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O Chimarrão

    O hábito do mate é o mais peculiar hábito não apenas do gaúcho rio-grandense , ele é o identificador do habitante do cone-sul da América, encontramo-lo difundido, quer na forma quente , o mate propriamente dito, quer na forma fria ou gelada , terêre ou mate paraguaio , nos estados da região sul do Brasil, no Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile e sul da Bolívia.
    Apesar das variações e características regionais , esta bebida e sua forma de beber têm em comum como traços identificadores:
    1º É resultado da infusão de erva-mate, produto da erveira, planta arbórea da família Aquifoliaceae, com cerca de duzentas e oitenta espécies na América do Sul , a maioria do gênero ilex , a erva-mate no brasil é extraída llex paraguaiensis ou llex mate designações propostas por Saint Hilaire em 1823.
   2º A infusão é realizada , no momento de ser bebida, em recipiente típico , a cuia, do tupi Kuia, vaso feito de porongo podendo ainda a cuia ser fabricada em madeira , guampa, louça, porcelana, cristal, alumínio e a mais recente em plástico, da cuia, maliem qêchua, deriva o nome mate, portanto , bebida em cuia.
   3º A infusão é sorvida através de um canudo , em geral metálico , a bomba também denominada bombilha ou bombija, castelhanismos derivados de bombilla, primitivamente os guaranis usaram a bomba de taquara.
    4º A infusão é produzida pela adição de água quente, temperatura ideal entre 75ºC e 78ºC, no caso do nosso mate-chimarrão , água fria ou gelada , no caso tererê , existem ainda variantes como a substituição de parte da água por leite com acréscimo de açúcar, resultando o mate doce, ou a substituição de parte ou da totalidade da água pôr aguardente, mate usado no inverno pelos coletores de erva e pelos soldados nas guerras e revoluções sulistas, por isso chamado mate de guerra, esse tipo de mate é ainda hoje corrente entre os habitantes do altiplano chileno.
   5º As diversas variantes do mate admitem o acréscimo de ervas medicinais e\ ou aromáticas, o chamado jujo. O lugar adequado para  o jujo é o recipiente de água e não dentro da cuia .
    O chamado “ chá paraguaio “ usado na forma peculiar do mate é maneira “ sui generis “ de ingerir uma infusão. Em nenhuma parte do mundo, excluído o nosso Cone Sul, foi conhecido tal modo de beber um chá.
    Dentre as variantes do mate-chimarrão é verdadeiramente característico do gaúcho rio- grandense, do oestino catarinense e do paranaense, e o mais difundido nas regiões para onde migraram e esses sulistas.
     A principal diferença entre o mate-chimarrão , ou simplesmente chimarrão , e outras variantes é o fato de ser amargo. Chimarrão , do espanhol cimarrón, aplicado ás bebidas naturalmente amargas, tais como o mate sem acréscimo de açúcar ou qualquer outra bebida sem açúcar, como o chá ou o café amargos. Etmológicamente, chimarrão qualifica em elemento em estado natural, não domado, sendo ainda sinônimo de selvagem, bravio ou alçado. Chimarrão era o gado, os cavalos e os cães alçados, isto é, que haviam escapado á domesticação.
    O termo também, se aplica a pessoas vivendo em estado livre. Em Cuba, o termo cimarróm aplico-se aos negros fugidos da escravidão.
   Portanto, chimarrão é sinônimo de mate amargo, mate não adoçado ou abrandado pela adição de açúcar ou qualquer outro adoçante natural ou sintético.
    Glênio Fagundes em Cevando Mate (1980) usa chimarrão como sinônimo de mate amargo, a exemplo de outros autores que tratam do assunto. O popular Aurelião, no verbete mate chimarrão, registra: “ O que se toma sem açúcar “.
   Destarte, quando for usada erva-mate com açúcar adicionado ou quando for adicionado açúcar no momento de beber leremos uma variedade de mate, nunca um mate chimarrão. Com açúcar pode ser muitas coisas MENOS CHIMARRÃO, o MATE AMARGO.

A Erva-Mate

    Quando se fala na bebida do Gaúcho, é sem dúvida nenhuma, lembrado o Chimarrão. Mas entre as bebidas tradicionais, temos a canha, destilada principalmente da cana-de-açucar, mas também existe de abacaxi, de mandioca, de batata inglesa; e a graspa, feita da casca de uva pelos descendentes de italianos. O vinho já era produzido ao estilo português antes da chegada dos primeiros imigrantes italianos em 1875, porém, os italianos e seus descendentes, tornaram a qualidade do vinho comparável aos internacionais em variedade e qualidade.
   Mas vamos retornar ao Chimarrão falando da Árvore-Símbolo do Rio Grande do Sul, a Erva-Mate.
    Bem antes da chegada do homem branco ao continente, os índios Guaranis habitavam a América do Sul. Os "deuses" desses índios, trouxeram um presente a esse povo, a Erva-Mate, que encontrou seu habitat natural às sombras das matas dos pinheirais ao longo dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. Esta planta ignorou a política e a geografia dos brancos, crescendo e multiplicando-se em terras dos Reinos da Espanha e de Portugal. Mas foram os Guaranis que a denominaram CAA que significava "erva saborosa para preparar uma bebida de grandes virtudes", e ao se colocar água (CAA-I), desvendaram uma poção mágica capaz de alimentar o corpo e renovar as forças, afastar o cansaço e curar doenças, mantendo o coração alegre e o espírito alerta, tornando cada índio Guarani um bravo nas lutas contra os inimigos.
    Com a chegada do branco, os Guaranis generosamente ofereceram a cuia de CAA-I. O sucesso dessa bebida atravessou terras até Assunção, Sacramento e Buenos Aires, cruzando os Andes junto com a "febre de prata", chegou à Lima, Potosi e Chile. Com o passar do tempo e ampliação do seu uso, foi mudando de nome. CAA, CAA-I, Erva-dos-índios, Erva-do-Paraguai, Erva-que-toma-no-mati, e por último Erva-Mate.
    A mudança do nome não afetou as qualidades dessa bebida, recebida dos "deuses" Guaranis, tão pouco aquele gesto generoso que foi oferecido ao primeiro homem-branco que aqui aportou, tornando o oferecimento da cuia à qualquer recém chegado uma marca de hospitalidade que sobrevive até nossos dias.
    A Erva-Mate faz parte da família das "Aquifoliaceae" do gênero "Ilex", que foi recolhida pelo francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1822, e enviou amostras de suas folhas dando a classificação botânica pela Academia de Ciências do Instituto da França, sendo registrada com o nome "Ilex Paraguariensis", que é a nossa Erva-Mate tradicional. Existe mais de 60 espécies do gênero Ilex, com pequenas diferenças entre si, como o formato de folha, variação de cor, etc.
    Seu porte pode chegar a 12 metros, mas as ervateiras submetidas à podas não passam de 7 metros, têm flores brancas de quatro pétalas, agrupadas em cachos, com frutos muito pequenos de cor vermelho-arroxeado, geralmente produzindo quatro sementes em cada fruto. A árvore nova deve ser podada apenas a partir do terceiro ano de vida para não comprometer sua formação, passando a ser considerada produtiva a partir do quinto ano, com colheita de dois em dois anos.
    Existem várias lendas que contam a história da Erva-Mate, como a do velho guerreiro Guarani que tinha como filha a bela Yari, que preferiu ficar com o seu velho pai, já cansado demais, quando sua tribo partiu em busca de melhores terras para a caça e o cultivo.
    Quando surgiu um Pagé ou Tupã, comovido com a dedicação de Yari, e em sinal de gratidão da boa acolhida que recebeu dela e de seu velho pai, antes de partir, deixou ao velho e cansado índio Guarani uma planta muito verde, e disse: "Terás nessa nova bebida uma companhia saudável, mesmo nas horas tristonhas da mais cruel solidão".
    Em outra versão, o velho pai, zeloso das virtudes da bela Yari, pediu ao visitante, como recompensa pela generosa hospitalidade, que Yari permanecesse livre das maldades, tentações e pecados, permanecendo eternamente bondosa, linda e pura. Para atender à súplica do pai, o Pagé transforma Yari numa árvore de Erva-Mate, e é por isso que podemos dizer que a ervateira tem o dom da eternidade, porque renasce depois de cada corte com o mesmo vigor, e tem a capacidade de, quando servida aos visitantes, expressar fraternidade e hospitalidade.
    Os jesuítas viam com desconfiança essa bebida, pois viam nela uma ameaça às virtudes cristãs, entendendo como vício originário de segredos de Pagés e Feiticeiros, como o Padre Antônio Ruiz de Montoya, da redução de Guairá, no século XVII, que dizia ser "Erva do Diabo", propícia à prática de atos licenciosos. Em 1610, o padre jesuíta Diogo de Torres encaminhou ao Tribunal do Santo Ofício, em Lima, uma longa advertência a respeito da Erva-Mate usada pelos índios, "por pacto e sugestão clara do demônio". Mas, na verdade, o grande malefício da erva é que os índios abandonavam a missa e o sermão para tomar chimarrão, ou porque saíam frequentemente para urinar.
    O sistema colonial espanhol procurou acabar com a cultura nativa proibindo o uso e a comercialização da Erva-Mate, usando como argumento "danos morais causados pelo vício", criando multas em dinheiro e até prisão para quem comercializasse a nossa Erva-Mate. Toda essa pressão do conquistador não evitou o crescimento deste hábito, que sobreviveu até os nossos dias.
    O modesto porongo dos Guaranis com seus canudos de taquara, aos poucos vai sendo substituído por cuias ricamente lavradas em prata e bombas de materiais mais nobres como bombas de prata e ouro.
    Por tratar-se de um excelente negócio na época, os espanhóis subjulgaram os índios para exploração da Erva-Mate, oprimindo-os com pesados trabalhos, convertendo-os ao cristianismo, removendo-os de suas aldeias e reduzindo-os à mais absoluta miséria. Antes de completar um século, desde a primeira expedição espanhola, o conquistador já deixa profundas cicatrizes na nação Guarani.
    A Erva-Mate é explorada em 486 Municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, gerando mais de 710.000 empregos. Seu uso não é exclusivo para o Chimarrão, estendendo-se para chás, sucos e produtos industriais, de higiene, cosméticos, conservantes e corantes na elaboração de produtos farmacêuticos. Tem utilização também na indústria de produtos de limpeza como anti-oxidante e bactericida, tanto para uso doméstico como para hospitalar, reciclagem de lixo, etc...

Erva Mate - Composição Mineral (100 gr)
Valor Mínimo Valor Máximo Valor Médio
Cinzas
Cloro (g)
Enxofre
Fósforo (g)
Cálcio
Magnésio (g)
Potássio (g)
Sódio (g)
Ferro (mgs) %
Cobre (mgs)
Manganês (mgs)
6,310
0,082
0,082
0,074
0,597
0,134
1,181
0,000
-,---
0,600
30,200
7,7780
0,160
0,168
0,214
0,824
0,484
1,554
0,003
94,000
1,600
183,000
6,910
0,116
0,125
0,120
0,668
0,337
1,350
0,002
59,900
1,260
133,180
Fonte: Valduga, Eunice - 1995

    A Erva Mate é alimento e um santo remédio, pois contém vitaminas A, B1, B2, C e E, sais minerais como Alumínio, Cálcio, Fósforo, Ferro, Magnésio, Manganês e Potássio, proteínas, glicídios e lipídios. Contem alcalóides, como cafeína, que atua como estimulante de atividade física e mental, beneficiando nervos e músculos eliminando a fadiga. Sua atuação é mais prolongada que o efeito estimulante do café, com a vantagem que não tem os efeitos colaterais do mesmo, como insônia e irritabilidade. Atua beneficamente sobre a circulação, aumenta o ritmo cardíaco, facilita a digestão, favorece a evacuação e a micção, beneficia a pele, favorece também a regeneração celular e é regulador das funções do coração e da respiração.
    Que baita remédio... Gostoso, eficiente e barato, tchê !!

Os Dez mandamentos do Chimarrão

    1 - Não peças nunca açúcar no mate. O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço de Brasil: pedir açucar. Pode-se pôr água, ervas exóticas, cana, frutas, dólar, etc..., mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais, não hesites, pede uma Coca-Cola com canudinho que tu vais te sentir bem melhor...
    2 - Não digas que o chimarrão é anti-higiênico Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Claro que é, só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando de Chimarrão. Repito, pede uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa. Não nele).
    3 - Não digas que o mate está quente demais Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueis. Se, porém te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.
    4 - Não deixes um mate pela metade Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco da cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.
    5 - Não te envergonhes do ronco no fim do mate Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba "roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar um mal educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para a Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.
    6 - Não mexas na bomba A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesmo, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.
    7 - Não alteres a ordem em que o mate é servido Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve, mas, depois de entrar, espera sempre a tua vez, e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.
    8 - Não durmas com a cuia na mão Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando. E às vezes, te surpreendes até imaginando que a cuia não é cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que, apareceu no baile do Gaudério... Agora, tomar chimarrão numa roda é muito diferente. Aí, o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão tu falas, discutes, ris, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão. Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada tá esperando.
    9 - Não condenes o dono da casa por tomar o 1º mate Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio primeiro, saibas que o grosso és tu. O pior mate é o primeiro e quem toma está te prestando um favor.
    10 - Não digas que o chimarrão dá câncer na garganta Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que o chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der pra esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho que ela.... etc... etc...

Pércio de Moraes/Jornal "Tchê",  www.paginadogauderio.com.br

Poesia de Glaucus Saraiva

    Chimarrão

    Amargo doce que sorvo
num beijo em lábios de prata!
    Tens o perfume da mata
molhada pelo sereno
    E a cuia, seio moreno
que passa de mão em mão,
traduz no meu chimarrão,
em sua simplicidade,
a velha hospitalidade
da gente do meu rincão

    Em teus últimos arrancos
no ronco do teu findar,
ouço um potro corcovear
na imensidão do pampa!
    E minha mente se estampa,
reboando dos confins,
a voz febril de clarins
repenicando: Avançar!...
    Então me fico a pensar,
apertando os lábios assim,
que amargo está no fim',
é o sangue de 35
que volta verde em mim.

Preparando um Amargo...

    O chimarrão é uma tradição gaúcha que acompanha a peonada do campo e da cidade diariamente, o clima quase sempre frio favorece a prática desse outro costume que além de gostoso é revigorante e também fraterno pois a cuia passa de mão em mão, dando seqüência nas trovas e conversas. E é ótimo parceiro do churrasco, pois é diurético e digestivo. Tomas mais um?

1. Comece colocando água para ferver.
2. Coloque a erva em 3/4 da cuia.
3. Tape com a mão, e deite a erva até ficar quase vertical, sacuda.
4. Despeje água morna na cuia.
5. Deixe inchar a erva.
6. Enterre a bomba na erva tapando a ponta com o polegar. Vá até o fundo.
7. Deixe a água chiar, sem ferver.
8. Encha a cuia e tome até roncar, antes de passar para outra pessoa.
Dicas. Use erva nova . Não tome muito depressa.


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