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F�bio Assun��o

Ator - Janeiro 2001

No universo de E�a

Por causa dos belos olhos azuis, F�bio Assun��o parecia condenado a fazer sempre o papel de "mocinho". Mas n�o foi bem assim

[Fonte - TV Press]

O ator F�bio Assun��o costuma dizer que a beleza representou uma amea�a no in�cio da carreira. Por causa dos belos olhos azuis, ele parecia condenado a fazer sempre o papel de mocinho. Mas n�o foi bem assim. Hoje, aos 29 anos, ele se orgulha de ter feito os mais variados tipos, como um vampiro sedutor em "Vamp", um mau-car�ter em "Sonho Meu" e um mauricinho conservador em "Por Amor". Agora, F�bio est� prestes a assumir o que acredita ser um dos pap�is mais dif�ceis da carreira: o de fidalgo portugu�s em "Os Maias", a nova miniss�rie da Globo. "Al�m de ser um personagem do E�a de Queiroz, ele tem uma participa��o fundamental na hist�ria", orgulha-se.

De fato, a hist�ria de Carlos de Maia faz parte da espinha dorsal do romance escrito em 1888. O rapaz � abandonado pela m�e, que foge com o amante, perde o pai, que se suicida e � criado pelo av�. Quando cresce, vai estudar Medicina na Universidade de Coimbra e depois de formado, retorna a Lisboa e se apaixona por Maria Eduarda, papel de Ana Paula Ar�sio, sem saber que ela � sua irm�. Para compor o personagem, F�bio leu alguns livros de E�a de Queir�s, assistiu a palestras sobre o escritor e teve aulas de etiqueta social para aprender, entre outras coisas, como sentar-se � mesa e como cumprimentar uma dama. O arremate ficou por conta de um par de lentes de contato na cor castanha. "No livro, o E�a n�o se cansa de fazer refer�ncias aos olhos castanhos da fam�lia Maia", justifica.

Al�m de satisfeito por estar fazendo um personagem de E�a de Queiroz, F�bio n�o esconde a alegria por estar trabalhando com dois velhos amigos: o ator Selton Mello, com quem atuou em "For�a de Um Desejo", e o diretor Luiz Fernando Carvalho, que o dirigiu em "O Rei do Gado". Mas, se F�bio esbanja cumplicidade c�nica com Selton e Luiz Fernando, o mesmo n�o se pode dizer de Ana Paula Ar�sio. "Eu e a Ana ainda estamos nos conhecendo", observa. Os dois ainda n�o fizeram uma cena juntos sequer e j� foram convidados para repetir o par rom�ntico em "Come�ar de Novo", t�tulo provis�rio da pr�xima novela de Gl�ria Perez.

P - Como voc� analisa o seu novo trabalho em "Os Maias"?

R - � �bvio que fazer um E�a de Queiroz enriquece o curr�culo de qualquer ator. Mas sempre que come�o um novo trabalho, me entrego a ele de corpo e alma. Honestamente, n�o saberia dizer qual dos trabalhos que eu fiz at� hoje foi o mais importante. O resultado de uns pode n�o ter sido t�o bom quando o de outros. Mas, no final das contas, sinto orgulho de tudo que fiz. Como me orgulho tamb�m por ter sido convidado para participar deste projeto. Mas sei que estou com uma "puta" responsabilidade nas m�os.

P - O que mais chamou a sua aten��o no Carlos de Maia?

R - Foi o fato de ele n�o ter qualquer refer�ncia paterna ou materna na vida. O Carlos foi criado pelo av�. � um homem rico, que fala v�rias l�nguas e tem forma��o musical. Al�m disso, � um sujeito liberal, um aut�ntico d�ndi. Em Coimbra, ele faz amizade com um grupo de intelectuais que tece cr�ticas � in�rcia de Portugal. A vida do Carlos s� se transforma quando ele conhece e se apaixona por Maria Eduarda. Ela se transforma numa figura materna muito forte na vida do Carlos. At� o dia em que ele descobre que os dois s�o irm�os.

P - E o que acontece quando eles descobrem que s�o irm�os?

R - Eles t�m mais uma noite de amor muito intensa. Mas n�o � uma noite de amor como outra qualquer. Eles transam quase que com raiva um do outro. A miniss�rie tem um apelo emocional muito forte. Mas ainda estou por gravar esta cena. Para falar a verdade, ainda n�o gravei uma cena sequer com a Ana Paula. Estamos nos conhecendo ainda. Daqui a uma ou duas semanas � que vamos pegar no pesado.

P - Voc� teve alguma preocupa��o especial na hora de compor o personagem?

R - Tive todas. O Carlos n�o � um personagem f�cil de fazer. Costumo defini-lo como um d�ndi. Mas o que � um d�ndi? Para responder a essa pergunta, assisti a v�rias palestras para entender melhor o universo de E�a de Queiroz. Essas palestras sempre funcionam como um �timo suporte t�cnico para o ator. Mesmo assim, tomei cuidado para n�o cair em nenhum estere�tipo. N�o estou priorizando o exterior em fun��o do interior. Apenas fiz o que o personagem pedia. Por isso mesmo, deixei a barba crescer. Naquela �poca, ter barba era sinal de status e poder. N�o podia prescindir dela. Al�m disso, passei a usar lentes de contato...

P - O que voc� achou da mudan�a do visual?

R - Ficou bacana. Mas n�o recorri �s lentes por vaidade ou coisa parecida. N�o componho personagem por compor. N�o vou colocar uma cicatriz no rosto s� porque eu acho que fica bonito. Acontece que, no livro, o E�a menciona os olhos castanhos da fam�lia Maia a todo instante. Foi uma coincid�ncia o Luiz ter convidado dois atores de olhos claros para interpretar o Carlos e a Maria Eduarda. N�o foi uma jogada de marketing da parte dele. Em todo caso, foi bom porque o uso das lentes d� uma "fechada" na express�o facial. Tenho o rosto muito colorido. O olho � claro e a boca, vermelha. Com as lentes de contato, o meu rosto perde a cor. At� o olhar fica diferente...

P - O fato de ter gravado as primeiras cenas em Portugal, terra natal do E�a de Queiroz, facilitou a composi��o? ?

R - Facilitou e muito. Eu j� tinha ido uma vez a Portugal, mas s� passei quatro dias. Desta vez, fiquei 30. Foi maravilhoso. Al�m do mais, "Os Maias" � leitura obrigat�ria em Portugal. Todo mundo conhece o livro de cor e salteado. Eu andava nas ruas e as pessoas vinham desejar boa sorte. Adorei ter gravado em Portugal porque voc� j� come�a o trabalho imbu�do do personagem. Estivemos em lugares que foram mencionados por E�a no livro. Foi realmente inesquec�vel.

P - O seu �ltimo trabalho na Globo foi "For�a de Um Desejo", do Gilberto Braga. Em algum momento, voc� ficou receoso por emendar dois trabalhos de �poca?

R - Sim e n�o. Fiquei em d�vida quando me chamaram porque "For�a de Um Desejo" � da mesma �poca que "Os Maias". Mas resolvi fazer porque as hist�rias do Brasil e de Portugal s�o muito diferentes. O Brasil vivia a �poca da escravid�o, a Guerra do Paraguai... J� Portugal era um mundo completamente diferente. Para mim, n�o faz muita diferen�a. Entre um trabalho e outro, fiz cinema, teatro, um monte de coisa. Pode fazer diferen�a � para o p�blico que s� assiste tev�.

P - Qual � a sensa��o de voltar a trabalhar com o Selton Mello, que interpretou o irm�o do seu personagem em "For�a de Um Desejo"?

R - A sensa��o � muito boa. O Selton � um �timo ator. Na miniss�rie, interpretamos o melhor amigo um do outro. O Ega, por sinal, � uma esp�cie de alter ego do E�a de Queiroz. Eu e o Selton nos damos muito bem. Dentro e fora da Globo. O Luiz Fernando Carvalho � outro cara com quem tenho bastante afinidade. Ele deixa o ator "pirar" em cima do personagem. Costumo dar as sugest�es e ele s� apara as arestas. � uma parceria bem proveitosa.

P - Voc� come�ou a carreira na tev� em "Meu Bem, Meu Mal", de 90. Que balan�o voc� faz de uma d�cada de carreira?

R - O melhor poss�vel. Foram 10 anos muito bem vividos. Em 89, cursava escola de teatro em S�o Paulo e, no ano seguinte, j� estava no Rio fazendo novela. A tev� sempre abriu muitas portas para mim. Tive milh�es de oportunidades de trabalho. Algumas boas, outras nem tanto. Mas adorei tudo o que fiz. Nem sempre, em termos de resultado. �s vezes, o resultado n�o corresponde �s expectativas. Mas, de todos os trabalhos que fiz, n�o posso deixar de mencionar "O Rei do Gado" como o meu favorito. � daquelas novelas que voc� guarda no cora��o para a vida inteira. Gostei muito tamb�m de "Por Amor" e "Labirinto".

P - Voc� chegou a sofrer preconceito no in�cio de carreira?

R - Cheguei. As pessoas costumam achar que um ator tem de ser feio para ser talentoso. Voc�, ent�o, come�a a chamar a aten��o pela beleza, n�o pelo trabalho. Mas existe preconceito tamb�m com o ator que � gay, com o filho do ator famoso e assim por diante. Quando comecei na Globo em "Meu Bem, Meu Mal", j� tinha cinco anos de teatro. J� tinha encenado Nelson Rodrigues e Pl�nio Marcos no teatro. N�o quis fazer novela para abrir uma grife ou ficar rico. Quis fazer porque adoro a profiss�o.

P - Voc� se considera realizado profissionalmente?

R - N�o sou rico. Vivo bem, com conforto. N�o tenho qualquer investimento. Se parar de trabalhar, n�o tenho o que comer. Conquistei um n�vel de vida que todo mundo merece ter. N�o acho que ganho mais do que mere�o ou menos do que deveria. Para ser franco, se n�o pudesse atuar mais, ficaria extremamente infeliz.


Desprezo pela fama

Antes de se tornar ator, F�bio Assun��o sonhou em fazer sucesso como "guitar hero" de uma banda de rock. Aos 15 anos, j� empunhava uma guitarra no grupo Delta T. S� que os acordes estridentes produzidos pelo rapaz n�o eram encarados com bons olhos - e ouvidos - pela fam�lia. Encorajado pelos pais, trocou os ensaios de m�sica pelas aulas de teatro. Em pouco tempo, passou a cursar Artes Dram�ticas na Faculdade de S�o Caetano do Sul, em S�o Paulo. N�o demorou para estrear como ator profissional na pe�a "Beijo no Asfalto", de Nelson Rodrigues, em 85. "O palco � onde me sinto mais � vontade. Adoro conversar com a plat�ia antes de cada espet�culo", conta.

Em 90, F�bio foi "descoberto" pela Globo e convidado para "Meu Bem, Meu Mal", de Cassiano Gabus Mendes. Apesar de pequeno, o papel de Marco Ant�nio levou o ator a encabe�ar o musical "Blue Jeans", de Wolf Maya. Logo, F�bio passou a excursionar com o espet�culo pelo interior do pa�s e a fazer bailes de debutantes em busca de uns trocados. Por diversas vezes, F�bio Assun��o teve de recorrer � escolta policial para fugir do ass�dio enlouquecido da multid�o. Com o tempo, o ator acabou percebendo que aquelas f�s n�o valorizavam o seu trabalho. Elas o viam apenas como um objeto em exposi��o. "Hoje, prefiro o ass�dio respeitoso �queles pux�es de cabelo", raciocina.

Atualmente, F�bio leva uma vida quase mon�stica. Avesso a badala��es, detesta lugares p�blicos, com muita gente e confus�o. Prefere ficar em casa, tocando o piano rec�m-comprado. "De vez em quando, tamb�m componho e escrevo algumas letras", gaba-se. Bem-humorado, F�bio n�o lembra da �ltima vez que foi a um shopping. O m�ximo que se permite � sair para jantar com a mulher, a modelo Priscila Borgonovi. A mudan�a aparentemente radical aconteceu quando F�bio notou que tanta badala��o s� prejudicava o lado profissional. "N�o estou condenando quem faz, mas chegou uma hora que decidi priorizar minha carreira de ator", jura.


Atividades paralelas

H� exatamente um ano, desde que "For�a de Um Desejo" acabou, F�bio Assun��o n�o aparece no v�deo. Mesmo assim, ele n�o parou de trabalhar. Em fevereiro, participou das filmagens de "Duas Vezes com Helena", de Mauro Faria. No filme, ele interpreta Polidoro, jovem estudante que � induzido pelo professor, vivido por Carlos Greg�rio, a trair a pr�pria mulher, papel de Christine Fernandes. Dois meses depois, dublou o simp�tico Aladar no filme "Dinossauros", da Disney. A atriz Malu Mader, que j� trabalhou com F�bio em "Labirinto" e "For�a de Um Desejo", emprestou a voz a Neera. "Nem vi aquilo como trabalho. Vi como divers�o mesmo!", empolga-se.

Em junho, F�bio voltou a trabalhar com Malu em "Bellini e A Esfinge", adapta��o de Roberto Santucci para o livro de Toni Belloto, marido de Malu e guitarrista do Tit�s. No longa, o ator interpreta "um detetive com jeitinho brasileiro". Paralelamente �s filmagens, F�bio ensaiou tamb�m o espet�culo "Quem Tem Medo de Virg�nia Woolf?", de Edward Albee. Apesar do corre-corre, ele adorou filmar nos lugares mais barra-pesada do Centro de S�o Paulo, como prost�bulos e delegacias. Para o ator, o segredo da bem-sucedida parceria com Malu � o perfeccionismo. "Sempre trocamos informa��o e passamos os textos antes de gravar", analisa.

Em 15 anos de carreira, F�bio j� atuou nas mais diferentes �reas. Embora tenha se tornado conhecido gra�as � imagem de gal� da Globo, o ator declara verdadeira paix�o pelo teatro. "No palco, n�o existe f�rmula. Voc� nunca sabe o que pode dar certo e o que pode dar errado", reconhece. Para ele, a tev� s� n�o � perfeita porque o ritmo industrial n�o permite que o ator fa�a um trabalho minucioso gravando 20 cenas por dia. Mesmo assim, ressalva que a capacidade de se comunicar com um p�blico que n�o tem acesso ao cinema e ao teatro � a principal virtude da tev�. "Prefiro ter sucesso a ser famoso. A fama tem um 'qu�' de histeria. J� ter sucesso � ser reconhecido pelo talento", diferencia.



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