DIA DA CRIANÇA

    Um dos meus exercícios pedagógicos mais prediletos é proporcionar a qualquer criança as atenções que não tive na infância.

    Eu jamais submeteria qualquer criança ao terror que me impuseram durante anos: era obrigado, dos oito aos 13 anos, a atravessar um campo com mata, às cinco da manhã, escuridão total diante dos meus olhos, para ir buscar leite, pão e carne todos os dias, dando início assim com o tributo do meu medo à azáfama familiar.

    Quantos fantasmas, mulas-sem-cabeça, lobisomens me perseguiram por aquele caminho tétrico daquelas madrugadas de menino coberto pelas estrelas e amedrontado pelo coaxar dos sapos, o cricrilar dos grilos e os pios das corujas, que me estremeciam sempre que os ouvia, a cada passo vacilante que dava na trilha da escuridão e da incerteza.

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    Como me faltaram um padrinho e uma madrinha para visitar-me nos fins de semana e trazer-me caramelos. Como me faltou uma bicicleta e uma bola de couro, lembro-me de que num certo período da minha infância o sonho maior que eu acalentava era ter uma patinete.

    Nunca mais eu fui ressarcido da falta da patinete, nem todos os automóveis que já tive me indenizaram daquele vazio brutal na minha infância. Uma patinete na puberdade tem importância maior na vida de uma criatura que um palacete ou um Mercedes-Benz na maturidade.

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    Passa-nos despercebida a fortuna que significa para uma criança e para o seu futuro as pequenas atenções que possamos lhe prestar na inocência.

    Não há trauma mais perpétuo nem sulco mais fundo no espírito de um ser humano que o medo do castigo físico a que se submeta uma criança. E não há força do mundo capaz de arrancar para sempre da alma de uma pessoa a dor e a revolta do espancamento que sofreu quando era criança.

    A criança que padece por maus-tratos sofre tal dano irreparável em seu senso existencial que nunca mais recuperará a razão, virará um trapo humano incapaz de ser feliz, mesmo que tenha tudo para realizar-se quando adulta.

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    São muito frágeis e delicadas essas criaturinhas que estão recém tentando decifrar os mistérios da vida, é imprescindível cercá-las de todo o amor possível, de toda a compreensão, de um carinho extremado. É fundamental que se sintam desejadas, importantes, vitais, que se dêem a elas naquele instante supremo da sua última ingenuidade as melhores boas-vindas ao mundo que elas terão de enfrentar.

    É preciso que a criança se afirme acreditando que a condição humana com que foi aquinhoada é um orgulho e não uma mácula, isto a fará saborear a vida e considerá-la uma recompensa, em vez de rejeitá-la como fato adverso que terá de encarar para sempre como um castigo.

    Bem-aventurados e abençoados todos aqueles adultos que por qualquer forma se aproximem de uma criança e a brindem com um gesto, uma palavra de amor, de carinho e solidariedade.

    E de ajuda. Ninguém mais necessita de ajuda do que uma criança. Toda criança tateia. Por isso toda criança precisa de amparo.

    Jamais vão se despegar da vida de uma criança as hostilidades e o abandono que lhe impuserem.

    Nunca maltrate uma criança, isso lhe servirá como uma sentença de morte em vida jamais comutada.

Paulo Sant'ana

Cronista Gaúcho do Jornal Zero Hora

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