
Capítulo 4
É noite. Jonas sai da empresa e vai ao bar que havia combinado com Fernando. O empresário, enquanto espera o amigo, pede uma dose de uísque. O celular toca.
Jonas: Alô? ( pausa ) Oi, Fernando! O que houve? ( pausa ) Tudo bem... Eu fico por aqui sozinho mesmo. Preciso esquecer que aquela mulher está lá e que vou ter que passar o fim de semana inteiro com ela.( pausa ) Sem problemas, amigo. A gente marca alguma coisa. (pausa ).
Jonas começa a beber. Pede alguns petiscos. Ele vai até a mesa de bilhar e começa a jogar sozinho.
***
Em Santos, Beatriz chega com seu carro e espera a balsa. Ela olha para o relógio.
Beatriz ( consigo mesma ): Droga. Essa balsa sempre atrasada.
Em alguns minutos a balsa chega. Os carros começam a entrar. Beatriz entra no veículo e o estaciona na embarcação.
***
No bar, Jonas encosta o taco, pega seu paletó e paga o barman.
Barman: Você está bem para dirigir, amigo?
Jonas: Estou ótimo. Fica tranqüilo. Até mais, colega.
O barman observa o empresário sair do bar. Escuta a porta do carro se abrindo e se fechando. O motor é ligado e o carro sai cantando pneu.
Barman ( balançando a cabeça ): Esses caras não aprendem. Quando morrem com uma batida não sabem o porque.
***
Marta está em casa. Anda de um lado para outro. Olha para o relógio o tempo todo. O relógio marca onze horas da noite.
Marta: Beatriz não chega. Esse tempo está horrível para ela pegar estrada.
Carla entra na sala.
Carla: A senhora precisa de alguma coisa, senhora Marta?
Marta: Não, Carla. Obrigada. Pode ir dormir. Aquela menina também. Qualquer coisa eu me viro.
Marta anda de um lado para outro. Ela vai até a janela. Volta para a poltrona e se senta. Até que ela escuta o barulho do motor de carro se aproximando. É Beatriz que estaciona o carro. Ela desce do carro. Marta vai até a porta e a recebe.
Marta: Beatriz. Filha. Que saudades.
Beatriz ( trancando a porta do carro ): Também, mamãe. Faz um tempo, não é verdade?
Marta: É verdade.
Beatriz entra e põe as malas no chão da sala. Ela olha a casa, como se estivesse matando as saudades.
Beatriz: Onde está o papai?
Marta ( andando até a cozinha ): Seu pai... seu pai. Hoje é sexta-feira.
Beatriz ( seguindo a mãe ): E o que isso tem a ver?
Marta ( pegando uma caixa de chá no armário ): Ele não gosta de passar o fim de semana comigo.
Beatriz ( se sentando ): Ai, mãe. Está certo que não tenho mais nada a ver com a vida de vocês, mas isso já está ficando insuportável, você não acha?
Marta ( colocando a chaleira de água no fogo ): Acho. Mas não vou dar o gostinho dele me ver saindo daqui sem levar nada. Não fiquei anos e anos nessa ilha horrorosa para sair desse fim de mundo com uma mão na frente e outra atrás.
Beatriz: Mas e sua família?
Marta: Minha família não casou com seu pai. Eu só me separo se ele me der uma parte de toda essa grana que ele tem na conta. Mas deixa isso pra lá, minha filha. Me fale de você. Como está em São Paulo?
Beatriz: Trabalhando bastante. A agência está indo bem, mas estou precisando tirar umas férias e, esse é o momento. Não tenho data para voltar para São Paulo.
Marta: Isso é bom. Seu pai, pelo menos, vai ficar contente pois vai ter com quem conversar.
Marta tira chaleira do fogo e coloca a água em duas xícaras com os saquinhos de chá. Ela entrega uma das xícaras para a filha.
Beatriz ( misturando o açúcar no chá ): Onde o papai costuma ficar?
Marta: Não faço idéia. Toda a sexta é a mesma coisa. Ele vai trabalhar de manhã e volta pela madrugada.
Beatriz: Como você agüenta viver nessa situação?
Marta: É preciso.
Beatriz: Acho que já está na hora de vocês decidirem isso como adultos.
Marta: Seu pai é cabeça dura. Ele não quer me dar um tostão. Disse que não me dá o divórcio, só para não ter que se desfazer do dinheiro dele. E você? Está namorando?
Beatriz ( engolindo o chá ): Não... no momento estou sozinha. Namorar só dá dor de cabeça.
Marta: Imagina o casamento.
Beatriz: É verdade. ( ela se espreguiça ) Bom... a viagem foi longa. O tempo está horrível e estou louca para tomar um banho e cair na cama. Amanhã eu falo com o papai.
Marta: Vai lá minha filha. Amanhã conversamos mais.
***
Amanhece. Beatriz desce para tomar o café e encontra só a sua mãe sentada a mesa.
Beatriz ( bocejando ): Bom dia... Onde está o papai?
Marta: Bom dia, filha. Seu pai ainda não chegou.
Beatriz ( assustada ): Mãe! O papai está na rua até uma hora dessas e você está calma desse jeito.
Marta: Beatriz... Sente-se, minha filha. Eu já lhe disse: essa não é a primeira vez e nem vai ser a última. Já me acostumei. Ele deve estar com alguma sirigaita por aí.
Neide entra na sala com uma bandeja de pães. Beatriz a encara. A empregada sai.
Beatriz: Quem é essa menina?
Marta: É nossa nova empregada. Carla já não estava mais dando conta do serviço sozinha, então tivemos que contrata-la.
Beatriz: Alguém a indicou?
Marta: Carla.
Beatriz: E ela é de confiança?
Marta: Pelo menos até agora não deu trabalho.
O telefone toca. Carla atende. Momentos depois, a empregada leva o telefone até a mesa e entrega a Marta.
Carla: Senhora Marta, é para a senhora. É da polícia.
Marta: Da polícia?
Beatriz: Atende, mãe!
Marta: Alô? ( pausa ) Isso mesmo. ( pausa ) Como é?! ( pausa )
Beatriz: O que foi?!
Marta: Tudo bem... eu estou indo...
Beatriz: Mãe, o que aconteceu?!
Marta ( desligando o telefone ): Seu pai...
Beatriz: O que tem?!
Marta: Morreu.