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Cupido

De Nana Camargo

A voar pelo ar, a mergulhar nas fofas nuvens, branquinhas, lá estão eles: os anjinhos. Todos com seus rostos rosados e angelicais, tocando harpas, fazendo a paz reinar no céu. Cada um com sua respectiva função, todas de bondade.

Dentre eles, porém, um era especial: o cupido.

Todos já devem ter ouvido falar no cupido, o anjo do amor. Aquele anjinho que atira flechas nos mortais, para que se apaixonem.

O atual cupido era o jovem Angel, um anjo de cabelos loiros, levemente encaracolados e olhos azuis. Azuis como o céu em que vivia. Angel cumpria corretamente seu dever e adorava juntar corações apaixonados. "Meu trabalho é o melhor aqui", costumava dizer, sempre sorrindo.

Quem diria que uma simples mortal mudaria para sempre a vida do anjinho?

-Tenha um bom trabalho, Gabi!

-Você também, Angel.

-Um bom dia a você, Ariel.

-Bom dia Angel!

Eram seis horas da manhã e os anjinhos saíam para trabalhar. Angel, como sempre, estava alegre. Após acertar flechas nos bumbuns de alguns mortais, voou para o colégio.

-Agora vou juntar jovens corações. É o que mais gosto. – disse ele, feliz.

Voou tão rápido, que caiu em uma árvore, ficando enganchado. Suas flechas caíram no chão. Uma delas, ficou enterrada no solo, com a ponta para cima. Quando Angel se soltou da árvore, caiu bem em cima da flecha.

-Ai meu bumbum... – reclamou ele, esfregando a mão na bundinha machucada.

-Ei, se machucou? – disse alguém, que acabara de chegar. Angel percebeu-se vestido com roupas de humanos. Lembrou rapidamente que quando um humano o visse, o veria como um semelhante.

-Não, não me machuquei. – respondeu ele, olhando para a pessoa que perguntara. Foi quando viu quem era. Era uma linda garotinha, de cabelos encaracolados e loiros, e grandes olhos azuis, assim como ele. Nunca sentira coisa parecida, seu coraçãozinho batia forte, e um leve arrepio tomava conta de seu corpo.

-O que faz aqui no colégio? – perguntou a menina.

-Eu...Vim dar uma olhada. Acho lindo ver crianças brincando... – respondeu Angel.

-É novo na cidade? Veio de onde? – perguntou ela.

-De Vênus... – respondeu ele, meio bobo.

-O que?

-Opa, quero dizer, vim do interior... Uma cidade pequena...

-Qual seu nome?

-Angel e o seu?

-Angelina. – respondeu ela, rindo.

-Nossos nomes combinam. – brincou Angel.

-É... – concordou ela, sorrindo.

-Gosta do colégio, Angelina? – perguntou o cupido.

-Adoro. É o lugar que mais gosto. Quando estou aqui é a melhor parte do dia. – disse ela – Quando volto para casa, tenho que agüentar meu padrasto, brigando comigo...

-Ele briga com você? – indignou-se Angel – Que falta de amor...

-É. Minha mãe e meu pai morreram. Moro com esse homem, que era amigo do meu pai. Mas ele é uma má pessoa...

-Angel!!! – gritou alguém. Era uma voz que vinha lá de cima. Angel olhou. Eram dois anjinhos, seus amigos, voando.

Isso mesmo: voando!

De que adiantara estar vestido de humano, se agora Angelina via dois de seus amigos, batendo as asinhas bem em cima deles?

-Angel. Não vai cumprir seu trabalho? – perguntou Gabi, o anjinho amigo de Angel.

-Você...Você é um anjo? – espantou-se Angelina.

-Um Cupido. – respondeu Angel, desanimado.

-Minha nossa! Não sabia que existiam! – dizia ela, espantada.

-E quem você acha que dorme com você quando alguém lhe diz: "Durma com os Anjos"? – perguntou Rafa, o outro anjinho, agora aterrissando no chão, junto com Gabi.

-Ninguém me diz para dormir com os anjos – confessou Angelina – Meu padrasto nem me dá boa noite.

-Tem razão. Faz tempo que não durmo na sua casa... – comentou Gabi.

-Mas...Angel...Você então, é um cupido? – perguntou Angelina, olhando para Angel, triste – Não pode ficar aqui, comigo?

-Angelina...Eu quero ficar aqui com você... – disse Angel.

Em seguida, ouviu uma voz grossa, gritar lá de cima:

-ANJINHOS! VOLTEM JÁ AQUI! O QUE PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?

-Xiiii... É São Pedro.

-O que foi isso? Um trovão? – perguntou Angelina.

-Foi São Pedro, na língua celeste. – falou Rafa – Vocês, humanos, não entendem.

-Temos que ir...Senão estamos fritos... – falou Gabi.

-Fritos e cozidos. – completou Rafa.

Angel queria ficar, mas os amigos o puxaram. Voaram de volta para o céu, deixando uma garota muito triste, lá em baixo.

Lá no Céu, São Pedro estava nervoso:

-É assim que vocês trabalham? Conversando com humanos?

-Mas...São P...

-Nem mais nem menos! Agora teremos que fazer a garota esquecer o que viu. E isso será difícil. Não podemos incomodar o Senhor por motivos bestas... – bufou São Pedro.

-Esquecer? – perguntou Angel – Ela se esquecerá de tudo?

-Isso mesmo. – confirmou o santo. – Rafa, você pode faze-la esquecer? Jogue esse pozinho quando ela estiver dormindo. – disse ele, entregando um pozinho mágico a Rafa.

-Tudo bem.

Rafa desceria, junto com os outros anjos da guarda, para dormir com os humanos. Aproveitaria e daria uma passada na casa de Angelina.

-Rafa! – gritou Angel, quando o anjinho descia – Pode me fazer um favor?

-Até imagino...

-Não jogue esse pozinho nela. Eu...Não quero que ela se esqueça de mim... – pediu Angel.

-Angel, ela é humana.

-Eu tô apaixonado, Rafael. Por favor.

-Eu não sei dizer ‘não’ a você, amigo. – disse Rafa, se desfazendo do pozinho, jogando-o pelo ar – Mas, pense: isso pode não dar certo.

-Obrigado, Rafa! – agradeceu Angel, não prestando atenção nas últimas palavras do amigo. Desceu rápido, para a terra. Angel era um cupido e não costumava descer a terra pela noite, por isso Rafa estranhou:

-Onde será que ele vai?

Angel voava rumo a uma casa. À casa de Angelina, seu novo amor. A janela estava aberta, e ele pôde entrar.

-Angelina... Você está aí? – chamou ele. Foi quando alguém entrou no quarto.

-Angel? É você? Que bom que veio... – era Angelina.

-Eu...Não agüentava mais ficar longe de você... – confessou o cupido.

-Nem eu. – disse ela. E foi só. Os dois se beijaram, após isso. Estavam completamente apaixonados e não queriam se separar. Nunca!

-Eu te amo...

Conversaram a noite toda. Perceberam que tinham muito em comum, apesar de pertencerem à ‘espécies’ diferentes. Gostavam-se muito, e Angelina nem precisou levar a flechada. Afinal, ele era o cupido. Um cupido apaixonado, completamente bobo de amor.

Pela manhã, Angel voltou ao Céu, e com muito sono, foi trabalhar. Estava cansado, e estava errando a mira de suas flechadas. Acabou fazendo um passarinho apaixonar-se por uma minhoca. E, nesse mesmo esquema, trabalhou por uma semana. Ia à casa de Angelina sempre e pela manhã trabalhava cansado. Foi quando São Pedro o chamou:

-Angel...Fiquei sabendo que...

E teve uma longa conversa com Angel. Explicou que ele não podia fazer o que estava fazendo, que tinha que trabalhar e outras coisas...Assim, naquela noite proibiu Angel de sair.

Foi a noite mais triste na vida do cupido. Ele, que costumava ser sempre alegre, agora estava murcho e triste. Não queria falar com ninguém. E assim seguiram-se os outros dias... Angel trazia sempre alegria a todos, mas agora precisava que alguém o animasse. E esse alguém tinha nome: Angelina.

São Pedro e os anjinhos, percebendo a tristeza do cupido, tiveram uma idéia.

-Angel! – chamou Gabi – Que tal...Fazer a Angelina virar um anjo?

-Fala sério?

Angel desceu a terra. Conversou com Angelina. A garota, que morava com o padrasto e não era completamente feliz, topou na hora.

O padrasto de Angelina nem sentiu falta da garota. Estava sempre bêbado e ela desconfiava que ele se esquecia de sua existência. Angelina mudou-se para o Céu. Ela e Angel, agora, trabalhavam como cupido. Juntavam corações e torciam para que todos fossem felizes. Assim como eles estavam sendo agora. Viver no Céu era uma maravilha, tanta paz...Tanto amor...

-Já disse que te amo, Angelina?

-Já, Angel...Mas diz mais uma vez...

-EU TE AMO!

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