A irrever�ncia tem nome
Com estilo irreverente, Nair Bello chama aten��o por onde passa. Seja ainda pelo carregado sotaque �talo-paulistano ou pelo bom humor, a atriz curte a boa fase na tev� por causa da feirante Pierina
[Fonte - TV Press]
A indefect�vel voz rouca � o pren�ncio da presen�a sempre espalhafatosa da atriz Nair Bello. Com estilo irreverente, ela chama aten��o por onde passa. Seja ainda pelo carregado sotaque paulistano, influenciado pela fam�lia italiana, ou pelo bom humor. Aos 69 anos, em sua nova temporada carioca por causa das grava��es da novela "Uga Uga", ela curte a boa fase na tev� por causa da feirante Pierina. Mas Nair faz quest�o de atribuir o resultado positivo do trabalho ao autor Carlos Lombardi. "O Lombardi sabe que s� funciono fazendo tipos escrachados. N�o adianta me dar pap�is dram�ticos", reconhece a atriz, que tamb�m pode ser vista no quadro "Epit�cio e Santinha" no programa "Zorra Total". "N�o encaro as duas produ��es como trabalho. S� me divirto", completa.
Apesar do jeito espirituoso, Nair n�o se considera uma pessoa engra�ada. "Minhas tias s�o muito mais palha�as do que eu. Apenas tenho bom humor", explica Nair, que est� completando 51 anos de carreira. Ela come�ou como locutora da R�dio Excelsior, de S�o Paulo, em 1949. Dois anos depois, a convite do apresentador Blota J�nior, ela se transferiu para R�dio Record, quando descobriu que iria seguir a carreira art�stica. "Soltei uma gargalhada em pleno est�dio quando o Blota disse que eu era uma comediante inata", recorda Nair. Desde ent�o, Nair n�o parou mais. Fez radionovelas, programas de humor com Renato Corte Leal, na Record, at� estrear em novelas em 78, na Band. A pedido do marido Irineu, falecido no ano passado depois de 46 anos de casamento, Nair conta que jamais deu um beijo na boca em cena. "Ele morria de ci�mes de mim. Entre minha carreira ou meu marido, preferi ficar com meu marido", recorda Nair, nost�lgica. Ao final da novela, o autor Carlos Lombardi prometeu escrever uma pe�a para Nair, que subir� ao palco pela primeira vez ao lado das amigas insepar�veis Hebe Camargo e Lolita Rodrigues. "A Hebe at� j� deu o t�tulo para o espet�culo: 'As Tr�s Vi�vas'", debocha, mais uma vez, a atriz. P - Em "Uga Uga", voc� novamente faz uma personagem debochada. Voc� n�o tem interesse em fazer tipos mais dram�ticos? R - De vez em quando at� que o Lombardi me d� algumas cenas dram�ticas para fazer. Como aconteceu recentemente quando os personagens do Marcos Pasquim e do Humberto Martins voltaram da aldeia dos �ndios, depois de um longo tempo longe da cidade e da m�e. Foi pura emo��o. Foi no dia, inclusive, que a novela chegou a dar 54 pontos de pico no Ibope. Uma das melhores m�dias da novela at� hoje. S� que n�o tenho uma carga dram�tica forte e burilada como outras atrizes. E n�o adianta querer que eu fa�a um papel neste estilo. Tenho o perfil de atriz debochada mesmo. Por isso, nenhum autor se atreve a me colocar como uma lady inglesa. N�o levo jeito para isso. Da�, v�o dizer: "Ela n�o � uma artista completa". Neste ponto, ent�o, n�o sou. P - E a quest�o do sotaque carregado? Voc� n�o tem a preocupa��o de ameniz�-lo, principalmente porque a novela � ambientada no Rio de Janeiro? R - Esta � uma quest�o complicada. N�o tenho como apagar este meu sotaque italiano. Por isso, os autores sempre fazem uma men��o de que meus personagens s�o de S�o Paulo. Nesta novela, j� teve uma cena que dizia que a Pierina era paulistana. E quando estou gravando, os pr�prios t�cnicos ficam enchendo o meu saco por causa do meu jeito de falar. Da�, eu digo para eles: "N�o tenho nenhum sotaque, meu!". Eles morrem de rir. Os t�cnicos, ali�s, s�o minhas principais refer�ncias quando estou gravando. N�o tem diretor e mais ningu�m. Quando o pessoal da t�cnica diz que uma determinada cena ficou boa � porque realmente ficou. N�o existe falsidade com eles. P - Com o autor Carlos Lombardi voc� j� fez "Perigosas Peruas", "Vira Lata" e agora "Uga Uga". Qual destes trabalhos � o mais marcante? R - Sem d�vida alguma, est� sendo esta novela, que � completamente diferente das outras. Ela consegue despertar o interesse de todas as faixas et�rias. Das crian�as por causa do �ndio, das meninas, por causa dos rapazes musculosos, e at� do p�blico masculino, que adora uma novela c�mica. Al�m, � claro, das meninas como a Mariana Ximenes, Danielle Winits e Joana Limaverde. E a Pierina tem um pouco de tudo: da mulher opressora, boa m�e e tamb�m divertida. P - A novela vem se mantendo acima dos 40 pontos no Ibope. Esta m�dia expressiva est� surpreendendo voc�? R - Com certeza. Chegamos a dar picos acima dos 50 pontos. Nem a dire��o da Globo esperava. Esta audi�ncia � um verdadeiro absurdo para o hor�rio das sete. P - Por que voc� s� foi trabalhar na Globo na d�cada de 90? R - � uma pergunta que me fa�o at� hoje. Em 1992, quando estreei na emissora fazendo "Perigosas Peruas", eu j� tinha mais de 40 anos de carreira. J� havia passado pela Tupi, Record, Band e TV Rio. Mas a impress�o que me d� � que estou no Globo h� muitos anos. O problema � que s� comecei a fazer novelas no final da d�cada de 70. P - Foi por causa de seu marido Irineu? R - Foi sim. Ele morria de ci�mes de mim. N�o deixava que ningu�m me beijasse na boca. Eu achava o m�ximo a preocupa��o dele comigo. Ent�o, durante os 46 anos que fomos casados, jamais contrariei o desejo dele. Preferi meu marido do que a carreira art�stica. E n�o me arrependo porque fui muito feliz durante o tempo em que fomos casados. P - A quest�o do beijo era �nica restri��o que ele fazia? R - Ele tamb�m n�o gostava de me ver nos bra�os de um ator. S� que por outro lado, ele sempre me incentivou profissionalmente quando precisei trabalhar. Quando o nosso filho Manoel morreu num acidente de carro, em 1975, o Irineu foi a primeira pessoa a me incentivar para voltar ao trabalho. Fiz um espet�culo que ficou por mais de um ano em cartaz. Aquilo foi minha salva��o. Me fez levantar. Como, mais uma vez, o trabalho est� me fazendo levantar agora, depois da morte do Irineu. Fiz quest�o de dizer isto para o Carlos Lombardi quando ele me ofereceu o papel. O trabalho atenua um pouco a nossa dor. N�o d� para ficar se queixando pela morte de algu�m querido a vida toda. � claro que fica na nossa lembran�a. Principalmente os bons momentos. Mas ficar chorando todo dia, n�o � comigo. Depois de tr�s meses que uma pessoa pr�xima da gente morre, os nossos amigos come�am a ficar de saco cheio das nossas reclama��es. Todo mundo tem seus pr�prios problemas. P -Na d�cada de 60, voc� interpretou a Santinha na Record. Como � reviver esta personagem depois de 40 anos no "Zorra Total"? R - Maravilhoso. O Renato Corte Real me chamou para fazer este quadro "Epit�cio e Santinha" na Record, juntamente com o Ronald Golias. Voc� v�, que depois de quatro d�cadas, o quadro continua agradando ao p�blico, principalmente pelo seu humor ing�nuo. E a parceria com o Rog�rio Cardoso, que faz o Epit�cio, est� sendo excepcional. N�o poderia ser outro comediante para reviver o Epit�cio. P - Como voc� est� fazendo para conciliar as grava��es da novela com o programa "Zorra Total"? R - Gravo a novela de segunda a sexta-feira. Fa�o uma m�dia de 20 cenas por dia. Minha personagem � m�e dos dois gal�s da trama. Ent�o, sou bastante explorada pelo Lombardi. J� o "Zorra Total" gravo apenas aos s�bados. Ent�o, meu �nico dia de folga � domingo, quando viajo para S�o Paulo para pagar as minhas contas. P - Aos 69 anos, qual � o segredo para este bom humor e onde voc� busca motiva��o para fazer a novela "Uga Uga"? R - Outro dia, quando pegava a ponte-a�rea, li numa revista um artigo que dizia o seguinte: "O dia perdido � aquele que a gente n�o deu nenhuma risada". Vejo a vida assim. Com muito bom humor. Esta � uma caracter�stica de minha fam�lia. As minhas tias s�o muito engra�adas. Aprendi a sorrir desde pequena. � uma forma de encarar a vida. Por isso, procuro aproveitar tudo que a vida me proporciona. No meu trabalho � a mesma coisa. N�o quero mais parar de trabalhar. Por mim, emendo uma novela na outra. N�o quero descansar. Isto � horr�vel.As tr�s vi�vas
Na semana de estr�ia do "Programa do J�", na Globo, o apresentador e humorista J� Soares recebeu um trio insepar�vel: Nair Bello, Hebe Camargo e Lolita Rodrigues. As tr�s amigas literalmente tomaram conta do programa. Esbanjando bom humor, elas contaram hist�rias dos prim�rdios da televis�o. Como, por exemplo, a festa de inaugura��o da tev� em 1950, quando a Hebe n�o compareceu na solenidade e por isso, a Lolita foi chamada �s pressas para cantar o Hino da Televis�o. "At� hoje, n�o sabemos qual a raz�o do desaparecimento da Hebe naquele dia", alfineta Nair. O encontro das tr�s no "Programa do J�" acabou motivando o autor Carlos Lombardi a escrever uma pe�a para elas. "Como estamos vi�vas, a Hebe at� sugeriu um nome para o espet�culo. 'As Tr�s Vi�vas', que deve estrear em mar�o", planeja Nair. A atriz, no entanto, demonstra uma certa preocupa��o com o espet�culo. "O problema � que a Hebe n�o sabe decorar texto algum. Ela fala o que quer. A�, vai ser dif�cil trabalhar com ela", provoca Nair, aos risos. A reuni�o das tr�s poderia at� ter sido antecipada. Nair revela que recebeu um telefonema da Hebe pedindo para tamb�m trabalhar na novela "Uga Uga". Como a Lolita foi escalada para viver uma feirante na novela das sete, Hebe queria fazer uma ponta na trama. "Ela queria interpretar uma freguesa. Imagine n�s tr�s juntas na televis�o?", sonha Nair, que cultiva uma amizade com Lolita h� mais de 50 anos. J� com Hebe, Nair � amiga h� mais de 30. "Nos falamos todos os dias pelo telefone. Mas n�o somos de sair juntas e ficar tomando cafezinho uma na casa da outra. Seria um p� no saco", completa Nair.Tempos dif�ceis
Quando resolveu seguir a carreira art�stica, no final da d�cada de 40, Nair sofreu na pele o preconceito. Discrimina��o, ali�s, que come�ou dentro de casa. A m�e da atriz n�o aceitava que ela trabalhasse no r�dio. "Ela achava que quem trabalhava no r�dio era prostituta. Por isso, tinha medo de que eu me perdesse", recorda Nair. J� seu pai, um militar reformado, apoiou a escolha profissional de Nair. "Ele me deu a maior for�a. Disse apenas para tomar cuidado", completa. Depois de cinco d�cadas, Nair enfatiza que os valores hoje s�o outros. "Agora, s�o os pr�prios pais que querem que os filhos se transformem em artistas", acredita Nair, que acumula na carreira mais de dez novelas na televis�o. A sua estr�ia ocorreu na novela "Jo�o Brasileiro, o Bom Baiano", na Band. Ainda na Band, ela fez "Dona Santa", "Casa de Irene" e "Ma�� do Amor". A estr�ia na Globo aconteceu em 1992 na novela "Perigosas Peruas". Depois, fez "Mapa da Mina", "Vira Lata", "A Viagem", "Era Uma Vez" e agora, "Uga Uga". Mas n�o foi em nenhuma novela o trabalho mais marcante na carreira da Nair. Foi quando integrou o elenco da sitcom "Fam�lia Trapo", exibida na Record. Durante seis meses, ela interpretou uma irm� do personagem do Golias. "Foi um momento inesquec�vel que n�o volta mais", diz Nair, sem disfar�ar a nostalgia.