Capitulo 3

ERA SÁBADO. ESTÁVAMOS TODOS REUNIDOS NA SALA DE JANTAR PARA SABOREAR A CEIA
PREPARADA POR ANA.

(ANA, SORRIDENTE) - Pronto! Já tá saindo...
(PAPAI, ESFOMEADO) - Ainda bem... já não agüento mais as súplicas do meu
estômago.
O JANTAR FOI SERVIDO.
(TIA RITA, COM UM AR DISTANTE) - Moacir... temos que matricular Marina numa
escola...
(VOVÓ, DANDO ATENÇÃO) - Ainda não fizeram a matrícula dela?
(TIO MOACIR, COM A BOCA CHEIA) - Não temos dinheiro, mamãe...
(VOVÓ) - Ora, não seja por isso... Eu pago!
EU E MARINA NOS ENTREOLHAMOS. EU SABIA MUITO BEM QUE MARINA ESTAVA
MATRICULADA NUMA ESCOLA, SÓ QUE MUNICIPAL.
(PAPAI) - Você conversou com o gerente do banco, Moacir?
(TIO MOACIR) - Oh, claro... ele me negou o emprego! Disse que a vaga já
havia sido ocupada.
(MAMÃE) - E você, Rita, procurou pela mulher de quem lhe falei?
(TIA RITA) - Procurei, mas foi em vão.
(VOVÓ) - Vocês dois não podem continuar desempregados... Não temos tanto
dinheiro para mantê-los.
(TIO MOACIR, ZANGADO) - Cruzes, mãe! A senhora sabe que não viemos da Bahia
para cá, a fim de abusar da boa vontade de vocês.
(TIA RITA) - É, Dona Morgana! Nós saímos de lá, porque até da casa, fomos
despejados.
(VOVÓ) - Eu sei, eu sei! Por enquanto, tudo bem...
(TIA CÍNTIA) - Conheço uma mulher que vende jóias e pode estar precisando de
uma ajudante. Se quiser, Rita, eu posso...
(TIA RITA, CORTANDO-A) - Não... não, querida, não perca tempo! Vender jóias
é sempre um risco! Se acontecer de sumir, o proprietário logo coloca a culpa
no vendedor. E eu, detesto enfrentar esse tipo de problema.
(MARINA, GRACIOSA, CORTANDO A FALA DA MÃE QUE TINHA UM TOM ALTO DE VOZ) -
Vovó... onde está o doce que a senhora falou?
(TIA RITA) - Não coma besteiras, Marina...
(VOVÓ) - Deixe-a! Criança gosta dessas coisas...
EU E MARINA SAÍMOS DALI E CORREMOS PARA A COZINHA, ONDE ANA BALANÇAVA O
PACOTE DE DOCE ENTRE AS MÃOS.
(EU, ENTRANDO NA COZINHA ATRÁ DE MARINA) - Marina, por que seus pais
disseram aquelas mentiras?
(MARINA FICOU EM SILÊNCIO)
(EU, INSISTENTE) - Marina... por que?
( ELA, NERVOSA) - Não gosto de falar sobre isso! Rita é má! Ela quer só
dinheiro e mais dinheiro. E eu... eu... ( E CHOROU ABRAÇADA A ANA)
(ANA, PACÍFICA) - Fica 'sim não! Tô 'qui pra protegê ocê, neguinha...
VI QUE O BRAÇO DE MARINA TINHA UM MACHUCADO ENORME.
(EU) - O que é isto?
(ELA RETIRANDO A CABAÇA DOS OMBROS DE ANA E ME ENCAROU) - Não... não é
nada...
(EU, PREOCUPADO COM AS RESERVAS DELA) Marina, você tem alguma coisa?
ELA SÓ SABIA CHORAR.
NAQUELE DIA, PERCEBI QUE MARINA TINHA PROBLEMAS. SÉRIOS PROBLEMAS...


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