Edmundo O’Gorman, em seu clássico A Invenção da
América, afirma que, sem contradição lógica,
a América é, e ao mesmo tempo, não é a Europa,
"condição dramática de sua existência e chave
de seu destino". Podemos afirmar igualmente que - como dois pólos
que se atraem e se repelem - o Brasil é, e ao mesmo tempo, não
é América Latina. Esta existência contraditória
me leva a propor uma reflexão sobre o distanciamento político
e cultural entre o Brasil e os demais países da América Latina
de colonização espanhola. A explicação mais
simples para esse fenômeno começa invariavelmente pela afirmação
de que a cultura brasileira está profundamente marcada por uma tradição
eurocêntrica, responsável, portanto, pelo fato do país
estar de olhos postos na Europa e de costas para a América Latina.
Ainda que esta indicação seja indiscutível, permanece
demasiadamente genérica, fechando-se nela mesma.
Algumas constatações sobre o passado histórico das
duas Américas — a Portuguesa e a Espanhola - são também
inelutáveis. As metrópoles ibéricas desenharam limites
não apenas geográficos, mas também culturais e políticos
que dividiram suas colônias e criaram interesses econômicos
e sociais específicos para cada região. E as independências
não solucionaram esse impasse e não promoveram a tão
proclamada necessidade de união entre todos os americanos do sul.
Proponho entender, nesta apresentação, pelo menos em parte,
o fosso que nos separa, fazendo outra abordagem e aceitando, desde já,
a complexidade da tarefa. Escolhi dois momentos da história brasileira
para analisar este problema: o primeiro, o da construção
do Estado Nacional e das conseqüentes definições de
seu território. Tomo textos de jornais, de historiadores e políticos,
relacionando-os com a situação peculiar do Brasil, naquele
período, no concerto dos Estados latino-americanos. A República,
instalada no fim do século XIX, que trouxe significativas mudanças
políticas para o país, é o segundo momento. Para esse
período, optei por trabalhar com escritos de historiadores e críticos
literários, acompanhando a permanência da perspectiva brasileira
com relação a seu distanciamento das demais nações
latino-americanos. Meu recorte privilegiou as relações entre
Brasil, de um lado, e Argentina e Uruguai, de outro. Entretanto, as reflexões
brasileiras sobre os dois países trabalharam, em geral, com identificações
generalizantes que os aproximavam do conjunto das nações
colonizadas pelos espanhóis.
Todos esses autores elaboraram um discurso original — recheado de idéias,
imagens e símbolos - que fundou uma interpretação
brasileira sobre o mundo hispano-americano. Penso que a repetição
continuada dos mesmos argumentos contribuiu para a constituição
de um imaginário - que acabou por forjar uma memória coletiva
- sobre a outra América, dissociando-a, separando-a do Brasil.
***********
Para acompanhar o movimento de construção de uma maneira
de pensar a história do Brasil, é necessário lembrar
a criação do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (I.H.G.B.), em 1838, cujas atividades deveriam se pautar — segundo
o discurso de seu primeiro secretário, Januário da Cunha
Barbosa — por duas diretrizes centrais: a coleta de documentos e o incentivo
ao ensino da História do Brasil.
Nesse momento, o I.H.G.B. promoveu o célebre concurso internacional,
"Como se deve escrever a História do Brasil", vencido pelo alemão
Karl Friedrich Philipp von Martius, que visitara o país anteriormente.
Afirmava ele, em 1843 — portanto, quando o Rio Grande do Sul lutava por
uma república separatista - em seu artigo, que no Brasil, havia
muita gente com "idéias políticas imaturas". Referia-se às
idéias republicanas, que ele repudiava. Entendia que se devia escrever
a História do Brasil, pensando fundamentalmente nesses republicanos,
pois era preciso convencê-los da inexeqüibilidade de seus projetos
"utópicos", da inconveniência dessas discussões e da
necessidade "de uma Monarquia em um país onde há um tão
grande número de escravos". Para ele, o Brasil apenas começava
a entender-se como um todo unido e por isso mesmo, urgia que o historiador
procurasse "provar que o Brasil, país tão vasto e rico em
fontes variadíssimas de ventura e prosperidade civil, alcançará
o seu mais favorável desenvolvimento, se chegar, firmes os seus
habitantes na sustentação da Monarquia, a estabelecer, por
uma sábia organização entre todas as províncias,
relações recíprocas". Para concluir, advertia que
o historiador brasileiro "para prestar um verdadeiro serviço à
sua pátria deverá escrever como autor monárquico-constitucional,
como unitário no mais puro sentido da palavra". Enfatize-se que
este texto teve grande repercussão e fundou uma linhagem interpretativa
da História do Brasil, copiada à exaustão em manuais
escolares, em artigos de jornais, em discursos políticos etc.
A breve referência de von Martius à escravidão me leva
a uma pequena digressão. Em suas "impressões" de viagem ao
Rio de Janeiro, Domingo Faustino Sarmiento, figura exponencial do mundo
político argentino, expressava sua estranheza diante do mundo brasileiro,
tão diferente do que ele conhecia. Em primeiro lugar, ele estava
nos "trópicos", sobre os quais tinha os mais negativos sentimentos,
seguindo a leitura de Montesquieu. Em segundo lugar, o Brasil era a terra
da escravidão, que se apresentava no Rio de Janeiro "em toda sua
deformidade". Sua visão negativa sobre o Brasil relacionava-se ao
convívio entre brancos e escravos, já que os negros eram
"incapazes de elevar-se às altas regiões da civilização".
"A raça branca no Rio de Janeiro está castigada pelas doenças
africanas, que participam do caráter odioso e deforme das degenerações
dos trópicos, nos quais o que não chega a ser belo, é
monstruoso e repugnante". Dessa maneira, a diferença era percebida
por Sarmiento em outros termos. A Argentina não deveria ser confundida
com essa terra de "deformidades" e "degeneração".
Voltando aos textos brasileiros, não encontrei na História
Geral do Brasil de Francisco Adolfo Varnhagen, visconde de Porto Seguro
e sócio emérito do I.H.G.B., que foi publicada entre 1854
e 1857, referências tão claras à oposição
entre o Brasil e a América Espanhola. Uma das raras indicações,
que deixava entrever sua perspectiva sobre a outra América, pode
ser identificada, quase ao fim do livro, quando diz: "Esquecer a nação
pela província, […] é um sintoma de dissolução
política: é o princípio de um estado de coisas como
o de Centro-América".
Como já foi bastante indicado por seus analistas, a historiografia
produzida por Varnhagen consagrava a monarquia como regime ideal, louvava
a figura de D. Pedro I e invocava a Divina Providência como guardiã
da unidade nacional. O destino unitário do Brasil, nas páginas
do Visconde de Porto Seguro, revelava-se, desde o período colonial,
com a vitória portuguesa/brasileira sobre as assim denominadas invasões
estrangeiras. O esmagamento das tentativas radicais republicanas de independência,
como na Inconfidência Mineira, na Revolta dos Alfaiates ou na Revolução
Pernambucana de 1817, também demonstrara ter sido o "acertado".
Nesses momentos, a República nos espreitava e poderia ter comprometido
a unidade nacional. Afirmava Varnhagen sobre 1817: "Assim, ainda desta
vez (e não foi a última) o braço da Providência,
bem que à custa de lamentáveis vítimas e sacrifícios,
amparou o Brasil, provendo em favor de sua integridade".
Von Martius e Varnhagen eram "autoridades" cujos textos se legitimavam
por essa mesma condição; o primeiro, "grande sábio
alemão" e o segundo, historiador consagrado que "provava" o que
dizia pela pesquisa em documentos "verdadeiros". Esses ideólogos
do Império, que escreveram a história oficial do Brasil defendiam
a monarquia que se opunha às "repúblicas caóticas"
da parte espanhola. Dessa maneira, estava clara a diferença que
se devia estabelecer entre "nós" e "eles", entre o Brasil e os demais
países da América do Sul, onde campeavam a desordem, a desunião
e a fragmentação, todas alimentadas pelas idéias republicanas.
O Brasil, em oposição, era forte, unido e, portanto, poderoso.
A historiografia produzida pelo I.H.G.B. trabalhava com uma idéia
de identidade interna que deveria ver o Brasil como o resultado da fusão
das "três raças", o branco, o índio e o negro. Externamente,
como muito bem já afirmou Guimarães, a identidade brasileira,
no período, foi construída montando-se a oposição
entre regimes políticos antagônicos, a monarquia e a república.
Os demais países da América Latina eram potenciais inimigos
políticos do Brasil e se constituíam na representação
da barbárie.
Considero fundamental enfatizar que essas interpretações
ganharam enorme projeção e foram difundidas nas escolas,
nos jornais da Corte e das províncias, nos púlpitos, nos
banquetes, nos discursos da Câmara e do Senado. Dessa maneira, foram
sendo captadas pela sociedade, contribuindo decisivamente para a constituição
de uma certa maneira de se pensar a relação distante entre
o Brasil e a América Latina. Lembrando a análise de Girardet,
estas são "verdadeiras narrativas míticas" que têm
uma dupla finalidade, a explicativa e a mobilizadora. Ou tomando a idéia
de Nicolas Shumway, esses textos podem ser considerados "fixões-guias",
isto é, escritos necessários para que os indivíduos
de uma sociedade aceitem um sentido de nação, uma identidade
coletiva, um objetivo nacional. Esses discursos ganharam um caráter
unívoco, articulado em torno de um núcleo central, a idéia
da monarquia unificadora da nação.
Tal visão expressa nessa produção textual não
estava descolada dos acontecimentos recentes da história brasileira
e relacionava-se com as rebeliões regionais internas e as guerras
externas no Prata, ganhando sentido e se transformando em explicações
perfeitamente compreensíveis e adequadas ao momento histórico.
É possível acompanhar a emergência desses argumentos
desde a independência do Brasil. Para tanto, faz-se necessário
lembrar algumas questões desde a chegada de D. João e de
sua Corte ao Brasil, em 1808. A presença do rei no cenário
americano aguçou as disputas coloniais entre Portugal e Espanha
na América Meridional e estimulou as práticas expansionistas
da Coroa portuguesa.
Desde o início, em 1810, das lutas pela independência das
colônias espanholas, Portugal (posteriormente também o Brasil)
e Argentina disputaram o domínio sobre a Banda Oriental. Em 1821,
esta foi incorporada ao Brasil, com o nome de Província Cisplatina.
Com a independência brasileira, em 1822, o imperador D. Pedro I seguiu
a política externa já estabelecida. A província Cisplatina
"pertencia" ao novo país.
Mas ao lado das armas, outro combate tão importante quanto o primeiro,
o das idéias, também acontecia. Buenos Aires entendia ser
"natural" a incorporação da Banda Oriental às Províncias
Unidas do Rio da Prata, pois significava a permanência das fronteiras
estabelecidas durante o período colonial, indicando uma continuidade
histórica. Em 1816, um jornal distinguia as diferenças entre
as colonizações espanhola e portuguesa: "nada es peor que
la dominación extranjera; y que dominación! Portuguesa!!!
Que sin duda es peor que la española; pues son sin comparación
más ignorantes, más supersticiosos y más intolerantes,
y por eso se han unido para subyugarnos".
Do lado português/brasileiro, as justificativas apresentadas pelos
contemporâneos, já desde 1808, centravam-se na idéia
de que o território nacional tinha uma "fronteira natural" que ia
do Amazonas ao Prata. Importante assinalar que tal "fronteira natural",
ao sul, havia criado importantes interesses econômicos compartilhados
por proprietários de fazendas na região Oriental e no Rio
Grande do Sul, ligados a comerciantes do Rio de Janeiro.
Portanto, não é de se admirar, manifestações
públicas que defendiam a incorporação da Banda Oriental
ao Brasil, denunciando a "usurpação" dos espanhóis
do território que "sempre nos pertencera". Em 1823, uma carta de
um leitor do Observador Constitucional transcrita no Diário
do Governo, afirmava que a Banda Oriental estaria muito melhor sob
a proteção e segurança do monarca português,
pois "o resto da América Espanhola retalhado em estados diferentes,
e muitos d’estes ainda divididos em partidos, mal pode cuidar cada um da
sua segurança e arranjos internos, e muito menos concorrer por meio
de socorros para a dos outros; que nestas circunstâncias é-lhe
sem comparação mais vantajosa a sua incorporação
ao Império do Brasil, poderoso, respeitado, e já na sua nascença
solidamente baseado, como ele se acha, do que a outro qualquer Estado".
Nesse mesmo ano de 1823, um artigo do Diário do Governo enfatizava
a superioridade do regime monárquico sobre o republicano: "À
vista do que fica exposto podemos concluir com segurança que, se
a América Espanhola abraçar o sistema Monárquico,
modificado por uma Constituição sábia, sistema cuja
utilidade lhe não é desconhecida, e chamar ao Trono a todo
o custo uma Personagem de qualquer das Dinastias Reinantes, para desta
sorte evitar as funestas conseqüências da ambição
dos naturais mais poderosos, a cujos caprichos tem sido até agora
sacrificada, e segurar ao mesmo tempo a contemplação das
Nações Estrangeiras, não só poderá contar
com um mais pronto reconhecimento dos Soberanos da Europa, mas ainda com
a eficaz cooperação do grandioso Império do Brasil
(...)".
Assim, as justificativas da anexação já ensaiavam
se sustentar no delineamento de uma tênue oposição
entre regimes políticos divergentes; de um lado, a fragilidade do
regime republicano, "típico" da América Espanhola e, de outro,
a solidez do regime monárquico brasileiro.
No entanto, as ambições brasileiras sobre o território
da Banda Oriental começaram a ser soterradas em 1825. A luta dos
uruguaios pela reconquista anulou os compromissos políticos com
o Brasil e reintegrou a Banda Oriental ao território das Províncias
Unidas do Rio da Prata. A guerra desencadeada entre Brasil e Argentina
terminou sem vitoriosos. Com a arbitragem da Grã Bretanha, o Estado
Oriental do Uruguai, como país soberano, nascia em 1828.
No Brasil, a guerra com a Argentina foi justificada com a utilização
dos antigos argumentos que entendiam a Província Cisplatina como
parte integrante e "natural" do império brasileiro. Do ponto de
vista político, o embate entre império e república
também despontava. Assim, apoiava o Diário Fluminense
a guerra: "Fácil é de se conhecer o extraordinário
temor, de que os pequenos Soberanos Argentinos estão possuídos
vendo crescer tão desmarcadamente o Império do Equador. (...)
Nenhum motivo fará com que Ele [S.M.I.] retire o seu escudo, e deixe
nas margens do vulcão republicano uma Província, que a natureza
fez parte constituinte do Império do Brasil; que nos tratados e
convenções das Potências Européias foi julgada
nossa (...)".
A guerra demonstrava que Buenos Aires continuava com suas aspirações
de formação da "Grande" Argentina. Um dos argumentos em defesa
da guerra contra o Brasil se baseava na associação entre
a falta de respeito pelos direitos individuais e o regime monárquico.
O jornal de Buenos Aires, Nacional, caracterizava a guerra como
um conflito entre monarquia e república, anunciando para breve o
desmoronamento do império brasileiro. Associava a idéia de
liberdade ao regime republicano, indicando o "caráter" europeu e
anti-americano do sistema político brasileiro. Em oposição,
a república significava o rompimento com a Europa e marcava a dimensão
de uma identidade americana presente em seu país.
Nas palavras de Garrido Pimenta: "[...] a figura de D. Pedro é tomada
pelos republicanos como a própria personificação da
guerra. As constantes referências depreciativas ao Imperador enfatizavam
o fato de ele ser europeu e conseqüentemente anti-americano (‘déspota
luso-brasileiro’, ‘tirano europeu’, ‘o Nero do Continente Americano’),
sendo comparado a Fernando VII como inimigo da América e ao execrado
Agustín do México, ‘tirano’ e ‘usurpador’. A guerra, então,
se fazia contra o Imperador, e não contra o Brasil ou contra os
Povos do Brasil que, em sendo americanos, teriam a mesma causa que os republicanos".
Com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, abriu-se com a menoridade
do sucessor do trono brasileiro, o período conhecido como o das
Regências. Nesses anos, o Brasil foi sacudido por uma série
de rebeliões de forte cunho regionalista, muitas delas propondo
a separação do resto do país, constituindo-se em ameaçador
perigo da dissolução "da ordem e da unidade" do Império.
A mais longa dessas rebeliões foi a Farroupilha (1835-1845), no
Rio Grande do Sul, que pôs em risco a perda das "fronteiras naturais"
do sul do país. A tentativa de separação se alicerçava
em propostas republicanas de governo, concretizadas na criação
da República de Piratini. O fantasma da perda da Província
Cisplatina rondava a corte imperial e o envolvimento de grupos uruguaios
nas lutas indicava a permanência de interesses econômicos e
políticos comuns, assim como de fronteiras bastante flexíveis.
A difícil e demorada derrota dos rebelados precisava ser legitimada
com o reforço do discurso da unidade. Os círculos do poder
monárquico insistirão na existência de uma íntima
relação entre regime monárquico e unidade territorial,
utilizando os mesmos argumentos anteriores, mas dando-lhes mais visibilidade,
constância e acabamento. Assim, fechava-se uma interpretação
que valorizava a monarquia, entendendo-a como responsável pela manutenção
da "grandeza" do território brasileiro, dádiva "natural"
da Divina Providência e que demonizava as repúblicas hispânicas
vítimas da "dolorosa fragmentação", fruto de sua "própria
História".
Assim, na metade do século XIX, a região que hoje integra
o Mercosul ainda mantinha relações políticas bastante
conflitantes. Defendendo seus interesses na Argentina e Uruguai, o Brasil
montou uma estratégia intervencionista para abrir espaço
a governos mais favoráveis aos interesses brasileiros na região
e foi muito bem sucedido em seus objetivos.
O autor do plano de intervenção — que culminou com a derrubada
de Juan Manuel de Rosas, em 1852 - foi Paulino José Soares de Souza,
futuro Visconde do Uruguai, figura fundamental na construção
da política externa brasileira do período. Em maio de 1852,
expunha os motivos que teriam levado o Brasil a intervir na região
do Prata: "Os esforços feitos pelos generais Rosas e Oribe para
separar do Império a província do Rio Grande do Sul; a maneira
pela qual cortejaram a rebelião de 1835, e contribuíram para
que engrossassem as exageradas pretensões de fazer reviver o nulo
tratado de 1777, e de recobrar os povos de Missões que conquistamos,
e dos quais há tão largo tempo estamos de posse; as continuadas
tropelias, violências e extorsões cometidas sobre súditos
e propriedades brasileiras no território Oriental e na fronteira,
pondo em agitação a província do Rio Grande do Sul,
e tornando iminente um rompimento de um dia para o outro, são circunstâncias
que nos deviam fazer desejar e empenhar todos os esforços para uma
solução definitiva dessas questões, que, arredando
os perigos iminentes da posição em que se achava o Império,
nos oferecessem garantias e nos permitissem viver tranqüilos". Afirmava
ainda que Rosas pretendia acabar com a monarquia, "planta exótica"
no solo americano e promover uma rebelião de escravos. A luta contra
Rosas e Oribe também tinha como justificativa o embate contra "a
opressão dos ditadores", idêntica à empregada, alguns
anos, depois contra Solano López no Paraguai. Note-se, ainda, a
importância dada no texto às ligações entre
o Uruguai e a província do Rio Grande do Sul que "havia sido pacificada"
fazia apenas sete anos.
O Visconde do Uruguai também resumia a política externa do
Brasil no período do Império. O país deveria ter um
lugar hegemônico na América do Sul, mantendo distância
de seus vizinhos, não considerados como "iguais". A monarquia brasileira
havia demonstrado, na ótica desses políticos e publicistas,
sua "natural" superioridade. O Brasil continuava a olhar para a Europa,
vale dizer Grã Bretanha e França, fonte irradiadora da "cultura,
do progresso e da civilização". Tais valores não poderiam
ser encontrados nos vizinhos que nos rodeavam.
As ligações entre os acontecimentos das duas primeiras décadas
posteriores à independência e os textos dos historiadores
citados anteriormente — Varnhagen e von Martius — parecem-me bastante fortes.
Os argumentos que ganharam sua plena forma com esses autores já
vinham sendo gestados desde a emancipação do Brasil.
***********
Acompanhando os argumentos dos historiadores
e publicistas do Império, foi possível notar a ênfase
dada às diferenças dos regimes políticos que marcavam
o distanciamento entre Brasil e os demais países da América
Latina. Afirmo que esses discursos tiveram constância e vigor, construindo
um imaginário sobre a "outra" América e abrindo um fosso
que "nos" separava "deles". Nessa perspectiva, a derrubada do regime monárquico
e a instalação da República, em 15 de novembro de
1889, deveria, em tese, inaugurar uma nova era nessas relações
e o regime republicano deveria ter seu sinal mudado de negativo para positivo.
Entretanto, as distinções entre Brasil e América de
colonização espanhola permaneceram pelo período republicano,
com a utilização dos mesmos argumentos previamente apontados.
Importante ressaltar que a historiografia brasileira mostrou como os republicanos
não produziram um discurso que opunha fortemente os dois períodos
políticos no país. A República, devedora das idéias
positivistas, foi entendida como uma etapa necessária ao maior progresso
da nação. A monarquia precisava ser superada, mas isto não
significava destruir o que ela havia legado à nação,
a começar pela "manutenção da unidade e grandeza do
território". A figura de D. Pedro II permanecia impoluta, aparecendo
como um monarca bem intencionado e preocupado com os grandes problemas
do Brasil.
Como afirma Maria de Lourdes Janotti, as críticas à República,
nos anos imediatamente posteriores à sua instalação,
foram realizadas por grupos de republicanos já desiludidos e inconformados
com a tibieza e lentidão das mudanças. A República
parecia ser a concretização de esperanças não
cumpridas. A idéia do Império, como uma exceção
positiva no concerto das nações da América Latina,
permanecia inalterada, atravessando a ruptura republicana.
No entanto, com a República, novas identidades ganhavam consistência.
Estabeleceram-se linhas de simpatia com relação aos Estados
Unidos, nesse tempo de afirmação do novo regime, significando
mais um aprofundamento nos sulcos da trilha que afastava o Brasil dos países
hispano-americanos. Em contraposição, aconteciam na América
Hispânica, no fim do XIX e começo do XX, manifestações
de busca de identidades alicerçadas nas raízes culturais
hispânicas e na valorização da herança da colonização,
não ocorrendo, portanto, as mesmas "afinidades eletivas".
De fato, no Brasil republicano, aconteceu uma tímida aproximação
oficial com a América Hispânica. No campo da História,
é preciso assinalar a iniciativa da realização de
um concurso público para a elaboração do primeiro
manual escolar de História da América. Sintomaticamente,
apresentou-se um único concorrente, Rocha Pombo, que teve seu texto
aprovado e publicado, depois de um parecer positivo de Manuel Bomfim, um
dos raros entusiasta da América Latina.
O encontro intelectual entre autores brasileiros e hispano-americanos,
demonstrando os dois universos em dissonância pode ser acompanhado
nos escritos de um dos maiores críticos literários do começo
do século XX, José Veríssimo. Ele escreveu, por exemplo,
uma resenha do livro de Enrique Rodó, Ariel, com o título
de "Regeneração da América Latina". Começava
o artigo criticando o autor pela escolha do próprio título
do livro, dizendo que "em vez de seu título enigmático de
fantasia artística, poderia levar o que dei a este artigo".
Publicado em 1900, Ariel valorizava as tradições hispânicas
como fonte primordial da cultura latino-americana, e fora inspirado, pelo
menos em parte, pela intervenção norte-americana na guerra
hispano-cubana de 1898. Apropriando-se das personagens de Shakespeare em
A Tempestade, Rodó construiu metáforas sobre as Américas.
Ariel, gênio do ar, representava a parte nobre do espírito,
o império da razão, a espiritualidade da cultura. Constituía-se,
para ele, em símbolo da América Latina que se contrapunha
a Calibán, o monstro que idolatrava a matéria, representação
concreta dos Estados Unidos. A repercussão deste texto em toda a
América de colonização espanhola foi enorme, criando-se
até mesmo o substantivo "arielismo".
Não se imagine que Veríssimo desconhecesse a simbologia dos
personagens de Shakespeare, pois a familiaridade com A Tempestade
ficava indicada no decorrer do texto. Suas diferenças passavam pela
não aceitação da defesa das identidades propostas.
Eis a visão de Veríssimo sobre a colonização
espanhola: "Por ocasião da guerra hispano-cubana e da intervenção
norte-americana nessa pugna, quem escreve estas linhas, com sua ojeriza
pela civilização espanhola, feita de conquistas sanguinolentas,
de inquisição, de fanatismo, e com seu sincero amor de ver
livre o pequeno povo que há vinte e cinco anos estava lutando pela
sua independência uma luta atroz e desigual, cometeu o grave erro
de supor que, recordando o que elas mesmas sofreram do duríssimo
domínio espanhol, e o que lhes custou libertarem-se dele, as nações
hispano-americanas veriam, ao menos com indiferença, senão
com satisfação, os Estados Unidos tomarem a parte daquela
heróica população, como elas hispano-americanas".
Mas para sua surpresa, tal não aconteceu. Pelo contrário,
em outros países da América Latina a intervenção
dos Estados Unidos despertou manifestações de hostilidade
contra ele. Para o brasileiro, que demonstrava dificuldades para entender
essas ligações, o livro de Rodó era "um sintoma do
despertar do sentimento latino, ou antes, do sentimento espanhol na porção
ibérica da América". Assim, o Brasil não podia ser
enquadrado nessa moldura, indicando, mais uma vez, as distâncias
que nos separavam.
Também é interessante seguir os argumentos de Veríssimo
na resenha de outro livro, o do argentino Rodriguez del Busto, Peligros
Americanos, em que este autor advertia para o perigo representado pela
expansão dos Estados Unidos e apelava para a unidade latino-americana.
O crítico brasileiro afirmava: "Tenho a fraternidade latino-americana,
sinto-a intimamente; nunca, desde rapaz, participei do preconceito da minha
gente, herdado do português e desenvolvido pelas nossas lutas no
Rio da Prata, contra os povos espanhóis da América. Amo-os
a todos e me revoltam as manifestações hostis a qualquer
deles; mas não consigo ajeitar-me à idéia que eles
possam sair tão cedo da miséria econômica, social e
moral em que, salvo uma ou outra raríssima exceção,
vivem". O primeiro ponto a ser ressaltado refere-se à sua constatação
da pouca simpatia dos brasileiros em relação aos demais latino-americanos.
Em segundo lugar, vale assinalar algumas conclusões de Veríssimo
sobre o futuro da América Latina. Para ele, pela seleção
natural, à América Espanhola "não lhes caberá
futuro próprio"; outros povos assumiriam essa tarefa no lugar deles.
Em contrapartida, o futuro sorria para o Brasil, senhor de seu próprio
destino.
O mesmo exercício de análise da exposição de
semelhantes argumentos poderia ser realizado em diversos textos de outros
autores conhecidos. Entretanto, quero deter-me, por fim, na análise
do consagrado historiador e diplomata, Oliveira Lima, que deixou obra extensa,
parte dela dedicada a pensar o Brasil nas Américas. Considerada
figura destacada como articuladora da política externa brasileira,
foi comparado a Joaquim Nabuco, com quem formava "o par homérico
de nossa diplomacia".
Em América Latina e América Inglesa, escrito em 1912,
o autor reproduzia uma série de conferências realizadas nos
Estados Unidos, onde analisava "a evolução brasileira comparada
com a da América Hispânica e Inglesa". De maneira discreta,
porém clara, a defesa da monarquia estava presente. Ressaltando
a importância do Império na manutenção da unidade
nacional, afirmava que com a perpetuação no trono da dinastia
portuguesa, "não só se arredava no Brasil a coroa do conflito
das ambições, como se dotava a tradição nacional
de um vigor e de um realce únicos, comparados com o que ocorria
nos demais países do novo mundo espanhol … A monarquia brasileira
pode dizer-se por tantos motivos haver sido no século XIX o regime
político verdadeiramente adequado ao ‘status’ social da América
Latina".
Para ele, a monarquia representou, "em um período anárquico
para quase todo o resto do continente", a paz doméstica associada
à liberdade. Dizia: "Em todo o caso constituiu o Brasil imperial
um modelo de liberdade e de paz para a América Latina e forneceu
pelo menos uma imagem não ilusória de civilização,
ainda que refletida no trono, ao tempo que as sociedades hispano-americanas
se debatiam na desordem e na selvageria". Isto porque lá existia
um general caudilho, que ficava muito perto do "povo inculto". O caudilho
dominava uma "multidão fascinada e inconsciente na qual prevalecia,
em matéria social, um instinto comunista, e em matéria política,
um pendor demagógico". Para tal pecado original, no entanto, havia
resgate, pela moralização do trabalho e da educação.
Além do Brasil, cujo passado sob a monarquia, fora "invejável",
a Argentina também saíra do "atoleiro", constituindo-se em
exemplo para os demais países da América Latina.
Não surpreende constatar que a maior parte dos textos hispano-americanos
citados por Oliveira Lima — e pelos brasileiros em geral - foi publicada
na França, em geral, em francês. Como tantas vezes já
se afirmou, Paris era o centro difusor de conhecimento sobre as letras
latino-americanas. Oliveira Lima apoiava-se, no livro acima citado, em
dois clássicos autores hispano-americanos, seus contemporâneos:
o peruano Francisco García Calderón e o venezuelano, Rufino
Blanco Fombona. Para legitimar suas afirmações sobre a situação
das sociedades hispano-americanas, recorria a Perou Contemporain
de Garcia Calderón, afirmando que seus argumentos, que incluíam
as idéias de anarquia, de constituições políticas
enxertadas, de instintos seculares do povo, explicavam a situação
"desastrosa" do Peru, e podiam ser estendidos a todo o império espanhol.
Para criticar o federalismo republicano da América Espanhola, Oliveira
Lima, depois de citar exemplos de vários ditadores hispano-americanos,
citava Blanco Fombona que, segundo ele, resumia com felicidade a situação
na América Espanhola, onde: "impera o cacique, e sobre este amiúde
o rábula, o charlatão, que o chefe intonso admira e o povo
analfabeto aplaude".
Nota-se, assim, que a repetição em seu texto de um termo
como "anarquia", para definir a América Espanhola se legitimava
na medida em que os próprios hispano-americanos faziam uso dele.
Ainda uma vez, eram duas Américas, uma da ordem, da paz e da unidade
e a outra, do individualismo nefasto (o exemplo de Rosas na Argentina era
comumente lembrado), do caos, da anarquia, da fragmentação.
Mesmo em plena República, o imaginário sobre a identidade
nacional combinava à idéia de unidade, a de ordem garantida
pelo regime monárquico.
Interessante é acompanhar o livro de García Merou, muito
citado por Oliveira Lima, El Brasil intelectual. Impresiones y notas
literarias. Publicado em 1900, o autor indagava, logo no início
do texto, das razões do distanciamento entre Argentina e Brasil,
enfatizando a mútua ignorância com relação às
respectivas produções intelectuais. Tínhamos todas
as condições para nos aproximar, já que as desavenças
do passado não mais tinham razão de ser. Afirmava que, no
presente, enfrentávamos problemas semelhantes e nos norteávamos
por princípios políticos comuns. O conhecimento de García
Merou sobre literatura e história brasileiras é notável.
Conhecia bem os principais autores e fez um bom apanhado de seus trabalhos.
Entretanto, ainda que republicano convicto, não escapava da interpretação
dominante sobre o período imperial brasileiro. Explicando a ausência
de caudilhos no Brasil, afirmava ele: "É um bem apreciável
que devem os brasileiros à larga estabilidade do regime monárquico,
e que, apesar da mudança das instituições, foi estabelecido
já um costume e uma necessidade pública difícil de
quebrar".
Como García Merou, Oliveira Lima acreditava na possibilidade de
um encontro entre as Américas Portuguesa e Espanhola. No passado,
dizia, houvera hostilidades, mas naquele momento os interesses eram por
demais análogos e comuns a ambas, havendo uma recíproca conveniência
de aproximação, que para ele, se desenhava cada dia mais
pronunciada e mais firme.
Na defesa de suas posições, no livro Na Argentina,
editado em 1920, Oliveira Lima citava o estadista argentino, professor
da Faculdade de Direito de Buenos Aires, Estanilaos S. Zeballos, concordando
com sua proposta de união das três maiores potências
da América Latina — o Brasil, a Argentina e o Chile. Afirma que
o argentino "por ocasião de seu último ministério
tentou com afinco negociar um tratado de comércio com o Brasil,
vantajoso para ambas as partes, e esboçou mesmo o plano de uma aliança
defensiva entre as três nações, que não foi
por diante porque ciúmes nacionais e estrangeiros lhes foram de
encontro. Não havia nesse projeto, mais tarde retomado com o nome
de A B C e malogrado por outros motivos, visos de agressão, quer
aos Estados Unidos, quer à Europa: apenas entendia o estadista argentino
que um bloco latino-americano ofereceria vantagens decididas no sentido
de fazer respeitar, não só a integridade territorial como
a soberania das nações componentes do acordo e conseguintemente
do continente colonizado pelo esforço ibérico".
Na carreira diplomática, Oliveira Lima e Joaquim Nabuco representavam
duas tendências opostas. Enquanto Oliveira Lima entendia que a política
externa do Brasil devia tomar a direção de aproximação
com os países da América Espanhola, particularmente da Argentina
e do Chile, Nabuco era um "americanófilo" de primeira hora. O todo
poderoso Barão do Rio Branco, na sua qualidade de ministro, aparentava
um certo distanciamento entre as posições defendidas. Entretanto,
suas atitudes demonstraram que apoiou Joaquim Nabuco. Reveladores dessa
decisão foram os postos designados a eles por Rio Branco: enquanto
Oliveira Lima era enviado a Caracas e Bruxelas, a Nabuco ficavam reservados
Londres e Washington.
Nesse embate, a publicação, em 1907, de Pan-americanismo
(Monroe, Bolívar, Roosevelt), constituiu-se em marco
divisor na carreira de Oliveira Lima. Neste livro, suas posições
de ataque à política externa dos Estados Unidos se apresentavam
de forma mais contundente, pretendendo mostrar os perigos futuros que adviriam
dela com relação ao Brasil e à América Latina.
Para o autor, era ingenuidade acreditar que a Doutrina Monroe fora pensada
em benefício dos países da América Latina, para supostamente
defendê-los da Europa. A doutrina beneficiava os interesses dos Estados
Unidos mais claramente identificados, no começo do século
XX, com as atitudes intervencionistas do governo de Theodore Roosevelt.
Opunha-se ao "rooseveltismo" de Nabuco, para quem os países latino-americanos
deviam sentir "simpatia e gratidão" diante dos Estados Unidos. Tal
posição determinou seu rompimento definitivo com Nabuco e
Rio Branco, acarretando-lhe perdas profissionais e levando-o, em 1913,
a solicitar sua aposentadoria da carreira diplomática. A derrota
de Oliveira Lima no plano diplomático significou a perda de uma
possibilidade de aproximação oficial com a os países
do ABC e a vitória da posição de alinhamento do Brasil
nas fileiras do pan-americanismo capitaneado pelos interesses dos Estados
Unidos.
Desse modo, com a República, não se alteraram substancialmente
as relações diplomáticas com os demais países
da América Latina. Esta posição se coadunava com a
manutenção de um sentimento anti-hispânico bastante
acentuado, conforme foi indicado nos textos analisados. A República
não destruiu as distâncias entre o Brasil e a América
Hispânica, pois as diferenças, muito mais que as semelhanças,
continuavam a ser destacadas. As visões da distância que nos
separava contribuíram para a construção de um imaginário
que forjou uma memória transformada em senso comum e que remetia
ao passado histórico apresentado como legitimador do presente.
***********
O historiador, como muito bem já assinalou Marc Bloch, deve estar
atento ao presente, a tudo que é vivo e está a seu redor.
A criação do Mercosul, sem dúvida, colocou problemas
e questões ao historiador da América Latina. Sua existência
fez surgir indagações particulares sobre as específicas
relações — não simplesmente relações
econômicas — entre os países componentes do bloco. O Mercosul
surgiu como solução para muitos problemas cruciais latino-americanos
nestes tempos da globalização Este texto nasceu exatamente
de algumas inquietações criadas por esta nova situação.
As mudanças anunciadas pelo Mercosul, que devem atingir também
a esfera das relações culturais, serão realizáveis?
O novo quadro será suficientemente forte para mudar velhas imagens
e concepções? Esses novos ventos levarão à
construção, no Brasil, de outras imagens sobre a América
Latina?
Termino com uma certeza e uma dúvida. A primeira se refere à
constatação de como é difícil pensar a América
Latina a partir do Brasil, onde não existe uma tradição
de estudos latino-americanos. Os ricos e férteis resultados que
se obteriam, caso perseguíssemos as trilhas abertas pela História
Comparada da América Latina, parecem-me evidentes. A indagação
que continuo a fazer refere-se às concretas possibilidades do despertar
de uma nova visão brasileira com relação a essa outra
metade da América, tão próxima e, ao mesmo tempo,
tão distante.
Maria Ligia Coelho Prado
Departamento de História
Universidade de São Paulowww.utexas.edu/cola/llilas/centers/publications/visitingpapers/prado.htm