O hábito do mate
é o mais peculiar hábito não apenas do gaúcho
rio-grandense , ele é o identificador do habitante do cone-sul da
América, encontramo-lo difundido, quer na forma quente , o mate
propriamente dito, quer na forma fria ou gelada , terêre ou mate
paraguaio , nos estados da região sul do Brasil, no Paraguai, Uruguai,
Argentina, Chile e sul da Bolívia.
Quando se fala na bebida
do Gaúcho, é sem dúvida nenhuma, lembrado o Chimarrão.
Mas entre as bebidas tradicionais, temos a canha, destilada principalmente
da cana-de-açucar, mas também existe de abacaxi, de mandioca,
de batata inglesa; e a graspa, feita da casca de uva pelos descendentes
de italianos. O vinho já era produzido ao estilo português
antes da chegada dos primeiros imigrantes italianos em 1875, porém,
os italianos e seus descendentes, tornaram a qualidade do vinho comparável
aos internacionais em variedade e qualidade.
Apesar das variações
e características regionais , esta bebida e sua forma de beber têm
em comum como traços identificadores:
1º É resultado
da infusão de erva-mate, produto da erveira, planta arbórea
da família Aquifoliaceae, com cerca de duzentas e oitenta espécies
na América do Sul , a maioria do gênero ilex , a erva-mate
no brasil é extraída llex paraguaiensis ou llex mate
designações propostas por Saint Hilaire em 1823.
2º A infusão
é realizada , no momento de ser bebida, em recipiente típico
, a cuia, do tupi Kuia, vaso feito de porongo podendo ainda a cuia ser
fabricada em madeira , guampa, louça, porcelana, cristal, alumínio
e a mais recente em plástico, da cuia, maliem qêchua, deriva
o nome mate, portanto , bebida em cuia.
3º A infusão
é sorvida através de um canudo , em geral metálico
, a bomba também denominada bombilha ou bombija, castelhanismos
derivados de bombilla, primitivamente os guaranis usaram a bomba de taquara.
4º A infusão é produzida pela adição de
água quente, temperatura ideal entre 75ºC e 78ºC, no caso
do nosso mate-chimarrão , água fria ou gelada , no caso tererê
, existem ainda variantes como a substituição de parte da
água por leite com acréscimo de açúcar, resultando
o mate doce, ou a substituição de parte ou da totalidade
da água pôr aguardente, mate usado no inverno pelos coletores
de erva e pelos soldados nas guerras e revoluções sulistas,
por isso chamado mate de guerra, esse tipo de mate é ainda hoje
corrente entre os habitantes do altiplano chileno.
5º As diversas
variantes do mate admitem o acréscimo de ervas medicinais e\ ou
aromáticas, o chamado jujo. O lugar adequado para o jujo é
o recipiente de água e não dentro da cuia .
O chamado “ chá
paraguaio “ usado na forma peculiar do mate é maneira “ sui generis
“ de ingerir uma infusão. Em nenhuma parte do mundo, excluído
o nosso Cone Sul, foi conhecido tal modo de beber um chá.
Dentre as variantes
do mate-chimarrão é verdadeiramente característico
do gaúcho rio- grandense, do oestino catarinense e do paranaense,
e o mais difundido nas regiões para onde migraram e esses sulistas.
A principal diferença
entre o mate-chimarrão , ou simplesmente chimarrão , e outras
variantes é o fato de ser amargo. Chimarrão , do espanhol
cimarrón, aplicado ás bebidas naturalmente amargas, tais
como o mate sem acréscimo de açúcar ou qualquer outra
bebida sem açúcar, como o chá ou o café amargos.
Etmológicamente, chimarrão qualifica em elemento em estado
natural, não domado, sendo ainda sinônimo de selvagem, bravio
ou alçado. Chimarrão era o gado, os cavalos e os cães
alçados, isto é, que haviam escapado á domesticação.
O termo também,
se aplica a pessoas vivendo em estado livre. Em Cuba, o termo cimarróm
aplico-se aos negros fugidos da escravidão.
Portanto, chimarrão
é sinônimo de mate amargo, mate não adoçado
ou abrandado pela adição de açúcar ou qualquer
outro adoçante natural ou sintético.
Glênio Fagundes
em Cevando Mate (1980) usa chimarrão como sinônimo
de mate amargo, a exemplo de outros autores que tratam do assunto. O popular
Aurelião, no verbete mate chimarrão, registra: “ O que se
toma sem açúcar “.
Destarte, quando for usada
erva-mate com açúcar adicionado ou quando for adicionado
açúcar no momento de beber leremos uma variedade de mate,
nunca um mate chimarrão. Com açúcar pode ser muitas
coisas MENOS CHIMARRÃO, o MATE AMARGO.
A
Erva-Mate
Mas vamos retornar ao Chimarrão
falando da Árvore-Símbolo do Rio Grande do Sul, a Erva-Mate.
Bem antes da chegada
do homem branco ao continente, os índios Guaranis habitavam a América
do Sul. Os "deuses" desses índios, trouxeram um presente a esse
povo, a Erva-Mate, que encontrou seu habitat natural às sombras
das matas dos pinheirais ao longo dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.
Esta planta ignorou a política e a geografia dos brancos, crescendo
e multiplicando-se em terras dos Reinos da Espanha e de Portugal. Mas foram
os Guaranis que a denominaram CAA que significava "erva saborosa para preparar
uma bebida de grandes virtudes", e ao se colocar água (CAA-I), desvendaram
uma poção mágica capaz de alimentar o corpo e renovar
as forças, afastar o cansaço e curar doenças, mantendo
o coração alegre e o espírito alerta, tornando cada
índio Guarani um bravo nas lutas contra os inimigos.
Com a chegada do branco,
os Guaranis generosamente ofereceram a cuia de CAA-I. O sucesso dessa bebida
atravessou terras até Assunção, Sacramento e Buenos
Aires, cruzando os Andes junto com a "febre de prata", chegou à
Lima, Potosi e Chile. Com o passar do tempo e ampliação do
seu uso, foi mudando de nome. CAA, CAA-I, Erva-dos-índios, Erva-do-Paraguai,
Erva-que-toma-no-mati, e por último Erva-Mate.
A mudança do
nome não afetou as qualidades dessa bebida, recebida dos "deuses"
Guaranis, tão pouco aquele gesto generoso que foi oferecido ao primeiro
homem-branco que aqui aportou, tornando o oferecimento da cuia à
qualquer recém chegado uma marca de hospitalidade que sobrevive
até nossos dias.
A Erva-Mate faz parte
da família das "Aquifoliaceae" do gênero "Ilex", que foi recolhida
pelo francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1822, e enviou amostras
de suas folhas dando a classificação botânica pela
Academia de Ciências do Instituto da França, sendo registrada
com o nome "Ilex Paraguariensis", que é a nossa Erva-Mate
tradicional. Existe mais de 60 espécies do gênero Ilex,
com pequenas diferenças entre si, como o formato de folha, variação
de cor, etc.
Seu porte pode chegar
a 12 metros, mas as ervateiras submetidas à podas não passam
de 7 metros, têm flores brancas de quatro pétalas, agrupadas
em cachos, com frutos muito pequenos de cor vermelho-arroxeado, geralmente
produzindo quatro sementes em cada fruto. A árvore nova deve ser
podada apenas a partir do terceiro ano de vida para não comprometer
sua formação, passando a ser considerada produtiva a partir
do quinto ano, com colheita de dois em dois anos.
Existem várias
lendas que contam a história da Erva-Mate, como a do velho guerreiro
Guarani que tinha como filha a bela Yari, que preferiu ficar com o seu
velho pai, já cansado demais, quando sua tribo partiu em busca de
melhores terras para a caça e o cultivo.
Quando surgiu um Pagé
ou Tupã, comovido com a dedicação de Yari, e em sinal
de gratidão da boa acolhida que recebeu dela e de seu velho pai,
antes de partir, deixou ao velho e cansado índio Guarani uma planta
muito verde, e disse: "Terás nessa nova bebida uma companhia saudável,
mesmo nas horas tristonhas da mais cruel solidão".
Em outra versão,
o velho pai, zeloso das virtudes da bela Yari, pediu ao visitante, como
recompensa pela generosa hospitalidade, que Yari permanecesse livre das
maldades, tentações e pecados, permanecendo eternamente bondosa,
linda e pura. Para atender à súplica do pai, o Pagé
transforma Yari numa árvore de Erva-Mate, e é por isso que
podemos dizer que a ervateira tem o dom da eternidade, porque renasce depois
de cada corte com o mesmo vigor, e tem a capacidade de, quando servida
aos visitantes, expressar fraternidade e hospitalidade.
Os jesuítas
viam com desconfiança essa bebida, pois viam nela uma ameaça
às virtudes cristãs, entendendo como vício originário
de segredos de Pagés e Feiticeiros, como o Padre Antônio Ruiz
de Montoya, da redução de Guairá, no século
XVII, que dizia ser "Erva do Diabo", propícia à prática
de atos licenciosos. Em 1610, o padre jesuíta Diogo de Torres encaminhou
ao Tribunal do Santo Ofício, em Lima, uma longa advertência
a respeito da Erva-Mate usada pelos índios, "por pacto e sugestão
clara do demônio". Mas, na verdade, o grande malefício da
erva é que os índios abandonavam a missa e o sermão
para tomar chimarrão, ou porque saíam frequentemente para
urinar.
O sistema colonial
espanhol procurou acabar com a cultura nativa proibindo o uso e a comercialização
da Erva-Mate, usando como argumento "danos morais causados pelo vício",
criando multas em dinheiro e até prisão para quem comercializasse
a nossa Erva-Mate. Toda essa pressão do conquistador não
evitou o crescimento deste hábito, que sobreviveu até os
nossos dias.
O modesto porongo dos
Guaranis com seus canudos de taquara, aos poucos vai sendo substituído
por cuias ricamente lavradas em prata e bombas de materiais mais nobres
como bombas de prata e ouro.
Por tratar-se de um
excelente negócio na época, os espanhóis subjulgaram
os índios para exploração da Erva-Mate, oprimindo-os
com pesados trabalhos, convertendo-os ao cristianismo, removendo-os de
suas aldeias e reduzindo-os à mais absoluta miséria. Antes
de completar um século, desde a primeira expedição
espanhola, o conquistador já deixa profundas cicatrizes na nação
Guarani.
A Erva-Mate é
explorada em 486 Municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná e Mato Grosso do Sul, gerando mais de 710.000 empregos. Seu
uso não é exclusivo para o Chimarrão, estendendo-se
para chás, sucos e produtos industriais, de higiene, cosméticos,
conservantes e corantes na elaboração de produtos farmacêuticos.
Tem utilização também na indústria de produtos
de limpeza como anti-oxidante e bactericida, tanto para uso doméstico
como para hospitalar, reciclagem de lixo, etc...
| Valor Mínimo | Valor Máximo | Valor Médio |
| Cinzas
Cloro (g) Enxofre Fósforo (g) Cálcio Magnésio (g) Potássio (g) Sódio (g) Ferro (mgs) % Cobre (mgs) Manganês (mgs) |
6,310
0,082 0,082 0,074 0,597 0,134 1,181 0,000 -,--- 0,600 30,200 |
7,7780
0,160 0,168 0,214 0,824 0,484 1,554 0,003 94,000 1,600 183,000 |
6,910
0,116 0,125 0,120 0,668 0,337 1,350 0,002 59,900 1,260 133,180 |
A Erva Mate é alimento e um santo remédio, pois contém
vitaminas A, B1, B2, C e E, sais minerais como Alumínio, Cálcio,
Fósforo, Ferro, Magnésio, Manganês e Potássio,
proteínas, glicídios e lipídios. Contem alcalóides,
como cafeína, que atua como estimulante de atividade física
e mental, beneficiando nervos e músculos eliminando a fadiga. Sua
atuação é mais prolongada que o efeito estimulante
do café, com a vantagem que não tem os efeitos colaterais
do mesmo, como insônia e irritabilidade. Atua beneficamente sobre
a circulação, aumenta o ritmo cardíaco, facilita a
digestão, favorece a evacuação e a micção,
beneficia a pele, favorece também a regeneração celular
e é regulador das funções do coração
e da respiração.
Que baita remédio...
Gostoso, eficiente e barato, tchê !!
Os Dez mandamentos do Chimarrão
1 - Não peças
nunca açúcar no mate. O gaúcho aprende desde piazito
que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou,
mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm
de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo
demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar
neste pedaço de Brasil: pedir açucar. Pode-se pôr água,
ervas exóticas, cana, frutas, dólar, etc..., mas jamais açúcar.
O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece
ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te
parece amargo demais, não hesites, pede uma Coca-Cola com canudinho
que tu vais te sentir bem melhor...
2 - Não digas
que o chimarrão é anti-higiênico Tu podes achar que
é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe.
Claro que é, só que tu não tens o direito de proferir
tamanha blasfêmia em se tratando de Chimarrão. Repito, pede
uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de
sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa.
Não nele).
3 - Não digas
que o mate está quente demais Se todos estão chimarreando
sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é
perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és
uma pessoa normal, assume e não te fresqueis. Se, porém te
julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para
o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.
4 - Não deixes
um mate pela metade Apesar da grande semelhança que existe entre
o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais.
Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa adiante. Já
o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida,
até ouvir o ronco da cuia vazia. A propósito, leia logo o
mandamento seguinte.
5 - Não te envergonhes
do ronco no fim do mate Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba
"roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém
vai te julgar um mal educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho
vale para a Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com
o dedinho levantado.
6 - Não mexas
na bomba A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa
dela mesmo, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens
todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba.
Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não
mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas
na bomba.
7 - Não alteres
a ordem em que o mate é servido Roda de chimarrão funciona
como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre
na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve, mas, depois de
entrar, espera sempre a tua vez, e não queiras favorecer ninguém,
mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.
8 - Não durmas
com a cuia na mão Tomar mate solito é um excelente meio de
meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando. E às
vezes, te surpreendes até imaginando que a cuia não é
cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que, apareceu no
baile do Gaudério... Agora, tomar chimarrão numa roda é
muito diferente. Aí, o fundamental não é meditar e
sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão tu falas,
discutes, ris, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização.
Só que esta tua participação não pode ser levada
ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão.
Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar teu mate,
que a moçada tá esperando.
9 - Não condenes
o dono da casa por tomar o 1º mate Se tu julgas o dono da casa um
grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio primeiro,
saibas que o grosso és tu. O pior mate é o primeiro e quem
toma está te prestando um favor.
10 - Não digas
que o chimarrão dá câncer na garganta Pode até
dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que
irás dizer, com ar de entendido, que o chimarrão é
cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece
o câncer. Se não der pra esquecer, faze o seguinte: pede uma
Coca-Cola com canudinho que ela.... etc... etc...
Pércio de Moraes/Jornal "Tchê", www.paginadogauderio.com.br
Poesia de Glaucus SaraivaChimarrão
Amargo doce que sorvo
num beijo em lábios de prata!
Tens o perfume da mata
molhada pelo sereno
E a cuia, seio moreno
que passa de mão em mão,
traduz no meu chimarrão,
em sua simplicidade,
a velha hospitalidade
da gente do meu rincãoEm teus últimos arrancos
no ronco do teu findar,
ouço um potro corcovear
na imensidão do pampa!
E minha mente se estampa,
reboando dos confins,
a voz febril de clarins
repenicando: Avançar!...
Então me fico a pensar,
apertando os lábios assim,
que amargo está no fim',
é o sangue de 35
que volta verde em mim.
O chimarrão é uma tradição gaúcha que acompanha a peonada do campo e da cidade diariamente, o clima quase sempre frio favorece a prática desse outro costume que além de gostoso é revigorante e também fraterno pois a cuia passa de mão em mão, dando seqüência nas trovas e conversas. E é ótimo parceiro do churrasco, pois é diurético e digestivo. Tomas mais um?
1. Comece colocando água para ferver.
2. Coloque a erva em 3/4 da cuia.
3. Tape com a mão, e deite a erva até ficar quase vertical, sacuda.
4. Despeje água morna na cuia.
5. Deixe inchar a erva.
6. Enterre a bomba na erva tapando a ponta com o polegar. Vá até o fundo.
7. Deixe a água chiar, sem ferver.
8. Encha a cuia e tome até roncar, antes de passar para outra pessoa.
Dicas. Use erva nova . Não tome muito depressa.