corpo imune aos ferimentos, exceto pelo calcanhar,
o qual ela utilizou para segurá-lo, justamente onde foi atingido
pela flecha lançada do arco de Príamo.
Após
a morte de seu maior campeão, os gregos recorreram à astúcia
nos seus esforços de capturar Tróia, que tinha agüentado
seu cerco por dez longos anos. Ulisses teve a idéia de construir
um cavalo de madeira para ser ofertado aos troianos, como símbolo
de sua rendição. Ao ficar pronto, um grupo composto pelos
gregos mais corajosos, incluindo Ulisses, entrou no cavalo e rumaram a
Tróia.
O
cavalo de madeira foi ofertado a Príamo por Euríloco, um
grego que fingia trair seu povo em troca de perdão. Laocoon, que
considerado adivinho em Tróia, alertou que o presente era uma armadilha.
Disse ainda que os troianos não deveriam confiar no presente dos
gregos. Logo em seguida as serpentes de Posêidon o enlaçaram
e estrangularam. Com este augúrio, os troianos não hesitaram
mais e começaram a mover o grande cavalo para dentro de suas muralhas,
derrubando suas fortificações de modo a poder fazê-lo
entrar. Hoje em dia usamos muito a expressão "presente de grego",
que surgiu nessa ocasião.
Ao
cair da noite, os heróis que estavam confinados dentro do cavalo,
estando pronta a cena para o saque de Tróia, saíram de seu
esconderijo e começaram a matança. Os homens lutaram desesperadamente,
resolvidos a vender caro suas vidas, horrorizados pela visão de
suas mulheres e filhos sendo arrancados de seus refúgios para serem
mortos ou aprisionados. Mais deplorável foi a morte de Príamo,
assassinado no altar de seu parque por Neoptólemo, filho de Aquiles.
Ao
findar a batalha, Ulisses chega a beira mar e desafia os deuses dizendo:
"Viram, deuses do mar e do céu, eu conquistei Tróia. Eu,
Ulisses, um mortal de carne e osso, de sangue e mente. Não preciso
de vocês agora. Posso fazer qualquer coisa". Posêidon, sentindo-se
ofendido pergunta o porquê de estar sendo desafiado e lembra de que
sua ajuda foi crucial ao mandar suas serpentes matar Laocoon, só
assim o cavalo pôde ser introduzido em Tróia.
Irado
por Ulisses recusar-se a agradecer e por sua arrogância, Posêidon
diz que os homens não são nada sem os deuses e o condena
a vagar para sempre em suas águas e nunca mais voltar a costa de
Ítaca. Ulisses não se arrepende e diz que nada nunca o deterá.
Seguem-se
dez longos anos até que Ulisses volte a sua terra natal, sendo este
período narrado a seguir.
Ilha
dos Cíclopes
Os
ciclopes eram uma raça de fortes gigantes de um só olho,
que ocupavam uma fértil região onde o solo gerava abundantes
plantações por conta própria, fornecendo um pasto
farto para as gordas ovelhas.
Ansioso
para encontrar os habitantes de tal terra, Ulisses direcionou o navio para
o porto e, desembarcando, dirigiu-se juntamente com a tripulação
à caverna do ciclope Polifemo, um filho de Posêidon. O ciclope
nãoe estava em sua caverna, fora cuidar de suas ovelhas. Assim,
Ulisses e a tripulação ficaram à vontade, até
que ele retornou com o seu rebanho ao crepúsculo.
Polifemo
era forte, monstruoso e terrível e após algumas poucas perguntas
sobre a origem e o que desejavam seus hóspedes inesperados, agarrou
um deles e fez seus miolos saltarem ao chão antes de devorá-lo.
Ele considerou matar cada um dos homens de Ulisses para comê-los,
mas o guerreiro usou sua inteligência para fazer com que o ciclope
acreditasse que carregava magia em sua mente. Ulisses considerou esfaqueá-lo
até a morte, mas desistiu da idéia quando percebeu que a
fuga seria impossível, pois a entrada da caverna tinha sido bloqueada
com uma grande rocha, a qual o ciclope podia erguer com uma só mão,
mas seria impossível de mover mesmo com a força combinada
de Ulisses e seus companheiros.
Então,
o inteligente Ulisses ofereceu-lhe uma tigela de forte vinho, que o ciclope
bebeu com entusiasmo e pediu para que fosse reenchida três vezes.
Num estupor de embriaguez, deitou-se para dormir. Porém, antes de
adormecer, perguntou o nome de seu hóspede. Ulisses respondeu que
era "Outis", ou seja, "Ninguém" em grego; Polifemo prometeu que
em retribuição pelo vinho comeria "Ninguém" por último.
Assim
que o monstro dormiu, Ulisses e seus homens fizeram uma estaca de madeira,
aqueceu a ponta da mesma no fogo e quando ela ficou em brasa ele e quatro
de seus melhores homens enterraram a ponta no olho único do ciclope.
Rudemente acordado pela dor terrível, Polifemo urrou e rugiu, chamando
seus irmãos e afastando a pedra que fechava a entrada da caverna.
Mas quando estes se agruparam do lado de fora de sua caverna e perguntaram
quem o estava incomodando, quem o tinha ferido, sua única resposta
foi que "Ninguém" o incomodava e "Ninguém" o estava ferindo;
assim, seus irmãos acabaram perdendo o interesse e se retiraram.
Polifemo
tentou agarrar a tripulação de Ulisses que estava saindo
juntamente com as ovelhas, mas estes passaram a salvo por suas mãos,
Ulisses por último. Guiando as ovelhas para o seu navio, eles trataram
de zarpar rapidamente, apesar de Ulisses não resistir e zombar do
ciclope, que respondeu atirando pedaços de penhascos na direção
de sua voz. Alguns chegaram a cair muito próximos do barco.
Ulisses
reuniu-se ao restante da esquadra e, enquanto os marinheiros pranteavam
os companheiros perdidos, consolaram-se com as próprias ovelhas
que tinham auxiliado sua fuga da caverna.
***
Na Ilha dos Ciclopes Ulisses aprendeu que nunca deveria reclamar dessa ou de outra situação, pois as coisas sempre poderiam ser pior do que já são. O melhor nessas ocasiões é lutar com afinco e usar de astúcia para ultrapassar os obstáculos. Só assim puderem vencer o obstáculo e partir para a próxima batalha, que aliás, foi a primeira de uma série na luta para voltar para casa.
Ilha
de Éolo
Da
Ilha do Ciclope, Ulisses velejou até chegar à ilha flutuante
de Eólia, cujo rei, Éolo, tinha recebido de Zeus o poder
sobre todos os ventos.
Éolo
recebeu Ulisses e sua tripulação de maneira hospitaleira
e, ao chegar a hora da partida, Éolo deu a Ulisses uma bolsa de
couro na qual tinha aprisionado todos os ventos tempestuosos; a seguir,
invocou uma boa brisa para o oeste que levaria os navios a salvo para casa,
em Ítaca.
Eles
velejaram no curso por nove dias e estavam à vista de Ítaca
quando o desastre os atingiu. Ulisses, que tinha ficado acordado durante
toda a jornada segurando o leme do barco, caiu num sono exausto, e sua
tripulação, não sabendo o que havia na bolsa de couro,
instigados por Ânticlos começaram a suspeitar que continha
um valioso tesouro que Éolo teria dado a ele. Ficaram enciumados,
sentindo que tinham enfrentado as situações difíceis
com Ulisses, devendo também compartilhar suas recompensas: acabaram
por abrir a bolsa e acidentalmente libertaram os ventos do leste, que os
manteria bem longe de Ítaca. Ulisses acordou no meio de uma medonha
tempestade, que soprou o navio de volta a Eólia.
Desta
vez a recepção dada a Ulisses e a seus companheiros foi bastante
diferente. Eles pediram que Éolo lhes desse uma nova chance, mas,
este declarando que Ulisses devia ser um homem odiado pelos deuses, negou-se
terminantemente a ajudá-los, mandando embora Ulisses e seus companheiros.
***
Na
Ilha de Éolo Ulisses pode aprender que a curiosidade leva a lugares
não desejados. Ele quase chegou ao seu destino, porém teve
que pagar pela curiosidade de sua tripulação, ficando assim,
cada vez mais distante de casa.
Ilha
de Circe
Num
estado considerável de pesar e depressão, Ulisses e seus
companheiro sobreviventes do terrível desfecho causado pela curiosidade,
viram-se na ilha de Aca.
Desembarcando,
permaneceram deitados dois dias e duas noites na praia, completamente exaustos
pelos seus esforços, desmoralizados pelos horrores que tinham passado
e sem comida ou água.
No
terceiro dia, alguns homens comandados por Euríloco, saíram
para fazer o reconhecimento da área e chegaram ao palácio
que existia no alto de uma montanha. Do lado de fora haviam lobos e leões,
que cabriolavam e faziam festa aos homens; eram de fato seres humanos que
tinham sido transformados em animais pela feiticeira Circe, cujo lindo
canto podia ser escutado do exterior da casa.
Circe
era esposa de Baco, uma poderosa bruxa, que seduzia com seu canto e beleza,
os homens famintos que ali chegavam oferecendo-lhes vinho e mel. Quando
os homens de Ulisses gritaram para chamar sua atenção, ela
saiu e os convidou-os a entrar; apenas Euríloco, suspeitando de
algum truque, permaneceu do lado de fora.
Circe
ofereceu comida aos homens, no qual continha uma droga que os faria esquecer
de sua terra natal; quando terminaram de comer, os tocou com sua varinha
e os transformou em animais, apesar de infelizmente lembrarem quem realmente
eram.
Em
pânico, Euríloco voltou correndo ao navio para relatar o desaparecimento
de seus companheiros. Ulisses ordenou que o levasse de volta à casa
de Circe, mas ele se recusou. Ulisses partiu só para o resgate.
No caminho através da ilha, encontrou Hermes. O deus deu-lhe uma
planta mágica, a qual, misturada com a comida de Circe, seria um
antídoto para sua droga; também o instruiu como lidar com
a feiticeira: quando Circe o tocasse com sua varinha, deveria avançar
sobre ela como que para matá-la; ela então recuaria com medo
e o convidaria a compartilhar de sua cama. Deveria concordar com isso,
mas deveria fazê-la jurar solenemente a não tentar truques
enquanto estivesse vulnerável.
Os
fatos se passaram como Hermes tinha previsto. Após terem ido para
a cama, Circe banhou Ulisses e o vestiu com roupas finas, lhe preparou
um suntuoso banquete, mas Ulisses sentou-se numa abstração
silenciosa, recusando toda a atenção. Circe acabou lhe perguntando
o que estava errado, e disse-lhe que ela não poderia esperar que
estivesse de corpo e alma na festa enquanto metade de sua tripulação
transformara-se em animais. Então Circe libertou os novos animais
e os untou com ungüento mágico. Seus pêlos rijos caíram
e se tornaram novamente homens. Circe sugeriu que deveriam chamar o restante
de sua companhia para que se juntassem à eles. Ficaram com Circe
por cinco anos, comendo, bebendo e se divertindo, esquecendo os percalços
que tinham passado.
***
Na
Ilha de Circe, Ulisses aprendeu que toda boa notícia é acompanhada
por outra má. Apesar de ter encontrado bebida e comida, justamente
o que estavam procurando, ficaram presos ao encanto de Circe por cinco
anos, retardo assim o retorno a Ítaca.
Retorno
a Ítaca
Nos
vinte anos que Ulisses esteve fora de casa, a maioria do povo de Ítaca,
fora sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco e uns poucos
amigos fiéis, acreditava que estava morto, que tinha morrido em
Tróia ou na sua viagem de volta. Como Penélope não
era apenas bonita e completa, mas também rica e poderosa, sendo
que o homem que casasse com ela herdaria a riqueza e a posição
de Ulisses, estava sendo acossada por pretendentes jovens e nobres que
permaneciam no palácio de seu marido, comendo e bebendo suas provisões
e forçando suas atenções indesejadas sobre ela.
Pelo
período que pode, Penélope ganhou tempo, convencendo cada
um que havia base para esperança, mas não dizendo nada definitivo
a qualquer um deles. Por três anos os enganou, dizendo que estava
tecendo um manto para Ulisses; seria inadmissível que ele morresse
sem que tivesse uma mortalha pronta; portanto deveriam aguardar sua decisão
até que tivesse terminado sua tarefa. Todos os dias trabalhava no
tear, mas à noite desfazia seu trabalho sob luz de tochas. No início
do quarto ano, entretanto, foi traída por uma de suas criadas, que
ajudou seus pretendentes a pegá-la no seu artifício.
Pouco
antes da chegada de Ulisses em Ítaca, Athena inspirou Telêmaco,
agora com idade para desempenhar um papel ativo no retorno de seu pai,
a fazer uma jornada com o objetivo de descobrir o que lhe tinha acontecido.
O jovem se dirigiu ao magnificente palácio de Menelau, em Esparta.
O rei o tratou com grande bondade, e explicou como tinha ficado sabendo
de um Velho Homem do Mar que Ulisses havia morrido.
Quando
Ulisses chegou a Ítaca, Telêmaco estava voltando para casa;
os pretendentes, irritados e um pouco alarmados pelo comportamento de Telêmaco,
planejaram emboscar seu barco durante o seu retorno mas, com a ajuda de
Athena, ele escapou desta armadilha e chegou a salvo em casa.
Athena
aconselhou Ulisses a não ir diretamente à cidade mas, ao
contrário, procurar abrigo com o pastor Eumeu, que vivia numa fazenda
um pouco distante. Disfarçado como um mendigo, ele fez como sua
patronesse sugeriu, e foi muito bem recebido por Eumeu, cuja explanação
sobre a situação na cidade era entremeada com elogios a seu
senhor ausente e preces para seu retorno a salvo.
O
pastor serviu a Ulisses uma refeição composta de carne, queijo
e vinho, e arrumou uma confortável cama perto do fogo; ele próprio
passou a noite do lado de fora, cuidando da propriedade de seu senhor ausente.
Depois, Eumeu contou a história de sua vida a Ulisses, disse que
tinha nascido de pais nobres mas sendo raptado por mercadores fenícios
quando era criança, para ser vendido como escravo em Ítaca.
Na
manhã seguinte, Telêmaco chegou a ilha e, guiado por Athena,
seguiu diretamente para a cabana do pastor. Enquanto Eumeu seguiu para
a cidade para contar a Penélope que Telêmaco estava de volta,
Athena dissolveu o disfarce de Ulisses e solicitou que revelasse a identidade
ao filho. Telêmaco a princípio relutou em acreditar que o
mendigo na cabana do pastor era realmente seu pai, mas acabou convencendo-se
e os dois choraram juntos, de alegria e alívio.
Ao
se recobrarem fizeram planos: Ulisses seguiria Telêmaco de volta
à cidade e iria esmolar em seu próprio palácio. Lá,
avaliaria a situação e esperaria a oportunidade ideal para
atacar; quando esta ocasião chegasse, sinalizaria para Telêmaco
e, então, os dois, com a ajuda de Zeus e Athena, dariam cabo dos
miseráveis pretendentes.
Do
lado de fora, sobre um monte de esterco, estava um velho cão, doente
e debilitado. Quando escutou a voz de Ulisses, ergueu as orelhas e moveu
alegremente sua cauda. Ulisses o reconheceu imediatamente e, tocado por
sua aparência, disfarçadamente verteu uma lágrima.
Ao comentar a aparência dilapidada do cão com Telêmaco,
este último respondeu que há vinte anos nenhum cão
podia vencer Argos, ou farejar melhor, mas na ausência de seu senhor
envelheceu e ficou malcuidado. Quando os dois entraram no prédio,
Argos morreu em silêncio, feliz de ver seu senhor novamente após
vinte longos anos.
Como
seria previsível, Ulisses foi agredido e insultado pelos pretendentes
quando tentou esmolar no seu próprio salão. Eles zombaram
de seus andrajos e o ameaçaram. Penélope foi subitamente
inspirada a se mostrar aos pretendentes. Assim, desceu ao salão,
onde sua beleza encheu a todos com desejo; repreendeu Telêmaco por
permitir que insultassem o mendigo em sua casa, voltando-se então
aos pretendentes e sugerindo que, ao invés deles consumirem sua
casa, seria mais adequado que lhe trouxessem presentes.
Os
pretendentes concordaram e, para prazer de Ulisses, trouxeram finos presentes
de tecidos e jóias. Ao cair da noite, era hora de novo banquete
e Ulisses fez-se útil cuidando das luzes e fogos. Eles novamente
desafiaram o mendigo entre eles, e um banco foi atirado, para ser imediatamente
evitado pelo seu alvo. Quando os pretendentes finalmente se retiraram para
suas próprias casas para passar a noite, Telêmaco e Ulisses
removeram todas as armas da sala e as guardaram num depósito. Penélope
desceu então novamente para conversar com o mendigo, cuja presença
tinha despertado seu interesse. Perguntou-lhe de onde tinha vindo e explicou
sua própria difícil situação: os pretendentes
estavam pressionando para que fizesse sua escolha entre eles, enquanto
apenas desejava a volta de Ulisses.
Penélope
sugeriu então que o mendigo poderia apreciar um banho e uma cama
confortável. Mas o cauteloso Ulisses, entretanto, apenas permitiu
que seus pés fossem lavados por uma antiga criada, assim a velha
ama Euméia foi chamada para a tarefa. Euméia comentou imediatamente
como o mendigo a fazia lembrar de Ulisses; ele respondeu que todos diziam
o mesmo. Quando começou a lavar seus pés, Ulisses subitamente
lembrou-se da cicatriz na sua perna, conseguida quando era apenas um menino.
Ficou nas sombras, mas evidentemente Euméia sentiu e reconheceu
a cicatriz; na excitação, derrubou a bacia com água
e teria gritado alto para avisar Penélope se Ulisses não
tivesse agarrado firmemente pela garganta e a instruído a não
contar a ninguém quem era até que se livrasse dos pretendentes.
Durante
todo este tempo, Penélope estava sentada absorta em seus pensamentos.
Mas quando Euméia buscou mais água e terminou a tarefa e
Ulisses estava novamente sentado ao lado do fogo, dirigiu-se novamente
a ele e explicou seu dilema: deveria se casar para livrar Telêmaco
do fardo de sua presença e das dos pretendentes, ou continuar a
aguardar a volta de Ulisses? Perguntou-lhe se o mendigo poderia explicar
o significado de um sonho recente no qual uma grande águia desceu
das montanhas e abateu-se sobre seus vinte gansos de estimação,
matando-os todos; a seguir, pousando num apoio do telhado, a ave disse-lhe
que os gansos eram os pretendentes e ela própria era Ulisses.
O
mendigo Ulisses assegurou-lhe que o sonho se tornaria verdade e que os
pretendentes seriam todos destruídos, mas a cautelosa Penélope
respondeu que os sonhos são confusos; aqueles que viessem através
do portão de chifre se tornariam verdade, mas aqueles do portão
de marfim vinham apenas para enganar. Antes de ela se retirar para seus
aposentos para passar a noite, e chorar por Ulisses até que conseguiu
dormir, disse ao mendigo que pretendia anunciar uma competição
entre os pretendentes. Colocaria doze cabeças de machado em linha
e convidaria os pretendentes a curvar o grande arco de Ulisses e mandar
uma flecha diretamente através de todas as doze. Casaria com aquele
que provasse ser capaz de realizar este feito, o qual Ulisses freqüentemente
era capaz de realizar.
No
dia seguinte, Penélope trouxe o grande arco de Ulisses e anunciou
a competição aos pretendentes, cada um esperando ser o único
a curvar o arco e atirar através das cabeças de machados.
Telêmaco preparou o salão para a competição
e tentou curvar o grande arco, dobrando-o através de seu joelho.
Assim, os pretendentes tiveram, um por um, a sua vez, mas nenhum conseguiu
curvar o arco, ainda mais mandar uma flecha através dos machados.
Enquanto estavam experimentando suas forças. Quando um dos dois
líderes dos pretendentes, Eurímaco, tentou e falhou no teste,
o outro líder, Antínoo, sugeriu que adiassem isto por um
dia, pois tratava-se de um dia festivo e deveriam estar se banqueteando
e fazendo sacrifícios ao deus-arqueiro Apolo; sua sugestão
foi completamente aprovada.
Após
todos terem bebido seu primeiro brinde, Ulisses perguntou se ele poderia
tentar o arco. Antínoo não concordou, mas Penélope,
que estava observando a cena, insistiu que tivesse direito a uma chance;
Telêmaco então interveio, mandando sua mãe de volta
a seu quarto. No meio do burburinho o pastor Eumeu sorrateiramente retirou
o arco e o levou a Ulisses, colocando-o nas suas mãos. Vistoriou
a arma familiar, para assegurar-se que não estava danificada pelo
longo desuso; então, facilmente como um músico que conhece
as cordas de sua lira, ajustou uma flecha no arco e atirou através
de toda a linha de machados.
Os
pretendentes, pegos de surpresa, ficaram ainda mais chocados com a seqüência.
Ulisses apontou uma segunda flecha, desta vez à garganta de Antínoo.
Não percebendo o que estava acontecendo e pensando se tratar de
um acidente, os pretendentes cercaram Ulisses furiosos, mas quando contou-lhes
quem realmente era e que sua intenção era matar a todos,
perceberam sua situação e tentaram atacá-lo. Ajudado
pelos fiéis servos, o vaqueiro e o porqueiro, Ulisses e Telêmaco
poderiam ainda estar em desvantagem pelo grande número de pretendentes,
se Athena não tivesse intervindo em seu favor.
Pretendente
após pretendente caiu ao chão, sendo poupados apenas o menestrel
e o mensageiro, que foram pressionados a servirem contra a vontade aos
pretendentes. Eles jaziam aos montes, sobre o sangue e a poeira. Ulisses,
então manchado com sangue e sujeira, chamou a velha ama Euméia.
Ela apontou as criadas que se desgraçaram ao servir os pretendentes
limpando e arrumando o salão.
Penélope,
sob a influência de Athena, tinha dormido profundamente durante o
barulho da grande batalha no salão e as operações
subseqüentes de limpeza. Agora foi acordada por Euméia que
contou as novas sobre o retorno de seu marido. Atordoada pelo choque, não
conseguia ter completa certeza que o estranho era realmente Ulisses, ou
o que deveria dizer-lhe. Cautelosa como o seu marido, ela colocou-lhe um
teste final instruindo Euméia a retirar de seu quarto o grande leito
que Ulisses tinha construído. Ulisses sabia que o leito era impossível
de ser movido, pois tinha sido construído ao redor de uma oliveira
viva. Apenas quando, exasperado pela sua obstinação, descreveu
a construção da cama é que Penélope ficou convencida
que ele era realmente seu marido longamente desaparecido; atirou-se em
seus braços e chorou.
Eles
foram juntos para seu leito nupcial e finalmente puderam ficar um nos braços
do outro; Ulisses contou a Penélope todas as suas aventuras e a
noite se estendeu, pois a deusa Athena retardou a aurora às praias
de Oceano.
***
Ulisses aprendeu na longa jornada ser sábio e paciente. Por isso soube o momento certo de voltar ao palácio e vencer seus inimigos. Ensinou ao seu filho que mais vale um covarde vivo, que um valente morto.
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