Mulher arretada
Regina Cas� volta �s novelas depois de 15 anos como Rosalva, uma nordestina cheia de atitude e exercita seu lado dram�tico na tev�
[Fonte - TV Press]
Regina Cas� j� estava com saudade de fazer novelas. S� que ela mesma n�o sabia. H� cerca de um ano, se algu�m perguntasse a ela quando voltaria a atuar na tev�, a resposta seria uma sonora gargalhada. Hoje, a atriz n�o esconde o entusiasmo ao falar de Rosalva, de �As Filhas da M�e�, que marca sua volta aos folhetins depois de 15 anos � a �ltima foi a espalhafatosa Tina Pepper em �Cambalacho�. Regina trocou os personagens da fic��o por gente de carne e osso, quando viajou por rinc�es do Brasil com �Programa Legal� e �Brasil Legal�. "Cheguei a acreditar que nunca mais faria novelas. Sentia falta, mas estava sempre viajando. Ainda hoje, prefiro estar descabelada no meio do pov�o a ficar toda arrumadinha no est�dio", confessa.
A �ltima experi�ncia de Regina como apresentadora, por�m, n�o foi das melhores. Depois de sucessivas derrotas no Ibope, �Muvuca� foi retirado do ar. Neste meio tempo, ela foi convidada para protagonizar �Eu, Tu, Eles�, de Andrucha Waddington. Sua atua��o no filme arrancou elogios, entre outros, de Fernanda Montenegro e de S�lvio de Abreu. O autor da Globo chegou a compar�-la a Anna Magnani, diva do neo-realismo italiano. "O fim do �Muvuca� n�o tem nada a ver com minha volta �s novelas. Quando fiz o filme, tamb�m insinuaram isso. O que me conquistou mesmo foi a personagem. O S�lvio me pegou de jeito", brinca. Em �As Filhas da M�e�, Regina Cas� interpreta uma nordestina arretada que tem de se virar para sustentar sozinha os quatro filhos depois de ficar vi�va do marido, vivido por Edson Celulari. A princ�pio, S�lvio queria que Rosalva fosse uma italiana, mas Regina sugeriu que ela fosse uma nordestina mesmo, igual a tantas outras que ela conheceu Brasil afora. Quando descobre que era tra�da pelo marido, Rosalva abre o decote da blusa e promete vingan�a ao finado. "A Rosalva � do tipo barraqueira, daquelas que quebra tudo o que encontra pela frente. O papel de mocinha n�o combina mesmo comigo", admite, bem-humorada. P - O que a levou de volta �s novelas depois de 15 anos? R - Havia uma certa press�o, tanto da parte da Globo quanto dos f�s em geral. Principalmente depois do �Eu, Tu, Eles�. Alguns amigos diziam que eu era louca de parar de atuar. A Fernandona, por exemplo, depois de assistir ao filme, me telefonou e disse: "Regina, voc� � atriz, tem de voltar a atuar. Pelo menos um pouquinho...". Ela se queixava muito do meu sumi�o das novelas. Confesso que tamb�m sentia falta, mas n�o a ponto de interromper a minha carreira de apresentadora. P - Parece que o S�lvio de Abreu tamb�m elogiou sua atua��o no filme... R - � verdade. O S�lvio me mandou um fax prof�tico, porque era igualzinho � cr�tica que sairia meses depois no jornal "The New York Times". Ele dizia: "Acabei de ver o filme e voc� est� igualzinha a Anna Magnani. Quero ver voc� fazendo rir e chorar na minha pr�xima novela. Voc� topa?". Fiquei toda prosa. N�o pensava em fazer novelas t�o cedo, mas tive uma experi�ncia muito bacana em Cambalacho, novela que o S�lvio escreveu e o Jorginho dirigiu. N�o pude recusar, mas fiquei bastante nervosa. P - Por qu�? R - Porque eu tinha outros projetos em vista naquele momento e n�o conseguiria fazer as duas coisas ao mesmo tempo. J� trabalho com a mesma equipe h� 10 anos. � quase uma fam�lia. N�o sabia o que fazer com ela. N�o sabia se continuava o Muvuca ou se investia em outros projetos. Fiquei muito insegura. Ser� que a novela vai dar certo?Ser� que n�o vai dar? Foi uma mudan�a radical. P - Voc� disse que a personagem tamb�m exerceu forte influ�ncia em sua volta �s novelas. O que a Rosalva tem de t�o interessante? R - Logo no primeiro cap�tulo, o marido da Rosalva morre e ela descobre que o sujeito tinha um monte de amante. Da� em diante, ela poderia virar qualquer coisa: a chata, a coitadinha, a sofredora... Ou, ent�o, fazer o que ela fez. No cemit�rio mesmo, abriu o decote da blusa e resolveu ir � luta. Eu tamb�m sou assim. Gosto de fazer o que ainda n�o fiz e ir onde nunca fui. Gosto de correr riscos. �s vezes, a vida d� uns sacodes quando a gente menos espera. Ou a gente tira proveito deles para mudar de vida ou se ferra de vez. Acho triste quando algu�m escolhe o papel de v�tima. Infelizmente, isso ainda acontece com muitas mulheres... P - Voc� acha que a Rosalva pode repetir o sucesso da Tina Pepper, de �Cambalacho? R - Tomara que sim. Mas as duas s�o bastante diferentes entre si. De parecidas, apenas o fato de serem um pouco bravas, esquentadas, elas n�o d�o mole para qualquer um. Mas essa bravura � decorr�ncia dos muitos desafios que a mulher enfrenta todos os dias. N�s temos de fazer um milagre por dia. N�o � nada f�cil criar quatro filhos, botar comida em casa e, � noitinha, ainda ficar gostosa para o marido. Ou seja: a Rosalva tem essa bravura que, �s vezes, parece agressividade. Mas a vida � assim mesmo. De vez em quando, a Rosalva fica meio arisca, parece um bichinho. A Tina Pepper tamb�m era assim. Outra qualidade que as duas t�m em comum � o senso de humor. As duas, n�o. N�s tr�s. P - Mas voc� conseguiu manter o bom humor ao saber do fim do �Muvuca�? R - N�o. Fiquei muito triste. Hoje em dia, a coisa que mais me entristece � a segmenta��o da tev�. Quando algu�m me diz que este ou aquele programa � popular, fico toda arrepiada. As pessoas tendem a associar programa popular a algo pejorativo. A maior riqueza que o Brasil tem � o seu povo. � o povo que produz a cultura de um pa�s. Quando algu�m fala que elite s� assiste � tev� a cabo e o pov�o s� assiste � tev� aberta, fico preocupada. Sempre tentei ser uma artista transversal. Sempre quis fazer programas que pudessem ser assistidos tanto pela elite quanto pelo pov�o. Se eu tiver de escolher entre uma coisa ou outra, n�o vou escolher nenhuma das duas. Por essas e outras, novela ainda � o �nico produto democr�tico da tev� brasileira, porque � assistida tanto pela patroa quanto pela empregada. P - Voc� pensa em comandar outros programas ou desistiu da id�ia de ser apresentadora? R - Sou ruim de desistir, hein?Admito que fiquei desanimada, mas n�o a ponto de n�o querer fazer mais. Quero ajudar a desatar este n�. Mas sei que n�o posso fazer isso sozinha. No ano passado, me reuni com um monte de gente, como o diretor Guel Arraes, o antrop�logo Hermano Vianna, o cineasta Jo�o Moreira Salles, o escritor Jorge Furtado e assim por diante. A gente se reunia todo dia para discutir v�rios assuntos. Adoraria fazer um f�rum de debates para discutir a televis�o brasileira. Quando vou �s livrarias, tomo um susto ao constatar que existem poucos livros sobre o tema. E voc� j� parou para pensar no espa�o que a tev� ocupa na vida do brasileiro? Pois �. E quase ningu�m fala sobre isso. P - Mas por que voc� relutou tanto em fazer televis�o no in�cio de carreira? R - Na �poca do Asdr�bal, dei uma entrevista para a "Veja" em que dizia: "Jamais trabalharei na Globo". Era muito menina e demorei a entender o que a televis�o representava para o povo brasileiro. Na �poca, viv�amos o auge da ditadura e teatro era sin�nimo de arte engajada. At� hoje, muita gente da minha gera��o tem um p� atr�s com a tev�. Eles s� aceitam fazer novela para ficar conhecidos ou ganhar dinheiro. Logo que me firmei na carreira, mudei de id�ia. Durante anos, morei entre a Rocinha e a Globo. Vou fingir, ent�o, que a Rocinha e a Globo n�o existem? Imposs�vel. S� se eu fosse maluca... P - Voc� descarta a possibilidade de retomar o �Muvuca�? R - N�o tenho a menor vontade de repetir o mesmo programa. J� entrevistei an�nimos por 10 anos. Quero fazer algo diferente. Tenho um monte de projetos com o Guel. Outros tantos com o Hermano. � natural que, depois da novela, eu venha a dar prioridade a outros projetos. Agora, n�o fa�o a menor id�ia do que vai ser. E nem quero pensar sobre isso no momento. Quero me dedicar integralmente � novela. N�o estou encarando �As Filhas da M�e� como um "tapa-buraco". Quero deixar claro que estou fazendo a novela porque eu quero. Entre tantas outras coisas que poderia estar fazendo, escolhi fazer a novela. Tanto o S�lvio de Abreu quanto o p�blico merecem esta considera��o da minha parte. P - Mas voc� pretende continuar trabalhando com n�o-famosos? R - Com certeza. Durante muito tempo, interpretei personagens do povo, como a Tina, a Darlene, a Rosalva... Sou boa para fazer papel de pobre, n�? Depois de interpretar essas pessoas simples, passei a entrevist�-las e a mostrar um pouco da vida delas na televis�o. Agora, quero contracenar com elas. Exercitar meu lado de atriz com estas pessoas simples. Durante anos, me perguntei: "De onde essas pessoas tiram tanta alegria?" � uma barra t�o pesada viver no Brasil que n�o sei como elas sobrevivem. Se puder realizar esse sonho, vou fechar um ciclo na minha carreira.A grande chance
Regina Cas� esperou 20 anos at� estrear como protagonista de um longa-metragem. Em 1998, ela aceitou o convite do diretor Andrucha Waddington para fazer o papel de Darlene no filme �Eu, Tu, Eles�. O diretor de �G�meas� pensou logo no nome da atriz depois de assistir no programa �J� Soares Onze e Meia�, do SBT, � entrevista de uma sertaneja que, h� sete anos, divide o mesmo teto com tr�s homens no interior do Cear�. Durante as filmagens, a extrovertida Regina Cas� sofreu nas m�os do diretor at� acertar o tom contido da personagem. "Fiquei com �dio do Andrucha. Ele vivia falando: 'Menos, Regina, menos'. Achei que n�o fosse sair nada", confessa. Mas saiu. E o resultado surpreendeu � pr�pria Regina. At� hoje, ela n�o esquece a ova��o de dez minutos no prestigiado Festival de Cannes, na Fran�a. Ou do pr�mio de melhor atriz no modesto Festival de K�rlovy-Vary, na Rep�blica Tcheca. "O trof�u � enorme, todo de vidro. Muito bonito", descreve. Mas at� chegar onde chegou, Regina fez muita ponta em filmes, como �Eu Te Amo�, de Arnaldo Jabor, e �O Segredo da M�mia�, de Ivan Cardoso. Para ela, a suposta fama de ser uma pessoa dif�cil deve ter desencorajado alguns cineastas. "Todas as pessoas que trabalharam comigo se acostumaram com meu jeito. Hoje, algumas s�o at� grandes amigas", jura. Este foi o caso da produtora Sandra Kogut. As duas trabalharam juntas no extinto �Brasil Legal�, da Globo, e estenderam a parceria para o cinema. Em 95, Sandra convidou Regina para atuar no longa �L� e C�. O diretor do extinto �Muvuca�, Estev�o Ciavatta, tamb�m n�o tem do que reclamar. Os dois tamb�m se conheceram durante as grava��es do �Programa Legal� e j� est�o casados h� 10 anos. Atualmente, dividem o programa �Um P� de Qu�?�, no canal Futura, por UHF, que fala sobre v�rias esp�cies bot�nicas. "J� aconteceu de eu estar quieta no aeroporto e algu�m me cutucar. Se n�o dou papo, o sujeito logo diz que n�o sou aquilo que ele imaginava", resigna-se.Voca��o para o riso
Escrachada talvez seja o melhor adjetivo para Regina Cas�. Ela faz caras e bocas praticamente desde que nasceu, no dia 25 de fevereiro de 1954, no Rio de Janeiro. A pr�pria m�e da atriz, Dona Heleida, foi assistir � primeira pe�a da filha e comentou que n�o via gra�a nenhuma. Afinal, a Regina que estava no palco era a mesma que ela tinha em casa. A estr�ia de Regina Cas� na tev� aconteceu num dos epis�dios de �O S�tio do Pica-Pau Amarelo�, dirigido por seu pai, Geraldo Cas�. "Nunca tive a pretens�o de ser atriz dram�tica. O que gosto mesmo � de fazer coisas engra�adas", confessa. A inclina��o de Regina Cas� para o humor se intensificou em 74, quando ela ajudou a criar o grupo teatral "Asdr�bal Trouxe o Trombone". Nele, Regina trabalhou ao lado de Luiz Fernando Guimar�es, Perfeito Fortuna, Hamilton Vaz Pereira, Evandro Mesquita e Patr�cia Travassos. Em sete anos de grupo, Regina participou de diversos espet�culos, como �Aquela Coisa Toda�, �O Inspetor Geral� e �Trate-me Le�o�, que rendeu um Moli�re � atriz. "At� os 30 anos, n�o conseguia fazer teatro porque a censura n�o deixava. O que eu podia fazer? Me diverti � be�a com o Asdr�bal", avalia. Em 81, Regina deixou o Asdr�bal e enveredou pela tev�. Ao longo dos anos, destacou-se pelo humor histri�nico. Dos humor�sticos de que participou, guarda saudades dos tradicionais �Os Trapalh�es� e �Chico Anysio Show� e dos irreverentes �Brasil Legal� e �TV Pirata�. Depois de anos dedicados ao humor, Regina investiu numa faceta mais jornal�stica. Em 91, conciliou humor e jornalismo no elogiado �Programa Legal�. "Conheci muita gente nestas minhas andan�as pelo Brasil afora. Sempre quis entender como certas pessoas conseguem ser felizes mesmo levando uma vida t�o dura", justifica.