Capitulo 1

A chuva caía insistentemente no telhado e o cheiro de terra fresca exalava
no ar pesado daquela manhã fúnebre e fria.
Rebeca atravessou a sala com sua cadeira de rodas. Dos seus olhos, caíam
lágrimas que encharcavam seu rosto, assim como a chuva encharcava o jardim.
De repente, ela sentiu a presença de Daniel.

[Daniel] - Rebeca? O que houve com você?

Ela desviou a cadeira e permaneceu cabisbaixa.

[Daniel] - Céus... você está chorando... pode me dizer o que você tem?

Ele envolveu-a nos seus braços fortes e ternos. Ela sentiu aquele afago
gostoso, o roçar da sua pele na dela, o cheiro de colônia e aquela
respiração pausada...

[Daniel] - Eu quero te ajudar... só isso.

Ouviu-se o estrondo de um trovão. Lá fora, o jardim foi iluminado pela
rajada. Rebeca sentiu um frio na espinha.

[Daniel] - Tudo bem... eu entendo... você não confia em mim, não é?

Ele afastou-se dela. Rebeca não se moveu.

[Daniel] - Se precisar de mim, é só me chamar.

Ele ia se retirando dali, quando ouviu a voz balbuciada de Rebeca.

[Rebeca] - Tudo não passa de asneiras. Sou uma tola...
[Daniel, voltando-se para ela] - Do que está falando?
[Rebeca] - Não sei porque essas coisas acontecem comigo...
[Daniel, sem entender] - Rebeca?!
[Rebeca] - Eu jamais perdoarei o meu coração por isso.
[Daniel] - Não consigo entendê-la, Rebeca! Pode ser mais clara, por favor?
[Rebeca] - Só sei que tudo o que sinto é um impulso voraz que me consome por
dentro e me faz sentir uma outra mulher...
[Daniel] - Eu gostaria de poder falar a sua língua...
[Rebeca] - Não existe a língua do amor. O amor não fala, o amor se cala e se
isola. O amor é algo ridículo, mas é gostoso amar.
[Daniel] - Rebeca! Você está louca... você... você...
[Rebeca] - O amor leva à loucura, e é exatamente assim que me sinto: louca.

Um trovão vibrou no céu escuro e, naquele instante, Rebeca caiu morta nos
braços de Daniel.

*

O filme tinha acabado naquele instante. Ludmila ergueu-se da cadeira com os
olhos cheios de lágrimas. Ela precisava falar com Ulisses.
Na saída do cinema, ela discou o número do celular do namorado e aguardou
ansiosa.

[Ludmila, escutando a voz de Ulisses do outro lado] - Ulisses! Preciso me
encontrar com você agora.
[Ulisses] - Estou ocupado neste instante, querida.
[Ludmila] - Não importa! Nada é mais importante do que eu preciso lhe
falar.
[Ulisses] - Ai, ai... onde quer que eu a encontre?
[Ludmila] - Na minha casa.
[Ulisses] - Já estou indo...

Ela desligou o telefone. Sua mão tremia e seu coração pulsava rapidamente. O
que ela iria fazer, a marcaria para sempre.

*

Na sala, Ulisses encarava Ludmila que estava à sua frente. Pensou em como a
amava e em como gostaria de tê-la sempre ao seu lado.

[Ludmila] - Ulisses, eu... eu... não quero continuar o nosso relacionamento.

Houve uma pausa longa e dolorosa. Ulisses a encarava, sua expressão era de
desentendimento.

[Ludmila] - Quero que desapareça da minha vida.
[Ulisses] - Querida? O que aconteceu com você?

Ludmila chorava, as palavras não conseguiam mais sair da sua boca.

[Ulisses] - Nosso romance sempre ocorreu tão bem... nunca houve qualquer
empecilho...
[Ludmila, gritando] - Não quero! Não quero você! Não quero amar ninguém...
Quero que saia da minha casa. Está escutando? Saia e nunca mais volte...

Ulisses ergueu-se do sofá e saiu pela porta que Ludmila apontava. Ele não
entendia o que estava acontecendo.
Ludmila foi para o seu quarto e chorou. Pensou no filme que ela tinha
assistido. No sofrimento de Rebeca por amar Daniel e este, ser namorado de
sua melhor amiga. Assim, Rebeca optou pela morte.
Ludmila pegou o telefone ao lado da sua cama e apertou alguns números.

[do outro lado da linha] - Alô...
[Ludmila] - Cecília? Como vai?
[Cecília] - Oi amiga! Que bom que você ligou. Estava morrendo de saudades.
[Ludmila] - Olha, não tenho tempo para conversar com você. Só quero que te
pedir um favor.
[Cecília] - Todos que você quiser, amiga...
[Ludmila] - Liga para o Ulisses hoje à noite e diga a ele que eu estou na
sua casa. Fale que eu preciso conversar muito com ele. Aí, você marca um
horário que ninguém estiver na sua casa.
[Cecília] - Mas... e você?
[Ludmila] - Eu não estarei. Então, você veste uma roupa bem bonita e se
declara para ele, assim como você falou naquele dia em que estávamos aqui em
casa.
[Cecília] - Mas... Ludmila... ele é seu namorado...
[Ludmila, gritando] - Faça o que eu estou mandando.
[Cecília] - Tá! Não precisa gritar...
[Ludmila] - Aproveite ele, amiga! Beije-o e faça o que você quiser com
ele... seduza-o e diga que quer namorá-lo.

Ludmila chorava ao imaginar a cena.

[Cecília] - Eu adoraria fazer isso, Ludmila, mas não posso...
[Ludmila] - Querida... eu terminei com o Ulisses. Ou você faz o que eu lhe
falei, ou outra fará.
[Cecília] - Vocês... terminaram?
[Ludmila] - Sim...
[Cecília] - Eu sinto muito...
[Ludmila] - Faça o que eu mandei e aproveite.
[Cecília] - Está bem! Eu farei... Mas... posso saber porque você está
fazendo isso por mim?
[Ludmila] - Porque eu amo você...

Uma lágrima de dor rolou pela face de Ludmila. Aquela lágrima marcava o
início de uma nova vida. Uma vida de ilusão.

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