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Ibicuí


Ibicuí - Guilherme Shultz Filho

O Ibicuí é um estraviado
Que desgarrou da tropilha.
Na fralda duma coxilha
Sobre as pontas dum banhado
Nasceu flaquito, aperreado
Na Serra de São Martinho.
Cresceu e tranqueou sozinho
Como gaúcho teatino
Peleando com o destino
E abrindo o próprio caminho.
Tudo lhe veio ao contrário
Até a lei da gravidade...
Preferiu a liberdade
A ser mero caudatário
Virou a revolucionário
Tomar rumo da fronteira
E ponteando a montonera
Da qual se tornou caudilho
O velho guasca andarilho
Percorre a campanha inteira.
Outros arroios alçados a ele se vão reunindo
e assim como Gumercindo
e tantos chefes aporreados
que sempre foram cercados
da gauchada toruna
incorporou uma coluna
de voluntários gaudérios
que vão rasgando
os mistérios da velha pampa reiúna.

Da querência guarani
Das misteriosas Missões
Restos de antigas legiões Vanguardeia o Toropi.
O selvagem Jaguari, O Taquari e o Itu, O Piquiri, o Mandiju,
São piquetes missioneiros Velhos caciques guerreiros
Dos tempos de Tiaraju Pelo flanco, voluntário, Troteia o Santa Maria.
É a velha cavalaria
De passado legendário
Que no Passo do Rosário
A História imortalizou.
Retaguarda que escorou
Os flancos de Barbacena
Trazendo inda na melena
A poeira de Ituzaingô.
Incorpora a Velha Guarda
Do arroio Cacequi
O famoso Itapevi Que comanda uma vanguarda.
Mas o grosso ainda aguarda
O bandoleiro Saicã
O xucro Ibirapuitã
E os lanceiros de Inhanduí
É o Honório, o velho Leão Que desce do Caverá.
Nos campos de Jacaquá
Procura fazer junção.
Depois, farejando o chão
Guiado por puro instinto
Demanda ao Mariano Pinto e acampa sobre um capão.
Ibicuí – Rio das Areias – O índio te batizou
E a história te consagrou Ibicuí – rio da peleias –
Porque as refregas mais feias
Que a história crioula traça
Ensangüentaram teus passos
E as margens das tuas vertentes,
Puras, límpidas correntes
Do sangue altivo da Raça !
És um símbolo de luta de altivez
e rebeldia e se, por desgraça,
um dia o Rio Grande se achicasse
seu passado renunciasse
e renegasse o brasão,
ver-se-ia em algum rincão
pelos confins da fronteira
uma falange guerreira inda de lança na mão !

Fonte: Galponeiras, Guilherme Shultz Filho, Ed. Martins Livreiro, 1981.


   Canto ao Ibicuí - João Otávio Nogueira Leiria

    Ponho os olhos na linha do horizonte, e, aos poucos, se desenha o Ibicuí...
    Deixo o trem na estação, que fica em fronte da estrada para a terra onde nasci.
    Antes, porém, que a diligência, aponte, do outro lado diviso o Batovi.
    E vou contando, assim, monte por monte: O Cerro dos Lazões... O Inhacambui...
    A paisagem natal, entresonhada, Me transporta aos meus tempos de guri...
    Chego ao passo, com a barca ali atracada.

VI

    E “tio”Adão, com a voz que sempre ouvi, aponta-me, de bordo, a mão alçada: - “O moço tem passagem livre, aqui...”.
    Estás comigo, nesta hora morta, na qual resumo amargas decepções...
    Mas na certeza de inda abrir a porta a quem me lance injúrias e baldões.
    Meu velho rio, és uma adaga torta que vai abrindo o leito às aluviões.
    E, como tu, a angústia, que me corta, rasga um pedaço da alma das Missões.
    Regas terras ubérrimas e rústicas, que ainda guardam ancestrais acústicas, - tempos do Padre Sepp e de Sepé!... Mas eu farei de ti o meu paltério para cantar, de longe, o teu mistério, e imolar ao Rio Grande a minha fé!...

VII

    Se te perdes na linha da fronteira, para bater no peito do Uruguai, levando-lhe a corrente mensageira do que no peito dos gaúchos vai, -daqui conclamo a quem ouvir-me queira, daqui concito a meus irmãos: cantai!
    Fazei com que a senha missioneira jamais chancele a jura que se trai!...
    Se eu tiver de faltar ao meu amigo, de com meu ideal se inconstante, que eu não mais conte, Ibicuí, contigo.
    Tuas águas reneguem meu semblante, para que eu sofra o íntimo castigo de não mais seres meu espelho andante!...

Rincões Perdidos, J.O.Nogueira Leiria, Ed. Martins Livreiro.


   Cynolebias Ibicuiensis

         Operação de Busca ao Supostamente Extinto Cynolebias ibicuiensis

         Prólogo
        A rica e bela natureza da bacia do Rio Ibicuí, pertencente à bacia do Rio Uruguai (Bacia Platense), está pagando um caro tributo para sustentar a crescente população humana.
           A região é agrícola, e basicamente utilizada para a lavoura de arroz irrigado.
          Tal atividade causa importante transformação no seu meio, por ações como:
           => consumo da água dos rios em grande escala;
           => utilização intensa e muitas vezes descuidada de defensivos agrícolas;
            => destruição das várzeas, lagos e riachos por aterragem, inundações, drenagens, enxurradas de lama, etc.

         Neste ambiente, mais precisamente no Rio Ibicuí Superior, Rio Grande do Sul - Brasil, em 1982, o Cynolebias ibicuiensis foi encontrado pela primeira vez na história civilizada.
         Pareciam ser endêmicos (só ocorrendo naquele local), como sugeriam pesquisas anteriores, e bem o comprovaram pesquisas posteriores em outras regiões.
         Fato que os colocava em delicada situação.
         Pior que isto é que, em tentativas de coletas subseqüentes no mesmo local, não mais foram encontrados.
         Parece que a ciência mais uma vez chegou tarde.
         Chegou depois das quase rudimentares técnicas e ações agrícolas.
         Estas, direcionadas cegamente a um único objetivo, e ignorantes de um adequado manejo do seu meio de produção, os raios solares, o ar, o solo, a água e a equilibrada biodiversidade ali instalada há milênios.

         A ação
         Pegando carona no Projeto Ibicuí, somado esforços da equipe de pesquisadores que atuarão neste projeto,  se empreenderá uma dedicada, persistente e aguerrida campanha  na busca do C. ibicuiensis.
         Se indivíduos desta espécie ainda existirem, esperamos ter a graça de reencontrá-los, para retirar-lhes a tarja negra da tragédia maior, o terrível fim de eras de evolução, a extinção da espécie pela mão do Homem.
 

          Objetivos
          São objetivos do CEPEN neste projeto:
  ==> Reencontrar para a ciência o Cynolebias ibicuiensis;
                                       e em caso de sucesso:
  ==> estudar seu ambiente e sua vida,
  ==> para planejar e estruturar a proteção de seu ecossistema.

                     ... se ele ainda existe, nós o reencontraremos.

         www.cepen.com.br/Cynolebias_ibi.htm
 

     Ictiofauna

     Prólogo
     O Rio Ibicuí é um dos mais importantes tributários do Rio Uruguai. Não apenas pela dimensão de sua bacia, mas por características como: pequena declividade e relevante presença de brejos e de lagoas às suas amplas margens de alagamento.
     Drena águas de parte do Planalto do Rio Grande do Sul, da borda noroeste do Escudo Sul-rio-grandense, da região oeste da Depressão Central, colhendo águas ainda enquanto escoa lentamente rumo oeste ao longo da vasta planura da Campanha do Sudoeste, para finalmente dar águas ao Rio Uruguai.
      Este conjunto de características já justificaria grandes esforços de pesquisa na Bacia do Ibicuí, mas o que os torna indispensáveis ao se buscar maior conhecimento sobre a bacia do Rio Uruguai, é o fato de o leito do Rio Ibicuí e de grande parte de seus tributários assentarem-se sobre depósitos de arenito, diferentemente dos outros rios formadores do Uruguai, que drenam águas provenientes das formações melafíricas que constituem a capa superior do planalto sul-brasileiro.

         Apresentação
         O CEPEN – Centro de Pesquisas Eco-naturais apresenta (em resumo) na Linha de Pesquisa Ictiologia, o Projeto Tese de Doutorado

          “ESTRUTURA DA COMUNIDADE E ALIMENTAÇÃO DA ICTIOFAUNA DOMINANTE E DE INTERESSE COMERCIAL DO RIO IBICUÍ, RS”

          Empreendido pelo Doutorando MSc. Everton Rodolfo Behr, do Curso de Pós-graduação em Biociências do Instituto de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com Orientação do Dr. Roberto Esser dos Reis.
 

       1. Introdução

PROJETO
        ESTRUTURA DA COMUNIDADE E ALIMENTAÇÃO DA ICTIOFAUNA DOMINANTE E DE INTERESSE COMERCIAL DO RIO IBICUÍ, RS

        O Rio Grande do Sul possui dois grandes sistemas hidrográficos. Na porção leste localiza-se o sistema da laguna dos Patos, enquanto à norte e oeste do Estado encontra-se o sistema do rio Uruguai.
         Além destes, junto ao litoral norte há o sistema do rio Tramandaí.
         Existem relativamente poucos trabalhos ictiológicos realizados no Estado que enfocam a estrutura da comunidade, entre os quais podemos citar no sistema da laguna dos Patos: BOSSEMEYER et al. (1981); GROSSER & HAHN (1981); TEIXEIRA (1989) e BEHR & BALDISSEROTTO (1994). HARTZ (1997) estudou a alimentação e estrutura da comunidade da lagoa Caconde no litoral norte.
        No sistema do rio Uruguai trabalhos com a comunidade ictiofaunística também são relativamente escassos (BERTOLETTI 1985; WEIS et al. 1983; BOSSEMEYER et al. 1985; BERTOLETTI et al. 1989a, 1989b, 1990, HAHN et al. 1997). DI PERSIA & NEIFF (1986) consideram incipiente o estudo da ictiofauna deste sistema hidrográfico quando comparado aos rios Paraná e Paraguai.
      O rio Ibicuí é um dos principais afluentes do rio Uruguai, sendo formado pelos rios Ibicuí-Mirim e Santa Maria, os quais foram inventariados ictiofaunisticamente por WEIS et al. (1983) e BOSSEMEYER et al. (1985), que constataram 81 espécies no primeiro e 53 no segundo.
      Estes trabalhos, entretanto, limitaram-se à inventários sem fornecer dados sobre a biologia ou ecologia das espécies.
       Na bacia do rio Ibicuí o único trabalho na área de alimentação foi realizado por BENEMANN (1985) com Schizodon nasutus e Schizodon platae.
      Recentemente COSTA (1998) descreveu uma nova espécie de Rivulidae (Cynolebias ibicuiensis) a partir do material coletado por WEIS et al. (1983) no rio Ibicui Mirim.
       Segundo o autor esta nova espécie está provavelmente extinta .
       LOWE-McCONNELL (1975) afirmou que as comunidades de peixes de regiões tropicais apresentam interrelações mais complexas entre seus componentes quando comparadas às regiões temperadas.
        Para PIANKA (1978) a utilização de um mesmo habitat, ou seja, a ocupação de uma dada área por um grupo de espécies pode ser estudada sob três aspectos: espacial, temporal e trófico, sendo que as espécies se substituem ao longo de cada um destes componentes.
     Vários autores constataram alterações na composição da ictiofauna ocasionadas por mudanças sazonais, volume de água e presença de refúgios (GARUTTI 1983; CARAMASCHI 1986; BEHR & BALDISSEROTTO, 1994; CANTU & WINEMILLER, 1997; MORIARTY & WINEMILLER, 1997).
         Segundo WINDELL & BOWEN (1978) a maioria do conhecimento da autoecologia, produção e papel ecológico das populações de peixes é derivado dos estudos da dieta baseadas em análises de conteúdo estomacal.
        De acordo com WOOTTON (1990) uma análise ecológica da alimentação em peixes deve responder além da composição da dieta, quando e com que freqüência o alimento é tomado.
        LAGLER et al. (1962) e LOWE-McCONNELL (1975) mencionaram que o período do dia é um fator determinante da taxa de alimentação das espécies havendo aquelas que se alimentam preferencialmente de dia enquanto outras apresentam hábitos alimentares noturnos.
       Quanto à estrutura trófica de comunidades de água doce, embora as cadeias tróficas em águas tropicais sejam bastante complexas, elas são baseadas em poucos recursos alimentares (LOWE-McCONNELL, 1987).
        Segundo esta autora uma análise da dieta de peixes de água doce apresenta quatro situações: consumidores de material alóctone como alimento direto; consumidores de insetos (aquáticos; estágios aquáticos e terrestres); consumidores de lodo e detritos e consumidores de outros peixes.
     WINEMILLER (1990) em trabalho realizado na Costa Rica e Venezuela constatou que os herbívoros e detritívoros formaram a maior proporção de peixes da comunidade seguido dos onívoros e secundariamente dos carnívoros.
       O estudo da estrutura da comunidade de peixes do rio Ibicuí, e da alimentação da ictiofauna dominante e de interesse econômico, poderá gerar muitas informações contribuindo desta forma para um maior conhecimento da ictiofauna de água doce do Rio Grande do Sul.

        2. Objetivos
        O presente projeto tem por objetivos:
  >>==> Verificar a estrutura da comunidade de peixes em três estações (seis ambientes) do rio Ibicuí, quanto a composição ictiofaunística, ictiofauna dominante, estratos componentes da ictiofauna, diversidade específica, constância, equitatividade e similaridade ictiofaunística.
  >>==> Definir o espectro trófico da ictiofauna dominante e de interesse comercial.
  >>==> Verificar variações na dieta das espécies ao longo do ano.
  >>==> Verificar variações na atividade alimentar relacionadas à sazonalidade, ao ritmo circadiano e aos ambientes.
  >>==> Situar as espécies nas respectivas guildas alimentares.
  >>==> Fazer inferências sobre a cadeia alimentar.
  >>==> Verificar a taxa de captura por unidade de esforço e sua variação sazonal e geográfica.

          3. Justificativa
          A bacia do rio Ibicui é uma das mais desconhecidas do Estado do ponto de vista ictiológico, a despeito de possuir muitas espécies de elevado valor econômico tanto para a pesca como para a piscicultura.
        Conhecer a estrutura da comunidade e estudar a alimentação das principais espécies poderá gerar importantes dados ecológicos que servirão como subsídio para o manejo adequado dos recursos naturais, bem como para trabalhos futuros nas áreas de ictiologia e piscicultura.

       4. Material e Métodos
       4.1. Área de estudo
       O rio Ibicuí situa-se na região da Campanha do Rio Grande do Sul,
sendo um dos principais afluentes do rio Uruguai.
        Diferentemente da maioria dos afluentes do rio Uruguai, o Ibicuí é um rio de planície, portanto lento, e com substrato bastante arenoso.
        RAMBO (1994) descreveu o rio Ibicuí como possuidor de um leito raso, ladeado por pantanais e com ampla planície de inundação.
       As três estações de amostragem serão situadas nos seguintes locais:
       Estação 1 ( I-2 )
       Cerca de 2 km abaixo da confluência dos rios Santa Maria e Ibicuí-Mirim, município de São Vicente do Sul.

       Estação 2 ( I-3 )

       Trecho intermediário, situado no município de Manoel Viana.
       Estação 3 ( I-4 )
       Cerca de 10 km acima da confluência com o rio Uruguai, município de Uruguaiana.

        Em cada estação serão amostrados dois tipos de ambientes: lótico e lêntico.

       4.2. Metodologia
       4.2.1. Coletas
       Serão realizadas coletas bimestrais nas estações de amostragem, sendo que em cada um dos ambientes serão utilizados redes de espera, de arrasto e espinhel.
       Os peixes coletados serão numerados, sendo logo após fixados com formol a 10% e depois conservados em álcool 70% conforme MALABARBA & REIS (1987).
       De cada exemplar capturado serão registradas, no campo, as seguintes informações:
                       - Data e estação de amostragem.
                       - Aparelho de pesca e período de captura.

        4.2.2. Características ambientais
        Em cada estação de amostragem serão feitas medidas de transparência da coluna d`água (disco de Secchi), pH, oxigênio dissolvido, condutividade, dureza e temperatura da água e do ar.
       Também será avaliada a velocidade da corrente no ambiente lótico e o nível hidrológico nos dois ambientes. Cada estação de amostragem será caracterizada quanto a  presença de vegetação marginal.

       4.2.3. Ictiofauna dominante
       4.2.4. Ictiofauna de interesse comercial
       4.2.5. Análise da estrutura da comunidade
       4.2.6. Procedimentos laboratoriais e análise da alimentação

       www.cepen.com.br/proj_var.htm
 

     Ciência e Folclore no rio Ibicuí
     Estudo vai identificar todas as espécies de peixes do principal rio da região oeste do Estado no prazo de dois anos.
     Um estudo sobre a comunidade de peixes que vive nas águas do Ibicuí é a primeira incursão da ciência no principal rio da região oeste do Estado.
      Além da falta de conhecimento aprofundado sobre o maior afluente de planície do Rio Uruguai, a escolha dos pesquisadores foi motivada pela beleza do cenário, onde predominam praias de areia fina e branca.
      O trabalho do zootecnista Everton Behr, doutorando em Biociências pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), começou a três meses. Os resultados servirão de subsídio para outras pesquisas, englobando desde a preservação ambiental até a nutrição de peixes com potencial de piscicultura. Os dados formarão um banco de informações para que, em comparações futuras, seja possível diagnosticar o estado da população. Até hoje, a conclusão de que a comunidade de peixes (ictiofauna) diminuiu é baseada apenas no relato dos pescadores.
     - O estudo, como está sendo feito, é inédito no Estado – diz o presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia, Roberto Reis, Professor da PUC e orientador de Behr, referindo-se à sistematizada e periódica coleta dos peixes.
     - Pesquisas para conhecer a fundo a biodiversidade e a cadeia alimentar de um rio praticamente não são feitas no Brasil. E só se preserva o que se conhece – lembra Reis.
     A pesquisa terá dois anos só da coleta do peixes, em três pontos: São Vicente do Sul, onde o rio nasce, Manoel Viana e entre os municípios de Uruguaiana e Itaqui, próximo à foz, onde deságua no Uruguai. até o final de 2001, serão doze visitas a cada um dos pontos, mesmo no rigoroso inverno gaúcho. Será possível comparar a distribuição da espécies ao longo do rio, além das variações de comportamento nas quatro estações. Por enquanto, o peixe mais procurado é o surubi, ainda não capturado pelo pesquisador, assim como  o linguado e arraia. Ao final do trabalho, ele espera contabilizar cerca de cem espécies. Muitas – algumas delas novas – só serão identificadas em análises de laboratório.

    Captura de exemplares tem a licença do Ibama
    Além do rio, as lagoas das marginais, ligadas ao Ibicuí por pequenos canais, também são analisadas na pesquisa. Behr acredita que elas funcionem como áreas de criação de jovens peixes, devido a grande disponibilidade de alimento e pelo ambiente oferecer mais segurança para os filhotes contra os predadores.
    A coleta de exemplares tem a licença do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Redes de diversas malhas são dispostas no rio e nas lagoas para captura que engloba desde lambaris até os possantes dourados, passando por outros peixes nobres como o grumatã e a piava, e os esquisitos cascudos, de aparência pré-histórica. Para as espécies menores, algumas delas ornamentais, é preciso empregar redes de arrasto.
     A revisão das redes tem de ser feita a cada seis horas, intervalo de tempo que possibilita estudar os hábitos alimentares das espécies ( principalmente as de interesse comercial), evitando que o conteúdo dos estômagos se deteriore. A captura do maior número de animais ocorre na revisão da meia-noite, pegando os animais que começam ou finalizam as suas atividades ao anoitecer, horário de intensa movimentação dos peixes no rio.

    Características colaboram para a preservação do rio
     Apesar da diminuição da quantidade de espécies nobres notada por pescadores, caso do surubi, as características do relevo por onde o Ibicuí passa fazem Behr acreditar na chance de preservação da sua fauna.
     - Por ser um rio de planície, dificilmente será represado para a construção de hidrelétricas, prejudiciais às espécies que migram para a reprodução, como o dourado e o surubi. Isso traz a esperança de preservação – projeta Beher.
     O projeto também recebe apoio material da Universidade Federal de Santa Maria e do Centro de Pesquisas Eco-Naturais, uma ONG de Carazinho.

     A rica fauna das margens das margens
     Pegando carona no estudo, dois biólogos aproveitam as viagens para observar aves, anfíbios e répteis da região. Marielise Behr, 31 anos, mulher de Everton, tem sempre o binóculo à mão para analisar as espécies de aves que vivem na mata ciliar, identificando-as pela visualização ou pelo canto. Ela espera comprovar que o hábitat de certas aves é maior do que era conhecido até hoje, registrando as espécies encontradas.
     O biólogo Luís Olímpio Giasson, 23 anos, se debruça sobre o estudo de répteis e anfíbios. Como não tem licença do Ibama para coletar exemplares, apenas caminha pela mata para observar a diversidade da fauna na região. Giasson recolhe apenas cobras ocasionalmente mortas por agricultores locais. Em Itaqui, localizou duas pererecas que não soube identificar e podem ser espécies novas. Em Manoel Viana, um curioso cágado (réptil parecido com a tartaruga) caiu em uma das redes, na lagoa, atraído pelos peixes presos. Após analisado e fotografado, foi solto no mesmo local.

       O oportunismo da palometa
       Um peixe voraz e oportunista nada pelo fundo do Ibicuí, e o alimento fácil sempre o atrai. A palometa, uma espécie de piranha encontrada na bacia do Rio Uruguai, incomoda os pescadores da região. Ela se aproveita dos peixes indefesos presos em redes e os devora parcialmente, muitas vezes deixando somente as cabeças de traíras, piavas, jundiás e pintados. Nem os cascudos, protegidos por rígidas placas ósseas, escapam dos ataques.
      Não são poucas as histórias contadas por pescadores de ferimentos causados por mordidas das palometas. O risco que ela oferece ao homem , entretanto, só existe por descuido ao manuseá-la, quando pescada. Mas os dentes afiados e a força da mandíbula costumam causar estragos em redes, retalhadas pelas palometas. Além disso, a sua carne nào é das mais apreciadas, devido ao grande número de espinhos.

     Uma lagoa de surpresas
     A captura mais comemorada na etapa do estudo realizada em Manoel Viana ocorreu na lagoa, distante 20 minutos de barco a motor do local do acampamento, rio acima. até a quarta-feira da semana passada, apenas dois exemplares de uma espécie chamada vulgarmente de cascudo-preto tinham sido coletados em toda bacia hidrográfica do Rio Uruguai. Naquela noite, três caíram na rede.
      - Vai ser a primeira coisa que vou relatar ao meu orientador - comemorou o zootecnista Everton Behr.
      Na lagoa, ligada ao Ibicuí por um curto e estreito canal, também foi apanhada uma espécie lacustre de piava, além de filhotes de patis e de jurupoca (peixe da família do surubi), indo ao encontro da teoria do zootecnista, que considera esses locais ambientes onde os peixes crescem. Se no rio reina o dourado, na água parada os maiores predadores são as traíras e os trairões, não muito adaptáveis as lagoas.

     Jornal Zero Hora, 19 de março de 2000.
 

     Dados Técnicos sobre o Rio Ibicuí
     Dentro do território brasileiro, o principal afluente do rio Uruguai é o Ibicuí. Sua formação dá-se na junção do Ibicuí-Mirim com o rio Santa Maria, na região sudoeste do Rio Grande do Sul. Sua área de drenagem abrange 46.850Km2.
    A partir da junção de seus formadores, desce em direção ao rio Uruguai, com desnível de 22m por uma extensão, aproximada, de 290Km. No trecho superior, até a localidade de Manoel Viana, apresenta um leito maior com seção transversal larga e o leito menor com margens baixas e fundo arenoso. De Manoel Viana até a foz do Ibirocaí, o leito menor apresenta margens mais elevadas e o fundo é formado por sedimentos mais grosseiros. No seu trecho final, até a foz no rio Uruguai, volta a apresentar margens baixas e o leito continua formado por sedimentos grosseiros aí depositados.
    O afluente do rio Uruguai que apresenta melhores condições para a navegação é o Ibicuí. Além disso, oferece a possibilidade de ligação com a bacia do Jacuí, formando uma via navegável que atravessará o estado do Rio Grande do Sul de leste a oeste. Seu aproveitamento para irrigação das lavouras de arroz tem diminuindo, consideravelmente as vazões, afetando, inclusive a rualidade das águas.
    No que se refere à navegação, deve-se ter em conta que os valores do tirante de água mínima, observados em estiagem, variam entre 0,70m e 1,35m. Acrescenta-se a estes reduzidos valores o fato de que o grande desenvolvimento de bancos de areia do leito menor do rio indica a ocorrência de raios mais reduzidos para o leito de estiagem, além da largura bastante limitada em muitos locais. Curvas de raios pequenos exigem larguras mínimas de navegação maiores. A alta mobilidade que o leito do rio parece apresentar é outro fator negativo para a navegação em corrente livre.
 

RESUMO INFORMATIVO DA HIDROVIA DO RIO IBICUÍ ATUALIZADO EM 25.02.95 FONTE DPH/SEPRO/MT
BACIA SUL EXTENSAO TOTAL 290 Km
TRECHO SNV      FOZ/BARRA DE SANTA MARIA - 360 Km
TRECHO NAVEGAVEL      FOZ/CACEQUI - 290 Km
EXTENSAO NAVEGAVEL     290 Km
PROFUNDIDADE MINIMA      0,70 m
GABARITO DE NAVEGAÇÃO      III
DECLIVIDADE NÃO DISPONÍVEL LARGURA MINIMA NÃO DISPONÍVEL
CARGA PRINCIPAL     NÃO HÁ
PORTOS PRINCIPAIS       NÃO HÁ
FROTA      NÃO HÁ
ECLUSAS      NÃO HÁ
BARRAGENS      NÃO HÁ
PERÍODO DE ESTIAGEM      NÃO DISPONÍVEL
NFORM.SUPLEMENTARES -MARGENS BAIXAS -ASSOREAMENTO NO BAIXO CURSO -BANCOS DE AREIA E LARGURAS LIMITADAS -ÁREA DE EXPANSÃO FUTURA

MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES Secretaria-Executiva Banco de Informações dos Transportes


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