CONSCIENTE

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan

 

Max estava sendo procurado pela polícia por crimes diversos, incluindo assassinato. E agora, estava sendo perseguido por seus próprios companheiros que, mais do que simplesmente recuperar o dinheiro deles roubado, queriam se vingar.

Já havia alcançado a estrada e corria ao longo dela, ocasionalmente diminuindo o ritmo para pedir carona a algum carro que passasse. Mas nenhum parava, o que era compreensível. Seus ex-comparsas vinham logo atrás, cada vez aproximando-se mais. Foi quando Max ouviu um estouro surdo. "Um tiro", pensou ele no curto intervalo de tempo entre o ruído e a picada nas costas. Sentiu as pernas bambearem e o corpo cair no chão. De princípio ficou meio confuso - tudo aconteceu muito rápido - , e aos poucos recomeçou a pensar. Ouvia claramente, mas nada podia enxergar, nem sentia dor alguma tampouco. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu, por mais que tentasse. Aliás, não sentia parte alguma de seu corpo.

- Ele está morto?

- Está. Vamos pegar a grana e cair fora.

Max tentou se mexer, provar que ainda vivia. Nem pensou que os outros, na verdade, queriam-no morto. Apenas tentou provar que vivia. Inconscientemente, queria provar isso para si mesmo e não para os outros. A simples menção de que estava morto encheu-lhe de pavor. Tentou se mexer com todas as suas forças, mas nenhum músculo respondeu a suas tentativas. Ouviu apenas os outros pegando o dinheiro - e não conseguia sentir se tiravam-no de suas mãos ou não - e irem embora. Sentiu-se então a pessoa mais solitária do mundo. Não tinha certeza se tinha sua própria companhia, pois nem seu corpo sentia. O que mais desejava é que aparecese alguém para lhe socorrer. Ouviu, então, um carro se aproximando, uma freada e pessoas descendo e vindo até ele.

- Está morto, doutor?

- Sim, morreu há pouco tempo.

O médico devia estar enganado, pensava Max. Ele ainda ouvia, e raciocinava. Quem foi que disse "Penso, logo existo"? Ou estava o médico certo: ele estava realmente morto, apenas continuava a pensar?

- Vamos chamar a polícia, Dr.Hansen?

- Não se precipite, Rodin. Não está reconhecendo esse rosto?

- Francamente, não.

- Apareceu no noticiário há alguns dias... é um assassino, e está sendo procurado. Não creio que ninguém vá reclamar pelo corpo, que por outro lado pode nos ser muito útil.

- O senhor não está pensando em levado para o laboratório, está?

- Pense na oportunidade única que isso representa para os nossos experimentos, Rodin. O rigor mortis ainda não começou a se instalar.

A idéia de ser usado como cobaia de laboratório desagradou Max imediatamente, mas aí lembrou-se que se assim não fosse, seria enterrado, e consciente. Esse pensamento encheu-lhe novamente de pavor. Uma veio-lhe a mente, a idéia de que talvez no laboratório o médico descobrisse que ainda pensava, e talvez pudesse salvá-lo. Isso aliviou um pouco seus tormentos. Mas algo terrível aconteceu enquanto estava sendo levado para o carro, ele começava a perder a audição. Estava perdendo seu último contato com o mundo externo. Era apenas mente agora.

Com todos os sentidos ausentes, Max se pôs a pensar. Imaginava por quanto tempo teria consciência ainda, antes que seu corpo - o que incluia seu cérebro - começasse a apodrecer. E como será que isso aconteceria? Perderia suas faculdades de uma só vez, ou lentamente? Talvez ficasse primeiramente insano. Teria alucinações? Dormiria ainda e teria sonhos? Como poderia dormir se já estava morto? Mas sonhos poderia ter, pois se estava consciente, poderia ficar inconsciente; ouvira dizer que esse era o estado de descanso para a mente. Talvez dormisse, sonhasse e não acordasse mais. O que significa a morte afinal? Ele estava morto, mas era quase como se não estivesse. Seria ela a mesma para todos? Talvez alguns morressem completamente, com a consciência cessando junto com o metabolismo. Para outros, talvez, a consciência abandonasse o corpo em forma de alma. Será que ele havia sido condenado a viver eternamente em trevas? Trevas... que outra palavra exprimiria melhor sua situação? Estava solitário, o mais completamente só que se pode ficar, perdido no tempo e no espaço; e a escuridão e silêncio absolutos só eram amenizados por ocasionais lembranças da vida. A morte não havia lhe privado delas. Mas causavam-lhe dor, alimentavam sua angústia, seu sofrimento. Preferia a escuridão e o silêncio completos à memória da vida que agora não mais lhe pertencia. Seu desejo era que seu corpo apodrecesse, e sua mente junto com ele.

Começou a pensar no médico então. Seu corpo deveria estar sendo levado por ele. Já teriam chegado? Não tinha mais domínio do tempo. Sua intuição dava alguns minutos desde o momento em que perdeu a audição; mas quem era ele para dizer com certeza que horas não haviam se passado desde então? Onde estava ele? E quando? De repente, desejava ardentemente essas respostas. Tentou parar de pensar no assunto. Outras perguntas vieram-lhe a mente. Quais seriam os experimentos aos quais seria submetido? Talvez esquartejassem-no todo. Foi, então, que visões de orgãos dilacerados e membros amputados começaram a bombardear-lhe. Sua mente foi invadida por um sem-fim de cenas de terror. Sons disformes e sobrenaturais davam uma atmosfera insólita às imagens. Gritos, sussuros, lamentos... amontoados como vozes distantes. Era muito mais terrível do que qualquer pesadelo. Uma imagem formou-se: a imagem de um homem, de rosto e expressão demoníacos, fitando Max profunda e diretamente nos olhos. "Agora é sua vez!", ouviu Max claramente o homem dizer-lhe; e então acordou. Percebeu que estivera sonhando, o mais terrível e o mais real pesadelo que jamais tivera. Continuava sem ouvir nada, e antes de tentar, sem sucesso, abrir os olhos, teve a triste lembrança de que estava morto.

O pesadelo intrigava-o. Sem dúvida havia sido um sonho, mas real demais. Provavelmente a ausência dos sentidos ativara profundezas do cérebro que nunca explorara. Não em vida. Tlalvez tivesse a chance agora de buscar imagens, sons, sensações que estavam guardadas em alguma parte de sua memória e fazê-las reviver com a precisão do mundo real. Talvez até duvidasse que estava morto de vez em quando. De repente, esqueceu-se completamente do que estava pensando. Estaria ficando insano? Não conseguia mais raciocinar. Sua mente estava se desligando...

São Paulo, 1o. semestre de 1991

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