Capítulo 6

Marta e Beatriz estão na sala de sua casa. Conversando momentos antes de irem para o velório.
Marta: Isso está tão estranho. As coisas não estão se encaixando.
Beatriz: O que foi mãe? O que não se encaixa?
Marta: Não sei... Seu pai ter se suicidado... Isso não é a cara dele.
Beatriz começa a chorar.
Beatriz: Vou sentir falta dele...
Marta a afaga.
Marta: Calma, minha filha. Seu pai foi um grande homem. Apesar de todos os meus problemas com ele, durante anos ele foi um bom marido e um excelente pai...
Beatriz se levanta do colo da mãe.
Beatriz: Você gostava dele?
Marta: Apesar de tudo, da maneira como ele me tratava, como ele agia comigo... eu ainda o amava.
Beatriz: Não vi você derramando nenhuma lágrima até agora...
Marta: Beatriz... eu sou uma pessoa difícil de chorar. Você sabe muito bem disso. Nem quando a minha mãe morreu eu consegui chorar. Minhas tias acharam um absurdo. Apontavam para mim como se eu fosse a pessoa mais fria desse mundo. Eu sofro diferente. E pode ter certeza, estou sofrendo muito com a morte do seu pai.
Beatriz: Eu sei, mãe... Eu sei.
Elas se abraçam.
Marta: Agora vamos, minha filha. Já estamos atrasadas.
Marta põe seu chapéu preto e sai com sua filha.
¨¨

Neide entra na cozinha amarrando o avental na cintura e se preparando para lavar a louça.
Neide: Essa dona Marta é tão estranha. Perde o marido e nem chora.
Carla: Dona Marta é uma mulher forte. Não é de chorar fácil, e, quando chora, não mostra para ninguém.
Neide: Será que a dona Beatriz pode me ajudar a ser modelo.
Clara: Tire essa idéia da cabeça, menina! Isso é besteira!
Neide: Besteira para você! Eu vou ser sim uma grande modelo. Cheia de dinheiro, fama...
Clara: Procure estudar e ser alguém nessa vida. Ser modelo não leva a nada!
Neide observa Carla, que está nervosa.
Neide: Por que a senhora fica tão nervosa quando toco nesse assunto? Não é a primeira vez que falo isso e você fica toda arredia. Qual o problema?
Carla: Não é nada! Não é nada! Faça seu trabalho.
Neide: Isso é muito estranho...
¨¨¨

No cemitério, várias pessoas estão em volta do túmulo que está prestes a receber o caixão. O padre com uma bíblia na mão, termina o terço. Um homem alto, bem vestido está de frente para Marta e a olha fixamente. Ela percebe, mas desvia o olhar.
Marta se aproxima de Beatriz.
Marta ( sussurrando ): Quem é esse cara?
Beatriz ( procurando discretamente ): Quem?
Marta: Esse alto, bem vestido.
Beatriz: Não sei... Deve ser um dos amigos do papai. Por quê?
Marta: Não pára de me olhar... Já está sendo inconveniente.
Momentos mais tarde, as pessoas começam os cumprimentos a Marta e Beatriz. O homem se aproxima de Marta, beija sua mão fixando seus olhos nos olhos da viúva.
Homem: Meus pêsames.
Marta puxa a mão. O homem cumprimenta com formalidade a filha e vai embora.
¨¨¨

Já em casa, Marta e Beatriz tiram os sapatos e os chapéus e se sentam no sofá.
Marta: Carla!
Carla vem correndo.
Carla: Pois não, dona Marta.
Marta: Traz aquele chá para nós, por favor.
Carla: Claro, dona Marta. Me desculpe não ter ido no enterro, mas é que não costumo passar bem.
Marta: Tudo bem, Carla. Ele vai entender.
Carla sai.
Beatriz: Nossa, o papai conhecia bastante gente, não?
Marta: Muita... Mas aquele homem me deixou incomodada. Me olhava de um jeito...
Beatriz: Deixa para lá, você nunca mais vai vê-lo mesmo.
Marta: É verdade.
Beatriz: Vou tomar um banho. Estou cansada.
Marta: E o chá, minha filha?
Beatriz: Vou tomar... Eu preciso tomar um banho com água bem quente. Não sei porque, mas me sinto mais conformada. É como se o papai tivesse ido viajar.
Marta: Isso, Beatriz. Pense assim... Afinal, um dia iremos nos encontrar.
Beatriz sorri e sobe para tomar seu banho.
Marta repousa a cabeça no encosto do sofá, mas a campanhia toca.
Marta: Pode deixar, Carla! Eu atendo.
Marta se levanta. Ao abrir a porta ela se depara com Tiago.
Marta: Detetive?
Tiago: Desculpe aparecer aqui a essa hora, mas eu precisava entregar isso.
Tiago entrega um saco plástico transparente com os objetos pessoais de Jonas.
Tiago: Eram as coisas dele.
Marta: Obrigada... O senhor quer entrar?
Tiago: Não, obrigado. Mas voltarei outro dia.
Marta: Claro. Fique a vontade.
Tiago ( tirando um cartão do bolso ): Aqui está o meu número de telefone. Qualquer coisa que a senhora precisar...
Marta: Claro... Obrigada.
Marta fecha a porta. Ela se senta no sofá e espalha as coisas em cima da mesa de centro. Carla entra com o chá.
Carla: E dona Beatriz?
Marta ( olhando as coisas ): Foi tomar...
Marta estranha um dos objetos.
Carla: Dona Marta?
Marta: Mas o que é isso?
Marta pega um anel com a letra ‘M’.
Marta: Estranho... Isso não era dele.
Carla: Algum problema, dona Marta?
Marta: Não, Carla. Me deixe sozinha, por favor.
Carla sai.
Marta ( consigo mesma ): Ele não se suicidou... Não mesmo.

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