Para a vida literária de um povo é importante recordar
os escritores que abriram novos caminhos no decorrer de um século,
cujo arte sobrevive. Entre as figuras notáveis no Rio Grande do
Sul está ERNANI FORNARI que neste ano celebra o 1º Centenário
de nascimento.
Dramaturgo
O poeta
A Poesia de Ernani Fornari
Conclusão
www.geocities.com/ail_br/ernanifornaripoetaedramaturgo.html
1- Traços biográficos
Ernani Fornari, filho do imigrante italiano, Aristides Fornari e
de Maria do Carmo Guaragna Fornari, nasceu a 15 de dezembro de 1899, em
Rio Grande, onde seu pai se radicara. Aí realizou os estudos primários,
na "União Operária", estudos que completou em Porto Alegre
e Garibaldi nos Ginásios Nossa Senhora das Dores e Anchieta, instituto
Santo Antônio, dirigido pelos Irmãos maristas. Em 1931, matriculou-se
na Faculdade de Direito de Pelotas, cujo curso não concluiu.
Antes de ingressar na imprensa, como jornalista, Fornari dedicou-se
ao desenho e à ilustração. Usava, então, os
pseudônimos de Xisto, Neno e Fábius.
Em 1923, quando estava para incorporar-se à equipe redacional
do Correio do Mercantil, de Pelotas, publicou seu primeiro livro de poesias,
Missal da Ternura e da Humildade, logo saudado pela crítica
rio-grandense. Mais tarde, entre 1924 e 1935, dirigiu, em Porto Alegre,
a revista Máscara e trabalhou em diversas revistas e jornais
gaúchos como Diário, Revista do mês, Diário
de Notícias, Jornal da Manhã, Revista do Globo, etc.
Transferindo-se para o Rio de Janeiro, Fornari, paralelamente com
suas funções de Secretário Geral da Agência
Nacional, colaborou em numerosos órgãos de imprensa e foi
fundador e primeiro diretor da revista "Cocktail". Internacionalmente o
literato gaúcho projetou-se, graças à apresentação
de diversas peças suas no exterior, à sua atuação
como 2º Secretário do Instituto Brasileiro para a Educação,
Ciência e Cultura (Comissão Nacional da UNESCO) e ao trabalho
que realizou no setor cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, na gestão
do Embaixador Olegário Mariano.
Ernani Fornari construiu uma fecunda obra literária, onde
se destacam os livros de poesias: Praia dos Milagres e Trem da
Serra (além do já citado Missal da Ternura e da Humildade);
o romance O Homem que Era dois; a novela Enquanto Ela Dorme;
a seleção de contos Guerra das Fechaduras; a obra
paradidática O que os Brasileiros devem saber; a biografia
O Incrível Padre Landell de Moura; e especialmente, as peças
teatrais Nada!, Iaiá Boneca, Sem Rumo, Quando
se vive outra vez e Sinhá Moça Chorou. O escritor
era membro de várias sociedades culturais e profissionais (como
o Pen Club do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa,
etc) e conselheiro vitalício da Sociedade Brasileira de Autores
Teatrais. Deixou inéditos: Teoria da Bengalada, um livro
de contos, Quatro Poemas Brasileiros, uma seleção
de poemas e Os Filhos Julgam, um drama teatral.
Passou os últimos anos, em Petrópolis, foi filiado
ao Lions Club local, era sócio proprietário do Serrano F.C.
e freqüentava diversas agremiações culturais como a
Academia Petropolitana de Letras, SPAC, etc. Em 1963 foi escolhido como
o Melhor Autor Teatral do Ano, em uma promoção da imprensa
local.
Estava aposentado do Serviço Público Federal desde
1960, e dedicava seu tempo à revisão de sua obra literária.
Faleceu na madrugada de 8 de junho de 1964, no Hospital dos Servidores
do Estado, no Rio de Janeiro, após ter vivido e sido intensamente
poeta, romancista, teatrólogo e homem de imprensa. Teve as melhores
manifestações de apreço dos homens de Letras ao ser
levado à sepultura, no Cemitério São João Batista.
O pai, Aristides Fornari, havia-se dedicado às lides do circo
e do teatro. O filho com o andar dos anos, dissimulou a força poética
em dramas e comédias.
No ex-libris das obras teatrais aparece a sentença de Cícero,
do livro De República, (liv.IV,XI): Comoedia esse imitatio vitae,
speculum consuetudinis, imago veritatis.
A cronologia das obras de teatro: 1937 - Nada!; 1938 - Iaiá
Boneca; 1941 - Sinhá Moça chorou; 1947 - Quando
se vive outra vez; 1951 - Sem Rumo. Tiveram mais sorte e fama
as produções de 1938 e de 1941.
O entrecho da peça Nada! foi tirado de um poema em
prosa do próprio ERNANI, intitulado Destinos Malditos, publicado
no livro de versos - Praia dos Milagres, em 1932 Jayme de Barros
refere-se à peça Nada! com a crítica:
"Quem admirar a inteligência, prezar a cultura, admirar a
arte deve ir ao teatro Carlos Gomes ver o grande drama Nada! Nunca
o teatro brasileiro terá atingido esferas tão altas do pensamento,
com tamanha penetração psicológica e tanta força
dramática. Poeta de boa formação, novelista de mérito,
ainda assim não se poderia imaginar que Ernani Fornari se colocasse,
de súbito, tão alto entre os poucos dramaturgos brasileiros."
Henrique Pongetti dispensa-lhe não menores elogios:
"Escritor dos mais brilhantes e figura de grande prestígio
na literatura nacional, só agora nos deu, com a peça Nada!,
o seu primeiro trabalho para o teatro, trabalho esse que pode ser classificado,
sem favor, de genial, pois, conseguiu apresentar uma comédia que
é, antes de tudo, de um realismo que empolga!"
Iaiá Boneca, peça em quatro atos, foi representada,
pela primeira vez no Teatro Ginástico, do Rio De Janeiro, na noite
de 4 de novembro de 1938, pela Companhia Brasileira de Comédia,
sob os auspícios do Serviço Nacional do Teatro, sob a direção
de Oduvaldo Vianna. A peça baseia toda a sua ação
em episódios do Brasil Império, num engenho de açúcar,
nas cercanias do Rio de Janeiro, no ano de 1840, durante a campanha da
maioridade de Dom Pedro II.
Sinhá Moça Chorou ... , dedicada ao
eminente historiador, coronel Souza Doca, meu amigo, mereceu grande
prêmio hors concours da Municipalidade de Porto Alegre e Medalha
de Mérito de 1940, da Associação Brasileira de Críticos
Teatrais. A peça volta à história da primeira metade
do século XIX, em 1834, em Porto Alegre, quadros 1º e 2º;
em 1839; em Camaquã, quadros 3º e 4º; em 1845, retorna
à Capital da Província, quadros 5º e 6º. A crítica
altamente favorável à comédia. Viriato Correia, em
discurso proferido na Academia Brasileira de Letras emitiu o parecer:
"Ernani Fornari é uma das mais brilhantes vocações
teatrais do Brasil de todos os tempos, e Sinhá Moça Chorou
... uma das comédias mais belas que se tem escrito, no país."
Ruggero Jacobbi, publicou na Folha da Noite, de São Paulo:
Na palestra conclusiva de nosso curso sobre dramaturgia contemporânea,
no Museu de Arte Moderna, já apontávamos o teatro de Ernani
Fornari como, provavelmente, o mais sólido, elegante e bem acabado
entre todos da mesma época. Ingênuo é o mundo nele
representado; hábil é o tratamento dramático, todo
baseado no essencial, sem dispersões analíticas mas pitorescamente
descritivo e suavemente poético.
Dedicamos o nosso estudo ao livro TREM DA SERRA, 1ª
edição em 1928, com a capa de Fernando Corona, reproduzida
na 2ª edição, por nós organizada em 1987, publicação
da Livraria Editora Acadêmica Ltda.
A pessoa maravilhosa que foi ERNANI FORNARI leva-nos a tê-lo
perto mesmo depois de quase sete lustros de sua partida. A sua vida foi
um grande poema expresso em diversos gêneros: lírico, dramático,
épico, cômico, conto, biografia, sempre poeta que ele assim
definiu: "Poeta - voz de uma alma que dá voz a outras almas."
Em toda a sua trajetória de sombras e de luz, jamais esqueceu
o berço humilde, conforme declarou: "Eu jamais cairei, mesmo quando
cair, pois não há queda para mim. Haverá apenas retorno
ao meu verdadeiro lugar. Sou um operário que subiu. Ao descer, continuarei
operário."
A maneira curiosa dele ver a situação social, sem
antagonismos, sem demagogias assim a expressou:
Como não é provável que todos caiam, e menos
ainda que subam, só existirá equilíbrio social no
dia em que os que estão ‘em cima’ olhem para baixo - e não
sintam a vertigem das alturas - e os que estão ‘em baixo’ olhem
para cima - e não sintam a humilhação das profundidades.
Impossível!
Essas frases soltas mostram as facetas da personalidade de ERNANI
FORNARI.
Entre as suas obras literárias destaca-se o livro de poemas
TREM DA SERRA com o subtítulo, "Poema da região colonial
italiana", publicado em 1928 pela Editora Globo. Ao morrer deixou preparada
a 2ª edição, cujo texto ora publicamos.
Ernani Fornari havia estreado na poesia com Missal da
ternura e da humildade em 1932. Cinco anos depois dava um passo mais
significativo dentro do modelo modernista, embora não tivesse alcançado
a ressonância que esperava. Trem da Serra é um livro
com grande força de originalidade, concebido e realizado como película
de cinema Pathé Baby, em moda naquele tempo.
Iris Körbes encantou-se com a poesia de Ernani Fornari e resolveu
em 1983 realizar a dissertação de Mestrado na UFRGS sobre
o Trem da Serra. Conseguiu de Dona Lorena, os originais da 2ª edição
de Trem da Serra, que chegaram dessa maneira às nossas mãos.
Lendo e relendo os poemas notamos o grande afeto do poeta pela cidade de
Garibaldi, onde estudou no tradicional Instituto Santo Antônio, onde
veio a trabalhar, onde veio veranear ... Garibaldi está representado
em vários poemas onde se sente o amor e a vibração
por essas paisagens, por essas ruas, pelo Colégio, pelo Convento
dos Capuchinhos, pelo vetusto hotel Faraon, pelos vales daqueles horizontes
sem fim, pelas pessoas que aí andavam.
Garibaldi pátria das minhas primeiras vezes é
um poema autobiográfico, carinhoso, espontâneo, rico de expressões
e coloridos locais. Além desse, grita mais alto o sentimento com
Visita da Saudade em que a vida da vila, em que os locais vão
marcando o passado tão presente e tão distante ...
Ao ler o livro, cada poema traz novas imagens e novas emoções
na tela da memória e na retina da imaginação. O trem
vai percorrendo os campos escalvados ou verdes, vai subindo ofegante a
serra até encontrar: Pareci, Montenegro, Carlos Barbosa, Garibaldi,
Bento Gonçalves e Caxias do Sul. A vida saltitante manifesta-se
dentro do comboio ou nos quadros sucessivos do écran das
janelas.
Tudo é assunto de poesia: a casa do colono, o rancho de sapé,
a chegada da hora da refeição no bufet da estação
ou dentro do vagão, as moças realizando o footing
na gare, na hora do trem chegar e partir.
Ernani Fornari consegue manter o movimento do cinegrafista e o toque
mágico do poeta que tudo transforma em beleza e harmonia, pois "o
orvalho é a lágrima do céu e o suor da terra."
Outro grande mérito de Ernani Fornari foi a revelação
à sociedade brasileira da obra exponencial de O Incrível
Padre Landell de Moura, antes de Marconi, antes de outros técnicos,
havia inventado o Rádio e outros inventos utilíssimos para
a humanidade.
No dia 9 de maio de 1942, a Revista do Globo trazia uma importante
entrevista de Ernani Fornari ao repórter Abdias Silva, em Teresópolis,
Porto Alegre. As páginas reproduzem o diálogo dos dois, ali
perpassam os caminhos percorridos pelo poeta e dramaturgo desde a adolescência
em Rio Grande e suas andanças pelo Brasil e pelo mundo. A revelação
do encontro com Zeferino Brasil aos 15 anos, em que um punhado de versos
seria a sementeira do verdadeiro poeta.
ERNANI Fornari aos 18 anos, apaixonado pela literatura dizia a seus
contemporâneos:
- VAMOS VIVER os livros! E Abdias Silva conclui: "A sua vida não
é (não foi), de fato senão uma história fantástica
que Scheherazade esqueceu de contar ..."
E nós, hoje, levantamos apenas um ângulo desse pano
que encobre tantas maravilhas de Poesia, de Vida e de AMOR!
Antonio Silvestre Mottin (PUC-RS)