Capítulo 2

Amanhece, o frio ainda toma conta da ilha. O céu está nublado, um vento gelado, acompanhado de uma garoa fina deixa o clima ainda mais frio. Na casa dos Liberato, Jonas toma tranqüilamente seu café da manhã antes de ir trabalhar. Marta desce as escadas, vestida com seu hobby e usando suas pantufas de pele. Ela se senta na mesa.

Marta: Bom dia.

Jonas não responde. Ele toma um gole de café e vira a página do jornal.

Marta: Ontem, com aquela discussão, acabei esquecendo de lhe avisar que nossa filha vem para cá no fim de semana.

Jonas ( sem tirar os olhos do jornal ): Ótimo. Terei alguém com quem conversar.

Marta: Incrível... Você só abre a boca para me agredir! Por que não conseguimos ter uma conversa civilizada?

Jonas ( se levantando da mesa ): Desculpe, minha cara, mas com você só consigo falar assim.

O empresário pega sua pasta, seu casaco e sai da mansão deixando Marta sozinha na mesa.

Marta: Me trata pior que cachorro.

Carla entra na sala.

Carla: Falou alguma coisa, dona Marta?

Marta: Não, Carla... Estava aqui falando com os meus botões. Não estou mais suportando viver desse jeito. Esse homem todos os dias com essa cara, me maltratando o tempo todo e ainda quer que eu saia daqui sem levar nenhum tostão.

Carla: Me desculpe intrometer, dona Marta, mas por que o senhor Jonas a trata assim? Eu pergunto pois trabalho com vocês há muitos anos e de alguns anos para cá só vejo brigas entre vocês.

Marta: Eu também queria saber... Também queria saber.

Jonas dirige seu carro, tranqüilamente pelas ruas de Katrina até a balsa. Em seu passeio, ele encontra Fernando tirando o carro da garagem de sua casa.

Jonas ( gritando pela janela do carro ): Como vai, Fernando?

Fernando ( fechando a garagem ): Jonas, meu amigo!

Fernando vai até o carro do empresário e se encosta na janela para conversar melhor. Fernando: Como tem passado?

Jonas: Bem, na medida do possível. Levando uma vida, não muito agradável, mas estou bem, e você?

Fernando: Estou bem. Mas não sinto o mesmo com você. Ainda as brigas com Marta?

Jonas: Essa mulher só quer o meu dinheiro. Onde discutimos feio. Preciso dar um jeito de tirar ela da minha casa sem levar um centavo sequer do meu dinheiro.

Fernando: Você está precisando conversar, desabafar. Vamos tomar alguma coisa depois do expediente. Você ainda lembra que trabalho perto de você, não?

Jonas: Claro que me lembro. Encontro você naquele barzinho de sempre em Santos, tudo bem?

Fernando: Combinado. Estarei lá! Está indo para a balsa?

Jonas: Para variar um pouco a rotina...

Os dois riem.

Fernando: Então vamos lá. Conversamos mais um pouco durante o trajeto.

Edgar, filho de Fernando, está terminando de se trocar. Ele retira o pacote que havia escondido no meio de suas roupas numa noite anterior e põe no bolso de sua calça. Ele toma um copo de suco e sai em direção à casa de um amigo, Pedro, que tem a mesma idade. Em poucos minutos ele chega a casa do amigo que o manda entrar. Eles vão até o quarto do garoto.

Pedro: Trouxe a parada?

Edgar: Você tem a grana?

Pedro: Claro que tenho. Está pensando o quê?

Edgar: Então mostra! Só entrego com a grana na minha mão!

Pedro: Você está desconfiado demais, não? Esqueceu que somos velhos amigos?

Edgar: Não, não esqueci. O problema sãos os caras do continente. Se eu não entregar a grana para eles pontualmente, estou fodido nas mãos dele.

Pedro ( entregando o dinheiro para Edgar ): Aqui está.

Edgar entrega o pacote para Pedro. Ele abre. Nele tem um punhado de folha de maconha. O rapaz cheira.

Pedro: Essa parece ser da boa.

Edgar: Nisso os caras capricham. Eles conseguem bagulhos da melhor qualidade.

Pedro rasga uma folha de papel de seu caderno e faz um cigarro com a droga. Ele acende e dá uma tragada.

Pedro: Cara... Essa é demais! Quer provar?

Edgar: Não, cara! Você sabe que eu não curto isso. Só estou tirando uns trocados para mim.

Pedro: Não sabe o que está perdendo.

Edgar: Bom... Já está entregue. Preciso ir agora.

Pedro: Você já vai levar o dinheiro para eles?

Edgar: Sim, claro! Eles me cobram o tempo todo.

Pedro: Meu, traga mais um pacote desse para mim... Nunca fumei um tão bom quanto esse.

Edgar: Esteja com o dinheiro na mão! Amanhã eu volto aqui!

Edgar chega ao local para o embarque da balsa. Algumas pessoas já estão entrando com seus carros, outras a pé. Durante o percurso, o rapaz anda pela balsa. De repente, se assusta com a presença de seu pai que está conversando com Jonas.

 

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