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Juca Ruivo

     Seu nome legítimo é José Leal Filho mas está imortalizado como Juca Ruivo, pseudônimo que usou a vida inteira. Poeta gaúcho de grande ilustração e intensa emotividade. Juca Ruivo é, sem favor algum, o mais espontâneo, o mais verdadeiro e o mais profundo de nossos cantores regionalistas, afirma Átila Casses, no O Cidadão de 22 de setembro de 1934. Engenheiro-agrônomo. Nasceu em Quaraí na zona do Garupá, em 22.02.1904. Seu registro civil foi feito na cidade de Alegrete.
     Maragato apaixonado, enganjou-se na revolução de 1923, na Coluna Honório Lemes, tendo participado de vários combates. Acompanhava-o nessas andanças, um amigo pobretão, um tal Negro Malaquias com quem peleava junto, bravamente, na pistola ou no ferro branco. No descanso dos entreveros encantava a coluna revolucionária com a sua oito baixo, pois era um belo gaitêro. Passada a refrega, esteve exilado no Uruguai e na Argentina onde, sempre ao lado do amigo fiel, ganhava a vida como esquilador de ovelha.
     Vindo a revolução de 30, tomou em armas mais uma vez. Sempre acompanhado do Negro Malaquias. De novo peleou bonito mas ficou-lhe uma grande dor nessa caminhada: a morte do Negro Malaquias, episódio que ele cantaria num poema comovente. De novo o exílio. A solidão no estrangeiro primeiramente e depois nos descampados então desérticos do Mato Grosso. por aí viveu, como um duende, trabalhando como agrimensor. Ao seu lado, uma marca viva do pampa gaúcho: um casal de quero-quero que cantava para ele arrancando-lhe, das raízes do espírito, ponchadas de saudade da querência distante.
     Figura mítica, quando volta ao pago, nos anos 50, é coberto de carinho e se torna um dos fundadores da Estância da Poesia Crioula. Seu nome, então é uma lenda. Andejava pelo pampa na voz dos tribunos maragatos que mostravam, nos comícios, o temido lenço vermelho e diziam como Prates, Mirandolino Comaru e Cadocho:

Este trapo colorado
que altaneiro se desfralda
pelo topo de esmeralda
das coxilhas do Rio Grande,
encarna, quando esvoaça,
do sol pampeano tingido,
o caracu de uma raça
e o programa de um partido!
     Até então estava inédito. Seus poemas andavam de boca em boca na liturgia dos galpões. Nas vozes dos peões rebeldes. Nas vozes dos peões rebeldes. Os amigos pressionam e ele admite publicar "Tradição", às expensas do CTG Minuano, de Iraí, em 1957. O pórtico é de Aureliano de Figueiredo Pinto e o prefácio, carregado de ternura, é do também poeta J.O. Nogueira Leiria.
     Anônimo, como viveu, fechou os olhos em Porto Alegre a 8.3.1972. Sua vida e sua poesia se misturam. ambas vêm vestidas de grandezas.

    Quaraí, Terra de Intelectuais e Guerreiros; João Batista Marçal, Porto Alegre 1995.

 
Memória dos Bardos das Ramadas

Memória dos bardos das ramadas
dos ilhéus, das violas lusitanas;
memória das guitarras castelhanas
em milongas, pericons e habaneras.
Lembrança das cordeonas afanadas,
animando fandangos e guerrilhas;
saudade das Tiranas e Quadrilhas
nos sorongos, em noites estreladas.

Tristezas das toadas missioneiras,
refletindo a angústia guarani!
Nostalgia do terço Lau Sus Cri,
rezado ao pôr-do-sol, nas Reduções.
Fascínio das histórias fronteiriças,
de caudilhos, duelos, entreveros!
Sensações de canchas, parelheiros,
no aconchego noturno dos fogões!

Memória do Negro Pastoreio,
da Boi-Guaçu, das lendas extraviadas,
das salamancas, das furnas encantadas,
dos cerros bravos, lagoas e peraus...
Nobreza dos amores confessados
no floreio de endechas cavalheiras
ao donaire das prendas e sesmeiras,
das vetustas estâncias, nos saraus.

Memória da payadas quixotescas
de andarengos, malevas, chimarritas,
dos menestréis de trovas não escritas,
dos cancioneiros de romance e adaga!
Memória dum passado novelesco,
desse filão de motes e poesia
donde gerou-se o estro e a galhardia
do fidalgo verso gauchesco!
 

Carreta

Varre o norte poeirento
Horizontes em fumaça.
Uma carreta que passa,
Rompe a calma do instante.
Vão dois tambeiros por diante,
Repenicando o badalo;
O Chirú Velho, a cavalo,
Vae abanando a picanha,
Enquanto o coice acompanha,
Da ponta, volta por volta.

Em fios, a baba se solta,
- Das quartas chucras de canga.
Os quero-queros na sanga,
Contam logo a novidade!...
Tão raro na atualidade,
É o cruzar de uma carreta,
Que este pássaro xereta,
Do vulto estranho se assombra!

Do guaipé que na sombra
Da mesa, marcha assoleado;
Do coróte pendurado,
Da trempe que junto vem;
Do resmunguento nhem...nhem
De buzina de aguaí
E da petiça nambi,
De tiro no recavem.

O couro bate na porta.
Vem o muchacho de arrasto,
Deixando atrás seu rasto
Tracejando em linha torta...

Mas na estrada ressequida,
Terá o rasto curta curta vida,
Porque o vento apagará.

xxx

A noite pampa se acerca,
Desperta em sons a planura,
Seu concêrto de abertura
Afinando em notas claras.
Zune o vento nas taquaras,
Arrematando a algazarra,
Quinda faz uma cigarra,
Cargosa de se calar...

E eu me fico a pensar,
Que o velho traste pampeano,
Do seu destino aragano,
Já vae tocando no têrmo
E que ao cruzar pelo êrmo,
Engulindo as léguas largas
Das estradas do Rincão,
Carrega as ultimas cargas
Da gaúcha Tradição!...
 
 

     Caminhos das Missões
        L.V.C.* - Jornal A Semana, 25 de Agosto de 1955.
     O poema que hoje divulgamos, de autoria de JUCA RUIVO, pseudônimo de José Leal Filho - um dos poetas mais destacados da moderna literatura regional do Sul - descreve em versos burilados e plenos de magia encantadora, aquêle velho roteiro, poeirento, lento, pontilhado de solavancos e de peludos, tantas vezes seguido pelos nossos carreteiros, - O Caminho das Missões...

Lusco-fusco. Hora mansa.
Silêncio de Campo Santo.
Se escuta o último canto
dum bem-te-vi solitário,
floreando o Hino do pago.

Sombras mortas nas lagoas
Nenhum contorno se esgarça
na planura ensimesmada.
Sómenteum voo de garça
rumbeia lá pelos longes,
na mancha clara da estrada,
no caminho das Missões.

Desponta entre a polvadeira,
tembléque, a velha carreta,
chiando um gemer de eixos,
carpindo a eterna canceira
de largar as cargas
nos portais das vendas
das estradas largas;

de sacar peludos
nos rincões dispersos,
nas querências quietas;

pobre e torturada
como alguns poetas na angustiosa lida
de deixar os versos
nos portais da vida.

E a velha carcaça teatina,
rinchando as massas,
vai cumprindo a sina
rumo das Missões.

     -o-

Arrinconado na sanga,
agora o velho paisano
solta boi no pouso certo.
Não há rumor pelo plaino.
Nem o soluço do vento
acorda a alma das coisas
nesta hora de nós mesmo...

Presumo que só desperto,
se enncontra meu pensamento...

Mas, o téo-téo corneteiro
se alvorotou na restinga,
rompendo no seu téo-téo!

E o fogão do carreteiro,
na escuridão que se expande
parece uma estrêla grande,
entreverada com as outras
que fogoneiam no céu.

     Cordeona
     L.V.C.* - Jornal A Semana, 4 de Agosto de 1955.
     A cordeona - como o acohedor Umbu, a carreta e a tapera -, tem sido o
motivo de inúmeras e belas poesias regionalistas.
     Infelizmente, êste familiar e singelo instrumento, já tão apreciado no interior do Rio Grande, está desaparecendo dia a dia, cedendo lugar à gaita-piano, o que não deixa de ser lamentável.
     A nosso entender, um dos mais lindos poemas dos que nasceram inspirados no "velho órgão crioulo", é o que escreveu o destacado poeta gaúcho JUCA RUIVO.
     A seguir, pois para deleite daqueles que sabem apreciar versos gauchescos, trascrevemos o que disse o citado poeta sobre a cordeona:

Cordeona
Juca Ruivo

As minhas noites de guasca bruto,
muito mais largas
do que minhas penas,
noites amargas,
quando serenas,
não são tão largas quando te
escuto.

Cordeona! - Quando te escuto
pelas noites silenciosas,
nas tonadas harmoniosas
que do teu bojo se expande,
escuto a voz do Rio Grande,
chorando o fim de uma Raça!
Então - cordeona -, perpassa
veloz em me pensamento,
o que recorda o lamento
da tua triste carcaça:

Quando o silêncio despertas
com tua langue sinfonia,
refletes a nostalgia
do Índio e do Português.
E si te exaltas por vez,
caprichosa e mais sonante,
és a audácia Bandeirante
e a fidalga da Hespanha,
pois tua sonância estranha,
tem salero e intrepidês.

Quando acordas o escampo,
onde o teu som se esparrama,
revives o velho drama
da formação gauchesca.
És bárbara e és quixotesca;
e si a fremir te extenuas,
lembras berro de Charruas
em potreadas nas fronteiras...

Nos baixos das tuas hileiras,
anda o ritmo Arirí,
dum cantochão Guaraní,
nas Reduções Missioneiras.
Recordas quando tu rompes,
no tropel das seguidilhas,
clarinadas Farroupilhas,
entre brados e descargas.

Relembras o fero afinco,
dos finca-pés, bem na frente...
E dessa mescla fremente,
de sons que guardas no peito,
cordeona! - certo, foi feito,
o Hino de Trinta e Cinco!

Assim, cordeona, - acompanhas,
na tua velha cadência,
do explendor à decadência,
a Raça que foi padrão!
E quando pela amplidão,
tu cessares de vibrar,
há de ser p'ra acompanhar,
num derradeiro repuxo,
os funerais do gaúcho,
na cova da Tradição.

Feliz do guasca, cordeona,
que te conheces os segredos;
que arranca a alma com os dedos
e o coração tráz à boca.
Que traduz a ânsia louca
e o sentimento que o lavra,
substituindo a palavra
por tua linguagem rouca.

Oh! velho órgão crioulo
das catedrais da planura!

Teus gemidos de amargura
são penares de alma inquieta,
de algum gaúcho poeta,
na peleia desgarrado;
e que cumprindo o seu fado,
inda implora uma oração.
Quanto à mim, - é devoção,
ouvir-te a música antiga,
porque és a melhor amiga
dos que amarguram, na quieta...

* Leopoldino Vieira Cidade


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