O frívolo cronista
Carlos Drummond de Andrade
Um leitor de Mato Grosso do Norte (sic) escreve deplorando a frivolidade que é marca registrada desta coluna. Hoje não estou para brincadeira, e retruco-lhe nada menos que com a palavra de um sábio antigo, reproduzida por Goethe em Italianische Reisen. Vai o título em alemão, para maior força do enunciado. Os que não sabemos alemão temos o maior respeito por essa língua. A frase é esta, em português trivial: Quem não se sentir com tutano suficiente para o necessário e útil, que se reserve em boa hora para o desnecessário e inútil. É o que faço, respaldado pela sentença de um mestre, endossada por outro.
E vou mais longe. O inútil tem sua forma particular de
utilidade. É a pausa, o descanso, o refrigério, no desmedido
afã de racionalizar todos os atos de nossa vida (e a do
próximo) sob o critério exclusivo de eficiência,
produtividade, rentabilidade e tal e coisa. Tão
compensatória é essa pausa que o inútil acaba por se tornar da
maior utilidade, exagero que não hesito em combater, como nocivo
ao equilíbrio moral. Não devemos cultivar o ócio ou a
frivolidade como valores utilitários de contrapeso, mas pelo
simples e puro deleite de fruí-los também como expressões de
vida.
No caso mínimo da crônica, o auto-reconhecimento da minha
ineficácia social de cronista deixa-me perfeitamente
tranqüilo. O jornal não me chamou para esclarecer
problemas, orientar leitores, advertir governantes, pressionar o
Poder Legislativo, ditar normas aos senhores do mundo. O jornal
sabia-me incompetente para o desempenho destas altas missões.
Contratou-me, e não vejo erro nisto, por minha incompetência e
desembaraço em exercê-la.
De fato, tenho certa prática em frivoleiras matutinas, a serem
consumidas com o primeiro café. Este café costuma ser amargo,
pois sobre ele desabam todas as aflições do mundo, em 54
páginas ou mais. É preciso que no meio dessa catadupa de
desastres venha de roldão alguma coisa insignificante em si, mas
que adquira significado pelo contraste com a monstruosidade dos
desastres. Pode ser um pé de chinelo, uma pétala de flor, duas
conchinhas da praia, o salto de um gafanhoto, uma caricatura, o
rebolado da corista, o assobio do rapaz da lavanderia. Pode ser
um verso, que não seja épico ; uma citação literária, isenta
de pedantismo ou fingindo de pedante, mas brincando com a
erudição; uma receita de doce incomível, em que figurem cantabiles
de Haydn misturados com aletria e orvalho da floresta da Tijuca.
Pode ser tanta coisa ! Sem dosagem certa. Nunca porém em doses
cavalares. Respeitemos e amemos esse nobre animal, evitando o
excesso de graça. Até a frivolidade carece ter medida, linha
sutil que medeia entre o sorriso e o tédio pelo excesso de
tintas ou pela repetição do efeito.
Não pretendo fazer aqui a apologia do cronista, em proveito
próprio. Reivindico apenas o seu direito ao espaço
descompromissado, onde o jogo não visa ao triunfo, à
reputação, à medalha; o jogo esgota-se em si, para recomeçar
no dia seguinte, sem obrigação de seqüência. A informação
apurada, correta, a análise de fenômenos sociais, a avaliação
crítica, tarefas essenciais do jornal digno deste nome, não
invalidam a presença de um canto de página que tem alguma coisa
de ilha visitável, sem acomodações de residência. Como você
tem em sua casa um cômodo ou parte de cômodo, ou simplesmente
gaveta, ou menos ainda, caixa de plástico ou papelão, onde
guarda pequeninas coisas sem utilidade aparente, mas em que os
dedos e os olhos gostam de reparar de vez em quando: os nadas de
uma existência atulhada de objetos imprescindíveis e, ao cabo,
indiferentes, quando não fatigantes.
Meu leitor (ou ex-leitor) mato-grossense-do-norte (sic),
não me queira mal porque não alimento a sua fome de conceitos
graves, eu que me cansei de gravidade, espontânea ou imposta, e
pratico o meu número sem pretensão de contribuir para o
restauro do mundo. O sábio citado por Goethe me justifica,
absolve e até premia. Eu disse no começo que não estou para
brincadeira? Mentira; foi outra frivolidade.
Ciao.
Crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada
no "Jornal do Brasil" e constante do livro "Boca
de Luar", Distribuidora Record de Serviços de
Imprensa, 1984, pág. 199. Colaboração do amigo e
assíduo freqüentador de nosso site J.E.O. Bruno.