PRODUÇÃO DE BIOFUNGICIDA BACTERIANO EM FERMENTADOR DE BANCADA

 

Campos, E¹ ., Alcocer, I¹.; CESARE VIDAURRE, T. (2);  CASTRO GOMEZ, Raul J. H.(1).                401, Londrina PR. 1Departamento de Tecnologia de Alimentos, TAM/CCA/UEL. Londrina PR.

 2 Faculdade de Engenharia de Alimentos, UNIVERSIDADE DO NORTE DO PARANA C.postal   E-mail: [email protected]  

 

 

Resumo

 

O crescente aumento da resistência dos fungos fitopatogênicos aos pesticidas químicos tem incentivado o uso de agentes biológicos para o controle destes fungos. Este trabalho faz parte do desenvolvimento de fungicida bacteriano,  para o controle de doenças de plantas, frutos e grãos causadas por  fungos em pré e pós-colheita e sem controle efetivo até o momento. O objetivo foi estudar a produção de Bacillus subtilis, antagonista de fitopatôgenos, a nível de fermentador de bancada, utilizando-se  meio de cultura a partir de resíduos agro-industriais previamente otimizado a nível de agitador rotativo.  O teste foi conduzido com 5 litros de meio de cultura em condições fermentativas determinadas em etapas anteriores. As condições foram:  30oC, pH inicial de 7.3  e 10 %  (v/v) de inóculo.  O meio de cultura foi composto de: Melaço, 0,3% (p/v); “Corn-steep”,  0,15 % (p/v) e K2HPO4 de 0,2 %.  A produção de biomassa foi realizada em fermentador aeróbico de bancada 5000 mL,  marca Marconi, modelo MA-502, com cuba de vidro com sistema de água termostatizado e sistema de agitação constante através de motor com rpm controlada e sistema de aeração estéril.  O fermentador foi esterilizado com gerador de vapor a 120oC por 30 minutos, utilizando-se  4.5 litros de meio previamente autoclavados e inoculado com 500 ml de caldo de cultura de Bacilllus subtilis crescidos por 24 horas em kitassato areado com  (10 L/min) de ar comprimido estéril.  A contagem inicial de células foi de 1.67 x 107 de ufc /ml.  Durante o processo de fermentação foram avaliados a variação do pH, carboidratos totais e crescimento do microrganismo por leituras de densidade ótica (660 nm) assim como as variações do oxigênio dissolvido no meio de cultura, através das variações da agitação e aeração durante o processo. A velocidade específica do crescimento do microrganismo foi de 0.51h-1 . Foram realizadas contagens celulares as 48 h de 2.48 x 109 ufc/ml e após de 72 horas obtendo-se contagens de  1.36 x 1010 ufc/ml.  Este resultados mostram  potencial deste microrganismo para futuros testes de escalonamento do processo de produção do biofungicida.

 

Palavras chaves: Biofungicidas, Bacillus subtilis, fitopatôgenos.

 

 

1. Introdução

 

O Brasil é considerado um dos maiores produtores mundiais de graõs e frutas, tendo na agricultura uma das mais importantes bases da economia nacional.  Contudo  alguns problemas como a falta de infra-estrutura leva à perda  considerável da produção  durante o cultivo, colheita, transporte e armazenagem (ANON, 1993).  Assim, os índices de perdas pós-colheita, atingem a cifra de 10 milhões de toneladas do total de 30 milhões produzidas no país (Sigrist, 1993).  O crescente  aumento da resistência dos fungos fitopatogênicos aos fungicidas químicos tem elevado o uso destes pesticidas químicos no controle destes microrganismos, causando prejuízos ao meio ambiente, com aplicações em intervalos menores com produtos cada vez mais tóxicos e potentes. Isto tem preocupado os pesquisadores, incentivando-os a investigar novas substâncias de origem natural (KRETZSCHMAR, 1991; Lange, 1993, Prusky, 1996; Dickson et al., 1995).

A contaminação fúngica é o principal fator responsável pela doença e deterioração de grãos no campo e posteriormente, na produção de micotoxinas durante a armazenagem. Considerando que os cereais constituem a fonte primordial da alimentação, a contaminação por micotoxinas repercute diretamente tanto na saúde humana quanto na animal (HIROOKA et al., 1997).

                O Bacillus spp. é uma bactéria esporulada que permite cultivo fácil em grande escala e em meio simples. Seu potencial inibitório sobre o crescimento de microrganismos indesejáveis já tem sido comprovado, com diversas aplicações nas áreas farmacêuticas, alimentícias e agronômicas, inclusive com vários produtos comercializados com bons resultados (BULLA & HOCH, 1983). Numerosas pesquisas tem demonstrado o efeito inibitório de substâncias obtidas de Bacillus subtilis  no controle de microrganismos fitopatogênicos, seja bactéria ou fungo (ONO & KIMURA, 1991; Lange, 1993, Prusky, 1996; Dickson et al., 1995).

 

 

Departamento de Tecnologia de Alimentos, Centro  de Ciências Agrárias, Universidade Estadual de Londrina. TAM/CCA/UEL. Brasil. Campus Universitário, Caixa postal 6001. CEP 86051-970. Londrina PR. Fax: 051-43-3714079. E-mail: cesare@Sercomtel com.br.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Microrganismo

 

O isolado BS1 de Bacillus subtilis foi fornecido por Produtos Biológicos y Control de Calidad (PROBICAL), Cia Ltda, Santiago, Chile. Apresenta efeito antagônico contra os fitopatogênicos Aspergillus, Botrytis, Colletotrichum, Penicillium e Sclerotinia

 

2.2. Condições e Meio de cultura

O meio de cultura foi composto de: Melaço: 0,3 % (p/v); “Corn-steep”: 0,15 % (p/v) e K2HPO4 de 0,2 % (p/v) segundo Césare Vidaurre et al., 1997. O volume de ar foi de 10 L/min e a temperatura de 300C, mantidos constantes. Para ajustar o pH a 7,3 foi utilizado NaOH autoclavado. A freqüência de agitação (rpm) variou de acordo com o teor de oxigênio dissolvido.

 

2.3. Fermentador

A produção de biomassa foi realizada em fermentador aeróbico de bancada 5000 mL, marca Marconi, modelo MA-502, com cuba de vidro com sistema de água termostatizado e sistema de agitação constante através de motor com agitação controlada e sistema de aeração estéril controlado através de rotâmetro, acoplado com potenciômetro para monitoramento constante do pH, e medidor de oxigênio dissolvido.

 

2.4. Processamento do inóculo

2.4.1.Ativação do microrganismo: o microrganismo foi mantido em câmara refrigerada, em tubo com ágar nutriente, sendo ativada riscando-se uma alçada em placa de ágar nutriente, incubada a  300C por 24 horas

2.4.2. Pré-inóculo:  foi preparado através de alçada da cultura em 100 ml de caldo formulado, em frasco erlenmeyer de 250 ml, mantido em agitador rotativo a 30OC e 200 rpm por 27 horas

2.4.3. Inóculo: a partir do pré-inóculo, foi preparado 500 ml de inóculo para o fermentador, utilizando-se o mesmo meio de cultura formulado, com a adição de antiespumante. O processo foi realizado em frasco erlenmeyer de 1000 ml, este frasco munido com tampa perfurada para passagem de tubos de aeração, respiro e coleta de amostra; o frasco, juntamente com o meio, foi esterilizado a 1210 C por 20 min. Após o resfriamento foi semeado com 10% (v/v) de caldo fermentado obtido conforme o item anterior. O frasco permaneceu a temperatura ambiente por 46 horas, sob aeração constante.

 

2.5. Monitoramento dos parâmetros analisados durante a fermentação

2.5.1. Comportamento do pH e oxigênio dissolvido: foram monitorados mediante o acoplamento respectivamente do potenciômetro e da sonda de oxigênio dissolvido, verificados em intervalos de 1 hora.

2.5.2. Açucares totais e finais do processo: estas análises foram realizadas com o método fenol-sulfúrico de DUBOIS (1956).

2.5.3. Determinação do crescimento celular: as amostras para determinação do crescimento celular foram retiradas em intervalos de uma hora, e realizadas através de medições de absorbância em espectrofotômetro em comprimento de onda de 660 nm, utilizando-se o meio de cultura como branco. Foi determinada a velocidade específica de crescimento (m) pelo método de Monot, no qual as velocidades específicas são calculadas ajustando uma relação linear do tempo e crescimento, na fase logarítmica de crescimento, pelo método dos mínimos quadrados.

Contagem de microrganismos viáveis: número de células por ml, expressa em log 10 das ufc/ml. Frações da suspensão foram coletadas em tempo zero (inóculo), após 48 horas, e após 6 dias; diluídas, semeando-se alíquotas na superfície de meio ágar nutriente, em placas de petri, incubados a 30O C por 24 horas.

2.5.4. Rpm: aumentada de acordo com o decréscimo de oxigênio dissolvido, inicialmente de 200 rpm a uma potência máxima de 550 rpm.

 

3.    Resultados e discussão

 

Durante o processo de fermentação foram avaliados a variação do pH, carboidratos totais e crescimento do microrganismo por leituras de densidade ótica (DO660) assim como as variações do oxigênio dissolvido no meio de cultura, através das variações da agitação e aeração durante o processo.

                A condição de aeração testada, com o fornecimento constante de 10 l/min, revela que o máximo de 75 % de oxigênio dissolvido no meio foi obtido no tempo inicial do processo de fermentação, como mostra o Gráfico 1. Na fase lag o teor de oxigênio dissolvido é de aproximadamente 75 %, na fase de crescimento logaritmico a taxa de oxigênio decresce proporcionalmente ao aumento da D.O., chegando a 7 %, por volta da 11ª hora, após esta fase o oxigênio dissolvido eleva-se a mais de 60 % na 13ª hora de fermentação.

                A velocidade de crescimento é diretamente influenciada pela aeração. O crescimento microbiano foi favorecido até a 10ª hora, quando então a quantidade de oxigênio fornecida atuou como fator limitante. O crescimento exponencial foi interrompido com a queda da concentração de oxigênio dissolvido no meio, que por sua vez, foi consequência da capacidade da bomba de oxigênio, que não forneceu oxigênio suficiente para a massa celular do meio. Além da potência limitada, acredita-se que a utilização de hélices não adequadas ou até, por seu mal posicionamento, prejudicando a distribuição da aeração, atuou limitando o crescimento microbiano.

                Após a 11ª hora da fermentação, observa-se um aumento gradativo na concentração de oxigênio dissolvido no meio, comportamento este relacionado à fase de morte e  lise celulares.

 

Figura 1: Crescimento do Bacillus subtilis ( O )e comportamento do oxigênio dissolvido  () em fermentador de bancada

 

A figura 2, mostra o comportamento do pH e crescimento (D.O660.), observando-se que o pH inicial  sofreu pequeno aumento durante as primeiras horas de desenvolvimento microbiano variando de 7,03 a 7,09. Em decorrência do metabolismo normal do microrganismo, que produz compostos intermediários ácidos, como o ácido pirúvico e o  cítrico, o pH sofreu uma queda significativa, observada durante a fase de crescimento exponencial da bactéria. Após a décima hora de cultivo, os valores de pH  observados foram maiores, devido à oxidação (consumo) dos ácidos pela maquinaria metabólica microbiana (BULLA & HOCH, 1983)

 

Figura 2: Crescimento do Bacillus subtilis () e comportamento do pH  (o) em fermentador de bancada

 

A velocidade específica do crescimento do microrganismo foi de 0.51h-1 . A contagem inicial de células foi de 1.67 x 107 de ufc /ml.  Foram realizadas contagens celulares as 48 h de 2.48 x 109 ufc/ml e após de 72 horas obtendo-se contagens de  1.36 x 1010 ufc/ml.  Este resultados mostram o potencial deste microrganismo para futuros testes de escalonamento do processo de produção do biofungicida.

 

4.    CONCLUSÃO

 

                O oxigênio dissolvido foi o fator limitante na produção de biomassa. O equipamento teve limitações quanto a manutenção do oxigênio dissolvido. Talvez seja necessário o uso de sistemas computarizados de controle, bem como redesenhar as turbinas do equipamento e adequar a posição da saída de ar no fermentador. Com estes ajustes, a fase crescimento poderia ter sido prolongada gerando melhores condições para o crescimento do microrganismo, obtendo-se, portanto, maiores rendimentos da fermentação.

 

 

               

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1.  ANON. Acompanhamento da situação agropecuária do Paraná. Governo do Estado do Paraná.  Secr. Agric.       Abastecimento-SEAB., v.19, p.1-92, 1993.

 

2. BULLA, L. A. & HOCH, J.A. Biology of Bacilli.  in:  Biology of Industrial microrganism.  Demain, A. & Salomon, N.  Cumming Publisher Co.  Menlo Park, p. 57-78, 1983.

 

3.Cesare-Vidaurre, T. ; Campos E.; Suguimoto H.; Castro-Gomez, R. Otimização da produção de Biofungicida a partir de Bacillus subtilis. In: anais do II SIMPÓSIO LATINO AMERICANO DE CIÊNCIA DE ALIMENTOS, Campinas, 1997.

 

4. DICKINSON, J.M.; HANSON, J.R.; TRUNGH, A.  Metabolites of some biological control agents.  Pestic. Science, v.44, p.389-393, 1995.

 

5. DUBOIS, M. et al. Anal. Chemistry. v. 23, p. 350, 1956.

 

6.HIROOKA, E. Y. RAMAGUCHI, M..M. AOYAMA, S.   Natural ocurrence of fumonisins in brazilian corn-kernel.  Food Aditives contaminants (No prelo).

 

7.KRETZSCHMAR, A.A.  Controle biológico de patógenos que ocorrem em pos-colheita,  In: BETTIOL, W.   Controle Biológico de Doenças de Plantas, Brasília: EMBRAPA, p..53-69, 1969.

 

8.LANGE, L.; BREINHOLT, J.; RASMUSSEN, F.W. et al.  Microbial fungicides the natural choice.  Pestic. Sci, v.39, p.155-160, 1993.

 

9.ONO, M.; KIMURA, N.  Antifungal peptides produced by Bacillus subtilis  for the biological controle of alfatoxin contamination.  Proc. Jpn. Assoc. Mycotoxical,  n.34, p.22-28, 1991.

 

10.PRUSKY, D.  New alternatives for the control fo postharvet diseases affecting tropical fruits.  In: SIMPÓSIO DE CONTROLE BIOLÓGICO, 5. 1996: Foz do Iguaçu.  Resumos..., Foz do Iguaçu: EMBRAPA, p. 48, 1996.

 

11.PUSEY, P.L. et al. Pilot test commercial production and aplication of Bacillus subtilisi (B-3) for postharvest control of peach brown rot. Plant Disease, v. 72, n.7 p. 622-626, 1988.

 

12.SIGRIST, J.M.M.  Perdas pós-colheita de produtos hortifrutícolas.  Bol. Inf. ITAL.,  Campinas, v.5, n.2, p.1-2, 1993.

 

 

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