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Aureliano de Figueiredo Pinto

     Ad Sodalibus

     Do velho Meyer uns, do Simch e Vebeca
     outros. Latin do Klein, (como é belo o latim!)...
     Portugês do Lisboa e francês do Krausnek.
     O atômico Louzada o Lavoisier sapeca,
     física e Maximino em tim tim por tim tim ...
     (Ah! que folga na rua e que bom ser moleque.)

     Matemáticas - uff! ah! que fatais teoremas,
     com a taquara na pedra, ei-lo o Cavalaria!
     E o Bitencourt, o el-rei da geometria plana.
     Método de Bezout e equações e sistemas
     Capazes de arrancar cabelos à poesia.
     Quase no fim do mês... tristes fins de semana!

     Louras da Independência e as pálidas (Varzinha)
     Lá, nos altos balcões, cá, nas baixas janelas.
     Nas tardes de setembro e as vesperais de outono...
     Poemas ditos ao luar à beira azul marinha
     do Guaíba a entender as rimas em procelas
     nas noites de feriado em greves contra o sono.

     Ah! Porto Alegre! Frio. Ah! inverno de 18
     e 19 e 20. Onze Preparatórios!
     Onze estações sem fim que a solidão prolonga
     Que atrapalhado está cada estudante afoito
     a sorrir e a estudar nos boêmios consistórios
     da "república" pobre em cada noite longa.

     Chimarrões de erva má, cafés sem cafeína,
     chama de lenha atôa ao fogãozinho a um canto.
     álgebras por ali respingadas de mate,
     e os cigarros soltando a espiral serpentina
     tecendo a cada um vaga auréola de santo
     - mascarando o perfil de um demônio escarlate.

     Seu Manoel do armazém é um Mecenas enorme!
     miliardário e marquês, grão-senhor de Florença.
     Abastece de pão do corpo e do intelecto
     a coolméia mental, o núcleo proteiforme
     de idéias, de emoções, a ebulição intensa,
     de teses no embrião, de poemas em projeto.

     Lembrais, Antero e Eli, Leonores e Carlotas?
     E Orlando entre Anatole e a timidez de Amiel.
     Plínio Melo, o Marxista, o nosso Assis de então
     diplomata e senhor, amando as terracotas
     e as finas edições de Herediá e Paul Claudel.
     E Eurico o escavador da História do rincão.

     E o Sílvio, um gauchão missioneiro, sestroso
     junto a filosofia imensa do Gaspar.
     E o Mânlio, um pincenez de escritor poliglota.
     E o Otávio, um polemista à Camilo - teimoso!
     E o Telêmaco a vir de Viamão desjejuar
     nas piavas do Naval com clarete e compota

     E tu, Bopp, o terror dos sebos e dos briques
     a ladrilhar sútil quanto  alfarrábio vias!
     E tu, vibrante Olavo, esquivo as Algazarras
     a compor prosa e verso entre nervosos tiques!
     Desidério sestroso a espiar as gurias
     e o irônico Cecito, o das canções bizarras.

     Dom Lema, alma de santo a viver entre diabos,
     compreendendo e querendo esses amigos loucos,
     quantas vezes perdeu por nós o honrado sono.
     Não lhe vimos sequer um dia os modos brabos
     quando já madrugada inspirados e roucos
     numa peça de Eça e baladas de outono...

     Hóspedes: o Verney, a estudar Ingenieros,
     jornalista, editor, hercúleo e panfletário.
     Cassales, Carrazoni - os preciosos estilos
     à Saint Victor até na charla aos companheiros
     Nestor Reis, o elegante, e Márcio estranho e vário
     que na morte buscou caminhos mais tranquilos.

     O eco não se apagou das risadas do Olmiro,
     o cronista sútil do ridículo alheio,
     o poeta da alma em flor de colonas e searas.
     E o Teles e o Barreto em permanente giro
     no eterno feminino, em amável rodeio
     ao promissor perfil de itinerantes raras.

     Benjamin de São Chico, um cavaleiro andante,
     chega. Prosa cordial pelas ruas a esmo.
     Rua da praia. Cafés. Passeios no arrabalde.
     (O grande Eduardo, só, senhoril e distante,
     vêmo-lo ao longe a olhar ao fundo de si mesmo.)
     - Andam lanchões no rio? Poemas a Garibaldi.

     Poentes rasgando o céu. Calma a tarde vermelha,
     sangue dos corações românticos mistura.
     Unge-se de emoção a paisagem sem par.
     Torres das Dores, lá, é a cidade que ajoelha
     com as mãos postas de pedra erguidas para a altura
     com a voz longa, de bronze, a rezar, a rezar.

     Ocasos de Samain, noites de Baudelaire
     e Verlaine. Clarões tropicais de Bilac,
     Euclides e Pompéia. O Machado é xarope.
     Rua da Ponte. Um festim de Coty e de mulher
     capazes de entornar o Coronel basbaque
     que sofrera do Chefe um ríspido galope.

     Que tal! Sábado lindo e princípio de mês,
     cobres magros, porém: - Vamos aos Caçadores!
     É uma bela aventura em busca de alegria
     que ficou na querência. É um rápido entremês
     com barato charuto e modestos licores
     e que a imaginação crê uma opulenta orgia.

     Os refletores dão e os violinos confirmam,
     um ar de madona à pobre e angulosa chanteuse
     ganindo a cançoneta equívoca e picante.
     E honor de cavalheiro os rapazes afirmam
     (luzes, canções, orquestras e goles de chartreuse...)
     consagrando com ruído a grande artista estreante.

     Generosos e bons, rindo dos cabotinos,
     das vaidades de feira e capitães-móres,
     e com ciumento amor amando a terra e a gente,
     o cálculo e a ambição não manchava os destinos,
     a viver-se, honra e brio dos ancestrais melhores,
     nobres horas de estudo e humanismo ardente.

     Exames. Tempos maus! Como era bela a infância...
     Chama o bedel à banca a multidão de estetas.
     Três velhos. Mesa longa. E em frente o jovem réu.
     Três. O Sumo Saber premindo a Ignorância!
     E o olhar dos velhos fulge em labaredas retas
     no auto de fé torrando a heresia do incréu.

     Júbilo igual. assim distinção e tangente
     tudo tem um valor convencional e vão.
     (Fuja o conpêndio vil e vá para os infernos!)
     Vamos ler e aprender por meses livremente
     esses Mestres que a essência e o espírito nos dão
     da verdade e do sonho em colóquios eternos.

     E partimos depois nos caminhos da vida,
     todos alto mantendo o atrevido penacho.
     Vamos indo, o olhar firme, a alma inteiriça e pura.
     Puede Dom Sancho hablar...Pero el Quijano envida
     su más recio valor de caballero macho
     en esta de vivir bella y noble aventura...

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