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Walter Avancini

Diretor de TV - Janeiro 2001

O bruxo dos folhetins

Depois de 10 anos longe da TV Globo, Walter Avancini retorna cheio de prestigio dirigindo O Cravo e a Rosa, a melhor novela do ano segundo a cr�tica

[Fonte - TV Press]

Aos 65 anos, Walter Avancini � um prod�gio da resist�ncia. No final de 1999, depois de dez anos longe da Globo, ele retornou � emissora que ajudou a levar ao topo. Na bagagem, algumas obras-primas, como as novelas "Gabriela" e "Saramandaia". O trabalho que marcou sua volta � Globo - o epis�dio "A Filha de Maria", do "Voc� Decide" - foi discreto. Mas ele n�o se importou e esperou o momento certo para deslanchar. Um ano depois, festeja as quatro categorias vencidas por "O Cravo e A Rosa" na elei��o anual promovida pela "TV Press": melhor novela, diretor, atriz coadjuvante para Leandra Leal e atriz revela��o para Vanessa Gerbelli. "Sempre acreditei na parceria de autores, diretores e atores. N�o podemos fazer tev� com o intuito puramente comercial porque estamos atingindo uma massa da popula��o que tem a tev� como �nico acesso � arte", ressalta.

"O Cravo e a Rosa" reafirma o estilo Walter Avancini de fazer televis�o: t�cnica aliada � criatividade, �nfase no conte�do da obra e exig�ncia m�xima dos profissionais envolvidos. Nos �ltimos dez anos, Avancini esteve � servi�o do SBT e da extinta Manchete. Nas duas emissoras, ele provou o gosto amargo do fracasso: "Brasileiras e Brasileiros" e "Brida". "Foram apenas dois momentos de insucesso em 40 anos de carreira. Estamos cheios de sucessos de audi�ncia no ar. Muitos deles, lastim�veis. N�o quero ter um sucesso lastim�vel nunca", afirma.

Longe dos est�dios de tev�, Walter Avancini � ainda mais misterioso. Trabalhador compulsivo, quando n�o est� fazendo televis�o, est� assistindo televis�o. De prefer�ncia, esporte e telejornais. Fora isso, gosta do "Casseta & Planeta, Urgente!", que considera "o programa atual de maior import�ncia da tev� brasileira". Do pr�prio Avancini, sabe-se apenas que se chama Nunciato, mora no Leblon, na zona sul do Rio, e tem quatro filhos. E � s� o que ele fala de sua vida pessoal. "�s vezes, me sinto um computador programado para viver a vida em fun��o do ve�culo em que trabalho", define.

P - A que voc� atribui o sucesso de "O Cravo e a Rosa", que vem atingindo uma m�dia de 30 pontos de audi�ncia e picos de 39?

R - A Globo sempre manteve uma postura condizente com o padr�o de qualidade que estabeleceu. A eventual perda deste padr�o seria um desastre para a emissora. Por isso, ela n�o pode se dar ao luxo de manipular os mesmos signos das outras emissoras, como nudez e viol�ncia. A Globo tem de ser coerente com a imagem, o padr�o e a est�tica que desenvolveu nos �ltimos 35 anos. Mas isso depende dos profissionais que buscam um conceito de responsabilidade dentro do que fazem. � preciso apostar sempre em produtos de forte identifica��o popular sem perder a identidade ou abrir m�o da qualidade. Qualidade n�o significa elitismo ou falta de comunica��o. N�o h� essa incompatibilidade. � isso que a Globo vem provando com "Chiquinha Gonzaga", "O Auto da Compadecida" e "O Cravo e a Rosa", entre outros.

P - Como voc� avalia o atual momento da tev� brasileira quanto � busca pela audi�ncia?

R - A tev� vive um momento de perplexidade muito grande. O alargamento do p�blico telespectador nas chamadas classes C e D provocou uma altera��o no comportamento da audi�ncia na tev� aberta. Como n�o houve progresso educacional e cultural nos �ltimos anos, os signos das classes C e D ficaram muito fortes dentro da tev� brasileira. Que tipo de homem pode ter sido formado em 21 anos de ditadura, cinco de Sarney e dois de Collor? Por isso, emissoras que trabalham dentro de signos populares se fortaleceram tamb�m. � uma quest�o de oportunismo? � natural que sim. Mas a tev� � conseq��ncia do quadro social, econ�mico e cultural de um pa�s. Particularmente, procuro inserir ideologia no meu trabalho. N�o me conformo em usar comercialmente o telespectador.

P - Mas qual � ou, pelo menos, deveria ser a principal finalidade da televis�o?

R - A tev� �, antes de tudo, o resultado da cultura brasileira e, como tal, tem de representar a sociedade na qual est� inserida. O n�vel cultural e de informa��o de um povo � o que determina o n�vel da programa��o da tev�. Quando houver elementos de educa��o que aproximem a popula��o de elementos art�sticos mais sens�veis, a tev� vai ser muito diferente. Enquanto isso n�o acontece, ela se limita a explorar a triste realidade que a� est�. O risco da tev� comercial � justamente o de dar continuidade a esse c�rculo vicioso sem desenvolver uma vis�o cr�tica. O profissional que faz tev� se obriga a isso. Porque o empres�rio que vive da comercializa��o do produto s� pensa nos lucros e no resultado imediato da audi�ncia. Afinal, se ele n�o conseguir audi�ncia, vai � fal�ncia. N�o d� � para colocar a tev� como algo mission�rio. Essa n�o �, definitivamente, a fun��o dela.

P - Na Manchete, voc� tinha o h�bito de recorrer a in�meros artif�cios para melhorar os �ndices de audi�ncia. Na Globo, voc� parece estar mais comedido no que diz respeito � sexualidade e � viol�ncia. O que aconteceu?

R - Na Manchete, eu n�o tinha as mesmas condi��es de trabalho que tenho na Globo. Muito pelo contr�rio. As realidades s�o bem diferentes. Fora da Globo, ningu�m consegue manter um padr�o de qualidade razo�vel. Mesmo assim, fiquei satisfeito com o resultado que obtive em "Xica da Silva". Quando voc� est� numa emissora que tem um quadro de audi�ncia muito baixo, tem de criar elementos de marketing para chamar a aten��o e garantir o patrocinador. Foi por isso que convidei a Cicciolina, por exemplo, para fazer "Xica da Silva". Na Globo, isso n�o � necess�rio. A emissora, por si mesma, j� � o grande marketing. Tudo o que se coloca nela j� tem um marketing assegurado. O que voc� precisa � elaborar um produto para fazer crescer o que j� � grande. Acho que foi isso que fiz em "O Cravo e a Rosa".

P - Mas, na Globo, voc� n�o desfruta da mesma liberdade que desfrutava na Manchete, n�o �?

R - As circunst�ncias tamb�m s�o diferentes. Na Manchete, eu trabalhava sozinho. Isso pode parecer bom, mas n�o �. Na Globo, convivo com profissionais experientes, como D�nis Carvalho, Roberto Talma, Carlos Manga... Tenho profunda afinidade com muitos deles. Portanto, hoje em dia, me sinto menos solit�rio do que na Manchete. Na Globo, tenho com quem dialogar. � melhor assim...

P - Voc� saiu da Globo sob a gest�o do Boni e voltou sob a de Marluce Dias da Silva. Voc� n�o acha que a Globo perdeu muito com a sa�da do Boni?

R - N�o h� d�vida. Sempre disse que, quando o Boni sa�sse da tev�, voltar�amos para os anos 50. N�o foi isso exatamente que aconteceu, mas qualquer emissora do mundo perderia com a sa�da do Boni. Mas a Globo tem profissionais capacitados para minimizar essa perda e ocupar a lacuna deixada por ele. Talento e compet�ncia, eles t�m. Que a dedica��o os leve a encontrar o caminho certo...

P - Nos anos 80, voc� ocupou o cargo de diretor de teledramaturgia da Globo. N�o gostaria de ocupar cargo parecido na atual Central Globo de Cria��o?

R - N�o tenho qualquer pretens�o em rela��o a isso. O momento � de transi��o. Temos de deixar os projetos pessoais de lado e concentrar nossas aten��es no coletivo. Todos na Globo, inclusive eu, est�o empenhados em superar a atual instabilidade do mercado. Atualmente, s� penso em ser �til e ajudar no que for poss�vel. Depois que os caminhos se definirem, voltarei a pensar em termos individuais.


Polemista inato

A hist�ria de Walter Avancini se confunde com a da pr�pria tev� brasileira. Filho de um pedreiro com uma dona de casa, ele nasceu em Sacom�, bairro oper�rio de S�o Paulo. Aos 7 anos, recitava poesias num circo e, aos 9, trabalhava como ator de radionovelas na R�dio Tupi. A estr�ia como diretor de novelas s� aconteceu em 1965, quando dirigiu "A Indom�vel", adapta��o de Ivani Ribeiro para a pe�a "A Megera Domada", de William Shakespeare - coincidentemente, a mesma que deu origem a "O Cravo e a Rosa". Com o passar do tempo, Avancini tornou-se fiel defensor da adapta��o liter�ria para a tev�. "A tev� n�o serve apenas para entreter. Serve tamb�m para avaliar a realidade s�cio-econ�mica de um pa�s", avalia.

A carreira de Avancini, no entanto, est� repleta de momentos controvertidos. No ano de 1975, em plena ditadura militar, o ent�o diretor de "Gabriela" usou de criatividade para burlar a censura e exibir a sensualidade da personagem de S�nia Braga. A cena em que a atriz sobe no telhado para pegar uma pipa consta em qualquer antologia da teledramaturgia nacional. "Tinha dificuldade at� de mostrar um peda�o de joelho. Criar um clima er�tico sem mostrar a nudez � uma arte", vangloria-se. A tentativa de criar outro clima er�tico em "Xica da Silva", j� na Manchete, causou mal-estar em Ta�s Ara�jo. A atriz se recusou a fazer uma cena de sexo anal. "A Xica s� entrou para a Hist�ria porque rompeu com as conven��es moralistas da �poca", frisa.

Na mesma novela, Avancini despertou a ira da Igreja ao gravar cenas er�ticas entre um padre e um grupo de freiras. Tais cenas, no entanto, n�o chegaram a ser exibidas. "Recebi a liminar de uma ju�za proibindo as cenas sem que ningu�m tivesse visto nada!", reclama. Pol�micas � parte, Avancini se diz satisfeito com o resultado de 35 anos de carreira como diretor. A lamentar mesmo s� as malsucedidas "Brasileiras e Brasileiros", do SBT, e "Brida", da extinta Manchete. A primeira pecou por mostrar o dia-a-dia da camada pobre da popula��o e a segunda saiu do ar por problemas financeiros da emissora. "Nunca estou satisfeito com o que fa�o. Se realizo 15% do que idealizei, j� � uma boa m�dia", calcula.


Faro agu�ado

Ao longo dos anos, Avancini desenvolveu a capacidade de revelar talentos. A primeira e mais famosa das "descobertas" do diretor foi Regina Duarte. O rosto da futura atriz em comerciais de geladeira e margarina chamaram a aten��o de Avancini que a convidou para fazer "A Deusa Vencida", na extinta Excelsior, em 65. De l� para c�, os dois trabalharam juntos em "As Minas de Prata", da Excelsior, "Fogo Sobre Terra", "Selva de Pedra" e "Nina", todas da Globo. "Gosto de trabalhar com principiantes porque eles ainda n�o est�o impregnados pelo sucesso f�cil. A maioria dos que j� s�o famosos acham que sabem tudo", lamenta.

Outro motivo de ineg�vel orgulho para Avancini foi dirigir Bruna Lombardi em "Grande Sert�o: Veredas", de 1985. Na miniss�rie, Bruna se transformou em Diadorim e seduziu p�blico e cr�tica. No final, a atriz ainda protagonizou uma das mais belas cenas de nu da tev� brasileira. "A Bruna ficou nua para mim porque sabia que jamais faria um document�rio com a cena", orgulha-se. Mais recentemente, Avancini explorou tamb�m a sensualidade de Giovanna Antonelli em "Tocaia Grande" e a de Carla Regina em "Mandacaru". "Sou como um pai. Duro, mas generoso. Quem trabalha comigo, nunca sai perdendo", garante.

Al�m de descobrir alguns talentos, Avancini tamb�m costuma aprimorar outros. Em "Xica da Silva", transformou uma atriz c�mica como Drica Moraes na maquiav�lica Violante. Em "O Cravo e A Rosa", transformou um ator de trajet�ria limitada como Eduardo Moscovis no divertido Petrucchio. Ele ainda continua como o faro agu�ado para jovens promissores. As atrizes Vanessa Gerbelli e Rejane Arruda, que interpretam a Lindinha e a Kiki em "O O Cravo e a Rosa", que o digam. "Os que est�o comprometidos com o aprimoramento me v�em como um anjo da guarda. Infelizmente, os inimigos fazem mais alarido que os amigos", brinca.



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