CONGELADO
Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan
Fazia já algum tempo que ninguém ia àquela fazenda. Para Norton e Fred era apenas um meio de se fugir do tédio que a cidade vinha se tornando para eles. É claro que, para eles, seria mais entediante ainda um fim de semana no campo, mas quando voltassem para casa ficariam tão aliviados que esqueceriam do tédio.
A fazenda era do pai de Norton. Não estava produzindo nada; só era usada nos fins de semana em que queriam fugir da civilização, mas isso raramente acontecia, e a fazenda ficava sozinha. Norton e Fred iam quebrar essa solidão, ou melhor, juntar-se a ela. Jim chegaria no dia seguinte, e então não seriam mais dois solitários, e sim três.
A casa tinha de tudo, desde televisão até piscina, só que ela estava tão suja que não podia ser usada. Tinha uma geladeira também.
Chegaram às cinco da tarde de uma sexta-feira, com milhões de coisas de bagagem, algumas úteis, outras inúteis. Descarregaram a camionete na varanda e o pai de Norton partiu, sem ao menos olhar a casa. Estava com pressa. Estranho seria se não estivesse. Foi por isso que descarregaram tudo na varanda, ao invés de levarem tudo direto para dentro. Perderam bastante tempo no translado das coisas da varanda para dentro.
Pode-se pensar que estavam bastante dispostos a trabalhar, mas metade das coisas que levaram seria deixada para trás. Apenas o básico voltaria, ou seja, o supérfluo.
Na cozinha começaram a tirar as coisas dos pacotes. Havia algo que precisava ser posto na geladeira, e havia uma geladeira, e ela estava ligada. Sabiam que se ficasse desligada por muito tempo, não funcionaria, ou funcionaria muito mal, até que o gás fosse trocado. Mas ela estava ligada. Fred ia abrí-la quando viu uma chave sobre ela. Era da porta da frente. Norton achou estranho, pois sabia que só havia uma cópia da chave, a que estava com ele. Puseram-na de volta sobre a geladeira. Fred abriu a porta e ficou estático, empalideceu. Norton notou sua expressão e perguntou o que havia acontecido. Não houve resposta. Reparou então nos olhos de Fred olhando fixamente para dentro da geladeira e desviou seu olhar para lá. Também ficou estático e empalideceu. Que corpo seria aquele dentro da geladeira? Fred olhou para Norton e Norton para Fred. Por instantes não disseram nada. O que fariam? Poderiam ser acusados de assassinato!
Depois de se acalmarem, resolveram ligar para o pai de Norton, mas quando tiraram o telefone do ganho, perceberam que estava mudo. Ponderaram e resolveram enterrar o morto. Foi o que fizeram. Levaram o corpo, nu como haviam-no encontrado, para fora e cavaram uma cova; bem rasa na verdade, não tinham experiência em escavações.
Voltaram para a casa apavorados. Não sabiam se arrependiam-se do que tinham feito ou o quê. Queriam voltar para a cidade, mas não havia como. Começava a anoitecer, e quanto mais pensavam, mais escurecia. Por que o pai de Norton não emprestara o carro justo naquele fim de semana? Entraram na casa, mas evitaram a cozinha. E o pior é que começavam a sentir fome. Fred teve a genial idéia de empacotar as suas coisas, e quando Jim chegasse no dia seguinte, pegariam carona para a cidade imediatamente, com quem quer que fosse que o trouxesse. Foi para o quarto. Norton continuou na sala. Sentia-se péssimo. Tentava pensar em outra coisa, mas sua mente dava voltas e sempre voltava a pensar no corpo que tinham enterrado. Tinha sentimentos asfixiantes que variavam de medo a remorso, apesar de saber que não era o assassino. De repente, um pensamento terrível passou por sua mente: e se ele não estivesse morto? Neste caso sim, eles seriam os assassinos. Teriam-no enterrado vivo! Tentou afastar esses pensamentos; no dia seguinte voltariam e conversariam com seu pai. Iriam até a polícia e diriam que lhes ocorreu de enterrá-lo simplesmente porque era um defunto. Claro que iriam entender. Mas e se a autópsia desse que a morte tinha sido causada por asfixia? Então eles poderiam ser os assassinos. E se não dissessem nada? Bem, nesse caso poderiam achar o corpo e tudo se tornaria mais complicado; não o tinham enterrado tão fundo. O melhor mesmo seria procurar a polícia.
Tinha chegado a essa conclusão quando Fred entrou na sala. Trazia algumas roupas em suas mãos, mas definitivamente não eram deles. Chegaram a conclusão de que pertenciam ao morto. Não conseguiam entender mais nada.
A preocupação deles quanto a isso terminou quando ouviram um barulho vindo da cozinha. Ficaram quietos, apreensivos, esperando atentamente por um som que esperavam que não se repetisse. Mas se repetiu. Definitivamente havia alguém ali. A apreensão tornou-se pavor. Esperaram quietos. A maçaneta da porta da cozinha girou lentamente. Depois a porta começou a se abrir. Correram para a porta da frente para fugir. Afobaram-se e não conseguiram abrí-la. Foi quando ouviram uma voz familiar, dizendo algo que o pavor não deixava distinguir. Tinha um tom irônico. Norton e Fred viraram-se e viram Jim rindo do susto que lhes dera. Chegou quando estavam fora, enterrando o corpo, e foi até a cozinha comer algo. Tinha enforcado aula, chegado um dia antes e feito com que Norton e Fred perdessem a carona do dia seguinte. Reconstituiram-se do susto e explicaram a Jim o que estava acontecendo.
Enquanto isso, o calor do solo fazia com que o corpo enterrado saisse de seu estado de hibernação. Começou a se desenterrar, a terra ainda fofa. Suas mãos e braços se libertaram e empurraram o resto do corpo para fora da cova. Estava nu e todo sujo, ainda confuso, como quem acorda de um sono profundo em um lugar estranho. Precisava ir a algum lugar. Resolveu ir à casa da fazenda do pai de Norton, onde estava. Era o lugar mais próximo. Não sabia o que tinha acontecido, mas tinha suas suposições. Uma delas era a verdadeira. Sabia que poderia encontrar problemas ao voltar àquela casa, mas decidiu que era sua melhor escolha.
Jim não estava apavorado, portanto pensava melhor do que os outros dois. Sugeriu que partissem no dia seguinte, a pé mesmo, e pegassem carona na estrada. Na cidade, contariam tudo ao pai de Norton, e ao seu, que era advogado, e iriam à polícia. Tudo resolvido. Jim acompanhou Norton e Fred até a cozinha e ficou com eles enquanto comiam. Foi quando bateram na porta da frente. Os três ficaram apreensivos, um esperando que o outro se levantasse para atender. Quando Jim finalmente se decidiu, Norton e Fred o impediram. Temiam quem quer que fosse, e era justamente quem mais temiam. O defunto, que aliás estava vivo, bateu novamente. Nenhum dos três se mexeu. Esperavam que o estranho fosse embora. Não sabiam que era aquele que tinham enterrado, e muito menos esperavam que estivesse vivo.
Finalmente ele parou de bater, mas fez algo pior, justamente quando começavam a respirar mais aliviados: ele olhou pela janela da cozinha. Jim foi o primeiro a ver, e assustado, mas contido, fez com que os outros dois também olhassem. Seu rosto estava apenas sujo de terra, mas o pavor fez com que Norton e Fred vissem-no em estado de avançada putrefação. Esperavam tudo, menos que estivesse vivo, e interpretaram sua volta como vingança. Quando ele descolou a cara do vidro e caminhou para a porta da cozinha, Jim lembrou-se de que a tinha deixado aberta, e como não havia tempo para fechá-la, levantou-se apavorado para fugir, chamando os dois amigos. O suposto defunto entrou, enquanto os três saiam apavorados pela porta que dava para a sala. Ele estava disposto a se explicar, mas percebeu que isso seria impossível.
Enquando o corpo estava fora da casa, queriam estar dentro, mas agora que o corpo estava dentro, queriam estar fora. Atravessaram a sala e saíram o mais rápido possível.
Depois de algum tempo de correria, Jim olhou para trás. Lá estava o corpo, em pé na varanda. Ouviam os sons horríveis que ele proferia. Na verdade, apenas gritava para que não tivessem medo. Mas eles ouviam sons animalescos. Aumentaram o ritmo.
Finalmente o morto-vivo, bem mais vivo do que morto, desistiu de chamá-los. Entrou, trancou as portas e deixou as chaves na cozinha. Tomou um um banho. Pos suas roupas de volta onde Fred as tinha encontrado. Comeu alguma coisa, e voltou à geladeira.
São Paulo, abril de 1989