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Ernani Fornari: poeta e dramaturgo (1899 - 1999)

         Para a vida literária de um povo é importante recordar os escritores que abriram novos caminhos no decorrer de um século, cujo arte sobrevive. Entre as figuras notáveis no Rio Grande do Sul está ERNANI FORNARI que neste ano celebra o 1º Centenário de nascimento.
         1- Traços biográficos
         Ernani Fornari, filho do imigrante italiano, Aristides Fornari e de Maria do Carmo Guaragna Fornari, nasceu a 15 de dezembro de 1899, em Rio Grande, onde seu pai se radicara. Aí realizou os estudos primários, na "União Operária", estudos que completou em Porto Alegre e Garibaldi nos Ginásios Nossa Senhora das Dores e Anchieta, instituto Santo Antônio, dirigido pelos Irmãos maristas. Em 1931, matriculou-se na Faculdade de Direito de Pelotas, cujo curso não concluiu.
         Antes de ingressar na imprensa, como jornalista, Fornari dedicou-se ao desenho e à ilustração. Usava, então, os pseudônimos de Xisto, Neno e Fábius.
         Em 1923, quando estava para incorporar-se à equipe redacional do Correio do Mercantil, de Pelotas, publicou seu primeiro livro de poesias, Missal da Ternura e da Humildade, logo saudado pela crítica rio-grandense. Mais tarde, entre 1924 e 1935, dirigiu, em Porto Alegre, a revista Máscara e trabalhou em diversas revistas e jornais gaúchos como Diário, Revista do mês, Diário de Notícias, Jornal da Manhã, Revista do Globo, etc.
         Transferindo-se para o Rio de Janeiro, Fornari, paralelamente com suas funções de Secretário Geral da Agência Nacional, colaborou em numerosos órgãos de imprensa e foi fundador e primeiro diretor da revista "Cocktail". Internacionalmente o literato gaúcho projetou-se, graças à apresentação de diversas peças suas no exterior, à sua atuação como 2º Secretário do Instituto Brasileiro para a Educação, Ciência e Cultura (Comissão Nacional da UNESCO) e ao trabalho que realizou no setor cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, na gestão do Embaixador Olegário Mariano.
         Ernani Fornari construiu uma fecunda obra literária, onde se destacam os livros de poesias: Praia dos Milagres e Trem da Serra (além do já citado Missal da Ternura e da Humildade); o romance O Homem que Era dois; a novela Enquanto Ela Dorme; a seleção de contos Guerra das Fechaduras; a obra paradidática O que os Brasileiros devem saber; a biografia O Incrível Padre Landell de Moura; e especialmente, as peças teatrais Nada!, Iaiá Boneca, Sem Rumo, Quando se vive outra vez e Sinhá Moça Chorou. O escritor era membro de várias sociedades culturais e profissionais (como o Pen Club do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa, etc) e conselheiro vitalício da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Deixou inéditos: Teoria da Bengalada, um livro de contos, Quatro Poemas Brasileiros, uma seleção de poemas e Os Filhos Julgam, um drama teatral.
         Passou os últimos anos, em Petrópolis, foi filiado ao Lions Club local, era sócio proprietário do Serrano F.C. e freqüentava diversas agremiações culturais como a Academia Petropolitana de Letras, SPAC, etc. Em 1963 foi escolhido como o Melhor Autor Teatral do Ano, em uma promoção da imprensa local.
         Estava aposentado do Serviço Público Federal desde 1960, e dedicava seu tempo à revisão de sua obra literária.
         Faleceu na madrugada de 8 de junho de 1964, no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, após ter vivido e sido intensamente poeta, romancista, teatrólogo e homem de imprensa. Teve as melhores manifestações de apreço dos homens de Letras ao ser levado à sepultura, no Cemitério São João Batista.

         Dramaturgo
         O pai, Aristides Fornari, havia-se dedicado às lides do circo e do teatro. O filho com o andar dos anos, dissimulou a força poética em dramas e comédias.
         No ex-libris das obras teatrais aparece a sentença de Cícero, do livro De República, (liv.IV,XI): Comoedia esse imitatio vitae, speculum consuetudinis, imago veritatis.
         A cronologia das obras de teatro: 1937 - Nada!; 1938 - Iaiá Boneca; 1941 - Sinhá Moça chorou; 1947 - Quando se vive outra vez; 1951 - Sem Rumo. Tiveram mais sorte e fama as produções de 1938 e de 1941.
         O entrecho da peça Nada! foi tirado de um poema em prosa do próprio ERNANI, intitulado Destinos Malditos, publicado no livro de versos - Praia dos Milagres, em 1932 Jayme de Barros refere-se à peça Nada! com a crítica:
         "Quem admirar a inteligência, prezar a cultura, admirar a arte deve ir ao teatro Carlos Gomes ver o grande drama Nada! Nunca o teatro brasileiro terá atingido esferas tão altas do pensamento, com tamanha penetração psicológica e tanta força dramática. Poeta de boa formação, novelista de mérito, ainda assim não se poderia imaginar que Ernani Fornari se colocasse, de súbito, tão alto entre os poucos dramaturgos brasileiros."
         Henrique Pongetti dispensa-lhe não menores elogios:
         "Escritor dos mais brilhantes e figura de grande prestígio na literatura nacional, só agora nos deu, com a peça Nada!, o seu primeiro trabalho para o teatro, trabalho esse que pode ser classificado, sem favor, de genial, pois, conseguiu apresentar uma comédia que é, antes de tudo, de um realismo que empolga!"
         Iaiá Boneca, peça em quatro atos, foi representada, pela primeira vez no Teatro Ginástico, do Rio De Janeiro, na noite de 4 de novembro de 1938, pela Companhia Brasileira de Comédia, sob os auspícios do Serviço Nacional do Teatro, sob a direção de Oduvaldo Vianna. A peça baseia toda a sua ação em episódios do Brasil Império, num engenho de açúcar, nas cercanias do Rio de Janeiro, no ano de 1840, durante a campanha da maioridade de Dom Pedro II.
         Sinhá Moça Chorou ... , dedicada ao eminente historiador, coronel Souza Doca, meu amigo, mereceu grande prêmio hors concours da Municipalidade de Porto Alegre e Medalha de Mérito de 1940, da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A peça volta à história da primeira metade do século XIX, em 1834, em Porto Alegre, quadros 1º e 2º; em 1839; em Camaquã, quadros 3º e 4º; em 1845, retorna à Capital da Província, quadros 5º e 6º. A crítica altamente favorável à comédia. Viriato Correia, em discurso proferido na Academia Brasileira de Letras emitiu o parecer:
         "Ernani Fornari é uma das mais brilhantes vocações teatrais do Brasil de todos os tempos, e Sinhá Moça Chorou ... uma das comédias mais belas que se tem escrito, no país."
         Ruggero Jacobbi, publicou na Folha da Noite, de São Paulo:
         Na palestra conclusiva de nosso curso sobre dramaturgia contemporânea, no Museu de Arte Moderna, já apontávamos o teatro de Ernani Fornari como, provavelmente, o mais sólido, elegante e bem acabado entre todos da mesma época. Ingênuo é o mundo nele representado; hábil é o tratamento dramático, todo baseado no essencial, sem dispersões analíticas mas pitorescamente descritivo e suavemente poético.

         O poeta
         Dedicamos o nosso estudo ao livro TREM DA SERRA, 1ª edição em 1928, com a capa de Fernando Corona, reproduzida na 2ª edição, por nós organizada em 1987, publicação da Livraria Editora Acadêmica Ltda.

         A Poesia de Ernani Fornari
         A pessoa maravilhosa que foi ERNANI FORNARI leva-nos a tê-lo perto mesmo depois de quase sete lustros de sua partida. A sua vida foi um grande poema expresso em diversos gêneros: lírico, dramático, épico, cômico, conto, biografia, sempre poeta que ele assim definiu: "Poeta - voz de uma alma que dá voz a outras almas."
         Em toda a sua trajetória de sombras e de luz, jamais esqueceu o berço humilde, conforme declarou: "Eu jamais cairei, mesmo quando cair, pois não há queda para mim. Haverá apenas retorno ao meu verdadeiro lugar. Sou um operário que subiu. Ao descer, continuarei operário."
         A maneira curiosa dele ver a situação social, sem antagonismos, sem demagogias assim a expressou:
         Como não é provável que todos caiam, e menos ainda que subam, só existirá equilíbrio social no dia em que os que estão ‘em cima’ olhem para baixo - e não sintam a vertigem das alturas - e os que estão ‘em baixo’ olhem para cima - e não sintam a humilhação das profundidades. Impossível!
         Essas frases soltas mostram as facetas da personalidade de ERNANI FORNARI.
         Entre as suas obras literárias destaca-se o livro de poemas TREM DA SERRA com o subtítulo, "Poema da região colonial italiana", publicado em 1928 pela Editora Globo. Ao morrer deixou preparada a 2ª edição, cujo texto ora publicamos.
         Ernani Fornari havia estreado na poesia com Missal da ternura e da humildade em 1932. Cinco anos depois dava um passo mais significativo dentro do modelo modernista, embora não tivesse alcançado a ressonância que esperava. Trem da Serra é um livro com grande força de originalidade, concebido e realizado como película de cinema Pathé Baby, em moda naquele tempo.
         Iris Körbes encantou-se com a poesia de Ernani Fornari e resolveu em 1983 realizar a dissertação de Mestrado na UFRGS sobre o Trem da Serra. Conseguiu de Dona Lorena, os originais da 2ª edição de Trem da Serra, que chegaram dessa maneira às nossas mãos. Lendo e relendo os poemas notamos o grande afeto do poeta pela cidade de Garibaldi, onde estudou no tradicional Instituto Santo Antônio, onde veio a trabalhar, onde veio veranear ... Garibaldi está representado em vários poemas onde se sente o amor e a vibração por essas paisagens, por essas ruas, pelo Colégio, pelo Convento dos Capuchinhos, pelo vetusto hotel Faraon, pelos vales daqueles horizontes sem fim, pelas pessoas que aí andavam.
         Garibaldi pátria das minhas primeiras vezes é um poema autobiográfico, carinhoso, espontâneo, rico de expressões e coloridos locais. Além desse, grita mais alto o sentimento com Visita da Saudade em que a vida da vila, em que os locais vão marcando o passado tão presente e tão distante ...
         Ao ler o livro, cada poema traz novas imagens e novas emoções na tela da memória e na retina da imaginação. O trem vai percorrendo os campos escalvados ou verdes, vai subindo ofegante a serra até encontrar: Pareci, Montenegro, Carlos Barbosa, Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul. A vida saltitante manifesta-se dentro do comboio ou nos quadros sucessivos do écran das janelas.
         Tudo é assunto de poesia: a casa do colono, o rancho de sapé, a chegada da hora da refeição no bufet da estação ou dentro do vagão, as moças realizando o footing na gare, na hora do trem chegar e partir.
         Ernani Fornari consegue manter o movimento do cinegrafista e o toque mágico do poeta que tudo transforma em beleza e harmonia, pois "o orvalho é a lágrima do céu e o suor da terra."
         Outro grande mérito de Ernani Fornari foi a revelação à sociedade brasileira da obra exponencial de O Incrível Padre Landell de Moura, antes de Marconi, antes de outros técnicos, havia inventado o Rádio e outros inventos utilíssimos para a humanidade.

         Conclusão
         No dia 9 de maio de 1942, a Revista do Globo trazia uma importante entrevista de Ernani Fornari ao repórter Abdias Silva, em Teresópolis, Porto Alegre. As páginas reproduzem o diálogo dos dois, ali perpassam os caminhos percorridos pelo poeta e dramaturgo desde a adolescência em Rio Grande e suas andanças pelo Brasil e pelo mundo. A revelação do encontro com Zeferino Brasil aos 15 anos, em que um punhado de versos seria a sementeira do verdadeiro poeta.
         ERNANI Fornari aos 18 anos, apaixonado pela literatura dizia a seus contemporâneos:
         - VAMOS VIVER os livros! E Abdias Silva conclui: "A sua vida não é (não foi), de fato senão uma história fantástica que Scheherazade esqueceu de contar ..."
         E nós, hoje, levantamos apenas um ângulo desse pano que encobre tantas maravilhas de Poesia, de Vida e de AMOR!
         Antonio Silvestre Mottin (PUC-RS)

         www.geocities.com/ail_br/ernanifornaripoetaedramaturgo.html


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