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Patr�cia Pillar

Atriz - Janeiro 2001

Engajamento social

Apesar de colecionar admiradores famosos e ser considerada uma das mulheres mais bonitas do Brasil, Patr�cia Pillar continua t�mida e discreta.

[Fonte - TV Press]

Na adolesc�ncia, Patr�cia Pillar n�o se achava a menina mais bonita do mundo. Quando se olhava no espelho, n�o gostava do que via: uma garota magra, quase an�mica, com aparelho nos dentes e grossos �culos para miopia. O tempo s� veio mostrar o quanto Patr�cia estava enganada a seu respeito. Hoje, ela � considerada uma das atrizes mais bonitas da tev� e coleciona admiradores famosos, como o escritor Lu�s Fernando Ver�ssimo. Mas "bonita" n�o � o �nico adjetivo freq�entemente associado ao nome da atriz. Em "Um Anjo Caiu do C�u", a pr�xima novela das sete, ela interpreta Duda, fot�grafa que n�o se conforma com o misterioso sumi�o do filho. "Quando fa�o tev�, me envolvo, capricho, vou fundo. Por isso, busco personagens que me interessam. Caso contr�rio, prefiro ficar em casa", garante.

Quando diz que busca personagens que lhe interessam, Patr�cia d� a entender que detesta aqueles que n�o t�m nada a dizer. Por conta disso, os mais recentes trabalhos da atriz foram revestidos de forte engajamento social. A come�ar pela sem-terra Luana, de "O Rei do Gado", que discutiu a reforma agr�ria no Brasil. Ou a m�dica Cris Brand�o, de "Mulher", que abordou higiene, sa�de e comportamento. A fot�grafa Duda, de "Um Anjo Caiu do C�u", n�o � diferente. Na trama de Ant�nio Calmon, a personagem chega a fundar uma ONG para localizar crian�as desaparecidas. "Acho bacana quando a tev� cumpre uma fun��o social. N�o d� para ficar falando abobrinha o tempo todo...", critica.

Aos 37 anos, Patr�cia continua t�mida e discreta. Quando sai �s ruas, recorre a cabelos presos e �culos escuros na v� tentativa de passar inc�lume pela multid�o. A atriz nunca foi de falar da vida pessoal. Depois que come�ou a namorar o candidato � Presid�ncia da Rep�blica Ciro Gomes, menos ainda. Da vida pessoal, diz apenas que mudou de apartamento, parou de fumar e perdeu seis quilos. Da profissional, n�o v� a hora de rodar o filme "Olga", baseado na biografia de Olga Ben�rio Prestes. "O personagem � forte, envolvente e carism�tico. � tudo o que uma atriz pode querer", elogia.

P - A sua �ltima novela foi "O Rei do Gado", de 1996. O que a encorajou a voltar a trabalhar numa produ��o do g�nero?

R - Um pouco de tudo. A personagem � boa e a hist�ria, melhor ainda. Fiquei quatro anos sem fazer novelas. J� estava com saudades. S� n�o gosto de fazer uma novela atr�s da outra. Fazer novela � muito complicado. Voc� nunca sabe o que vai acontecer com o personagem. O autor tamb�m n�o tem condi��es de ser brilhante durante 200 cap�tulos. Fora que novela � muito repetitiva. Chega uma hora que satura. Mas, �s vezes, fazer novela � at� divertido.

P - O que mais chamou sua aten��o na Duda, de "Um Anjo Caiu do C�u"?

R - De tudo que j� fiz na tev�, a Duda � uma grande novidade. N�o acho estimulante fazer um personagem parecido com o anterior. J� a Duda � uma pessoa muito desorganizada emocionalmente. Ela perdeu um filho h� 10 anos quando o menino passeava na praia com o pai. At� hoje, ela acredita que o filho esteja vivo. S� que ningu�m acredita mais nisso. A pr�pria fam�lia j� deu o menino como perdido. As pessoas chegam a achar que ela ficou paran�ica ou coisa parecida. Embora tenha outros filhos, ela n�o consegue esquecer do que desapareceu. � uma pessoa muito sofrida...

P - � doloroso fazer uma personagem sofrida como a Duda?

R - Quando digo que a Duda � uma novidade, quero dizer que nunca interpretei uma personagem t�o aflita quanto ela. Ela vive com um aperto no cora��o e um n� na garganta. As pessoas perguntam: "E a�, Duda. Tudo bem?" A�, ela responde: "Tudo. Tudo bem, sim". Mas todo mundo est� vendo que a situa��o n�o est� boa. E nem poderia. O pr�prio analista da personagem aconselhou que ela trabalhasse em algo que tivesse a ver com o assunto. Foi a� que ela resolveu fundar uma ONG para ajudar outras m�es a localizarem os filhos. Mas, �s vezes, d�i muito fazer a Duda. Estou doida para que ela encontre logo o filho para sair dessa.

P - Como foi a experi�ncia de visitar as fam�lias de crian�as desaparecidas na Funda��o para a Inf�ncia e Adolesc�ncia?

R - Foi maravilhosa. Conheci mulheres incr�veis que tiveram as vidas paralisadas com o sumi�o dos filhos. Conversei com oito fam�lias que passaram pelo mesmo dilema da personagem. A FIA mant�m o SOS Crian�a, entidade que tenta encontrar crian�as desaparecidas. O que puder fazer para ajudar, eu farei. Ainda mais porque a novela vai ser exibida no Brasil inteiro.

P - Voc� acha que o t�o propalado "laborat�rio" � realmente indispens�vel ao ator?

R - O que mais gosto na minha profiss�o � pesquisar, conhecer as pessoas e ir aos lugares em que os personagens moram. Para fazer "O Quatrilho", passei 20 dias no Sul, visitando fazendas de queijo e de ling�i�a. Na �poca de "O Rei do Gado", passei 20 dias num acampamento de b�ias-frias. Fiquei meio deprimida no come�o, porque n�o podia fazer nada por aquelas mulheres. Mas foi uma experi�ncia inesquec�vel. Minha profiss�o est� muito ligada ao respeito �s pessoas. Por tudo que conversei com as mulheres que freq�entam a FIA, soube que elas n�o conseguem mais comer porque acreditam que o filho desaparecido est� passando fome, n�o conseguem mais dormir porque acreditam que o filho est� sentindo frio e assim por diante. Quando a crian�a morre, voc� sofre, mas se conforma com a perda dela. Mas, quando desaparece, voc� n�o sabe o que fazer ou a quem recorrer.

P - Voc� acha que "Um Anjo Caiu do C�u" vai mobilizar tanto a popula��o quanto "Explode Cora��o", de Gl�ria Perez?

R - Sinceramente n�o sei. N�o sei se a Globo vai fazer uma campanha igual � que foi feita na �poca de "Explode Cora��o". N�o gosto de fazer elocubra��es. Mesmo porque a mobiliza��o de "Um Anjo Caiu do C�u" vai ocupar um espa�o menor na trama. A quest�o dos meninos desaparecidos vai funcionar apenas como um pano de fundo. O Calmon n�o pretende transformar o sumi�o do filho da Duda em bandeira ou campanha. Mas, s� de tocar no assunto, j� desperta interesse na m�dia. Conheci de perto aquelas mulheres e vi o quanto elas sofrem. Volto a dizer: o que eu puder fazer para ajudar, eu farei. Se apenas uma ou duas crian�as forem localizadas, j� vou me dar por satisfeita.

P - Os seus mais recentes pap�is na tev� tinham forte engajamento social. Qual � o seu crit�rio na escolha dos personagens?

R - Escolho meus personagens pelo que eles representam em termos de novidade para a minha carreira. N�o disponho de qualquer outro crit�rio de sele��o. Gosto quando minhas personagens t�m algo a dizer. Mesmo que sejam id�ias diferentes da minha. O que n�o d� � para falar futilidade o tempo inteiro. Isso � chato para quem faz e para quem assiste. A tev� n�o precisa se tornar chata ou did�tica para tocar em assuntos do interesse p�blico. Eu perdi a conta das mulheres que elogiaram a iniciativa do seriado "Mulher". Assuntos como frigidez, Aids, aborto e impot�ncia foram tratados sem papas na l�ngua. Ainda hoje, muita gente pergunta porque o seriado acabou.

P - O fato de ter assumido publicamente o namoro com o pol�tico Ciro Gomes afetou a carreira profissional?

R - Procuro n�o tocar muito neste assunto. N�o quero que uma coisa interfira na outra. At� j� falei algumas vezes sobre minha vida pessoal, mas procuro falar cada vez menos sobre isso. As pessoas n�o t�m muito respeito. Acho tamb�m que passou da conta o h�bito que certas pessoas t�m de contar detalhes da vida pessoal. Tem gente que conta tudo...

P - Quando voc� resolveu seguir a carreira de atriz?

R - Sempre quis fazer teatro. Quando crian�a, gostava de fazer fantoches. N�o gostava muito de brincar de boneca. A n�o ser que eu criasse uma hist�ria. No gravador do meu pai, fazia radionovela, an�ncios, sonoplastia. Quando me mudei para o Rio, consegui uma vaga no Tablado. Eu me senti um peixe fora d'�gua. Todo mundo l� tinha mais experi�ncia que eu. Mas o que mais me interessou foi a maneira como as pessoas discutiam os mais variados assuntos. Sempre tive vontade de aprender, conversar sobre os mais variados assuntos e ser a melhor em tudo que fazia. Quando vi, j� estava ensaiando uma pe�a... Desde ent�o, n�o parei mais.

P - Hoje, voc� tamb�m atua num ve�culo que privilegia a beleza. Voc� n�o teme envelhecer?

R - Nunca fui de me basear muito em valores est�ticos. Prefiro ser considerada uma pessoa interessante, por exemplo, a ser considerada uma pessoa bonita. Nunca estive e nem vou estar atr�s da fonte da eterna juventude. As pessoas melhoram muito com o tempo. Quero que isso tamb�m aconte�a comigo. Estou mais interessada no que posso adquirir com o passar do tempo do que em perseguir uma juventude que n�o vai durar a vida toda.

P - Mas como voc� se sente ao ser considerada "musa" do Lu�s Fernando Ver�ssimo?

R - H� muito tempo, estava lendo a revista "Rep�blica" e morri de dar risada quando vi o que ele respondeu ao ser interrogado sobre o que faria de gra�a: "Qualquer coisa com Patr�cia Pillar". Dias depois, a mulher dele me encontrou na rua e disse que ele me adorava. Quase n�o acreditei...


Na trilha do sucesso

Assim que soube que o livro "Olga", do jornalista Fernando Moraes, estava prestes a ser adaptado para o cinema, Patr�cia Pillar n�o hesitou em ligar para o diretor Luiz Fernando Carvalho, com quem trabalhou em "O Rei do Gado". Pelo telefone, a atriz se ofereceu para o papel da militante comunista alem�, que foi entregue gr�vida � Gestapo pelo Estado Novo. Al�m da semelhan�a f�sica com a mulher de Lu�s Carlos Prestes, Patr�cia tinha a oferecer ao diretor Luiz Fernando Carvalho um respeit�vel curr�culo de 13 pe�as, 12 novelas e sete longas-metragens. "O filme tem custo alto. Mas o projeto existe e vai come�ar a ser rodado no segundo semestre deste ano", avisa.

A carreira de Patr�cia Gadelha Pillar � uma das mais bem-sucedidas do cinema brasileiro. No curr�culo, o pr�mio de Melhor Atriz no Festival de Bras�lia de 1997 pela atua��o como a Ludovina de "Amor & Cia", de Helv�cio Ratton. A estr�ia da atriz no cinema aconteceu em 1984, quando foi convidada pelo diretor Miguel Faria Jr. para interpretar a protagonista de "Para Viver Um Grande Amor". Nem as belas can��es de Chico Buarque, por�m, salvaram o filme do fracasso. No mesmo ano, a atriz foi chamada pelo diretor Paulo Ubiratan para trabalhar em "Roque Santeiro", da Globo. "Naquela �poca, a tev� era um grande mist�rio para mim", lembra.

De l� para c�, Patr�cia j� fez outros seis filmes, como "Menino Maluquinho", do Helv�cio Ratton, e "O Monge e a Filha do Carrasco", de Walter Lima Jr. "O Quatrilho", de F�bio Barreto, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 96 e "Novi�o Rebelde", de Tizuka Yamasaki, levou 2,5 milh�es de pagantes aos cinemas. A atriz n�o teve a mesma sorte quando produziu "A Maldi��o de Sampaku", de Jos� Joffily. O filme demorou dois anos para ser lan�ado e n�o empolgou o p�blico. "A decis�o de produzir foi tomada porque n�o se fez mais cinema depois que o Collor assumiu. Merec�amos mais respeito por parte dos respons�veis pela cultura nacional", reclama.


Mulher de fibra

A sofrida Duda, de "Um Anjo Caiu do C�u", n�o chega a ser uma novidade na carreira de Patr�cia Pillar na tev�. Desde que estreou em "Roque Santeiro", ela j� interpretou "mulheres batalhadoras", como ela mesma faz quest�o de definir, em outras novelas. Em "Rainha da Sucata", por exemplo, ela fez Ala�de, uma empregada dom�stica que trabalhou a vida inteira na casa do pr�prio pai, interpretado por Paulo Gracindo, que morreu sem registr�-la como filha. Coincid�ncia ou n�o, o papel marcou a estr�ia da atriz � frente de pap�is engajados. "A Ala�de era ligada ao sindicato e lutava pelo direito das empregadas. Algumas personagens t�m vida pr�pria...", tergiversa.

Em "O Rei do Gado", Patr�cia retomou o papel da hero�na sofredora. Na trama de Benedito Ruy Barbosa, ela interpretou uma sem-terra que se apaixonava por um fazendeiro vivido por Ant�nio Fagundes. Como desgra�a pouca � bobagem, a personagem teve um filho de parto natural, sozinha e isolada, numa cabana no meio do mato. No caso de Luana, o sofrimento da atriz antecedeu o in�cio das grava��es. Para compor a sem-terra, Patr�cia passou 20 dias numa fazenda em Indaiatuba, no interior de S�o Paulo, num acampamento de b�ias-frias. "Acordava de madrugada para conversar com trabalhadores rurais e cortar cana. No come�o, achei que minha m�o fosse cair", brinca.

Com a Dra. Cristina Brand�o, do seriado "Mulher", o sofrimento n�o foi menor. Apesar de linda e bem-sucedida profissionalmente, a m�dica n�o dava sorte com os homens e vivia enfurnada na Cl�nica Machado de Alencar. No final, o autor Euclydes Machado teve d� da pobrezinha e fez com que ela arranjasse um namorado, interpretado por Alexandre Borges. O �nico consolo da atriz foi o de ter todo o aparato t�cnico de uma cl�nica de verdade, com direito a ber��rio, maternidade e at� um centro de tratamento intensivo, a sua disposi��o. "Quando me via na sala de cirurgia, com m�scara no rosto e bisturi na m�o, me sentia brincando de m�dico. Foi bom voltar � inf�ncia", ri.



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