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J.O. Nogueira Leiria

    a) Rincões Perdidos
    a.1) Pedro Vergara
    a.2) Cyro Martins

    b) Martín Fierro
    b.1) Gomez del Arroyo
    b.2) Salgado Martins

    a) Rincões Perdidos
    a.1) Pedro Vergara
    A Poesia de Nogueira Leiria
    Rincões Perdidos
    INSISTIREI, aqui, realmente, nalguns aspectos já referidos no capítulo anterior, e caráter muito geral e superficial, - e examinarei, também, outros dados, que o livro oferece, e de que não tratei. É patente, e se nota, pois, à primeira vista, a identidade e a fraternidade de sentimentos que ligaram este poeta, cheio de vinda ainda, ao grande poeta morto, Aureliano de Figueiredo Pinto, do “Armorial da Estância e outros poemas”. Uma afeição profunda, supérstite, se afirma na memória do sobrevivo, e como que lhe põe na alma, que no verso extravasa, e nas motivações de que se nutre, uma saudade carregada de raízes e sementes, como as águas que atravessam as florestas envelhecidas, - ou como se alma do outro estivesse rebentando do chão nativo, e brotasse e florisse de nôvo. Assim é que tinha de ser, porque Nogueira Leiria e Aureliano Pinto foram irmãos de coração e pensamento, de convivências e vivências, gerados na mesma paisagem matriz, e na mesma época, - e beberam juntos o leite da mesma história, - tal como, lado a lado, e deitados na areia, sorveram, de bruços pelas tardes de estio, as águas mansas dos arroios que as árvores escondem e perfumam. Por anos a fio, de fato, hauriram, na contemplação e nos gostos comuns as mesmas sensações do tempo e do espaço, - e lado a lado, contemplaram os cosmoramas de verdura e sol, as borrascas nas invernias, e os requeimados pastos amarelos dos mormaços, nas estiagens; e assim ergueram, muitas vêzes, as suas orações de fé gaúcha, cavalgando nos descampados solitários e avoengos, - onde cada coxilha é um altar, para as grandes devoções que se devem as façanhas heróicas, e aos exemplos atávicos de grandeza, honradez e ombria. No “Armorial”, de Aureliano, como nos Rincões, de Leiria, - a estância é o tema dessas tertúlias cultuais, e da sensibilidade, - e que outrora animavam o contentamento e a simpatia das presenças humanas, no plano físico, - e agora, depois da separação definitiva, na morte de Aureliano, ressurgem, murmurando e fremindo, nos versos daquele que se foi, e nos deixou a sua canção, - e continuam nos versos do outro que está ainda modulando o seu canto, semelhante à linfa das fontes, que parece cantar desde o fundo da terra, ou desde as raízes do tempo, e canta sempre, como se nunca houvesse começado ou devesse acabar. No Canto ao Ibicuí é audível a voz dêsse encontro; é o que vemos, quando o poeta dos “Rincões” repete, de modo ostensivo, no soneto V, o poeta do Armorial, e como que embarca em suas evocações, fazendo que os versos adormecidos no seio da noite, saiam da sua praia silenciosa, e resvalem para as vagas, e retomem a fôrças dos ventos vivificantes da memória em que ressoam, como, nas eras remotas, os navegantes do Mar Arquipélago retiravam da areia os seus barcos, ao nascer do sol, para recomeçar a viagem que poente havia interrompido. Todavia, a semelhança que há na poesia de um de outro, é apenas essa das motivações; e o que parece modificá-los, mesmo, são os motes vivenciais – as iguais lembranças, da idêntica vida, de um só rincão inefável. Entre êles, o que há de impessoal e neutro é a história, que envolve os fatos individuais e humanos, e a paisagem – a terra, o céu, os campos, os rios, as chuvas, as invernias, s primaveras, os verões, os outonos, - os animais. Se fôsse possível falar aqui de ecologia poética, a título de hipérbole, eu usaria esta palavra, para definir a natureza e a vida, nas inter-relações de Rincões e Armorial, através do meio ambiente, e num momento determinado. Talvez tenha sido a mesma sugestão causas à simultânea presença dos poetas. Quem sabe, as suas almas se enriqueciam da mesma eclosão interior. Ou por certo, desabrochavam juntas, à luz dêsse renascimento, que dir-se-ia vir do chão e dos ares, porque era uma inspiração, das mesmas origens, do mesmo habitáculo, dos mesmos estímulos, e também do mesmo sangue. Sim, deve ter sido isso que os geminou e uniu, afetiva e intelectualmente. E cabe insistir na sua participação colateral das alegrias e das tristezas da estância. E a vida de cada um, e o mundo comum de ambos, desencadearam, e mantiveram, tornaram, depois, indeléveis, o afeto, a ternura profunda, o entendimento harmonioso, de uma irmandade moral, muito mais influente e persente, talvez, que os elos da consangüinidade, Aureliano pôde, portanto, ver, amar e expressar o Rio Grande, de uma forma, e o peta dos Rincões de outra, - e o que nos deram, os dois, de volta, e valorizado, foi o próprio Rio Grande, - um Rio Grande só e único, e igual, e melhor e maior. E eis está a verdade! J.O. Nogueira Leiria conseguiu apresentar-nos, - de nossas tradições novas e velhas, - uma interpretação tão viva quanto vivida, e tão cheia de poesia revelada, quanto aquela de sua própria beleza. Tal fôra, também, o Rio Grande de Aureliano. E no entanto, o Rio Grande que estua, agora, nos versos de Leiria, e que poderia ser tido por semelhante ao do outro, - como nós mesmo o admitimos já, neste paralelismo de sua poemática, - tem a marca típica do autor, - pertence a uma personalidade que existe e vê, e pensa, e sente por se. São novos entonos, impulsos novos, - visões novas. É um Rio Grande poético, recreado, - e o poeta o vem trazendo pela mão, das lonjuras frias do tempo, e lhe infunde o calor de sua inspiração, - e no alto do seu repecho de ritmos, lhe mostra os caminhos radiosos ou bravios por onde veio. É o filho piedoso e comovido que afaga e acalenta na alma, - essa estufa, essa lareira de emoções, - o pai, reanimado pelo amor de sua progênie; ou é como se o Rio Grande, num milagre germinal da primavera que retorna, saísse de sua noite, por entre clarões da história, que a memória dos pósteros ateia. Que eterno, indormido fascínio é êsse, inexausto, do povo e da terra do Rio Grande! E que fôrça de atração e sedução nos vem do seu passado! Não sei que região do Brasil experimente, como nós, rio-grandenses experimentamos, um sentimento igual, de afeição quase carnal, pelos seus ancestrais, pelas ações nobilitantes que êles praticaram, pelos fastos que êles viveram, pelos costumes de seu tempo! Esta constante dedicação afetuosa, por coisas e sêres extintos, situações e circunstâncias remotas, tem muito de telúrica, e muito de primitiva; e dir-se-ia que o rio-grandense está impregnado, no coração e nas lembranças, de um aromático sabor de terra e folhagens, - como se houvesse participado, na sua antiguidade, ou na sua pré-história, das próprias fôrças da natureza; e ainda é como se o cheiro de pólvora e o relâmpago das descargas, nas batalhas se prolongassem no tempo, e houvesse uma filogênese hereditária. Vivi eu mesmo, os dias da minha infância, - todos êles, - e parte da adolescência, - ao contato diário das coxilhas gaúchas e dos pampas uruguaios, - e assim me adestrei, desde tão longe, nas calmas ou violentas lides da estância, e pude, então, recolher, para as minhas tendências formativas, - no curso dêsse período de aprendizado agreste, - nem sempre ameno, e nunca vadio, - as sensações que se recalcam e sedimentam, - e que até hoje afloram, neste sentimento da gente e da terra em que nasci, e que é, em mim, tão profundo e, por igual, tão epidérmico. Chego a supor, em minhas reflexões, que o fogo sagrado, a sobrevivência das tradições gaúchas, não é feita só de lembranças e recordos, senão ainda, e, quem sabe, principalmente, pela beleza da terra, que persiste, agora como há duzentos anos, e de onde, vem a sensação de euforia e otimismo da côr verde-amarela, - e pelos vastos campos, sem fim, batidos pelos ventos, e de onde irrompe, como de um nobre exemplo, a consciência da liberdade. A bela terra variegada e sadia, as dilatadas planuras ondulantes, os ventos soltos, e dentro disso e com isso, as velhas estradas, os largos e rasos rios de mil voltas, com suas areias e os seus matos, - tais foram as fontes antigas de altaneira, segurança, dever e devaneio, que moveram os gaúchos de outro tempo; e tais são essas ainda, em nossos dias, as fontes inalteráveis, que perduram, e que despertam no rio-grandenses atual, - mesmo que êle, por acaso, não seja mais gaúcho, - as inclinações, prazeres e impulsividades de eras transatas. Dessa forma a base material da tradição, ou criadora das causas da tradição, não sofrem a derelição dos séculos, não se erodiu, não se desfez e não se sepultou; e inspira, diretamente, - palpitante e real, - hoje, como inspirava ontem. Os gregos e os romanos no século XX se exaltam com o seu passado, quando contemplam os templos e os monumentos vetustos e semidestruídos da sua grandeza de dois mil anos; mas nós, rio-grandenses, não precisamos olhar, melancólicos, as taperas ou tijupares das estâncias mortas, porque temos diante de nós, para a revivescência do orgulho e da galhardia gaúcha, monumentos muito mais eternos, e muito mais estimulantes, e sugestivos: temos as várzeas e as coxilhas, os minuanos e as primaveras, as larguezas e as solidões, os silêncios e as quietudes, a floração e as côres do passado, - exatamente como foram, - e que encantam, como encantavam. Filho dessa incomparável natureza, e participe daqueles hábitos campeiros, - de tanta poesia, - bem posso entender, - por assim dizer – na sua gestação, - a obra dos poetas regionalistas, - quando o são, com efeito, - porque identifico logo a sua autenticidade, nessa mistura de melancolia egraça, soberba e franqueza, arremêsso e contemplação, que são conaturais, congênitos, em sua poesia, e se transferem, instantâneos, à minha atenta e receptiva apercepção. Isso fêz que os poemas de Rincões passassem, imediatamente, a ser meus nesse intercâmbio espoliativo, incontrolável, e mesmo impressentido, que se opera em tôda comunicação artística, e de que a música, e o seu irmão gêmeo, o poema, nos oferecem os exemplos mais comuns, ou mais freqüentes. Eis ainda porque, ao tentar falar dos Rincões, de Leiria, me sinto à vontade, e é como se falasse de mim próprio, - quero dizer – dos meus versos, feitos por outrem.
    Entretanto, a poesia regionalista é tanto mais válida, quanto mais difícil, - pois, nada é mais ilusório, às mais das vêzes, do que o regionalismo literário, - em muito casos – artificioso e não artístico, - e sempre, na hipótese

         a.2) Cyro Martins
         Só agora me foi possível destinar uma tarde para vaguear pelos Rincões Perdidos do poeta amigo, do poeta irmão, João Octávio Nogueira Leiria. Sob o signo da sua mensagem, fui aos poucos me embrenhando na vastidão querida dos campos abertos das suas saudades, que sã minhas também e de tantos outros. Seu  canto é simples e nasce sem esfôrço, não obstante a forma preferida, o sôneto, em geral tão sofrido!
         O quotidiano da Estância Velha, aquela que nutriu de sugestões poéticas impericíveis a imaginação do guri solito, jamais foi cantado com a autenticidade, com o suave desdobrar dos temas, com o acêrto de linguagem, com a trenura e ao mesmo tempo com a inquietação criadora de quem na verdade está acenando muito mais para os fantasmas de dentro de si mesmo  do para a fachada sobranceira que alembrança divisa  na distância. E por isso o poeta nos leva fácil pelas suas veredas. E à medida que nos aprofundamos nos quarenta e cinco sonetos que integram o ciclo de Estância Velha, a nossa fantasia também se povoa e também se enriquece de vozes, das figuras, dos gestos, das inflexões, dos cenários, seguindo a pauta de seu ritmo interior, afloram devagar das sombras do passado, entregues à ternura da evocação lírica. A oesia de Nogueira Leiria não seduz pela estranheza, por isso à primeira vista não parece grande. As obrigações do sôneto não o impediram de acertar os passo do seu canto pela modulação que lhe é própria. E mais: guiado pelo sentido teelúrico genuino, em nenhum momento dêsse canto grande perdeu o fôlego autóctone nem a sua voz nativ se artificializou, cedendo a exigências da técnica do verso. Não, aqui, essência e forma marcham parelhas, com rumos certo, o daqueles subjuntivos rincões perdidos, evocados através de duma visão retrospectiva, que tem sobretudo um sentido reparador. as vivências mais dramáticas da infância do poeta seguramente estarão lá, nos anseios insatisfeitos daquela idade, encobertos pelas imagens campeiras, revividas no plano poético sob o alento que lhe vem da terra.
            Penso que o sonetos que compõe o ciclo Estância Velha devem ser lidos de uma só vez. Desengastar qualquer um dêles do conjunto será talvez perpetrar uma arbitrariedade. E devo insistir ainda na sobriedade do poeta, que não se desmancha em soluços de saudades ante as ruínas da Estância Velha. Individualmente, seu canto traduz uma atitude nostálgica, sua posição diante da vida. Como poeta da sua gente, seu verso enfuna em um protesto sentimental.
              Em Estância Velha domina a singeleza. No Canto ao Ibicuí - composto de sete sonetos – impera o tom austero, num fluir livre e generoso á medida que se interna na sua história íntima do Ibicuí. Mas é nos poemas Tirana e Teiniaguá, Negrinho do Pastoreio, Boi Tatú, Boi Barroso, Sepé Tiarajú, Alma Penada e Querência que a pureza lírica do poeta Nogueira Leiria se desata na plenitude da sua luz e da sua graça criadora. Vibre o meu possível leitor com estas amostras:

De Tirana:
Tirana, tira teu corpo
de perto da minha mão . . .
És como o fruto que foge
No galho que se balança
depois de tocar no chão.

De Teiniaguá:
Oh! Teiniaguá, que perigo
só no teu beijo pensar!
Teu seio é bem como um figo
Cheio de leite lunar . . .
Renuncio. Não prossigo
no sonho de te alcançar.
Mas viva sempre comigo
Teu sortilégio lunar! . . .

De Negrinho do Pastoreio:
Monta no baio ligeiro.
Vamos, agora que és santo
E todos erzam por ti:
A graça do formigueiro
Renova por teu encanto
Em troca do que eu perdi.

De Boi Tatá:
Oh! Boitatá que arrastavas,
entre rasteiras carquejas,
o teu lívido clarão
de chamas verdes e flavas,
símbolo rude que sejas,
fosforescente ilusão . . .

De Boi Barroso:
Riqueza do deserdado,
fortuna que o sonho dá,
o boi barroso escapado
um dia se alcançará . . .
 

     Sem que a vá buscar artificiosamente na tradição, nos costumes ou na história, para depois enxertá-la como ornamento retórico do verso, a vivência campeira atua na sua poética como elemento genuíno, como sombra da sua pena – acompanhante inefável! Não quis o poeta, na sua obra, ir além dos horizontes dos pagos. Mas nem isso se tornou um descritivo localista. O fundamental,  caracteristíco em J. O. Nogueira Leiria é a presença da nota lírica insinuada na elaboração dos elementos poéticos de suas vivências telúricas.
 

     b) Martín Fierro
        b.1) Gomez del Arroyo

          Nogueira Leiria,
          A Querência e Martín Fierro
          Minha amizade com João Otávio Nogueira Leiria atravessou, serenamente, toda uma existência. Teve início quando, ainda adolescentes, estudavamos em Porto Alegre, cimentou-se nos gratos anos de convívio em sua terra natal, onde levado por ela, fui exercer a medicina; continuou ao firmarmos pouso em Porto Alegre. E perdura na saudade.
           A querência do poeta, São Francisco de Assis, hoje em pleno surto de progresso, era, então, uma vítima hidrográfica: os caudalosos rios que a circundam e cortam – sem as pontes que atualmente ostentam – deixavam-na isolada nas freqüentes cheias. Alguém, naqueles idos, dedicou-lhe, com afeto, uma síntese lúdica:

Ó saudosa cidade de São Chico:
a praça, o clube, em certo mexerico;;
naipes, carreiras, canha, carnavais;
uma que outra caçada ou pescaria:
a prosa e os poemas do Leiria;
uns tirinhos à noite e . . . pra que mais?

            Naqueles “RINCÕES PERDIDOS”, nosso poeta, com o dom de fazer e congregar amigos, era, sem percebê-lo, o eixo de surpreendente atividade intelectual, da qual participavam assisenses como Antero Marques, Benjamim Leitão, Tirteu Rocha Viana, em comunhão com notórios elementos dos pagos lindeiros: Aureliano de Figueiredo Pinto, Oneron Dorneles, José de Figueiredo Pinto, José Leal Filho, Rui Ramos e tantos outros, por vezes em reuniões alegradas pelo violão de Túlio Piva.
           Foi lá, às margens do Inhacundá, que o autor de CAMPOS DE AREIA decidiu encetar a imensa tarefa de traduzir  Martín Fierro, a obra imortal de José Hernández, marco “señero” da literatura-argentina. Trabalhou anos a eito, sondando ritmos, pesquisando minúcias, clareando acepções, no empenho de ser fiel ao espírito hernandiano. Desde o primeiro verso traduzido, tive a prerrogativa de testemunhar seu extremoso cuidado em unir arte e fidelidade.
            Era um prazer ouvir sua voz, com entonação cadenciosa, valorizando a sonoridade máscula das estrofes, o imprevisto e acerto das imagens, a sabedoria e bravura do herói-matreiro. Vinham, depois, os comentários: compreendíamos a lei de Martín Fierro, lei da honestidade natural, às vezes bárbara, enfrentando a lei dos interesses criados, não menos bárbara; luta de incompreensões e violências, em desfavor do mais fraco. Mais fraco em poder, não em senso inato de justiça. Sentíamos a clara atualidade dos conceitos, a constituir o maior acervo de filosofia vivencial do homem dos pampas.
            Martín Fierro foi o inconformado. Este gaúcho andarengo é contestação secular. Decorridos cem anos – ressalvadas as diferenças de época e as peculiaridades ambientais – ainda se afigura viva a luta do homem telúrico, visceralmente honesto, em conflito com as estruturas dominantes. Aí reside o sintonismo universal de Martín Fierro e sua contemporaneidade através de gerações. Prova é o entusiasmo de Leiria, rubricado pela extensão plurinacional das comemorações do centenário da primeira edição, nas quais se integra o Rio Grande do Sul  ao lançar esta magnífica tradução.
            Acompanhando Martin Fierro ao longo de suas peleias e vicissitudes, nem sempre lhe aceitamos as reações, mas o respeitamos sempre. Martín Fierro não compreendia nem tolerava o mínimo cerceamento na liberdade plena. E reagia, em resguardo de sua verdade primitiva. Não cabia a ele compreender: aos de cima cabia compreendê-lo.
           Assim pensávamos. Assim penso.
           A.A. Gómez Del Arroyo
           P.A., Outubro de 1972
 

           b.2) Salgado Martins

           NOGUEIRA LEIRIA E A TRADUÇÃO DO MARTÍN FIERRO
           Cabe aqui, à guisa do prefácio, breve retrato da personalidade humana e literária do tradutor brasileiro do poema campeiro de José Hernández. Penso mostrar como o seu feitio de espírito e os seus atributos e circunstâncias pessoais o habilitavam plenamente à realização de tão árduo e delicado trabalho.
          Conheci João Octavio Nogueira Leiria, recém saído da adolescência, lá pelo ano de 192, quando morava, como era habitual, in illo tempore, num pensão de estudantes, à Rua Lima e Silva, então designada pelo antigo nome de Rua da Olaria.
         As mesmas preocupações de ordem intelectual e política e, principalmente, o gosto pela literatura regional nos aproximaram me nos fizeram amigos, com a espontaneidade e a efusão tão próprias daquela fase da existência.
         Envolvia a nossa geração um clima espiritual de efervescência política e literária. A primeira em conseqüência do ciclo das revoluções brasileiras que se iniciaram em 1922, com o levante da mocidade militar e com o feito agora legendário dos heróis do Forte de Copacabana. No ano seguinte, em 1923, o contágio revolucionário chegaria ao Rio Grande do Sul. E reuniria, em torno da mesma bandeira, os maragatos1 de 93, os dissidentes do Partido Republicano histórico, os remanescentes do Partido Democrático, fundado por Assis Brasil e Fernando Abbot, em 1908, e quantos aspiravam a reforma dos costumes políticos, desencantados com o presidencialismo personalista e autoritário em que degeneravam as primeiras instituições republicanas.
             Por outro lado, como expressão da mesma inquietude, a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, proclamara a Revolução artística e literária.
             Sob a sedução da literatura, em cujos horizontes divisávamos o mundo da fantasia por sobre os aspectos prosaicos da vida, e ainda interessados pelo problema político, pouco tempo nos sobrava para a rotina do estudos que nos levariam ao curso jurídico.
            Originário da campanha gaúcha, nascido na cidade de São Francisco de Assis, Nogueira Leiria denunciava, de logo, a origem campesina a que se apegava amorosamente.
            O município que lhe serviu de berço natal, está encravado numa região intermediária enter a chamada Depressão Central, por onde se estende o pampa rio-grandense, em demanda do Sul, e as terras missioneiras, ao Norte e a Oeste. Trecho de campos e coxilhas, cortado por inúmeros arroios de águas limpas, entre o rio Itú, ao Norte e Noroeste, separando-o dos municípios de Santiago e Itaqui e os rios Ibicuí e Jaguari-grande, ao Sul, dividindo-o de Alegrete e São Vicente. É uma paragem de transitação, não só pelo relevo do solo, mas ainda por outros aspectos fisiográficos, a participar de duas regiões, e da Campanha e de Missões.
            O habitante da campanha assisense possui, também, na alma crioula, manhas de missioneiro e arremessos de fronteirista.
             Órfão de mãe, ainda na infância, foi alvo especial do carinho paterno. Muito cedo se tornaria exímio campeiro. Sempre na companhia do pai, viveu os primeiros anos na estância do Recreio, cujos campos de areia marcaram a sensibilidade do poeta. Mais tarde, transferido para a Fazenda da Boa Vista, no mesmo município, teve a cercá-lo campos de pastagens finas, menos tristes que os seus campos de areia.
             Quando mais crescido, passou a acompanhar o pai, nas andanças e tropeadas, especialmente pela região das Missões.
             Cruzou e recruzou, ainda gurisote, no lombo do cavalo, o vasto território que se estende das areias brancas do Ibicuí às barrancas do Uruguai. Conheceu a campanha gaúcha na moldura do seu ambiente geográfico e ecológico, sob a variante das estações e dos diferentes matizes que o dia ou a noite imprime na paisagem. E ainda no colorido e no pitoresco de sua vida e costumes.
            Quantas vezes, em comunhão com a terra querida e sob o solo sentido mágico da alma de criança, não lhe teria confidenciado os sonhos, as tristezas, o sentimento de solidão e desamparo na imensidade deserta do pampa?
           Poder-se-ía dizer de Nogueira Leiria que ele encarnava aquele personagem de Alma Bárbara, de Alcides Maya, o qual sempre fora um espelho de seus pagos, conhecidos por ele, desde criança, passada a passada a cavalo. Entre a sua pessoa e as coisas e os seres circunstantes havia uma parecença que ía do físico ao moral. Apesar da linha de destaques das coxilhas, impondo ao vivo os perfís, e do traço inconfundível de cada qual nos descampados, o gaúcho e a campanha se confundem numa semelhança impressionante, de figuras e de plano.
            Na ternura com que introvertia em si mesmo a querência, havia algo do amor materno que cedo perdera. E no culto que lhe consagrava haveria um retorno à sua origem, uma reintegração no mais íntimo do ser. Por isso, ele tinha “rincões perdidos” na alma dorida.
            Em 1923, sua terra natal fora cenário de luta cruenta em que homens morreram na defesa de idéias políticas.
             A guerra civil que o surpreendera ainda adolescente e da qual participaram seu pai e seus tios, deixou na sua retina e na sua alma os laivos do sofrimento e do heroísmo.
             Toda a experiência vivenciada pela criança e pelo adolescente, sensíveis e imaginativos, tanto nos momentos de paz como nos de guerra, ao longe dos caminhos desertos e no trato com os homens e no contato com outros seres do campo, impregnaria mais tarde o seu estro poético.

Pequeno herói participante
do concerto selvagem da tua vida,
apartaram-me um dia da querência . . .
Retovaram-me na vida de outros meios
entre os homens injustos,
para as horas amargas
que fizeram me lembrar de ti,
que estavas longe . . .
que me fizeram me lembrar de mim,
que já fui outro . . .
Mas te recompus aumentando pela fé de meu amor! . . .

         A sua poesia está assim saturada por todos os motivos que o campo e a querência sugerem ao espíritos dotados de aguda intuição e de poder criativo, capazes também de interpretar os sentimentos mais profundos de sua gente, sem  nunca perder a nota pessoal.
       Le dire du poéte consiste pour lui à surprendre ces signes, pour ensuite faire signe à son peuple. Cett surprise des signes est une réception, mais c’est en même temps aussi un nouveau don; car dans le “premier signe” le poéte discerne déjá aussi l’Accompli, et met hardiment dans sa parole ce qu’il a aperçu, pour prédire le Non-encore-accompli.
        Há algumas coincidências que me parece interessante ressaltar, entre a vida de José Hernández e a daquele que lhe traduziu os versos para a nossa língua.
        Também o imortal autor de Martín Fierro ficou órfão de mãe, aos nove anos de idade. Y su padre, mayordomo en establecimientos ganaderos de Rosas, como escreve um de seus biógrafos6, se lo lleva com él a las últimas estancias del sur de la provincia, lejos de la vida urbana y más lejos aún del mundo literario al que había asomado sus ávidos ojos precozmente . . . Todo lo que la pampa encierra se va filtrando lentamente en su espíritu, hasta identificarse com él.
        Apesar da vida tumultuária e aventurosa de Hernández que lhe não permitiu estudos regulares, alcançou ele bom nível cultural. Foi periodista, orador, pregador de avançado ideário político, no seu tempo.
        Nogueira Leiria era bacharel pela Faculdade de Direito de Porto Alegre. Jornalista, orador, ensaísta e poeta. Sabia tanto versejar na linguagem rude dos payadores, como na língua culta e apurada das academias e dos salões.
        O verdadeiramente os aproxima é a identificação entre o poeta e a vida campeira, a integração íntima entre os motivos e a alma que os interpreta. Por isso ambos são expressão do seu povo. Contudo, o gaúcho que se reflete no poema de Hernández não é o mesmo gaúcho que palpita na obra original de Nogueira Leiria (Refiro-me aos livros do poeta rio-grandense: Campos de Areia e Rincões Perdidos).
        Vai uma sensível distância entre o gaúcho argentino e o gaúcho rio-grandense. Diferenças de psicologia e de visualização do mundo, sob os condicionamentos de raça e de circunstâncias histórico-culturais em que ambos surgiram.
        Imagino quanto de engenho e mesmo de inspiração poética não custou ao tradutor para vencer as dificuldades da tradução. Somente a sua vocação, a sua intuição, a sua vivência dos motivos e dos temas gauchescos, a par do conhecimento profundo da vida e dos costumes da gente de nossa campanha, permitiram que levasse a bom termo a bela aventura literária. Pois, a tanto, isso importou pelas perplexidades perante as quais, não raro, se deteve para depois superá-las.
         Martín Fierro está escrito em lingua rústica, mistura de arcaismo espanhol e de vozes indígenas americanas. Esse modo de falar, primitiva herança  dos colonizadores, se conservou nos pampas argentinos e se transmitiu de pais a filhos até o desaparecimento do gaúcho, como tipo pertencente a um estágio social já ultrapassado.
          Augusto Meyer o imortal poeta e ensaísta rio-grandense referindo-se a que todo escritor é também uma espécie de tradutor e intérprete; nem sempre é capaz de encher uma página sem a colaboração da memória literária, realça, quando trata da tradução propriamente dita: Na verdade, a nobre arte de traduzir com fidelidade exige outra disciplina: o respeito ao modelo, a modéstia, a paciência inesgotável, a intuição das transposições de valores estilísticos entre dois idiomas, o faro das analogias o gosto da simetria, o cuidado de não exagerar a versão para a própria língua, a ponto de apagar inteiramente o sabor do original.
          Estes canônes a que deve obedecer o tradutor revelam por si só as dificuldades do ofício e explicam porque tantos naufragam e se perdem na travessia tormentosa de uma para outra margem, isto é, de uma língua para outra, sempre diversas e com propriedades peculiares, porque nelas se encontram todos os segredos do modo de sentir e de pensar de um povo.
         Fácil, pois, não foi o trabalho do nosso Nogueira Leiria. Bem ao contrário. Cheio de sutilezas não só quanto ao artefato poético mas também porque nem sempre o linguajar dialetal do gaúcho argentino encontraria forma correspondente na linguagem do nosso gaúcho, ainda sob este aspecto bem distinto daquele.
         Não obstante a fidelidade ao modelo, pode-se dizer que Nogueira Leiria acrescentou algo que aprimorou o poema de Hernández.
         Transportando-o para a nossa língua, ainda que acolhendo certos vocábulos ou expressões dialetais do gaúcho, o poema tornou-se mais límpido, menos rude. Pois, como reconhece a crítica argentina mais ponderada, os versos de Hernández não se filiam a alto padrão literário. Luce el poeta más ingenio que genio, no dizer de Carlos Bunge. A meu ver, a virtude maior de José Hernández consiste no haver sido ele o rapsodo do gaúcho e do pampa argentinos, entre os primórdios e o começo da segunda metade do século XIX. E isso basta para consagrá-lo.
          O aparecimento de Martín Fierro em língua portuguesa é acontecimento de ímpar significação, na literatura dos dois grandes países: a Argentina e o Brasil.
          Documentos literários como este, aproximam mais que os tratados políticos assinados de governo a governo. Porque nos versos de um poeta ou numa página literária em que se fixam aspectos comuns a dois povos, ambos comungam em sentimentos que nascem da emoção estética, ao calor de motivos profundamente enraizados no coração humano.
           Infelizmente, a morte apartou de nós o grande poeta que incorporou à nossa língua e à nossa literatura gauchesca o imortal poema de Hernández, onde vive na sua pureza a gesta do gaúcho argentino.
           Não pode, ele, participar deste momento de glória literária. Mas o livro, que encerra a inspiração dos dois aedos da região meridional do nosso Continente, fala por eles e os representa nas comemorações de que é motivo central o centenário do aparecimento de Martín Fierro.
           José Salgado Martins
           P.A., Setembro de 1972

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