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    Lila Ripoll

    Lila, Poetisa e Revolucionária
    Lila Ripoll foi poetisa, professora, jornalista e pianista. Militante comunista. Nasceu numa cidade de mistério e poesia, fronteira de três pátrias, à beira do cerro lendário do Jarau, em Quaraí, a 12 de agosto de 1905. Prima-irmã do jornalista e revolucionário Waldemar Ripoll, assassinado em Rivera em 1934, por ordem de pessoas ligadas ao general Flores da Cunha.
    Formada pela Escola Normal de Porto Alegre, colaborou no Correio do Povo, Revista Universitária e A Tribuna Gaúcha. Editou a Revista Horizonte (1951). No Rio de Janeiro, co-editou Partidários da Paz, com Graciliano Ramos e outros, e colaborou na revista A Leitura. presidente do 4º Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em Porto Alegre em 1951. Na época era presidente local da Associação Brasileira de Escritores, lecionava no grupo Escolar Venezuela e integrava a direção do Movimento Estadual dos Partidários da Paz e Contra as Armas Atômicas.
    Mulher culta e corajosa, poetisa brilhante, foi para o foga das tribunas populares, comungou com o povo nas suas horas de mobilização, amargou com o povo as suas derrotas, cantou com ele a democracia plena na voz das ruas. Candidata a deputada pelo Partido Comunista (1950), foi vítima de uma reação feroz, que não lhe permtiu ser eleita para representar os que tem sêde de justiça na Assembléia Legislativa do Estado. Isto não impediu, entretanto, que ela voltasse para dentro dos sindicatos para ler os seus poemas e praticar o artesanato de seus sonhos de pão e liberdade. Passou num torno seu amor-proletário e daí nasceu o Coral Metalúrgico de Porto Alegre. Vozes de fábricas, mãos calejadas, com ela, burilaram sonatas de esperança num sol-nascendo-para-todos.
   Revolucionária convicta e militante, atuou também no Centro dos Professores e Grupo de Arte, fundado por ela para a promoção de espetáculos teatrais. Materializou seu protesto contra as desigualdades sociais em dois pequenos-grandes livros: Novos Poemas (1951), com o qual conquistou o Prêmio Pablo Neruda da Paz, e Primeiro de Maio (1954). poemas de sangue e rosas, carregados de ternura e rebelda, porque ela lembra, entre outras coisas, em Elegia (Novos Poemas) o massacre operário de Livramento, ocorrido em setembro de 1951:

Rosales e Kulman,
irmão Aristides,
e tu Abdias,
herói camponês
-de vida singela,
de sonho tão alto -
esperem confiantes
que a aurora desponte
no céu de amanhã.
    Esse crime infame aconteceu durante uma campanha eleitoral e
A noite sangrenta
caiu demorada.
O sangue brotava
dos corpos, das almas,
da terra ofendida,
dos altos gemidos.
    E Lila Ripoll - toda dor - vai fechar seu grito lá adiante, tendo Deus por testemunha de que eles, os mártires
Tombaram sem medo,
singelos,
heróicos,
severos e graves,
à luz do luar.
    ...

    Pássaro Libertário
    Foi uma noite de assombro na esteira da minha infância de guri pobre. Batidas de cascos, gritos, relinchos de baguais e tiros varando o ventre da noite pampeana. Era o finalzinho da década de 1950. A horda campeira fora arrebanhada pelos terratenientes do PL, PSD e UDN. Viera para acabar com o comício comunista do bairro operário do meu velho Quaraí, nosso Quaraí, Lila, "de homens nas picadas dos rios temerosos e insones".
   Foi o meu primeiro encontro com aquilo que o tempo cunharia no painel das minhas rebeldias como repressão política. O comício e suas vozes foi sufocado a patas de cavalo - como se patas de animais pudessem cortar a luminosidade das idéias, sangrar a evolução, desviar a rota da história. Eu fora levado pela minha mãe, penso, para ver e ouvir "a poetisa Lila Ripoll". Uma mulher culta, que diz coisas bonitas, me dissera dona Conceição Marçal.
   E desse comício me ficaram duas coisas: a selvageria da reação latifundiária e o sorriso manso, doce, levemente superior de uma mulher magra, franzina, meio arqueada sobre uma cadeira e uma mesa tosca, simulacro de tribuna. Quando Lila Ripoll começara a falar estourara a fuzilaria. E logo a seguir os estouros dos mangos, os gritos galponeiros que ficaram doendo nos meus ouvidos como uma cantilena de bárbaros numa gesta medieval.
  Numca mais esqueci dessa noite e dessa Lila Ripoll: a militante operária, a revolucionária comunista que vai para o fogo das tribunas e dos conflitos - sem medo - em função de suas idéias. essa é uma Lila esquecida, perdida, que certa  crítica (?) literária comprometida com os interesses das elites insiste em esquecer. É a Lila de Novos Poemas e Primeiro de Maio.
   Era a professora que cantava com os metalúrgicos de Porto Alegre, alma de pássaro libertário que canalizava sua imensa ternura na luta pela redenção dos oprimidos. Que queria quebrar grilhões, escrever Igualdade em todos os muros. Esquecer esta Lila é mutilar a sua lembrança. Porque ela viveu o seu tempo e foi amada por seu povo. E quando se tornou uma estrela - a 7 de fevereiro de 1967 - deixou um vazio enorme no coração da gente. Ela, esta Lila de que vos falo, é hoje uma poesia doce, terna, rebelde, encrustada no coração operário do Rio Grande do Sul.

     Bibliografia:
     De Mãos Postas -1938
     Céu Vazio - 1941
     Por Quê? - 1947
     Novos Poemas - 1951
     Poemas e Canções - 1957
     Coração Descoberto - 1961

    Quaraí, Terra de Intelectuais e Guerreiros; João Batista Marçal, Porto Alegre 1995.

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