Procura-se um pai
Carlos Drummond de Andrade
O
rapaz dirigia seu carro pela Avenida Brasil, rumo ao aeroporto do
Galeão, onde ia receber o pai, que voltava do Chile, e eis
senão quando...
O resto, imagina-se. Foi naquela
noite de fevereiro em que o Rio, mais uma vez, transbordou de seu
nome, e a cidade voltou a padecer os desmoronamentos, os
desabrigos, as angústias e as mortes injustas de uma enchente.
Na rua congestionada, ninguém avançava. Chuva matraqueando,
tempo fugindo, todas aquelas pessoas em prisões de lata e vidro,
temendo o pior. E o pai que deveria chegar às 20 horas. O pai
chegando. O pai chegou? Ele não está familiarizado com
esta bagunça em forma de cidade. É idoso. Mora em outro Estado.
Como é que o pai sairá desta?
Inútil pensar nessas coisas,
porém elas se pensam por si, na cabeça impotente. Nisto se abr,
por milagre, um espaço suficiente para manobra, mas em sentido
inverso ao do Galeão. O rapaz, menos por iniciativa própria do
que por imposição dos motoristas que vinham atrás, aciona o
motor, que pega também por milagre. A duras penas, sem
saber como, volta para casa. Madrugada alta quando ele chega,
mulher e filhos na maior aflição.
Meu pai?
Uê, você não trouxe seu
pai? Aqui ele não apareceu.
Nem podia aparecer, claro. O
Galeão fora do mapa. Que fazer? Os telefones, naturalmente,
mudos. O jeito é esperar que a manhã traga serena
tranqüilidade, com esperança de aeroporto e salvamento. Sem
dormir. Quem dorme numa dessas? O rapaz espera os escritórios se
abrirem, na manhã ensopada. Corre ao escritório da companhia de
aviação:
Meu pai, o professor X,
chegou?
Bem, o avião chegou, mas
sobre seu pai não podemos informar.
Como não podem? Então
sabem que o avião chegou e não sabem quem veio nele?
É, não sabemos.
De novo, rumo ao Galeão. O
trânsito ainda está difícil, porém não impossível. Pelo
caminho, trágicos sinais deixados pelo temporal. No Aeroporto, a
pergunta continua sem sorte:
Não sabemos se ele
desembarcou ou não.
E a lista de passageiros?
Não está conosco.
Está com quem, então?
Não sabemos.
Um informante, melhor, um
desinformante faz ironia:
Numa sessão espírita, o
senhor encontra seu pai.
Eu só desejo que um dia o
senhor se veja na minha situação, para ouvir isto de alguém, e
sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer
com o senhor.
Desculpe, eu...
Mas o filho já demandava outro
balcão, fazendo a eterna pergunta, e ninguém sabia dizer-lhe
onde estava, se é que estava em algum lugar, o pai vindo do
Chile. Chile? A palavra soava diferente, como se contivesse não
sei que partícula perigosa. As autoridades sabiam tanto quanto a
empresa, isto é, nada.
Classificado no Jornal do Brasil:
Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. Botar também no rádio.
Meu pai, meu pai. Como pôde sumir assim? Aconselham-me a ir
à Polícia Marítima e Aérea, na Praça Mauá. Mas daqui não
saio sem vasculhar todo o Aeroporto. Ali está uma garota de
chapeuzinho verde...
Felizmente para as histórias
confusas de hoje, existe moça de chapeuzinho verde, fada ou
coisa semelhante, que descobre o perdido e, de bonificação,
ainda sorri para a gente. O rapaz expõe-lhe o problema do pai.
Pela primeira vez alguém ouvia, considerava e buscava resolver o
problema. Ela saiu e voltou, com outro sorriso no rostinho de
relações-públicas.
Seu pai chegou sem novidade.
O nome dele está na relação de passageiros desembarcados.
E para onde o levaram, que
não aparece?
Para lugar nenhum. Deve ter
dormido por aí, até o temporal passar.
Mas não apareceu em casa.
- A essa hora já deve estar lá.
Volte e há de encontrá-lo.
Não é que estava? Calmo, contando
à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto, resignado,
à espera de o toró passar.
Meu pai! Que susto! Que
desinformação! Que alívio! Etc. O rapaz lembrou-se de Londres,
onde perdera duas pastas num táxi, com passaporte e tudo, e na
manhã seguinte a polícia o chamava para receber de volta os
objetos recolhidos por um serviço policial que só não resolve
o caso de quem perdeu a memória. Tivera vontade de telegrafar
para Londres: Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil.
Felizmente, repito, a moça de chapeuzinho verde, sozinha, valia
tanto quanto a Metropolitan Police.