Aureliano de Figueiredo Pinto
João Grande
A sós no Pampa, ao luar, de um grande
açude à borda,
No meu sonho o pernalta aureas legendas borda:
Espetral, cismarento, o laquista interpreta
Ou, em meio o Pampa, ao luar, dentro da
noite escampa
Chimarrão da Madrugada
Não sei por que nesta noite
Tenho olhos de ave da noite,
Então, da marquesa salto
Já a cuia bem enxaguada,
E, quando a chaleira chia,
Me estabeleço num banco
Um galo - o cochincho-mestre!
E os outros galos-piazitos
E até um garnisé cargoso
Nem relincham os cavalos!
A estrela d'alva trabalha
E a "Nova" ao largo se corta,
Solito, perto do fogo,
O perro Baio-coleira
É um gosto olhar os brasidos
E o chimarrão macanudo
O peito avoluma e arqueia
Ah! Sangue velho... Descubro
Por isso é que hoje não dormes!
Trechos de Romance de Estância e Querência
Do Zorrilho
Da Tronqueira Centenária
E essa minha reverência
Da Tapera
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Mas a sua canção de ausência
Anguloso e augural, de tristonha atitude,
- Maculando de sombra o amplo cristal do açude -
O João-Grande a água azul de outros rincões recorda.
Triste avatar de um poeta entre os da espécie rude,
Que exausto de sofrer vertingens de altitude,
Traga a lira a estalar na derradeira corda...
O lirismo doentio doentio das lagoas sem fráguas
Cantando o céu que treme ao fundo da água quieta...
- Bardo! o João-Grande ausculta a rapsódia das águas
Para escrever, mais tarde, a Epopéia do Pampa...
o sono velho cebruno
ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue.
ouvidos de quero-quero
cordas de viola nos nervos
e uma secura no sangue.
e vou direto ao galpão:
bato tição com tição
e a lavarede clareia
os caibros do galpão alto.
corto um cigarro daqueles
de reacender vinte vezes
num trote de quatro léguas
de uma chasqueira troteada.
principio um chimarrão,
mais verde e mais topetudo
do que um mate de barão.
pra gozar gole e fumaça,
pitando um naco de branco.
E entre tragada e golito
saludo mui despacito
cada recuerdo que passa.
o laço desenrodilha.
E fica só com a presilha
e solta a armada bem grande
do laço de um canto largo
de sobrelombo a uma estrela.
vão atirando os lacitos
como em guachas de sinuelo.
vai reboleando orgulhoso
o soveuzito feioso
feito de couro com pêlo.
Com brilhos de ponte-suelas,
lá em riba estão as estrelas!
Cá em baixo os cantos dos galos.
na imensidão da hora morta:
- ou num perfil de medalha
ou a maiúscula inicial
sobre a prata de um punhal
que ainda há de sangrar o dia.
magra, esquilada, arredia,
empurrando a guampa torta
contra o ventito do Sul,
como num campo de azul,
a ovelha chamando a cria.
como um bugre imaginando,
escuto o Tempo rodando
sem descobrir o seu jogo.
faz que cochila... E abre os olhos,
a espaços, regularmente.
E me fixa os olhos claros
como um amigo, dos raros,
cuidando do amigo doente.
E os luxos das lavaredas
dançando rendas e sedas
para a ilusão dos sentidos.
E entre o amargo e a tragada
tranqueiam na madrugada
tantos recuerdos perdidos.
vai entrando pelo sangue!
Vai melhorando as macetas,
curando as juntas doridas
como água arisca de sanga
sobre loncas ressequidas.
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
num Setembro de alvoroto.
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...
Quietito, com diligência,
lá vai cuidando a sua vida.
Mas se algum cusco teimoso
se mete a acuar no tranqüilo,
leva a resposta no estilo
de um polemista famoso.
Da mão que te falquejou
e te socou na porteira,
já não resta nem a poeira.
Tu, firme no teu lugar!
Sol de verão, frio de agosto,
continuas no teu posto
olhando o tempo passar...
......................
é homenagem aos caídos.
E aos pobres tebas sem glória
por outros pagos perdidos.
Foi agasalho e morada,
colmeia de vida humana.
Última e só! Abandonada
concentra nessa campanha
toda solidão estranha
de um que sofre e não diz nada.
Leito de um rio que secou,
Recuerdo do que existiu:
- o que era corpo - fugiu!
mas o que era alma - ficou...
cresce, num tom de despedida
a tudo o que ele, em sua vida,
criou e amou no seu rincão...