Paixão
Quando nos apaixonamos, ficamos, egoísta pensamos só e exclusivamente de forma individualizada, não levamos em consideração o outro, fazemos valer apenas nosso desejo e nossa realização.
"Quando descobrimos que nosso parceiro(a) é muito diferente
de nós, desenvolvemos mágoa, revolta, e frustração pela expectativa não
realizada; porém se sentimos que o mesmo é exatamente nossa cópia,
desenvolvemos o medo ou bloqueio para não lidarmos com o nosso sofrimento,
fugindo do pleno autoconhecimento" Alfred Adler.
Todos nós um já sentimos esse sentimento o fenômeno de
se sentir apaixonado por alguém e toda a conseqüência desse sentimento.
Quantas e quantas vezes, aquilo que começa como o prazer de nosso espírito se
transforma no maior dos terríveis sofrimento, como se fosse uma espécie de
cegueira que
se acomete, e após um tempo sentimos os efeitos colaterais de nossa ignorância. Sem dúvida esse processo pode levar a muitas situações de
sofrimentos pois o ser humano em vista do terrível
caos que enfrenta diariamente, necessita de experiências culminantes que
amenizem sua cruel realidade. Este fato passa desapercebido quando se fala de
sentimentos, pois os mesmos também carregam elementos ilusórios e até alucinógenos
para a percepção do indivíduo. Informamos que um dos maiores
distúrbios de focos de doença
psíquica e comportamental reside na questão do
"prazer", Ora substituído por amor.
O prazer como qualquer outra coisa traz embutido perigos e ameaças de toda a
ordem. Talvez a principal seja a definição de nosso futuro. Digo isto, pois
qualquer um que observar atentamente logo perceberá que uma paixão tem o poder
de definir todo o futuro de nossa afetividade, seja na adolescência ou outra
etapa de nossa vida. A não correspondência de determinado sentimento já é a
porta certa para um futuro de timidez ou bloqueio afetivo, seja o mesmo oriundo
de ligações familiares ou amorosas. Toda escola de psicologia sabe que o
"trauma" é o elemento determinante do futuro pessoal e social de
determinada pessoa. O problema é que poucos conseguem traçar os caminhos que o
mesmo percorre, prejudicando desta forma a prevenção de vários conflitos psíquicos.
Se somos resultados de experiências passadas, principalmente as de natureza
traumática, então pelo raciocínio lógico quando uma criança está preste a
se deparar com algum conflito insolúvel, naquele exato momento se fechou
algumas possibilidades futuras de seu destino.
O psicólogo contemporâneo de FREUD, ALFRED ADLER acreditava principalmente que
a futura profissão de uma pessoa era definida logo nos primeiros anos de vida,
dependendo do tipo de estímulo ou trauma que sofrera. Chamou este processo de compensação, pois a criança escolheria algo para tentar reparar a perda. Ele
mesmo declarava ter se tornado médico ao presenciar o falecimento do irmão na
sua infância.
Em suas consultas ADLER estimulava o paciente a tentar lembrar de suas primeiras
recordações de infância, pois as mesmas dariam a trilha psíquica que o
paciente desenvolveu a partir de determinado evento.
Lembro-me de que em certa ocasião numa dinâmica de grupo com outros psicólogos,
um deles relatou que uma de suas lembranças mais remotas era de "sair
durante a sessão de um filme para ir até o banheiro do cinema, onde por algum
tempo ficou olhando as fezes no sanitário". Esta recordação é
extremamente interessante, pois se fôssemos seguir a abordagem psicanalítica
as fezes teriam uma representação daquilo que FREUD chamava de angústia da
castração, ou seja, a criança na disputa do afeto dos pais sentir-se-ia
desamparada e ameaçada, dada à desigualdade em relação aos genitores.
Temeria então perder seu pênis, órgão extremamente valorizado pela criança,
pois já tem uma idéia inconsciente de que é graças ao mesmo que ela foi
concebida, e a menina que possui uma vagina foi castigada pela ausência do pênis
exatamente por tentar competir com os pais. Toda esta elaboração psíquica e
sexual complicada seria desviada para a compulsão de ver as fezes como forma de
iludir seu terrível medo subjacente.
ADLER sempre defendeu a tese de que os conflitos sexuais descobertos por FREUD,
eram um anteparo que a criança construía evitando a consciência do verdadeiro
conflito, no caso sempre de ordem moral ou social, pois sabemos como nossa
cultura dissimula a verdadeira natureza humana. Assim sendo, não seria difícil
analisarmos que a recordação infantil acima citada encerraria o desejo da
criança de ver o lado oculto das pessoas, simbolizado por fezes ou o próprio
banheiro, que não deixa de ser um lugar de privacidade. Ficou claro na discussão
posterior que desde a infância a pessoa citada sempre nutriu desejo de adentrar
a privacidade dos outros, vendo inclusive seus segredos mais sórdidos. Não
fica difícil perceber o porque da escolha da profissão de psicólogo.
A exposição teórica acima citada é importante para entendermos a questão da
paixão e sentimentos, pois temos de refletir de que quando nos apaixonamos por
alguém, também estamos depositando na pessoa toda a nossa anterior história
afetiva, sendo que a reviveremos dependendo da situação apresentada.
A paixão cessa quando se ativam as antigas projeções ou experiências traumáticas
da história do indivíduo; cada um começa então a usar o parceiro para
reviver todo o seu desconforto emocional pretérito.
Obviamente quando abandonamos a esfera afetiva da dedicação e doação para
com o outro, a prioridade é a constante insatisfação e conflito emocional.
Quando se fala do tédio que um relacionamento constante pode causar, a própria
afirmação já encerra uma contradição. Ninguém se cansa de determinado
alimento ou gosto pessoal, o que ocorre são períodos de pico ou queda em
nossas predileções. Na questão afetiva a coisa muda exatamente pelas projeções
passadas citadas, e uma das conseqüências mais visíveis é a infidelidade
conjugal, que encerra um componente de ambição desmedida, que se camufla no
desejo de novas experiências ou retomada do prazer perdido. Obviamente não
estou pregando aqui que não devamos encerrar um relacionamento que já se
esgotou do ponto de vista afetivo, mas o fato é que os problemas surgem
exatamente quando necessitamos do outro como depositário de nossa frustração
pretérita. Se descobrimos que nosso parceiro é muito diferente de nós,
desenvolvemos mágoa, revolta e frustração pela expectativa não realizada;
porém se sentimos que o mesmo é exatamente nossa cópia, desenvolvemos o medo
ou bloqueio para não lidarmos com o nosso próprio sofrimento, fugindo do pleno
autoconhecimento.
É essencial a psicoterapia individual ou de casal na profilaxia do exposto
acima.
FREUD acreditava em duas forças centrais na motivação humana: instinto de
vida e morte. O primeiro levaria a busca do prazer e satisfação. Se o indivíduo
falhasse na realização do objetivo citado, entraria em cena o segundo instinto
com a meta básica de retorno ao inanimado ou a morte. ADLER achava que os
instintos sexuais escondiam todo o desejo de poder e dominação do ser humano.
Assim sendo, uma suposta fantasia sexual encerrava um desejo mais profundo de
ver o outro totalmente dominado por nossos anseios pessoais.
O fato central é que a humanidade não aprendeu ainda a lição da duplicidade
psíquica, sendo que a busca por qualquer meta de prazer contém também o
elemento da dor. Queremos ardentemente o primeiro e afastar sob qualquer hipótese
o segundo. Usamos a paixão para tal finalidade, acreditando ilusoriamente ser o
remédio definitivo contra nosso cotidiano de insatisfação. Um dos resultados
mais drásticos é o desenvolvimento do ciúme exacerbado.
O amor não é algo oriundo de um romantismo ingênuo e pueril, mas é
principalmente um entretenimento que o ser humano precisa desenvolver para
aliviar seu pavor em relação à morte.O sucesso da tarefa citada advém
quando a prioridade passa a ser mais a satisfação do parceiro do que a própria
pessoa, com a confiança absoluta não apenas na retribuição, mas na
capacidade de ter conseguido desenvolver tal potencial. Não preciso dizer de
como o conceito citado é quase que impraticável em nossa sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER - ESPANCAR UMA CRIANÇA
FREUD-OBRAS COMPLETAS. O SENTIDO DA VIDA- ALFRED ADLER- EDITORA PAIDÓS-1937