ENTREVISTAS EXTRAORDINÁRIAS
Esta mês Milla Maia
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Clark Kent não é um pássaro, não é um avião e muito menos o Super-Homem. Ele seria um desenhista famoso, se não fosse o famoso desenho. Na verdade ele está 54 anos na justiça por causa desse nome.
Nossa entrevistadora do mês é a respeitosa Milla Maia.
Milla: Então Sr. Kent, você é chamado freqüentemente de Super-Homem? Como você se sente?
Clark: É, isso acontece sempre e eu fico puto. Não consigo ficar um dia sem essa comparação. É insuportável.
Desde quando?
Tudo começou em 1937, quando eu era bastante jovem e desenhava quadrinhos para Jerome Siegel e Joe Shuster. Naquela época o quadrinho do Superman, que era "The Strongman" não tinha pegado ainda, porque eles precisavam de um nome para o herói que fixasse na memória dos leitores. Imagina vocês que o herói se chamaria Jerry Mass. Jerry Mass??? Não dava mesmo... Em 38 sugerimos o nome de Superman. Então numa noite fria de verão do ano de 1939, conversávamos nós três e Miguel Fuentes, o faxineiro mexicano, sobre um outro nome para a identidade do Superman. Quando Miguelito falou que gostava do meu nome: Clark Kent.
Então o pessoal gostou do nome?
Todos gostaram do projeto que estava nascendo, exceto eu, claro. Não queria que meu nome ficasse na boca de todo mundo. Mas eles decidiram prosseguir com a idéia.
E como foi a reação em geral dos leitores?
Foi positiva, nem preciso dizer. Mas quando o suceso da revista ganhou proporções Continentais eu não conseguia escapar de comentários. Minha vida se tornou motivo de piada, todo mundo zombava, era um pé no saco... que saco.
Guardo rancor até hoje daquele mexicano desgraçado, queria ver se fosse com ele, se o super-homem se chamasse Miguel Fuentes...
E me conta como foi que você decidiu entrar na Justiça
Foi logo depois que a revista começou a fazer sucesso, eu já tava de saco cheio e resolvi tirar umas férias e ir para o campo. Minha mulher veio me apanhar no escritório para viajarmos e a equipe estava planejando um nome para a paquera do Super-Homem. E, bom, vocês devem imaginar, minha querida e única mulher, que Deus a tenha, chegou e fui apresenta-la para a equipe e disse: "Pessoal essa é minha mulher, Louise Lanes, e nós estamos viajando de férias, até daqui a 15 dias".
Quando voltamos do campo o próximo numero da revista tinha acabado de sair. Era um número fantástico muito bonito e comovente. E tinham finalmente colocado o nome de namorada do Clark, era Lois Lane. Sacanagem, Louise ficou muito alegre e quase me contagiou tamanha a alegria a dela...
É... o... qual foi sua pergunta mesmo?
Você entrou na Justiça?
Ah sim, entrei depois disso tudo foi o fim! Minha vida virou um caos, não conseguia mais comer, dormir, e tive até crise de identidade de achar que eu era mesmo o Super-Homem e podia voar. Me joguei da janela do Hospital, do terceiro andar. Quebrei quatro costelas e a perna. Eu já tinha pedido a demissão quando entrei nessa crise.
E o que aconteceu depois disso?
O médico mandou eu me mudar de vida, procurar outros lugares pra morar. Em 1952, depois de ter entrado na Justiça, e depois de Jerome e Joe terem perdido a maioria dos direitos também, para a empresa Comics Action e depois para a Comic-X, e assim por diante.
Mas então vocês se mudaram?
Fomos para Argentina em 57, e moramos 27 anos lá. Meu filho nasceu lá e coloquei o nome dele de Miguel Fuentes.
Estamos no final da Entrevista, quer deixar alguma mensagem?
Temos muitas coisas para viver e acreditar. Não acredite em histórias de ficção, elas acabam com sua vida. E depois quando colocamos o pé no chão, não tem nenhum herói em lugar nenhum, a não ser na sua cabeça de conto de fadas. Vai comer, tomar banho de rio e andar de bicicleta que é mais saudável.
Um grande abraço Milla.
entrevista: Clark Kent
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