Capítulo 11

Na mesa estão Marta, Beatriz e Marcelo. Carla serve os pratos. Beatriz não pára de encarar Marcelo que começa a se sentir desconfortável.
Marta: Bom, Marcelo... Você já conheceu minha filha, já me conheceu... Mas ainda não sabemos muita coisa sobre você, não é verdade?
Marcelo: É verdade. Ainda não tive oportunidade de falar muito de mim.
Beatriz: Pois é... Marcelo. O que você faz da vida, além de ficar procurando parentes de seus amigos mortos?
Marta: Beatriz!
Marcelo: Primeiro que não fico procurando parentes de amigos mortos... Desta vez foi um impulso... De tanto que seu pai falava da sua mãe...
Beatriz: Chega desse papo. Você pode ter convencido a minha mãe com essa conversa, mas a mim, você não me engana.
Um silêncio toma conta do ambiente.
Beatriz: Então?
Marta: Então o que, minha filha?
Beatriz: O que você faz da vida?
Marcelo: Trabalho numa empresa de informática.
Marta: Que interessante. Esse mercado está crescendo muito hoje em dia.
Marcelo: Demais.
Beatriz: Quer saber? Estou sem apetite... Vou sair um pouco. Respirar!
Beatriz joga o guardanapo na mesa e sai batendo a porta.
Marcelo: Gênio difícil o da sua filha.
Marta: Sabia que ela tinha personalidade forte, mas até a mim ela conseguiu surpreender.
Marcelo: Há quanto tempo ela mora fora.
Marta: Já tem muitos anos. Na época da faculdade nós a mandamos para São Paulo para que tivesse o melhor estudo. Sempre priorizamos os estudos acima de tudo.
Marta e Marcelo conversam durante todo o jantar. Os dois comem a sobremesa e depois vão para a sala de estar para tomar um café.

Na rua, Beatriz anda vagarosamente pelas ruas da ilha. Respirando ar puro e sentindo o vento frio batendo em seu rosto. Ela passa em frente da casa de Edgar, que está sentado na porta pensando na vida. O garoto fica afoito ao vê-la. Ele se levanta e acompanha a mulher.
Edgar: Oi.
Beatriz: Edgar... Como você está?
Edgar: Bem.
Beatriz: Que bom. E seus pais?
Edgar: Estão em casa... Naquela vidinha de sempre.
Beatriz: Todos dessa ilha, principalmente os mais velhos, parecem que se acomodam nessa vida chata, sem ter o que fazer. Gosto de curtir isso as vezes, nas férias por exemplo.
Edgar: Não vejo a hora de sair dessa ilha. Estou cansado disso tudo, dos meus pais até de mim mesmo.
Beatriz pára e abraça Edgar.
Beatriz: Bebê... Pobrezinho... Não fique assim. Quem sabe não posso estar o ajudando.
Edgar: Ajudando? Como?
Beatriz sorri e volta a caminhar.
Beatriz: Isso a gente vê depois. Ainda vou passar um bom tempo por aqui.
Edgar olha encantado para Beatriz. Ela percebe que o rapaz não pára de encarar.
Beatriz: Não vá se apaixonar.
Edgar: Como?... Oh.. Me desculpe...
Beatriz: Você e aquela menina, minha empregada... Vocês estão namorando?
Edgar: Digamos que... gostamos de fazer umas “brincadeirinhas”, mas não namoramos... Nossos objetivos, apesar de serem comuns na vontade de sair dessa ilha, são diferentes para o plano de carreira de cada um.
Beatriz: Como assim?
Edgar: A Neide quer ser modelo, não quer só sair da ilha, quer conquistar o mundo. Eu só quero sair daqui.
Beatriz: Entendi... Quer dizer que você não é mais virgem?
Edgar ( envergonhado ):Não...
Beatriz: Interessante.
Edgar: Por quê?
Beatriz: Nada... Preciso voltar agora, baby. A gente se esbarra.
Beatriz dá um beijo no rosto de Edgar e sai a caminho de sua casa.

Marta e Marcelo estão sentados no sofá, um ao lado do outro.
Marta ( rindo ): Você é engraçado! Sabe há quanto tempo não dou uma risada dessa?
Marcelo ( ficando sério ): Posso imaginar.
Marta ( séria ): Jonas só me fez rir no começo do casamento, na época em que namorávamos. Casamento é mesmo um ato sem sentido. Como você pode imaginar que pode viver feliz para sempre com uma pessoa. Imagine, quando namoramos e estamos cheio dos nossos namorados, arranjamos outro! Tão simples. Tão prático. Agora, nós casamos, somos obrigados a dormir um com o outro todos os dias, nos vemos todos os dias... Que horror! Nunca mais quero casar na minha vida!
Marcelo: Nunca diga nunca... Você nunca sabe o dia de amanhã.
Marta: É verdade. Mas agora eu só quero curtir esses anos que estive “morta”.
Marcelo se aproxima de Marta e lhe dá um beijo.
Beatriz entra e surpreende os dois.
Beatriz: Eu não acredito. Boa noite para vocês!
Beatriz fecha bate a porta e sobe para o seu quarto.
Marcelo: Acho melhor eu ir embora. A gente pode marcar um encontro para esse fim de semana?
Marta: Claro.
Marcelo: Eu vou ter que voltar para o continente para trabalhar, mas... estarei pensando em você.
Ele se levanta e vai até a porta. Marta a abre.
Marcelo: Adorei te conhecer.
Marta: Talvez nós já nos conhecemos há algum tempo...
Marcelo a beija e sai. Ela espera o carro ir embora e fecha a porta suspirando.
Beatriz está na escada, acompanhando toda a cena.

 

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